violetas à janela

 

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Não aprecio a cor violeta/roxo. Esse tom nunca acompanhou os meus dias, seja em peças de roupa ou objectos decorativos. Não sei explicar esse sentir, nem estou propriamente interessada em saber. Há muita gente que não gosta de amarelo e eu gosto de amarelo. Como bem diz o provérbio…”gostos não se discutem”!

Contudo, adoro a cor das minhas violetas!

Gosto deste violeta que me preenche a janela nesta altura do ano…gosto da forma como estas violetas presenteiam o meu olhar com a sua beleza, singeleza e aveludado…gosto desta ambígua cor que aqui me delicia os sentidos….. gosto… desta cor que não gosto!

E questiono-me:

Como posso, de uma forma tão oposta, “não gostar” e “gostar” de uma mesma cor?

O que é o “gostar de” e o “não gostar de”?

Talvez seja algo tão relativo e mutável como relativas e mutáveis são as nossas emoções, as nossas opções, as nossas certezas ou os nossos sentidos.

Será?

 

 

 

 

liberdade em dia

 

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Neste Dia da Liberdade…

…posso ler e pensar o que quiser,
partilhar as ideias que me apetecer,
voar com o imaginar,
e ser livre de pensamento
e com ele passear ao vento.

Porém,
neste Dia da Liberdade…

…estou presa em grades invisíveis
e isolada da comunidade,
com movimentos limitados
e liberdades impossíveis.

Hoje,
quarenta e seis anos depois
vivemos o paradoxo da Liberdade de Abril,
uma liberdade que nos limita os dias
os movimentos
e os gestos,
é certo,
mas que existe e é nossa.

Agora,
a liberdade espera-nos atrás da porta
e canta nas varandas do país,
respira na criatividade das redes sociais
revela-se em gestos generosos
nos detalhes partilhados
e vive,
segura e adulta,
nos direitos por Abril conquistados.

Hoje,
neste Dia da Liberdade
e um tanto à revelia,
a Liberdade é nossa
a Liberdade está em dia!

 

Dulce Delgado
(Portugal, 25 Abril 1974 / 25 Abril 2020)

 

 

 

 

um olhar criativo

 

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A criatividade é algo que é de todos, apenas mais activa em alguns porque lhe deram atenção e um lugar mais ousado na sua vida. Permitiram-se olhar com outro olhar e não apenas ver, experimentar mesmo sem acreditar, dar lugar ao pulsar e explorar o potencial mesmo sem o conhecer.

É assim que eu vejo a criatividade. E neste Dia Mundial da Criatividade e da Inovação vou contar-lhes uma história, pessoal porque foi por mim vivida e, no meu entender, a melhor forma que encontro para justificar o meu conceito de criatividade.

As histórias pessoais valem o que valem. São detalhes nesta imensidão. Mas podem despoletar algo que leve os outros a pensar e a olhar o que os rodeia de uma outra forma…e com outro olhar!

Aqui vai…

 

Vem de longe a atracção que sinto por pedras e por outros elementos naturais deste planeta que habitamos. Aprecio as suas formas, expressividade, texturas e faces de clivagem, gosto que vem da infância e dos passeios pelos areais algarvios em que cresci e onde adorava observar/apanhar pedras, conchas ou outros materiais trazidos pelo mar.

Passaram muitos anos…

Em meados da década de noventa, na primeira visita que fiz à Pedreira do Galinha, área localizada na região de Ourém/Torres Novas e detentora de longos trilhos de dinossauros, o meu olhar foi atraído por uma pedra de calcário solta que estava no chão. Apanhei-a, olhei-a de um lado, depois do outro, tendo de imediato a sensação que não era uma pedra qualquer e que tinha algo para me dizer. Senti-lhe um enorme potencial, conseguisse eu percebê-lo devidamente.
Foi para a mochila e, a partir daquele instante, mais importante do que todos os dinossauros que por ali passaram, a minha atenção ficou orientada para as pedras que ia encontrando. A mochila veio carregada, mas ainda sem saber para que serviria aquele pesado “tesouro” que trazia às costas.

Dias depois, decidi olhar calmamente e de vários ângulos para a primeira pedra que tinha apanhado. Uma luz rasante ajudou-me a perceber a volumetria, a textura e a “ver” uma imagem em latência que apenas precisava de ser “reavivada”. Foi o que fiz em seguida recorrendo a um fino pincel, a tinta-da-china preta e a toda a paciência que me caracteriza. Para lhe dar alguma verticalidade e valorizar a representação, adaptei-lhe outra pedra mais pequena, que cumpriu com rigor essa missão.

O resultado foi a pedra pintada que dá início a este post e que ainda hoje guardo com todo o carinho. Dizem que não há amor como o primeiro, pelo que esta pedra adquiriu esse estatuto entre todas as que se seguiram, sejam as recolhidas nesse passeio ou, posteriormente, em incursões “clandestinas” a pedreiras calcárias daquela região, uma vez que não encontrei outras com características semelhantes.

Pintei mais de uma centena de pedras com temáticas variadas, situadas entre o real e o puramente abstracto/imaginário, mas sempre aproveitando os relevos e a textura própria do calcário. Foi uma fase louca e de uma criatividade diferente daquela que eu conhecia. O desafio nascia do olhar e da capacidade de “comunicar” com cada pedra. Era algo orgânico, de “corpo para corpo” e uma espécie de jogo de afectos e empatia. Ou sentia, ou não sentia. E houve pedras que não entendi, pelo que foram devolvidas à natureza.

Muitas delas foram oferecidas a amigos e outras tantas vendidas. Pela minúcia do trabalho, começou a ser fisicamente desgastante, pelo que deixei de o fazer há alguns anos. Hoje guardo as fotografias de todas e reservo algumas como legado, incluindo esta primeira. E fico extremamente feliz quando reencontro alguma em casa de amigos ou familiares.

Foi uma fase da vida que passou, de um modo tão natural como surgiu. Já o gosto pelas formas da natureza continua bem enraizado e será sempre foco da minha atenção. Quem sabe, talvez um outro olhar me leve ainda a uma nova aventura criativa!

Termino com a imagem de outras pedras que continuam a viver comigo, porque nelas encontro um simbolismo muito especial.

 

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(Dulce Delgado, 21 Abril 2020, Dia Mundial da Criatividade e Inovação)

 

 

 

 

 

 

experimentações #7

 

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Vivia um tempo em que as emoções me tocavam de uma forma muito nova, sendo igualmente nova a tentativa de tentar compreender a nossa existência, escolhas, caminho e evolução por uma via mais espiritualista e esotérica.

Leituras, conversas e amizades estavam muito associadas a essa via, que também acabou por ser temática de muitos desenhos então elaborados.

 

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(Dulce Delgado, lápis sobre papel, 1977)

 

 

 

 

uma páscoa diferente

 

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Este ano de 2020, em tudo incomum, será para muitos de nós o primeiro em que estes dias festivos serão passados sem a presença da família. No meu caso seremos apenas dois, eu e o meu companheiro, dois seres que há três semanas estão em isolamento social mas tentando aproveitar ao máximo as possibilidades caseiras desta situação.

Bem, seremos dois…. e um computador! A tecnologia permitirá fazer um almoço de Páscoa em família, sonoro e visualmente partilhado entre todos. Cinco mesas estarão temporariamente unidas, sem troca de paladares, mas com troca de afectos e de boa disposição.

Não haverá abraços calorosos e ainda não será o tempo de dizer ao vivo o tão desejado “olá Vasquinho” ao futuro neto que se desenvolve no ventre da minha filha. E que eu tenho tanta, mas tanta vontade de estar perto! Não haverá contacto físico entre a família, mas haverá o abraço virtual possível.

Sendo a Vida um acumular de experiências, a actual situação será uma das mais estranhas que vivemos e ficará para sempre gravada nas nossas memórias e afectos. Apesar do lado difícil registemos a sua singularidade…mas com a forte esperança que não se repita.

Voltando à Páscoa…

…a etimologia desta palavra é incerta, mas parece que deriva da ebraica pasach que significa passagem, talvez o termo perfeito para encararmos a situação actual e estes dias festivos em confinamento.

…sabendo que todas as passagens… passam… e levam a algo, esta também nos levará a um outro tempo e olhar, sendo este período de isolamento um mal necessário para essa travessia.

…contudo, se eu/nós e todos os que nos são queridos estiverem bem, activos e saudáveis…não será isso realmente o mais importante nesta dias? Eu creio que sim, especialmente quando são tantos os que já não podem dizer o mesmo.

 

Sendo uma Páscoa diferente… que seja a melhor possível!

 

 

 

 

pequenas emoções

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O hábito de comer diariamente um kiwi já se tornou uma rotina na minha vida. Faço-o não por gostar muito do paladar, mas pelo seu grande teor em vitaminas. Aliás, já escrevi sobre este fruto num post publicado em Maio de 2018, em que me debrucei essencialmente sobre a sua estrutura e beleza.

Ontem fui surpreendida por um detalhe delicioso no decorrer da tal rotina, pois o kiwi guardava no interior um coração muito bem delineado.

Este coração não batia… mas o meu bateu! E emocionei-me…

…pelo inesperado

…pelo facto de estar atenta durante este gesto tantas vezes repetido

…porque nestes tempos estranhos, de imagens dolorosas e envoltos em pensamentos complexos encontrei um detalhe especial e tão diferente 

…pelo valor simbólico de um coração

…e por ele sempre representar acção, movimento e Vida, ou seja, aquilo que tanto ansiamos!

 

Um exagero sentimental lamechas? Talvez sim… ou talvez não!

Porque não – e simplesmente – o facto de actualmente estarmos sempre em estado de alerta, extremamente reactivos e com as emoções e sensibilidade à flor da pele? E nesse estado… qualquer coisa diferente se tornar num acontecimento emocionante?

Depois de o fotografar…saboreei-o agradecida e com ternura!