meia noite

 

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Se ignorarmos algumas definições mais prosaicas da palavra tempo, a ele associamos as horas, os relógios e a tranquila rotação daqueles ponteiros que estão na origem de uma boa parte do nosso stress o que, por si só, é uma curiosa contradição…pois fugimos atrás de um tempo que é dado por um mecanismo que nunca tem pressa!

Entre relógios vivemos… e com relógios chegamos ao fim de mais um ano, sendo certo que o tão desejado segundo que faz essa transição pode ser vivenciado de inúmeras formas, das mais tradicionais às mais criativas. Em silêncio e solitariamente, ou no meio da confusão e da multidão, esse instante tudo aceita, privilégio de ser o mais importante e festejado dos 31 milhões e 536 mil segundos que tem um ano comum. Por isso, a maioria gosta de o festejar em pleno e de saber exactamente quando ele acontece, não gostando de desvios à hora TMG e ao famoso relógio/sino Big Ben que a marca.

Quem vive em Lisboa e gosta de iniciar o novo ano no meio de muita gente, tem sempre a hipótese de optar pela Praça do Terreiro do Paço, o “coração” da cidade. Contudo,  enquanto que a maioria das capitais disponibiliza um relógio à medida do acontecimento, ou seja, colocado a boa altura e bem visível por pessoas de todas as estaturas, a edilidade de Lisboa nunca se preocupou com essa questão. Normalmente esses últimos segundos do ano são projectados no écran de um palco montado para o habitual espéctaculo musical, sem qualquer impacto visual e impossibilitando muitos de os verem. Ao menos que esse relógio fosse projectado na parte superior do Arco da Rua Augusta… arco que curiosamente possui um relógio..mas no lado errado e, creio que avariado.

Porém…

…fiquei a saber recentemente que Lisboa possui um relógio que recebe a Hora Legal através de ligação por cabo com o Observatório Astronómico de Lisboa. É o relógio que se encontra desde 1914 na Praça Duque da Terceira, mais conhecida como Cais do Sodré. Esse relógio é o “nosso” Big Ben, só que está ao nível do chão e não dá badaladas.

 

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Seria muito interessante que a Câmara de Lisboa potenciasse este relógio e a sua Hora Legal dando-lhe uma visibilidade diferente. Com as tecnologias actualmente existentes, não seria difícil na noite de Ano Novo fazer a projecção do seu mostrador num écran grande e colocado bem alto… e associar-lhe um sinal sonoro (aos últimos segundos e/ou à meia-noite em ponto), como sucede com o relógio londrino que, tal como este, também não possui ponteiro dos segundos.

E então imagino…

… como seria interessante ver a habitual multidão que invade a linda praça do Terreiro do Paço a olhar para um relógio a sério, bem localizado e verdadeiramente certo com aquele que orienta o nosso tempo e a nossa vida. Porque, se temos que nos reger pelo tempo…então que o Ano Novo chegue bem vísivel e à hora certa!

 

Desejo um excelente 2017 para todos os meus leitores!

 

 

carícia

 

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O desejo de a tocar
e sentir
era imenso,
mas era densa
a barreira
que impedia tal agir.

Sem desistir,
tentou dissuadir
aquele húmido
e disforme cinzento,
que soturno
e enorme,
negava o seu intento.

Mas quem ama nunca desiste!

Então insistiu,
brilhando com tanta energia
e ardor,
que as negras nuvens
não resistindo ao calor,
evaporaram
ou sumiram.

Delirante,
finalmente o sol acariciou a terra,
a sua mais bela amante!

 

(Dulce Delgado, Dezembro 2016)

 

tempo de descansar

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Terminada a azáfama natalícia…apetece parar… e descansar!

Apetece um sofá…

…aquele objecto utilizado por muitos e o recanto preferido de alguns, sendo por isso depositário de muitas e genuínas energias. Passivamente ele recebe o nosso corpo, sendo no seu aconchego que nos aninhamos como se ele possuísse uma vertente humana, ou maternal, sempre pronta a nos receber. Nele assumimos péssimas posturas… é verdade…mas elas sabem tão bem!

Um sofá guarda os nossos pensamentos, os nossos silêncios, risos, alegrias e tristezas. É um lugar de repouso, de inércia e de alguma moleza. Pelo menos para o corpo, porque a mente pode ser alimentada por uma qualquer leitura, pela audição de uma música do nosso agrado, ou ainda pelas incontáveis imagens de uma televisão, aparelho que normalmente se situa na sua proximidade.

Um sofá pode ser palco de mil actividades e de muita criatividade. É igualmente nesse aconchego que saboreamos aquela gulodice a que não resistimos, sendo certo que é nesse lugar que essas “transgressões” sabem melhor. Mas nele também descansamos… dormitamos…ou entramos num maravilhoso e profundo sono sem tempo e sem horas!

Quando, por razões logísticas, somos impedidos por algum tempo de o utilizar, o reencontro é delicioso e muito agradável. Voltamos a “encaixar” no nosso  recanto e naquele lugar em que o corpo nos diz sem palavras: “Agora podes descansar!”

Qual de nós já não sentiu isto?

 

 

percursos natalícios

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Foram muitos os que lhe pegaram, miraram ou leram, mas voltavam sempre a colocá-la no mesmo lugar. Nada de diferente acontecia, pelo que não compreendia a razão de continuar naquele confuso lugar onde ninguém se interessava verdadeiramente por ela.

Inesperadamente tudo mudou. Olharam-na com mais atenção, depositaram-na num carrinho com grades e cheio de compras de todo o tipo, embrulharam-na num papel de muitas cores e, por fim, colocaram-lhe à volta uma fita vermelha com um enorme laço. Estava linda!

Rodeada de outros tão bem vestidos como ela e debaixo de uma árvore replecta de luzes que piscavam, permaneceu alguns dias e noites esperando um acontecimento que desconhecia, mas que devia ser muito importante. Feliz e cheia de esperança, viveu o melhor tempo da sua vida.

Uma noite, no meio de uma enorme confusão alguém lhe pegou.

Primeiro arrancaram-lhe o laço à força e rasgaram o papel que a cobria; depois abriram-na para retirar o seu conteúdo; e por fim, sem qualquer cuidado, atiraram-na para um canto, despida por dentro e por fora, para junto de um amontoado de outras caixas como ela,  de papéis rasgados e de laços feridos. Ninguém mais lhe prestou atenção.

No dia seguinte, deu por si num caixote no meio de muito lixo, sujidade e mau cheiro. Muito triste, pensou no porquê da sua existência e principalmente no seu fim…

….” se ao menos me tivessem levado para a reciclagem!…”

 

Com este conto, desejo-vos um BOM… e ecológico NATAL!

– A Internet disponibiliza diversas informações sobre as atitudes mais ecológicas a ter em conta antes, durante e após esta época festiva. Nesse sentido, vale a pena ler aqui o conteúdo de uma  página elaborada pela associação Quercus.

Eu diria que… se todos colocarmos os resíduos resultantes deste Natal (garrafas, papéis, caixas e embalagens de produtos alimentares) nos respectivos contentores de reciclagem e, se devolvermos à terra o que é da terra, como musgos e outras ramagens utilizadas nesta época…já estamos a dar uma boa prenda de Natal a este belo planeta!

 

 

depois do outono…

 

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Lisboa despede-se do Outono com um tranquilo nascer do dia. E com sol aquecerá a chegada do Inverno, hoje, às 10horas  e 44 minutos.

Somos ínfimas partículas no contexto cósmico. Somos quase nada. Mas a verdade é que temos o privilégio de fazer parte do Universo e destas suas dinâmicas. Eu sinto-me grata por isso!

Um doce inverno para todos!

 

 

presenças

 

O Natal é a época do ano em que a tradição tem mais força. Associada a essa tradição está a memória dos que já partiram…pelos seus hábitos… pelos objectos que nos deixaram e que por vezes são apenas utilizados em épocas mais festivas… pelo legado gastronómico…ou simplesmente pela saudade!

Eu acrescentaria até, que na maioria das mesas da noite ou do dia de Natal, existe uma ou mais “cadeiras invisíveis”, onde se sentam as memórias daqueles que já não podem fisicamente estar ali a partilhar aquele momento.

É sobre essas presenças que fala o escritor Manuel Alegre no poema que passo a transcrever, e cujo título é exactamente Presenças. Porque aprecio a sua obra, tanto em prosa como em poesia, hoje cedo-lhe a palavra.

 

Eles estão por dentro. Nas
palavras
e nos actos.

Nas cadeiras
nas gavetas
nos cabides e nos fatos.

Quando menos se espera
fogem
dos retratos.

Tem cuidado quando te calças
eles podem esconder-se
nos sapatos.

Na sopa e na maçã
quem sabe se
no vinho.

Vê bem por onde vais
eles gostam das curvas
do caminho.

Na cama onde te deitas
nas camisas
e nas meias

no lençol com que te enxugas
no remédio que tomas para
desentupir as veias

no garfo sobre a mesa
nos copos
e nos pratos

eles estão por dentro e estão por fora.
Podes crer que nunca ficam
nos retratos.

 

Extraído do Livro do Português Errante, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2001

 

musgo…

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A natureza é pródiga em ocorrências cheias de beleza, mas quantas vezes invisíveis ao nosso olhar. É por isso que é tão importante estar atento, para explorar e apreciar o que ela nos oferece a todo o momento.

Vem isto a propósito do musgo que utilizei na elaboração do presépio deste ano. Um olhar mais cuidadoso permitiu-me ver estas elegantes, singelas e minúsculas estruturas, que contribuem certamente para a macieza que sentimos ao afagar uma planta desta tipo. Não resisti a tirar-lhe uma fotografia, obtendo este interessante detalhe…assim como não resisti à curiosidade de perceber um pouco melhor a sua elegante anatomia…

…os musgos pertencem ao grupo das briófitas, as primeiras plantas que evoluíram no ambiente terrestre. Não possuem vasos condutores de seiva e a água que necessitam é absorvida do ambiente, passando por osmose de célula em célula. Este lento processo justifica a sua pequena dimensão e a necessidade de um meio húmido para viverem.

No interior das pequenas cápsulas visíveis na imagem estão os minúsculos esporos que, quando maduros, são libertados. Ao caírem numa superfície húmida, desenvolvem-se, dando origem a novas plantas que têm uma componente masculina e outra feminina. Será a união dos seus gâmetas que dará origem a novos filamentos… a novas cápsulas… e a novos esporos. E assim sucessivamente!

Para complementar o que escrevi, deixo-vos um pequeno vídeo que resume muito bem este processo.

 

 

 

lisboa – conhecer e contar a cidade

 

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Quem aprecia a cidade de Lisboa, tem agora disponível a plataforma digital Conhecer e contar a cidade, uma iniciativa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) e que se baseia na partilha dos conhecimentos adquiridos ao longo dos anos por aquele estabelecimento de ensino.

A origem e o objectivo deste projecto resume-se nestas frases que podem ser lidas no site daquela faculdade e que afirmam:  “A produção científica empreendida pelos docentes, investigadores e estudantes sobre a cidade de Lisboa, resultante de trabalhos académicos, cursos e projetos de investigação da FCSH/NOVA, originou um espólio sobre a cidade que não pode nem deve estar confinado à comunidade académica. A transferência de conhecimento é um dos pilares deste projeto. Esse conhecimento reúne contributos sobre património da cidade – material e imaterial – bem como sobre tempos, territórios e relações sociais.”

Para além de muita informação disponível, por temáticas ou de forma interactiva, sugere roteiros e permite o uso de uma aplicação baseada na georeferenciação que nos ajuda a saber locais e informações de interesse perto da nossa localização.

Uma vez que se trata de uma nova forma de conhecer a nossa capital, fica a sugestão.

 

Imagem retirada de  http://maislisboa.fcsh.unl.pt/fcsh-lisboa/

 

tipuana

 

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Lisboa tem imensas tipuanas espalhadas pela cidade.

No Jardim 9 de Abril, localizado na Rua das Janelas Verdes, existe um magnífico exemplar desta espécie oriunda da América do Sul. É uma árvore que vejo diariamente, há muitos anos, assistindo por isso ao desenrolar das estações na sua enorme copa.

Admiro a sua imponência e os seus elegantes ramos, e gosto muito de a ver replecta de flores que, ao caírem, pintam o chão de amarelo e de alegria.

Porém, aprecio ainda mais os seus frutos/sementes que aparecem no Verão e que começam a cair neste final de Outono. Em forma de “pássaro”, estas estruturas aladas descem num rodopio até ao solo, numa viagem muito dinâmica e alucinante. Gosto de as observar nessa aventura… e de imaginar o que sentiriam, se tivessem tal capacidade.

Todos os anos recolho um desses “pássaros” e pouso-o num placard junto da minha secretária, onde já se encontram outras gerações dessas sementes.

São elegantes, engraçados, fazem companhia e, por vezes….. quase que os ouço cantar!

 

tipuana

 

 

 

em início de natal…

 

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Com o retorno do feriado de 8 de Dezembro, o país teve novamente disponibilidade de renovar a tradição e de, neste dia, dar verdadeiramente “início” à época natalícia. Em muitos lares é nesta data que se montam as árvores de Natal e/ou os presépios, duas tradições sem nada em comum, mas que cohabitam em várias regiões do planeta e no seio de algumas religiões… ou até no lar daqueles que não são adeptos de nenhuma!

É neste último caso que me “encaixo”…o que não implica que todos os anos a árvore de Natal e o presépio não sejam “religiosamente” montados. Vejo esse ritual como uma tradição que ficou nos meus “genes da memória”…e que gosto e quero manter, mesmo que o significado seja apenas a sua existência e as recordações que me trazem.!

Em criança…
…todos os anos se repetia o ritual de ir com uns amigos à serra de Monchique, cortar um pinheiro e apanhar musgo. Depois seguia-se a decoração da árvore e, principalmente, a montagem do presépio sempre realizada pela minha mãe, o que acontecia ao fundo de um corredor da casa, sobre uma estrutura de bancos, caixas e papel de jornal, com declives, grutas e um lago. Era lindo o que ela conseguia fazer! Decorava-o com figuras de barro, as mesmas que fizeram as delícias de um remoto natal dos meus 3 ou 4 anos…quando acreditava que era o Menino Jesus que trazia as prendas. Essas peças, ainda em bom estado, continuam a estar presentes no meu presépio, quase seis décadas depois. Têm uma carga emocional muito forte e que não esqueço.

Por outro lado, elas ainda são da época em que cada elemento da família colocava um sapato junto à chaminé depois da ceia de Natal… em que as prendas eram abertas apenas de manhã… e igualmente do tempo em que o Menino Jesus, por chegar cheio de fome, deixava sempre sobre a mesa várias nozes abertas pela ranhura, perfeitissimas…maravilha que apenas ele conseguia fazer!!! Adoro estas recordações!

Creio que a imagem dos presépios que a minha mãe construía foi integrada de tal forma, que todos os anos tento humildemente reproduzir, em pequena escala, o que recordo e adorava. Continuo a utilizar musgo… e tem sempre uma cabana tipo gruta…um caminho… um monte…
Em criança, os meus filhos adoravam a montagem do presépio…e de nele colocarem bonecos “Pin y Pons” e da “Playmobil”. Cresceram, sairam de casa e apenas pontualmente participam nesse ritual, que partilho agora com o meu companheiro.

Quanto ao pinheiro, há muitos anos que é artificial. Não tem aquele cheiro único que recordo…mas a Natureza é um bem mais precioso. Em tempos, ofereceram-me um spray com cheiro de pinheiro….acho a ideia “curiosa”…mas era tão falso!!!

No passado dia 8 de Dezembro, segui a tradição, montando o presépio e a árvore de Natal. Que o possa fazer e partilhar, com alegria e prazer, ainda por muitos anos!