desejando…

 

…que ele não esteja aqui!

 

 

Ele é pequenino, muito pequenino, mas está a mexer com os nossos dias, com a nossa vida e espalhando uma desconhecida instabilidade. Sentimos medo, estamos assustados e não temos a real noção do sofrimento que está a causar nem do grau de exaustão de todos os que tentam minimizar esse sofrimento.

De um momento para o outro sentimos-nos dentro de uma” bolha de vulnerabilidade” com duração indeterminada, que está a mexer com as nossas atitudes e emoções de uma forma que simplesmente desconhecíamos.

Partilho um detalhe: por amor, não aconteceu aquele abraço habitual e aquele beijo sentido que troco de uma forma efusiva com os meus filhos sempre que estou com eles. Foi um momento estranho, novo e que doeu. Mas na realidade eu não sei, e eles também não, se aquela coisa pequenina estará na nosso corpo, pele ou roupa. Então resolvemos não arriscar. Mas doeu.
A distância física tornou-se então extremamente emocional, transformou-se em energia, superou a distância e chegou ao outro como um afago invisível. Ou o afago possível.

Este novo tempo é uma estranha prova, seja a nível individual seja como sociedade. Estamos perante um tempo que exige adaptações e provoca contradições. A maior é o facto de, a par de um evidente afastamento físico estarmos mais unidos do que nunca contra uma causa comum. Na verdade aquela coisa pequenina teve o poder de neutralizar temporariamente cores partidárias, clubistas e divergências religiosas ou outras, o que não deixa de ser espantoso.

Todos sabemos que este tempo de paragem, de recato físico, de medo e de dor irá passar. Como tudo passa na vida, seja de que forma for. Mais relaxados, viveremos num planeta temporariamente mais saudável mas num tempo igualmente dramático pelas consequências económicas e sociais que este evento trará ao mundo. Contudo, há sempre um olhar, um outro olhar que é importante opor ao dramatismo de toda esta situação.

Eu preciso desse olhar. E ele diz-me…

…que sairemos disto mais maduros e conscientes da nossa fragilidade
…talvez com um maior espírito de comunidade e capazes de transformar/sublimar aquela “atenção” que agora ocupa todos os nossos sentidos, para algo mais fraterno, doce e solidário relativamente ao próximo
…mais conhecedores dos nossos limites e sentimentos, sejam eles quais forem
…com algumas dúvidas transformadas em certezas
…mais conscientes do nosso potencial criativo, algo que o “ficar em casa” certamente estimulou
…como cuidadores, talvez melhores pais pela atenção dada aos filhos…e talvez melhores filhos pela atenção recebida dos pais
…com as leituras e os filmes um pouco mais em dia
…com as gaveta e armários arrumados e a casa mais limpa
…eventualmente melhores cozinheiros
…provavelmente com muitas saudades dos empregos…

…e valorizando como nunca fizemos, a nossa rotina e a nossa liberdade!

Pela minha parte tudo farei para ultrapassar este momento sem consequências para mim e para todos os que me estão/são próximos. Veremos se aquela “coisa” pequenina concorda comigo.

Cuidem-se e cuidem dos outros. Os abraços virão depois!

 

 

 

13 thoughts on “desejando…

    1. Emanuel, fico muito grata pelas suas palavras.
      A minha geração já viu e passou por muito, desde crises económicas a revoluções militares, tecnológicas, de costumes, etc, etc. Mas sinceramente, nunca pensei passar por uma crise que me impedisse de dar abraços aos meus filhos….
      A vida é realmente uma enorme surpresa.
      Abraço recebido!
      E…cuidemos-nos!

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      1. Grande provação esta… é quando mais precisamos de receber e de dar alento que não o podemos fazer através de um simples abraço ou beijo. Que este tremendo esforço nos traga em breve serenidade e paz de espírito e possamos usufruir de bons momentos nas nossas vidas. Obrigada por partilhar conosco os seus pensamentos e emoções, aceite por favor o meu abraço.

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    1. Abraço igualmente recebido. Sem dúvida uma grande vantagem do mundo virtual nos tempos que correm!!
      Este evento é uma prova a superar pela humanidade através do empenho, da responsabilidade, do rigor, da solidariedade…mas sempre tendo a esperança e o acreditar como motor. Não poderá ser de outra forma.
      Obrigada Fernando, pela presença.

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  1. Tudo isto dói… principalmente a falta daquele teu abraço, ainda para mais nesta fase em que somos dois a abraçar-te! ❤ Mas é o que tu escreveste e muito bem… a seguir a isto tudo, vamos todos valorizar mais a vida e a liberdade, disso não tenho dúvida!! 🙂

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    1. Eu também não, pelo menos temporariamente. Mas sabes, a memória muitas vezes é curta….
      Todos os abraços fazem falta, mas o teu, ao valer por dois neste momento, é dos que sinto mais falta! Futura avó sofre…
      Bjs

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    1. Trará certamente uma nova experiência, uma aprendizagem, um tempo para olhar para dentro. Se temos que passar por isto, então que se “esprema” o que nos pode dar de bom.
      Um beijinho, obrigada e sigamos todas as recomendações.

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    1. Grata pelas suas palavras, Fernanda. E o meu desejo sincero que consigamos ultrapassar esta dramática situação da melhor forma possível…se é que se pode utilizar este termo. Mas sempre tentando ter esperança e vendo o “outro lado”.
      Vai aqui também o meu desejo que tudo esteja a correr bem consigo e com os seus.

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    1. All “revolutions” imply change. And this is a revolution that moves everything, outside and inside each one. So, positively thinking as I always choose, I believe that there will be good changes.
      Thank you.

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