ver com outros olhos

 

expo

 

O meu olhar permite-me ver e com ele preencher de imagens os meus dias. É naturalmente sentido como um dado adquirido, a que apenas damos o real valor quando confrontados com a sua falta ou perante situações em que nos apercebemos da realidade de outros que estão impedidos de o ter da mesma forma.

Ver com outros olhos é o título de uma exposição que resultou de uma parceria entre o Movimento de Expressão Fotográfica (MEF) e a Fundação Calouste Gulbenkian através de um projecto associado à arte, no qual foram convidadas pessoas de várias idades e com problemas de visão (amblíopes e cegas totais), para que registassem em imagens algo que tivesse a ver com a sua vida, vivência, percurso, gostos, sonhos, etc. Alguns conseguiram fazê-lo sem ajuda, outros descreveram a sua imagem e construíram-na com o apoio de outros.

Mais do que apostar na criatividade de pessoas com dificuldade de visão, esta exposição aposta na profunda sensibilidade que revelam, quer na escolha de detalhes quer nos pensamentos partilhados e que acompanham as imagens. A exposição é composta por vários módulos baseados em conceitos diferentes.

Todo o espaço expositivo está preparado para ser percorrido e sentido sem o olhar, impondo-se o táctil e o sonoro. Apesar de saber que “Ser cego não é fechar os olhos”, uma das frases que recordo da exposição, em vários momentos tentei agir como se fosse invisual, ou seja, fechei os olhos e senti/ouvi o que me era apresentado. Só posteriormente os abria e confrontava o que tinha percepcionado com a realidade, o que se revelou uma experiência estranha, diferente, mas muitíssimo interessante.

O olhar é uma forma fácil de nos relacionarmos com o mundo. Quem não o tem, desenvolve a “sabedoria dos sentidos” a partir de uma profunda e dorida aprendizagem nascida das dificuldades. E assim constrói um mundo semelhante ao de todos nós e composto igualmente de alegrias, tristezas, sonhos, devaneios, criatividade, paixões e tudo o mais que possamos imaginar. Mas sem facilitismos.

Esta exposição estará patente na Fundação Calouste Gulbenkian (Piso 0), até ao próximo dia 12 de Novembro e tem entrada livre.

 

José Oliveira, um amigo sempre presente neste blog, não só me alertou para a existência desta exposição, como continua a colaborar com o projecto que levou à sua montagem.
A imagem inicial é uma parte de um cartaz sobre a exposição e foi retirada de  https://irisinclusiva.pt/index.php?oid=3138&op=all
A fotografia original é da autoria de Igilcia Andrade / MEF,

 

 

16 thoughts on “ver com outros olhos

    1. Até como fotógrafo e certamente interessado na problemática da imagem, seria muito interessante poder apreciá-la. Porque mesmo sem a visão, as imagens podem ser criadas e concretizadas.
      Talvez ainda consiga passar por Lisboa até 12 de Novembro!!
      Obrigada pelo comentário!

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    1. É verdade Irina. E o comentário do José Oliveira que se encontra mais abaixo, vindo de alguém que esteve na genese desta exposição, dá uma perspectiva mais real da sua importância.
      Se vier a Lisboa, não a deixe de ver!
      Obrigada e desejo um bom fim-de-semana!

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  1. Meritória uma iniciativa como essa, seja para o autoconhecimento e autopercepção, seja, sobretudo, para que exercitamos a capacidade de sentir o mundo (e as possibilidades) de quem perde a visão. Parabéns, Dulce, pela postagem!

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    1. Sim, o interesse desta exposição está em tudo isso que referiu, na medida em que nos permite o contacto com a sensibilidade de pessoas para quem a vida tem todas as dificuldades da nossa e ainda muitas outras acrescidas relacionadas com a deficiência de visão.
      Para nós, é um novo “olhar”!
      Obrigada por comentar e desejo um excelente fim-de-semana!

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  2. Obrigado pela divulgação e pela tua sensibilidade relativamente a uma exposição que vale mesmo a pena ver.

    Para mim foi um verdadeiro privilégio trabalhar com todos eles, na medida em que aquilo que ensinei foi apenas uma pequena fracção do que aprendi. E aprendi através das suas histórias de vida, que me contaram na primeira pessoa, com as dificuldades porque têm passado, com as barreiras dos preconceitos, com a coragem de se exporem, com a sua vontade e persistência.

    As pessoas retratadas nesta exposição são verdadeiros Heróis porque além das dificuldades do dia-a-dia, iguais a qualquer um de nós, têm ainda de superar as barreiras da incompreensão e do preconceito de uma sociedade que os julga e classifica em função de critérios pouco esclarecidos.

    As imagens e os textos desta exposição levantam questões e devem servir de mote à reflexão de todos porque, na verdade, de um modo ou de outro, em maior ou menor grau, todos somos deficientes e, nessa medida, somos todos iguais.

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    1. O post ficaria incompleto sem este comentário vindo da fonte!
      Por isso, pouco mais tenho a dizer a não ser agradecê-lo. E ainda, em nome de todos nós que temos os olhinhos a funcionar bem e não pensamos no outro lado, agradecer aos que empenhadamente se esforçaram por erguer esta expo e nos sensibilizar para este assunto.
      Obrigada!

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  3. já havia algum tempos atrás lido matéria aqui no Brasil sobre projetos de inclusão social através da fotografia como deficientes visuais, moradores de rua, e outros mais e o resulta é um verdadeiro alento à vida e à sensibilidade. olhares de dentro, olhares de quem pouco possui mas tem um dentro extraordinário, comovem e dão esperança. magnífico mais esse ensinamento que que vida oferece.

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    1. Todos os projectos que permitam sensibilizar para causas e valorizar pessoas cujo dia-a dia é certamente bem mais difícil do que o nosso são importantíssimos. Como este que referi e tantos que haverá por aí.
      Agradeço o comentário e, sendo já final de domingo… desejo uma boa semana!

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  4. Uma exposição a não perder! Também gostei muito… Ainda mais com as explicações ao vivo 🙂 mesmo muito interessante!

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  5. Interessante me deixou com saudade de Lisboa e de me deixar estar nos jardins do Calouste, mas também me remeteu ao Visages Villages, documentário de Agnès Varda e JR.
    Abraços

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