instante

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De instantes se faz o tempo…

Será o instante um fragmento,
um tijolo no muro do tempo…
…ou o cimento que o agrega?

Tudo é instante…

Ele é sopro e respirar
sorriso e olhar
dor
palavra
gesto
pensar…
…e o sim ou o não
que saem sem hesitação!

É o sentir que se foi
o som ouvido silêncio
o pensamento que se desvaneceu
a palavra que calamos
o gesto que recuou
o tempo que ao lado passou
o presente…

…o agora…

 

…já foi!

 

 

(Dulce Delgado, Setembro 2019)

 

 

 

 

novo outono

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Não recordo o local onde recolhi estas folhas no último Outono. Sei apenas que foi em solo lusitano e que me cativaram pelos tons que então possuíam. Levei-as para casa e coloquei-as numa taça, onde acabaram de secar, uniformizar a coloração e aí ficar. 

Passou o Outono…

…e depois o Natal e o Inverno…também a desejada Primavera e um estranho Verão….e há poucos dias, ao passar o meu olhar sobre elas consciencializei que um novo Outono estava a chegar…novamente…e com ele mais um ciclo de tempo. No meu tempo, no tempo de todos nós… e também destas folhas…

Destas velhas folhas que chegaram a um novo Outono!

O meu pensamento seguiu de imediato para a árvore-mãe de onde terão caído, estrutura viva que as viu nascer e crescer, e que as protegeu e alimentou. Neste momento, ela terá folhas semelhantes exactamente no local de onde estas partiram…

E então divaguei…

…terão as árvores saudades das folhas que partem dos seus ramos em cada Outono?

…sentirão a sua falta?

…será que, ao entrarem na dormência do Inverno, simplesmente esquecem essas filhas-voadoras?

…e mais tarde, quando “acordam” grávidas de Primavera, estará toda a sua energia  e foco apenas nos novas rebentos e nas folhas que vão nascer?

…haverá algum laivo de nostalgia do passado?

 

É no silêncio deste divagar outonal que desejo aos meus leitores uma tranquila mudança de estação, seja para o recolhimento do Outono ou para a expansão Primaveril.

E a estas velhas folhas, fica a promessa que no Outono que hoje se iniciou irão continuar o seu caminho. Por aí, num voo em dia de vento. Quem sabe…talvez até encontrem as suas mais recentes “irmãs de berço!

 

 

 

 

preconceito…

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…as portas que a mente fecha antes do pensar

…um pensamento preso numa viela do tempo

…respirar superficial que se alimenta da moral

…escolher a rejeição sem hipótese de discussão

…a superstição de uma mente fechada e resistente

…desprezar a possibilidade perante a dualidade

…relutância em pensar fora do linear

…escolher o generalizar sem a razão procurar

…uma ideia limitada que se antecipa à possibilidade

…sentir de hostilidade perante a diversidade

…e o hábito de julgar sem ouvir, de forma justa e imparcial, outros modos de sentir!

 

(Dulce Delgado, Setembro 2019)

 

 

 

banho de natureza

 

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A efémera beleza das flores de um nenúfar acompanha as horas de sol e o ritmo das  estações, mas a planta-mãe saboreia durante todo o ano o lento mover do fluído que a alimenta. Os nenúfares exteriorizam na Primavera e no Verão o que guardam com recato na restante metade do ano.

Recentemente senti o prazer de me banhar numa piscina biológica, cuja pureza e equilíbrio resulta da presença de diversas espécies de plantas aquáticas, incluindo nenúfares. Todas foram controladamente plantadas numa faixa na periferia do espaço e, a par dos limos e de outros micro-organismos, contribuem de uma forma natural para o processo de limpeza e oxigenação da água, meio também habitado por uma fauna específica de pequenos animais como rãs, cobras-de-água, insectos variados, incluindo muitas libélulas/libelinhas.

Centrando-me nos nenúfares…

…as várias espécies existentes  foram plantadas de modo a permitir uma certa proximidade e um diálogo “olhos nos olhos” deixando os sentidos apreciar…

…flores com morfologia e cores diferente
…folhas com formatos diferentes
…e aromas diferenciados!

Surpresa!

Apesar de olhar para os nenúfares como uma planta belíssima, misteriosa e um tanto mística, na verdade sempre esteve “longe”…ali…além…em lagos…e nunca ao nível dos meus sentidos e ao lado do meu corpo.

Ainda não experimentara…

…afagar os seus finos caules e robustas folhas…
…cheirar o aroma das flores…
…partilhar a mesma água…
…e sentir o seu tranquilo e uterino modo de vida!

Momento único este “banho de natureza”!

Como único e inesquecível foi aquele instante em que uma pequenina rã salta da folha de um nenúfar onde repousava (apreciando talvez o sol e a paisagem…), e começou a nadar junto a mim. E eu segui-a… calmamente….emocionada… e totalmente fascinada!

Depois ela seguiu para o interior do mundo dos nenúfares, uma área proibida a esta feliz humana que acabara de viver um daqueles momentos em que nos sentimos parte de algo maior e, na “pele”, a ternura desta mãe-natureza que nos enlaça e envolve.

Numa única palavra: adorei!

 

 

 

 

landfill harmonic

 

 

Apesar deste vídeo/teaser sobre o filme Landfill Harmonic datar de 2015 e provavelmente já muitos de vós o conhecerem, só recentemente o visualizei pela primeira vez. E ele emocionou-me o suficiente para decidir partilha-lo neste espaço, porque a essência da mensagem que transmite é importante e sempre actual.

A sobrevivência tem várias faces, sendo tendencialmente associada a uma vertente mais física e material. Porém, a força anímica e a vontade que constrói o ser humano podem ser de tal forma superiores, que suplantam as adversidades materiais e os desequilíbrios criados por uma sociedade incapaz de proporcionar condições mínimas de existência.

Um dos aspectos mais marcantes da mensagem é a forma como, indirectamente, equaciona algumas das nossas atitudes e os pretextos que arranjamos pelo facto de não termos as condições “ideais” para avançar, construir ou criar algo de diferente. E ainda como tudo, nomeadamente os valores, podem ser relativos nesta vida.

 

(Algumas informações sobre a Orquestra de Reciclados de Cateura, a protagonista deste filme)

 

(Obrigada Manuela!)

 

 

36

 

D2

 

Madrid foi o destino que obrigou a estar no aeroporto de Lisboa às cinco e meia da manhã de ontem.
Em tempo de Uber’s e afins…porque te levei?

Porque sou mãe!

Porque o último abraço dado no aeroporto ficou mais próximo deste primeiro dia de Setembro dos teus 36 anos;

Porque a energia desse abraço perdurou pelo dia de ontem e hoje será sentida por ambas perante a tua voz/imagem, mas igualmente quando leres estas palavras-oferta, que percebi recentemente serem um mimo desejado neste dia;

Porque hoje não estarás perto de mim para fazeres as habituais perguntas associadas ao teu nascimento…à gravidez… ao parto…como eras…como foi…e eu não irei repetir as respostas que tu já sabes de cor. E também não irei ouvir aquela exclamação “Tãaaaaao giro!”, que naturalmente aparece após esse diálogo.

 

Para além disso, minha filha…

Os lugares guardam memórias dos seus visitantes, certamente mais emocionais se associadas a dias de aniversário. Copenhaga, Dublin, Barcelona em anos anteriores e Madrid este ano, guardarão um pouco de ti e da tua boa energia.

E eu, discretamente, gosto de pensar que as emoções despertadas por estas palavras escritas para ti e lidas por aí, ficarão algures a pairar na memória desses lugares.
Sem tempo e doces como um abraço!

 

Muitos Parabéns e um dia muito feliz!

 

 

(Dulce Delgado, 1 Setembro 2019)