zeus

 

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O apelo à liberdade e ao despojamento já foi certamente sentido por muitos de nós. Mas não o seguimos, prevalecendo o medo do desconhecido, a insegurança da situação, a família e, principalmente, o facto desse apelo não ter sido suficientemente forte para nos fazer mudar. E ficamos, adaptamo-nos, esquecemos e, apesar de tudo, conseguimos ser felizes assim.

Outros porém seguem-no e ele transforma-se em escolha. Deixam tudo para trás, até a família, e seguem o seu caminho, tendo como único objectivo o respirar a liberdade, fazer o que lhes apetece, dar asas aos desejos e à sua criatividade, aproveitando cada momento e bebendo a vida em toda a sua grandeza.

Foi isso que fez o sétimo presidente da República Portuguesa, Manuel Teixeira Gomes, um homem culto e de grande personalidade. Vivia-se em Portugal uma época de grande perturbação política, em que os jogos e interesses minavam a sociedade portuguesa e os ideais de direita iam criando fortes raízes. Em simultâneo, a moral tinham muita força numa sociedade preconceituosa e sustentada por valores católicos nem sempre bem aplicados. Crítico de todos esses valores, decidiu que não queria compactuar com eles nem com a mesquinhez vigente. Apesar de republicano convicto, deixou para trás a posição social, o estatuto, a família e duas filhas, os bens materiais que juntara como coleccionador de arte e seguiu esse apelo, tendo como principal objectivo ser livre, escrever e gozar os prazeres da vida. A sensualidade tinha muita força na sua natureza, o que o levou a escrever livros com uma componente erótica marcada, completamente vanguardistas para a época e que chegaram a ser utilizados contra si durante a sua presidência.

Assim, foi neste contexto que no final de 1925 decidiu pedir a demissão do cargo de presidente, optando pelo auto-exílio. Apanhou o primeiro cargueiro que passou no porto de Lisboa, o “Zeus”, e nele seguiu para a Argélia fixando-se em Bougie, país onde permaneceu até falecer em 1941, mantendo durante muito tempo o anonimato. Eram as cartas que o ligavam ao mundo, à família, aos amigos, sendo igualmente a forma que utilizou para gerir os bens que deixou em Portugal. Foi ajudado e servido durante muitos anos por um argelino, a sua grande companhia, que tratou quase como um filho e que foi um fiel amigo até ao último momento.

É baseado nesta biografia que o realizador Paulo Filipe Monteiro construiu o filme “Zeus”, muito bem interpretado pelo actor Sinde Filipe. Complementa-o uma bonita banda sonora que acompanha eficazmente as suas dinâmicas, os silêncios e as paisagens que integra. O filme possui algumas sequências menos conseguidas, mas tal não lhe tira o interesse.

Porém, mais do que o filme em si, o que me fascinou e me levou a escrever este post, é a personalidade de Manuel Teixeira Gomes e tudo o que ela representa. Assumindo a minha ignorância em História e Humanidades, resta-me dizer que conhecê-lo foi uma bela surpresa porque apreciei imenso….

…a sua energia, a profunda alegria de viver e como saboreava e respirava os seus dias
…o prazer com que apreciava as suas rotinas
…o olhar atento para os que o rodeavam
…a sua impulsiva necessidade de escrever
e a forma genuína de saudar a vida através de inspirações conscientes e a que associava movimentos com os braços, num ritual muito próprio e tão natural para ele como estranho para os outros.

Mas, o que mais apreciei, foi ele ser capaz de aos 65 anos e no contexto da época em que vivia, olhar para dentro de si e aceitar a sua natureza. E segui-la, simplesmente porque percebeu que isso era mais importante que tudo o que já tinha conseguido e construído na vida, inclusivamente os laços afectivos.

Difícil de entender….mas uma visão fascinante!

 

 

– Nesta data,o filme “Zeus” apenas está em exibição numa sala de Lisboa. Agradeço a quem me alertou para a sua existência!

 

(Imagem inicial retirada de http://cinecartaz.publico.pt/Filme/367073_zeus)

 

 

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