o professor

 

trevo

 

Quando somos jovens, é comum encontrarmos pessoas que nos mostram perspectivas para as quais não estamos ainda preparados. Mas os seus valores tocam-nos, ficam alojados no nosso sentir e, com o passar do tempo e de um natural amadurecimento da nossa mente e sensibilidade, lentamente eles vão germinando e sendo percepcionados de forma diferente. Começamos então a perceber a importância de determinados ensinamentos, daquele olhar que insistentemente nos foi mostrado ou da crítica por vezes dura que nos foi direccionada. E a sentir que tudo isso poderá ter um papel importante no nosso percurso pela vida.

Se estivesse vivo, o artista, escultor e professor de várias gerações Lagoa Henriques (1923-2009) faria hoje 94 anos. Na foto acima, captada em 1981, eu teria 23 anos e o professor estaria perto dos sessenta, curiosamente onde eu hoje me situo.
No primeiro curso de conservação e restauro ocorrido em Portugal e iniciado nesse mesmo ano, o professor deu-nos aulas práticas de desenho, centradas em objectos ou modelo vivo. Nessa época, a minha noção de desenho estava muito associada ao “perfeitinho e bem acabado”, muito diferente da espontaneidade do desenho-emoção que o professor constantemente nos tentava incutir, insistindo que entre o olhar e o papel, deveria estar o sentir. Sem ele, seria uma cópia sem expressão.

Diria que o seu objectivo foi o ensinar-nos a olhar e a entender a essência da mensagem/imagem, o que ele fazia de diversas formas. Além disso, incentivava todos os seus alunos a registar o que viam, a fazer diários gráficos, a treinar a mão e sempre, sempre o olhar.

Entretanto…ainda antes do final do curso tive a minha filha e um pouco mais tarde o meu filho, tendo o meu tempo e o meu olhar muito com que se entreter. Porém, com o passar dos anos, percebi que algo continuava a fervilhar dentro de mim, não me bastando a ideia de “ter algum jeito para desenho”. Era um sentir que teria que enfrentar e explorar pois, apenas dessa forma poderia eventualmente dar o tal salto que separa o perfeito do espontâneo, o falso do genuíno, o ver do verdadeiro olhar, aspectos para os quais o professor me tinha alertado e sensibilizado.

Seguindo esse profundo sentir, decidi então iniciar registos em diários gráficos e fazer muitas experimentações. Parti a medo, com aquele medo com que se enfrenta um lugar desconhecido, em que sabemos ir encontrar desafios e sentir muita frustração. Mas que será o único com possibilidade de nos levar a determinado lugar.

Apenas posso dizer que os períodos de empenhamento e alegria têm alternado com a desmotivação, que encontrei muitas vezes a frustração a par do momento gratificante, que ultrapassei alguns medos e que a mão está um pouco mais solta e o olhar mais treinado. Porém, é especialmente a confiança que tem muito para amadurecer. Ainda.

Sei que será um trabalho para a vida, pelo que me imagino uma velhinha a fazer uns rabiscos tremidos. Contudo, tenho a certeza que se o dia desta foto fosse hoje, as críticas e as dicas seriam algo diferentes. E perceber isso, já é para mim uma vitória.

Quando olho para trás, vejo o mestre Lagoa Henriques como o professor que mais me marcou e mais sementes deixou na minha sensibilidade, na medida em que me ensinou a olhar, a relacionar e a sentir emoção com a estética desse olhar. E esse é um ensinamento que tenta estar presente em todos os momentos da minha vida e do meu dia-a-dia. Hoje mais do que nunca.

Apesar de ausente deste espaço-tempo, estou certa que ele continua a estar presente na vida de muitos dos alunos que ensinou. E onde quer que esteja… talvez continue a partilhar a sua enorme sensibilidade.

 


Autor de muitas esculturas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, o escultor Lagoa Henriques tem no centro de Lisboa uma das suas obras mais conhecidas: a representação do poeta Fernando Pessoa sentado na esplanada do café A Brasileira, em pleno Chiado, obra constantemente requisitada para uma fotografia por muitos dos turistas que visitam a capital portuguesa.

 

Capturar lh

http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/fernando-pessoa

 

 

12 thoughts on “o professor

  1. Bacana, Dulce. Uma bela viagem, uma rica introspecção e um texto para lá de agradável. Não há dúvida de que a sua habilidade artística seguirá evoluindo. Sensibilidade não lhe falta, pelo que facilmente percebemos em cada uma das suas publicações!

    Like

    1. Agradeço as suas palavras sobre esta viagem a uma parte do meu sentir. Somos uma construção para construir ao longo da vida e, para mim, este assunto é uma das paredes mestras a que tenho que dar mais atenção. Uma parte será certamente inata, mas a outra, devo-a sem dúvida a um bom mestre!
      Muito obrigada e desejo um tranquilo final de 2017!

      Like

  2. Mais do que a singela lembrança da data de nascimento do Mestre Lagoa Henriques, o teu post é uma verdadeira homenagem a um professor para quem ensinar era certamente uma paixão. Paixão essa que deixou marcas em ti e , como bem dizes, em várias gerações.
    Estou certo que gostaria de ler as tuas palavras passados todos estes anos, sinal de que o seu trabalho teve continuidade na tua sensibilidade e maneira de olhar o mundo.

    O video que te deixo é longo. É uma admirável palestra de Benjamin Zander que, ao reflectir sobre a sua condição de maestro ligada ao facto de não tocar uma única nota num concerto, refere que o seu grande papel é o de despertar possibilidades nas outras pessoas (min. 17:15).

    Foi seguramente também esse o efeito das aulas do Mestre Lagoa Henriques em ti que hoje, onde quer que ele esteja, viu por certo os teus olhos a brilhar, como Zander viu nos músicos que o acompanhavam (min. 18:00).

    Like

    1. Há pessoas com o dom de despertar outros, de ser mestres de outros, de os ajudar a encontrar algo que equilibre o seu caminho. Foi assim com este meu professor, que realmente tinha uma forte paixão por ensinar, especialmente a olhar; e será assim com outros “mestres ou maestros” deste mundo, como mostra esta interessantíssima palestra com que muito bem complementas este meu post.
      Obrigada pela partilha, pelas tuas palavras e gosto sempre que apareces!

      Like

  3. Também conheci o Mestre Lagoa Henriques numa aula durante o meu curso nas Belas Artes… e sabia o quanto ele foi importante para ti 🙂 Bonito este post, uma boa homenagem também!
    Para mim, que tenho acompanhado os teus desenhos ao longo da vida, mais perfeitos ou imperfeitos, são (serão) sempre belos desenhos…. 🙂 E quero muito ver-te velhinha a fazer ‘rabiscos tremidos’… Beijinhos e bons desenhos ❤

    Like

    1. Obrigada minha filha!
      Apesar de ser um processo muito pessoal, sempre acompanhaste um pouco as minhas aventuras e desventuras artísticas, com a vantagem de achares que estavam sempre (ou quase sempre) bem!
      E se eu chegar a velhinha a fazer uns rabiscos tremidos… só te peço que valorizes a intenção, não valorizes o resultado!!
      Bjs!

      Like

  4. Minha Querida Colega, que bom é lembrar esses tempos em que o Mestre Lagoa Henriques nos ensinou a ver. Também fui tocada pelo seu saber e sensibilidade e partilho contigo a sua memória.
    Que bela foto essa em que ele aponta e tu olhas tão atenta, e vês com ele! Acho que estou com alguma inveja …é um previlegio para ti esse registo, não achas?
    Obrigada por esta pequena homenagem, ele merece.
    Estamos todos de parabéns.
    Um abraço

    Like

    1. É verdade Teresa, tenho um carinho muito especial por esta fotografia e dou-lhe um grande simbolismo. Não sei quem a tirou (razão porque não nomeei os créditos fotográficos como sempre tento fazer), e creio que ela estava no que restava dos arquivos da escola quando me foi dada há alguns anos.
      De uma forma mais ou menos sentida, todos fomos tocados pelo seu saber durante o tempo em que o tivemos como professor. E acredito que, mesmo os que na altura não apreciavam muito as aulas, talvez hoje sintam que elas foram importantes num qualquer pormenor.
      Obrigada pelas tuas palavras e presença neste blog!
      E retribuo com outro abraço, porventura o último de 2017!

      Like

      1. Para que não seja o último…

        Na foto a tua sombra projecta-se no Mestre e a dele espraia-se na parede e duplica a imagem do braço e do dedo alongado que aponta, reforçando o gesto.
        Imagem de outrora apontando o futuro que é hoje e amanhã??
        😉
        Um abraço.

        Like

      2. O interesse desta foto está muito centrado nesse braço e no dedo apontado…talvez ao futuro de outrora, como bem dizes…talvez ao que preciso de aprender ao longo da minha vida e que estou tentando fazer! Não sei!
        Apenas sei que é uma bonita imagem!
        Outro abraço para troca!

        Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s