palavras de eugénio de andrade

 

 

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Essa folha

«Essa folha aí. Tão branca que nem a neve é assim fria. Aproximo os dedos numa espécie de carícia, tentando atenuar, diluir tanta hostilidade, mas logo recuam tocados pelo medo. É tão difícil. Porque essa brancura queima, arde silenciosa num fogo que ninguém vê. Durante muito tempo só os olhos a procuram, a contemplam. Imóveis, sem afrouxarem de intensidade. Ouvem-se quase os latidos do pulso. De súbito, os dedos distendem-se, saltam; no seu movimento de falcão já não acariciam, antes rasgam, dilaceram, perseguem a presa numa luta onde não há tréguas, vão deixando na neve sinais da sua presença, ora triunfante ora aflita, por vezes quase morta.»

3.12.85

 

Texto retirado do livro Vertentes do olhar, publicado em Abril de 2016 pela editora Assírio&Alvim

 

 

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