los carpinteros

 

A criatividade de Los Carpinteros explodiu literalmente nas Carpintarias de São Lázaro.

Los Carpinteros são uma dupla de artistas cubanos – Marco António Castillo Valdés (1971) e Dagoberto Rodriguez Sánchez (1969) – que trabalham há alguns anos em conjunto e que foram recentemente convidados a expor uma das suas obras no interior de um edifício localizado perto da Praça do Martim Moniz, no centro de Lisboa, denominado Carpintarias de São Lázaro.

Como o nome indica, este espaço já esteve associado à indústria da madeira. Está inserido num edifício que ostenta uma fachada Arte Déco e as carpintarias encerraram nos anos noventa após um incêndio. Recentemente, por concurso público, foram cedidas à Associação Cultural Carpintarias de São Lázaro, a fim de lhes dar novo uso, uma nova vida, e aí desenvolver um centro artístico multifacetado e abrangente.

Show room foi a instalação escolhida para a inauguração e ocupa apenas uma parte desse enorme espaço ainda em bruto. Simula uma paragem no tempo durante uma explosão e os seus efeitos no interior de uma casa. A visão que nos proporciona, vale pelo impacto, pela surpresa e pelos pormenores que não foram descurados. Ali, não estão em causa aspectos estéticos ou a busca de beleza, mas sim uma exploração dos limites da criatividade e da imaginação.

O seu dinamismo está na ausência de movimento. Tudo se move sem nada mexer. Transmite-nos ainda a ideia de destruição, mas é do caos que pode sair algo de novo. Por isso, sugere a entrada de algo, quiçá de novas ideias ou energias, mas igualmente a abertura e a descoberta de novos caminhos, certamente todos aqueles que as renovadas Carpintarias de São Lázaro pretendem trilhar no âmbito da criação artística. E depois partilhá-los com a cidade, aumentando o seu crescente dinamismo e oferta cultural.

Esta primeira exposição estará patente até ao próximo dia 31 de Abril.

 

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entre pais… e filhos

 

Somos filhos
somos pais,
pais dos filhos sempre seremos
estranho é,
sermos pais dos nossos pais!

Avança o tempo
rápido e indiferente…
…pelos filhos,
que seguem a sua vida
mas ficam no pensamento;
…por nós,
nesta bela, doce, mas difícil corrida;
…e pelos nossos pais,
que os anos simplesmente
fazem voltar para trás!

Num ápice,
somos pais
de duas gerações,
uma cheia de idade
e vinda do passado,
outra olhando um futuro
inseguro,
mas replecto de intenções
e de algumas ilusões.

Como filhos,
é tempo de cuidar dos pais,
entrando num novo filme
em plena meia-idade,
um tempo deveras diferente
no corpo,
na energia
e na paciência,
que arduamente
luta pela sobrevivência.

Eu sei que à minha frente,
tenho apenas meio-tempo
porque o tempo ficou para trás.

Por isso…
…preciso tanto de acreditar
que o cansaço deste poema
ocupa um pequeno espaço,
apenas
um ínfimo espaço,
que os dias do meu meio-tempo
ajudarão a superar!

 

 

(Dulce Delgado, Março 2017)

 

renovação

 

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A Primavera acordou instável. Talvez por ter chegado a uma segunda-feira, o dia mais difícil da semana… veio com um certo mau humor, fresca, enevoada e até chuvosa.

As perspectivas meteorológicas dizem que esta instabilidade se irá manter por mais algum tempo. Seja qual for a sua duração não vamos dar-lhe importância, porque a energia que a nova estação tem em latência é real e já bem visível.

Essa vida está em todo o lado. Encontra-mo-la nos novos rebentos que brotam em cada árvore, nas plantas que temos em nossa casa, nas flores e na vegetação espontânea que cresce em qualquer pedaço de terra, nas ervas que decoram as fendas dos muros que ladeiam as estradas ou que naturalmente nasce nos interstícios da calçada de pedra que pisamos todos os dias.

Também para a maioria das espécies animais, o apelo da Primavera já é uma realidade. Chegaram as andorinhas para mais uma estadia e, na generalidade das aves, os rituais de acasalamento começam a surgir com os voos e cantos de chamamento. Aliás, bem no centro das nossas cidades, basta ver os movimentos de sedução dos muitos pombos que as habitam. Os instintos de procriação vão atingir o seu auge e a descendência aparecerá nos próximos meses.

O objectivo único de todo este processo será a renovação de gerações. Na espécie humana, a inteligência e a consciência puseram um controle a esses instintos de procriação. Felizmente, acrescente-se. Resta-nos o prazer, e a possibilidade de não nascerem filhos todos os anos, mas apenas quando o desejamos.

Cingindo-me aos aspectos mais físicos que nos suportam, essa necessidade de exteriorização, de movimento, de respirar profundamente, de expor e partilhar a pele seja com o outro, com o o ar ou com o sol, é real e sentida por todos nós.

Essa é a nossa Primavera! Por isso aprecie-mo-la com ternura e alegria à medida que ela se for manifestando com mais intensidade. Afinal, é a Vida em estado puro. Tudo o resto que nos possa incomodar será certamente importante mas, de certa forma, são derivações do facto de estarmos vivos. E isso, é o mais relevante!

 

 

ontem e hoje

 

crianças

 

Em criança, a brincadeira em liberdade fazia parte do meu dia-a-dia. Havia espaço, uma certa autonomia e muita actividade. Depois da escola, a tarde era passada a brincar com amigos, especialmente na rua, onde as corridas e o movimento eram uma constante e as energias saudavelmente gastas a jogar ao manecas, às escondidas, ao badminton, ao jogo do mata ou a saltar à corda. O nosso mundo era restrito… mas era tão salutar!

Duas gerações depois, as diferenças são enormes. O controle pelos pais passou a ser proporcional ao perigo que estes sentem como latente (rapto, abuso, etc.), porque a sociedade ficou “doente” e a liberdade das crianças doente ficou. Porém, mais grave do que isso, é a falta de movimento/actividade que implicou para as crianças o rápido aparecimento de tantos meios tecnológicos e de comunicação, que ocupam desde cedo demasiado espaço nas suas vidas.

As energias são essencialmente gastas com o olhar, com os dedos, com a cabeça, mas não com o corpo. Sentados na sala de aula, o computador está presente; a um canto do recreio está o ecran do telemóvel, do smartphone ou do tablet; e em casa, no sofá, têm isso tudo e ainda a televisão e os jogos de vídeo. E porque os hábitos se enraízam sem darmos por isso, facilmente se acomodam a tal inércia, surgindo desajustes e desequilíbrios, quer a nível do corpo e da mente, quer do comportamento. Então a sociedade “adoptou” a natação e outras actividades extra-curriculares, para tentar colmatar a inactividade em que as crianças vivem. Obviamente que ajuda, mas não é o mesmo.

A culpa não será apenas dos pais nem da escola, porque estou certa que a maioria fará o melhor que pode dadas as suas condicionantes. Mas, a sociedade que somos e que construímos tendo por base a liberdade e a modernização tem muita culpa, pois conseguiu em pouco tempo trocar determinados valores que a orientavam por outros bem menos saudáveis: trocou a liberdade da minha infância pelo controle e pelo medo; trocou o movimento e a actividade pelo sedentarismo; trocou a imaginação e a criatividade pela dependência tecnológica; trocou a valorização das coisas simples, pelo valor da marca e pelo poder do marketing; trocou o respeito, por uma irreverência que por vezes roça a má criação; e trocou principalmente uma série de princípios de igualdade e de partilha que as crianças tinham por um espírito competitivo, de posse e de querer mais.

Obviamente que não quero generalizar, que isso fique bem claro, mas sinto que é o que se passa numa grande parte da nossa sociedade.

O mais curioso é o facto de, em Portugal, estas transformações decorrerem nas últimas décadas tendo por base a liberdade conquistada com o 25 de Abril de 1974, um marco indiscutível e importantíssimo na história do nosso país e do nosso povo. A liberdade adquirida permitiu a escolha, permitiu abrirmo-nos para o mundo, acompanhar o boom tecnológico e todas as mudanças que nele foram sucedendo, as boas e as más. Porém, muitas das escolhas do mundo e da sociedade não foram as melhores nem as mais saudáveis. Para perceber isso, basta estar atento às crianças de hoje, que vivem rodeadas de paredes, reais e virtuais, em vez de céu e de ar livre.

 

 

 

Imagens retiradas de
 https://es.123rf.com/photo_29757149_ninos-y-ninas-jugando-a-las-escondidas-en-el-parque-con-el-cabrito-que-el-conteo-se-inclina-en-arbol.html
http://www.presenteparacrianca.com.br/crianca-conectada/

 

 

 

 

poesia…

 

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Encontro-a no céu
e na leveza do ar,
na terra
ou no azul do mar,
nos gestos reais ou nos ideais,
no sonho,
e sempre no olhar
que a vida
teimou em me dar.

Pode ser filha da luz,
ou sombra
simplesmente.
Querer gente
solidão
evento ou confusão,
ser data
instante
semente
ou pura e fria desilusão.

Serena
ou intranquila,
ela agarra os momentos
vividos no coração
e brinca
ao jogo da ilusão,
fazendo nascer
uma construção
de palavras, rimas e sílabas,
solidárias ou solitárias,
que se apoiam
e abraçam
numa doce e terna
união!

 

(Dulce Delgado, Março 2017)

 

 

moonlight

 

moonlight

 

Perante os nosso olhar passam imagens que revelam…

…actos de bullying
…medo
…abuso de poder
…revolta e sobrevivência
…carência afectiva extrema
…amor e dádiva incondicional
…saudade, do que foi bom e cedo desapareceu
…ausência, dos que deviam estar mais presentes
…solidão sentida, vivida e combatida com mais solidão
…rudeza, que esconde fragilidades
…ostentação material, como forma de ser respeitado
…controle dos outros para sobreviver
…fragilidade camuflada pelo poder
…desejo de atenção, calor humano, amizade
…desejo de intimidade, de pele contra pele

…e, uma profunda necessidade de ternura e de um abraço!

 

Moonlight, o filme, é tudo isto. É uma luz triste e fria, como a luz da lua pode ser.

 

 

imagem retirada de
https://www.google.pt/search?q=moonlight&rlz=1C1AWFC_enPT732PT732&espv=2&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjO3OG5-tHSAhUBlBQKHWxYBRwQ_AUIBigB&biw=1280&bih=591#imgrc=TmjzhZXyMPQZ6M:

 

 

uma família de artistas

 

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Imaginem uma família de artistas em que o pai, as três filhas e os dois filhos têm como como foco principal a aguarela, uma difícil técnica que todos exploraram de diferentes formas e estilos.

O pai, Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), foi um dos mais importantes aguarelistas portugueses, integrando e ensinando desde cedo esta técnica a seus filhos, Raquel, Manuel, Helena, Maria Emília (Mámia) e Ruy.

Segundo ele, a aguarela deveria ser elaborada in loco perante o modelo/paisagem, princípio que ensinou aos filhos e sempre vigorou na família. Seguindo essa linha de pensamento, retratavam-se entre si nas mais diversas situações, mas também no meio da natureza que muito apreciavam. Os passeios e os convívios eram sempre um bom momento para partilharem o gosto pela pintura.

Ministraram cursos de aguarela que eram muito frequentados. Com o tempo, outras áreas artísticas foram exploradas por alguns dos filhos. Foi o caso de Ruy, que veio a dar preferência à escultura, carreira que foi reconhecida na época apesar do seu falecimento precoce. Já a filha Mámia explorou o guache e o óleo. Também os genros que se juntaram à família, se dedicaram inicialmente à pintura com aguarela. É o caso do marido de Helena, o multifacetado Leitão de Barros, que começou pela pintura mas ficou mais conhecido como realizador de cinema; e o marido de Mámia, o artista plástico Jaime Martins Barata, cujo caminho se centrou especialmente no desenho de selos, moedas, ilustrações e pinturas de grande dimensão.

Na passagem do séc. XIX para o séc. XX, a família, que até aí vivia em Lisboa, mudou-se para a zona da Amadora, porque naquela área o horizonte estava longe e permitia ver amplas paisagens, algo que hoje é inconcebível quando pensamos nessa cidade. Foram para um edifício projectado de raiz pelo próprio artista e mais tarde complementado por Raul Lino. Actualmente, a Casa Roque Gameiro está classificada como Monumento de Interesse Público e é um centro de exposições e eventos culturais.

A vida desta família assim como as suas tendências artísticas estão muito bem apresentadas numa exposição que pode ser vista no Centro Cultural de Cascais até ao próximo dia 22 de Março. Vale a pena apreciar a qualidade das obras expostas, especialmente das aguarelas realizadas por Alfredo Roque Gameiro.

Surgindo a oportunidade de aliar esta exposição com um passeio pela vila de Cascais, torna o objectivo ainda mais agradável!

 

 

Imagem retirada de http://www.cm-cascais.pt/evento/exposicao-roque-gameiro-uma-familia-de-artistas

 

 

nuvens brancas

 

Os sons do compositor e pianista italiano Ludovico Einaudi proporcionam sempre um agradável e tranquilo momento.

Porque estamos a meio da semana, uns minutos de paragem são salutares. Sugiro a audição do tema Nuvole Bianche (Nuvens Brancas), que integra o álbum Una mattina, datado de 2004.

E porque os olhos também ouvem, acompanhem o som com as excelentes imagens deste vídeo, onde as nuvens e as neblinas que envolvem e acariciam este nosso planeta mostram todo o seu dinamismo e beleza.

Nestes seis minutos, o tempo acontece, simplesmente.  Um tempo que é do universo, do planeta, da natureza e de cada um de nós.

 

 

cinema atlântida-cine

 

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Entrar no cinema Atlântida-Cine em Carcavelos, é realizar uma viagem no tempo e recuar algumas dezenas de anos. Sugiro uma incursão na Sala 1, a de maior dimensão e personalidade.

Ultrapassada a entrada, o nosso olhar é imediatamente levado para um enorme cortinado claro, transparente e iluminado por luzes difusas e coloridas, que cobre literalmente toda a parede do écran, revelando uma imagem que associamos ao teatro e que há muito se afastou das salas de cinema.

Um olhar mais detalhado por este espaço um tanto austero mas cuidado, leva-nos forçosamente a um piano colocado à esquerda do palco, um objecto invulgar num cinema do séc. XXI. Ele ficou parado no tempo e certamente no lugar, mas não é difícil imaginar o seu som a pairar na sala.

Sentamo-nos.

Aproximando-se a hora do início da sessão, começa o verdadeiro espectáculo. Somos alertados para esse momento através das badaladas que ressoam na sala. Num ápice, voltamos à nossa infância e ao tempo em que os cinemas tinham aquela sonoridade tão característica, formada por quatro tons em crescendo seguidos por outros tantos em decrescendo. Segue-se o lento movimento do cortinado de palco a abrir, como se uns actores se retirassem para dar lugar a outros. Persiste em nós o tal som, porque a viagem ao passado foi longínqua e precisamos de tempo para regressar…

Entretanto começam as primeiras imagens…alguns trailers dos filmes em cartaz ou a estrear brevemente… e finalmente o filme que nos levou ali. Tudo isto sem publicidade!
No intervalo, volta ao palco o cortinado-actor …que sairá novamente ao som de mais badaladas antes do início da segunda parte. Terminado o filme e o genérico, abrem-se as luzes e tudo regressa ao ponto inicial…até à próxima sessão.

Gosto de ir a este cinema. Não apenas porque oferece uma programação cuidada e centrada no cinema independente, mas especialmente porque cheira a cinema… e não cheira a pipocas! Esta “solidão” e este não alinhamento com o mercado só sobrevive com bilhetes ligeiramente mais caros que a média. Mas sendo uma experiência única, vale a pena visitá-lo com carinho e contribuir para este projecto. Dadas as suas características, é óbvio que é maioritariamente frequentado por espectadores acima dos cinquenta anos, os que melhor apreciam a tranquilidade que ele proporciona.

O Alântida-Cine possui duas salas e está localizado na cave de um centro comercial que tem actualmente muitas lojas vazias. Ele é a pérola daquele espaço. E se resistiu até aqui, gosto de acreditar que tem futuro, porque o proprietário merece-o, pelo facto de ser um resistente e um verdadeiro amante de cinema.

Este post, é o meu pequeno contributo para um projecto que admiro.

 

 

antes da primavera

 

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Quatro meses separam estas duas fotos do Jardim 9 de Abril em Lisboa.

A primeira foi tirada no início de Novembro de 2016, num lindo dia de sol outonal; e a segunda no dia 1 de Março de 2017, num desagradável e cinzento dia de Inverno.

A vinha-virgem americana que cobre a estrutura circular perdeu todas as folhas, sendo agora um emaranhado de troncos aparentemente sem vida;  por sua vez, as flores outonais da árvore central, a paineira-rosa, transformaram-se em frutos/semente ovalares e com alguma dimensão, que pendem agora dos ramos despidos.

Este jardim perdeu a cor, aparentemente a alegria…mas na natureza que o habita está em latência a força da Primavera que começará em breve e que já é visível em alguns recantos.

Numa perspectiva algo feminina, gosto de pensar que nesta fase a natureza está “grávida” e aguarda tranquilamente o momento de eclodir e de mostrar o seu potencial, seja nos pequenos rebentos, caules e folhas que irão primeiro nascer, seja nas flores que mais tarde aparecerão.

Os dias, agora muito maiores, mostram igualmente esse crescendo de energia e de exteriorização.  Até as aves que habitam os nossos jardins, já revelam um maior dinamismo na sua forma de estar e comunicar.

É importante estarmos atentos a estas mudanças, na medida em que permitem um olhar diferente e revelador sobre a vida que nos envolve….inclusivamente quando a meteorologia não ajuda e os dias estão frios, chuvosos, cinzentos e aparentemente inertes nesta pré-Primavera!