o ex-presidente

 

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A simples possibilidade de possuir este blog, em que tenho a liberdade de utilizar as palavras que quero ou de abordar qualquer temática à escolha, apenas se tornou possível neste país porque houve muitas pessoas que lutaram, sofreram, resistiram e até morreram para que a liberdade, nomeadamente a de expressão, fosse alcançada.

Um desses lutadores foi, sem qualquer dúvida, o Dr. Mário Soares, cuja vida e opções tiveram sempre como principal objectivo o uso da liberdade e a vivência da democracia. Por isso, sinto que lhe devo dedicar algumas linhas neste blog. Obviamente que não vou falar do seu percurso político, porque isso deve ser feito por especialistas. Eu prefiro uma aproximação mais humana, baseada no que observei e na minha vivência, mas que me deu a oportunidade de perceber algumas características da sua personalidade.

Gostava de começar pela sua atitude em tempo de férias algarvias e durante os habituais passeios à beira-mar que realizava na zona das praias do Alvor e do Vau. Eram normalmente percorridos a bom ritmo e em amena conversa com os companheiros de trajecto, mas igualmente pelos guarda-costas que sempre o seguiam. Simpático e com a sua habitual bonomia, cumprimentava os veraneantes, especialmente os que nele reparavam ou que se lhe dirigiam. Diria que a sua presença, tal como a da sua esposa, mas esta de uma forma mais recatada, faziam parte da dinâmica dos verões daquela zona do Algarve.

Com características bem diferentes, vivenciei há muitos anos um momento que demonstrou bem o seu espírito curioso e em que nada nem ninguém o impedia de chegar onde queria. Nos idos anos noventa do século passado, mais precisamente em 1992, integrei a equipa de técnicos de conservação e restauro do então denominado Instituto José de Figueiredo, que intervencionou o tecto pintado da Sala das Bicas, espaço localizado na Presidência da Républica e onde normalmente decorrem as conferências de imprensa e os encontros com os jornalistas. Era, nessa época, o Dr. Mário Soares o nosso Presidente da República.
O tecto onde decorriam os trabalhos era bastante alto, pelo que foi necessário a montagem de um andaime com plataforma, para a qual se subia totalmente na vertical, o que exigia bastante cuidado. Hoje, felizmente, e por imposição de regras da CEE, aquele tipo de andaime já não é permitido, sendo obrigatório incorporar-lhe vários lances de escadas.

Um dia, o Dr. Mário Soares foi visitar-nos. Vendo que estávamos a trabalhar lá em cima e a agilidade com que uma nossa colega subia aquela estrutura, decidiu também o fazer, apesar do evidente nervosismo e preocupação de quem o acompanhava. Na verdade, aquela não era uma subida adequada aos 67 ou 68 anos que possuiria na altura, mas não desistiu. Apesar de bastante fatigado, chegou lá acima. Não subiu totalmente para a plataforma, mas penetrou o suficiente na abertura de acesso para, bem agarrado ao andaime, conseguir ver o trabalho em curso, fazer algumas perguntas e interagir connosco com simpatia. Foi seguido nessa ascensão por um acompanhante que, por obrigação, solidariedade ou com a intenção de o agarrar caso surgisse algum desiquilíbrio, deu para perceber pela sua expressão que não apreciou minimamente a aventura.

No final, o Dr. Mário Soares agradeceu o nosso trabalho e desceu o andaime, com todo o cuidado, porque a situação assim o exigia. Estou certa que aquela terá sido a última vez em que aqueles dois seres humanos subiram um andaime totalmente na vertical!

Este episódio faz parte das memórias do nosso instituto e obviamente da memória dos técnicos que estavam presentes. E ele mostra bem o espírito curioso, decidido e aventureiro que caracterizava o nosso ex-presidente Dr. Mário Soares. Contra tudo e contra todos, ele fazia o que queria. Ponto final.

Talvez por isso ele deixou tanto entre nós…e muito terá levado consigo da sua passagem por esta vida!

 

 

(Imagem retirada da página http://arepublicano.blogspot.pt/2017/01/soares-65-o-anuncio-do-lider_8.html)

 

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4 thoughts on “o ex-presidente

  1. Mais uma história divertida de Mário Soares e desconhecida…obrigada pela partilha. Conheci há uns anos Maria Barroso, em actividades ligadas ao voluntariado, e era uma senhora já idosa mas muito comunicativa e excelente contadora de histórias/experiências do dia a dia e com opiniões bem divergentes do marido e assumidas por ela(não é que este facto devesse ser estranho mas, no tempo do políticamente correcto…).

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    1. Sim, estou certa que nenhum deles era adepto do politicamente correcto. A frontalidade acima de tudo e, talvez por isso, foram ambos tão unidos e uns resistentes.
      Muito obrigada, Augusta, por também partilhares aqui a tua experiência. Aprecio muito esse espírito, acredita! Bj

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  2. Bem me lembro dele a passear pelo Alvor….e sempre que passo ao lado da casa dele na Praia do Alemão é obrigatório olhar para aquela vivenda escondida! 🙂

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