sintra…

 

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Existem lugares que ficam connosco. Para sempre. Mesmo que a sua dinâmica se altere com a passagem do tempo, guardamos a emoção sentida, o que nos deram, o que neles deixamos. No fundo, guardamos a sua energia e, estou certa, também esses lugares guardarão num qualquer recanto, um pouco de nós.

Sintra e a sua área envolvente, é um desses lugares de memórias e de emoções. Aí passei vivências únicas na minha juventude, fiz amigos que se mantêm, namorei, casei, vivi, e os meus filhos passaram parte da sua infância.

A Sintra que tenho na memória, não é seguramente a Sintra de hoje, em que prevalece a vertente turística e com ela uma visão bem mais economicista da região.
Retenho uma Sintra ao natural, espontânea, com portões mas sem barreiras. Recordo a naturalidade e a facilidade com que tantas vezes subíamos ao castelo apenas pelo prazer de ver o pôr-do-sol, ou como os verdes e as neblina tinham um cheiro que nos invadia, que era único e que não se esquece; recordo os atalhos e os caminhos não sinalizados que nos chamavam e que sentiamos envoltos numa certa magia; recordo as pequenas plantas selvagens que colhi num muro e que depois de colocadas em terra, se tornaram nos primeiros vasos de uma paixão que hoje persiste; lembro com emoção e quase com um arrepio, os penedos que eram escalados em aventuras mirabolantes pela energia de uma juventude pouco alimentada pela racionalidade, mas bastante permeável à força que a serra transmitia; e lembro ainda uma serra onde se fazia campismo no meio do nada apenas pelo prazer de estar isolado, entre verdes, silêncio e nevoeiro.

Na minha juventude, Sintra foi um modo de estar, uma filosofia e um forma diferente de pensar a vida. Ela foi ainda o som de uma guitarra e o calor de uma lareira em redor da qual a amizade e as grandes conversas eram acompanhadas por chá quente e torradas, ou pelas castanhas, assadas e saboreadas no momento.

Mas Sintra também era a humidade que se sentia nos lençóis ou o cheiro a mofo que as casas detinham. Sintra era o frio e o desconforto, mas igualmente o aconchego e a energia.

Afastei-me da sua área geográfica há mais de vinte anos. Porém, quase todos os dias e sempre que o ângulo o permite, o meu olhar procura o contorno da serra como se fosse um elemento da família. Gosto de a ver límpida, nítida e cheia de luz, mas também tapada pelo nevoeiro ou com um manto de nuvens descansando nos seus montes, como se um nevão a cobrisse de branco.

Continua bonita, com um perfil único e de matizes que variam todos os dias. Persistem os recantos encantadores e é sempre um lugar a que volto. Mas a envolvência humana e agitada que vive na actualidade dificilmente permite senti-la como nos tempos em que era “a nossa serra”. Agora é preciso procurar muito mais para tentar encontrar a calma e a  magia que emanava noutros tempos.

Sintra e a sua serra evoluíram…e eu envelheci. Porém, os seus lugares e a sua energia estarão sempre no meu caminho. Até ao fim.

 

 A fotografia é da autoria de José Oliveira, com quem partilhei Sintra e a serra durante muitos anos. Hoje, este perfil continua a fazer parte do seu olhar de todos os dias. Obrigada por partilhares comigo este post!

 

 

 

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9 thoughts on “sintra…

  1. Eu é que agradeço a partilha e a recordação de momentos e cumplicidades inesquecíveis. A magia de Sintra ainda lá está quando nos segreda através dos nevoeiros, quando nos inspira nos caminhos do Outono, ou quando nos sossega no repouso das suas folhas… há sempre um “nosso canto” que resiste, que se regenera. Tal como dizia Miguel Torga “Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite”. Ele referia-se a Trás-os-Montes, que é também para mim uma região muito especial, mas Sintra, … a Serra da Lua, é o meu reino maravilhoso.

    Para terminar um documentário, longo mas muito bem feito, sobre a flora e fauna de Sintra.

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    1. Obrigada pelo teu excelente comentário, porque acrescenta o que eu não disse e reforça o que eu disse, sendo certo que as minhas palavras revelam a minha actual vivência de Sintra.
      Neste momento, o teu olhar sobre esse “reino maravilhoso” é muito mais próximo, vivido e intenso que o meu. E Sintra merece esse teu profundo “olhar”!
      Também o video complementa na perfeição este post!
      O meu profundo agradecimento!

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  2. Subscrevo inteiramente o que dizes! Há amores que nunca cessam e esse irá acompanhar(-nos ) sempre, até ao fim!…
    Tenho o privilégio de poder vê-la (quase) todos os dias, em diferentes momentos tantas vezes, e ela apresenta-se sempre diferente! Hoje de manhã, era um recorte muito nítido a destacar-se de um azul brilhante e sem nuvens; à tarde , a partir da Portela de Sintra, parecia que uma tempestade estava prestes a abater-se sobre ela, sob a forma de grossas nuvens muito cinzentas que a percorriam com celeridade! Amanhã, quem sabe? Seja qual for a forma, a magia será sempre igual!…

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    1. Sintra tem esse dom…de se “alojar na alma”!
      E é precisamente essa diversidade de “faces” e de “humores” que tão bem descreves, que lhe dá uma personalidade única e que a torna especial.
      Muito obrigada pela presença e comentário!

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  3. Sei que o meu primeiro passeio ainda no berço foi a Sintra, como não podia ser um sítio especial também para mim?… Sendo vossa filha, há coisas que estão nos genes, e para mim, aquele cheiro, o nevoeiro, as praias….serão sempre imprescindíveis para alimentar os meus sentidos! Obrigada por este post!…. 🙂 e bela fotografia a do pai!

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  4. Sim, o teu primeiro passeio de “lazer” foi a Sintra, com duas ou três semanas de vida. Tal como aconteceu com o teu irmão.
    Sintra foi a vossa segunda “inspiração” nesta vida!!!
    Bj e obrigada pela presença!

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  5. Pingback: Sintra – Luzinha

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