ver e não ver

 

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Seguindo ou não as tendências da moda, uns óculos conectam-nos com o mundo quando os nossos olhos já não cumprem autonomamente a sua função. Adaptados com lentes monofocais ou progressivas permitem-nos ver o que queremos e o que não queremos e, de certa forma, também a controlar algumas “inseguranças” ao percebermos mais claramente todos os detalhes que nos rodeiam.

Sendo totalmente apologista do conforto, há muito que uso lentes progressivas, tecnologia que me agradou desde o primeiro instante e com a qual tenho uma forte relação de cooperação e empatia. Ao focar tudo sem necessidade de mudar de óculos, seja o que está próximo, a média ou a longe distância, esta opção permite-me ainda não os perder pois estão sempre no sítio certo.

Mas todas as relações, mesmo as mais próximas e intimas, não são perfeitas. Aprecio a verdade com que os óculos alimentam o meu olhar sobre o mundo, mas há um momento em que me dá um prazer especial traí-los e não os ter colocados. Acontece durante os momentos de higiene, quando me vejo ao espelho e ele me devolve a imagem de uma pessoa bem mais jovem, sem rugas e sem outros detalhes que não vou aqui especificar.

O espelho torna-se mágico! Faz-me sentir mais bonita e por momentos ficar mais próxima da idade interior, da minha real(idade), daquele modo de ser que permanece e que nos faz sentir sempre jovens. E nesses momentos, recordo muitas vezes uma frase de minha mãe, proferida pouco tempo antes de falecer, aos 71 anos: “Filha, eu não percebo…sinto-me ainda uma criança!”

Depois…

… bem…depois acaba a magia do espelho! Coloco os óculos, começa o dia e continua a vida. Quando volto a olhar para ele, já com óculos, sorrio com toda a ternura para aquela quase sexagenária que está ali, também a sorrir para mim….

…que outra coisa poderemos fazer?

 

 

13 thoughts on “ver e não ver

  1. Mais um detalhe do dia-a-dia que poderia ser apenas uma nota de rodapé no rodopio de um dia de trabalho. Porém, contextualizado a partir da utilidade dos óculos e juntando as palavras magia, espelho, tempo, e uma memória de alguém muito próximo, transformou-se numa narrativa singular em que embarcamos como num filme. Gostei, mais uma vez, da leitura desta tua atenção ao momento.

    Como ainda passo muitas horas sem óculos mas a idade já conta, já me aconteceu uma ou outra vez como no vídeo … em que o espelho teve outra função.

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    1. A magia do espelho…e a verdade do espelho….também aqui, como em tudo na vida, a eterna dualidade de uma mesma realidade!
      Este filme, há muito que não é o meu filme…pois os óculos estão sempre onde devem estar!
      Mas tens a minha solidariedade….
      Obrigada pela vertente mais humorística com que complementaste este post!

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  2. Nada mesmo, Dulce. É simplesmente sorrir e dizer sim para a vida!
    E você, por tudo o que nos transmite com os seus escritos, encarna muito bem esse espírito da jovialidade mental. Até porque, chegar aos 60 é dar a largada para um longo e promissor segundo tempo!!!
    Gostei do texto, inteligente e bem oportuno em tempos de longevidade em alta!
    Abraço.

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    1. Sim…acho que a minha “criança/jovem” continua bem activa! E fico feliz por isso, acredite!
      Dificil por vezes é quando as vicissitudes da vida nos impedem de aproveitar/explorar toda essa energia ainda disponivel. Mas a vida é mesmo assim, pelo que pouco poderemos fazer senão tentar sempre aprender algo, especialmente com o mais dificil.
      Como eu gosto sempre de pensar, “tudo passa”; e como bem disse no seu comentário, depois dos 60, ainda falta o segundo tempo, que espero seja essencialmente saudavel, o que permitirá ainda muito concretizar….especialmente se for longo!
      Muito obrigada pela presença e palavras.

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  3. eu, como um míope desastrado, uso óculos desde os 17 anos e lá se vão décadas a fio. creio que o meu rosto sem eles perde a identidade, todavia, sou demasiado esquecido. saio sem eles, leio sem eles – para perto até o momento tudo ok. bom, não fotografo sem óculos, não há jeito, e como não uso o automático perco os registros. hoje, já estou tão habituado a eles que como disse antes, já são parte da minha identidade. um belo texto, Dulce. o meu abraço.

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    1. Essa imagem de “míope desastrado” é muito cinematográfica. E o seu comentário uma curiosa saga! Com óculos ou sem óculos, vendo melhor ou pior, a vida e as fotografias vão acontecendo, não é? E isso é que é importante.
      Agradeço o comentário e a presença sempre atenta!

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  4. Como não uso óculos (por enquanto) não consigo sentir essa magia do espelho, mas adorei ler essa abordagem mágica! ❤

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    1. Tu tens óculos, só que eles passaram para o campo do eterno esquecimento…o que significa que provavelmente não precisas mesmo deles!
      Ainda bem que gostaste da minha história com quatro intérpretes: eu, os óculos, o espelho e o tempo!!
      Bj e obrigada!

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  5. Bom…em parte identifico-me com o que escreve. Como míope que sou e apesar de diariamente usar lentes de contacto, quando as tiro o espelho não me diz grande coisa… A não ser para procurar rapidamente os óculos!
    Gostei da abordagem da temática e da forma como embeleza o texto. Boa noite.

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    1. Digamos que é uma visão diferente da ausência de óculos! Em mim o efeito é mais subtil e apenas me impede de ver detalhes. E, apesar de viver bem com as “rugas” da vida… também me sabe muito bem quando não as vejo!
      Obrigada pelo humor e naturalidade do comentário!

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  6. Com simplicidade e sensibilidade mais uma vez consegue transformar o olhar do cotidiano em algo grandioso… óculos uso faz tempo e passei a aprecia-lo assim com a verdade. Grata. Bjs

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