outono aqui…primavera além…

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Entre nós e a natureza existem paralelismos, mas igualmente formas muito diferenciadas de adaptação. Diria que a energia-vida que nos alimenta é a mesma, mas a sua elasticidade permite manifestações por vezes opostas. Isto vem a propósito do equinócio de hoje no calendário astronómico e das alterações que entretanto ocorrem.

No hemisfério norte, onde resido, inicia-se o Outono. Os dias mais frescos começam a tocar a nossa pele e a provocar aquele primeiro arrepio que sempre nos surpreende. Os seguintes levam-nos a ir buscar um agasalho e, com o avançar dos dias, progressivamente a roupa mais quente irá proteger-nos e substituir o calor do sol. Isto significa que, para retermos e pouparmos energia, tapamos o nosso corpo, sendo com mais ou menos camadas de roupa que enfrentaremos o frio que o Outono e o Inverno nos irão oferecer.

Mas na natureza o processo pode ser oposto, como se constata em muitas espécies do reino vegetal. Vejamos as árvores, nomeadamente as de folha caduca, que enfrentam o frio e os rigores do Inverno perdendo as suas folhas, ou seja despindo-se, num processo assaz interessante e bem diferente do nosso.

Nesse grupo de árvores, à medida que os dias começam a ficar mais curtos e com menos horas de sol, reduz-se a produção de clorofila, o pigmento verde existente nas folhas e responsável pela captação da luz e produção da energia que a planta necessita. Com menos energia, as folhas começam a ficar amarelas e a adquirir aqueles tons outonais que alimentam e deliciam o nosso olhar. Entretanto, a própria planta produz uma substância que se vai acumular na base das hastes de cada folha, que tem como função destruir as células dessa zona e assim impedir a passagem da água. Sem ela, a folha seca, cai, o que acontece progressivamente com toda a folhagem.

Despida e sem folhas, o objectivo de “poupar” está cumprido, porque a área que permitiria perder os elementos vitais foi drasticamente reduzida. Ficam os troncos, bem mais resistentes ao frio e ao gelo, e capazes de guardar o potencial energético da árvore até à próxima Primavera.

Em suma, a natureza despe-se…e nós adicionamos roupa…duas estratégias de sobrevivência opostas e algo incongruentes, se considerarmos que o mecanismo adoptado pela natureza parece muito mais inteligente e genuíno do que o nosso.

Tendo em conta o descrito, perante o colorido que o Outono irá espalhar na paisagem e oferecer ao nosso olhar, pensemos um pouco na importância e na beleza do processo escondido que está a acontecer em cada árvore e em cada folha. Simultâneamente, porque não sentir alguma gratidão no gesto banal de ir buscar um agasalho mais quente e confortável, uma vez que isso significa que, também nós, estamos a iniciar um novo Outono nas nossas vidas?

Entretanto…na metade sul do planeta, o equinócio dará lugar à Primavera e os agasalhos voltarão progressivamente ao roupeiro. Na natureza reaparecerão as folhas nos troncos das árvores… folhas que irão captar a luz e produzir a energia necessária ao ciclo de reprodução que se aproxima e que naturalmente será cumprido.

Aqui…ou além… é constante e activa a adaptação da natureza a este planeta que vagueia pelo universo e onde nós somos apenas convidados. Recordando isso…desejo a todos uma vivência consciente e tranquila do Outono…ou da Primavera!

 

 

 

7 thoughts on “outono aqui…primavera além…

  1. sem ousar sequer pensar em alterar uma única vírgula em teu brilhante texto, escrevo apenas sobre o sul do Brasil, onde vivo, e que me faz sentir imensa saudade do inverno, da primavera, do outono e menos do verão. aqui, as estações se misturaram, há dias em as quatro nos visitam ao longo das 24 horas de um dia, e confesso, não sei mais para onde vamos – sei, na verdade se, mas prefiro acreditar que vamos mudar esse destino. muito obrigado por esse texto maravilhoso. meu abraço.

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    1. Sim, não podemos deixar de acreditar sempre que algo pode mudar e que, com as nossas pequenas acções podemos contribuir para isso. Mas percebo bem o que quer dizer, porque essa instabilidade é geral e também no meu país ela é bem sentida.
      Contudo, a natureza vai conseguindo adaptar-se a essa “má conjuntura”, e os ciclos vão-se cumprindo porque eles são importantes para a sobrevivência…da própria natureza e das espécies que a habitam!
      Agradeço imenso o comentário e as suas palavras de incentivo.

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    1. Foi com surpresa que vi agora o seu comentário e o facto de replicar o post no seu blog. Obviamente que fico muito satisfeita com isso e com as suas simpáticas palavras. Há assuntos que me agradam especialmente, sendo as dinâmicas da natureza um deles. Talvez por isso consegui transmitir algo mais do que apenas palavras.
      Grata pela partilha!

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