experimentações #27

Partilho hoje mais algumas páginas desse primeiro bloco de registos/diário gráfico datados de 1992.

São mais alguns momentos… e um verdadeiro transpirar de emoções!

Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel) 

outono primaveril

Uma aragem primaveril percorre um Outono
que ainda não sentimos no corpo
ou na pele.

Mas no silêncio do tempo
o Outono está aí…

…começando a abraçar as árvores,
descolorindo as suas ramagens
e atapetando os recantos de folhagens.

Por vezes,
não há sintonia
entre as mensagens do sentir
e as paisagens do nosso olhar!

(Este pensamento poético foi escrito há alguns dias, quando a temperatura do ar rondava os 30ºC. Entretanto refrescou ligeiramente, mas este fim-de-semana voltou aos 25ºC.
É certo que está um tempo maravilhoso… mas não passa de um detalhe de uma realidade deveras preocupante.)

o ponto e a vírgula

O ponto é…

… certeza, definição, segurança. Uma pausa com continuação… ou não.

Quando se juntam dois pontos ( : ) a continuidade é certa. Pode ser em enumeração, citação, discurso directo, etc., mas sempre indica futuro, algo concreto que vai surgir.

Curiosamente, quanto se juntam três pontos ( ) ou as chamadas reticências, tudo muda. Contrariamente ao que se poderia esperar, não há um reforço dos significados anteriores mas uma mudança total de energia. Surge a dúvida, o jogo, a possibilidade, os segundos sentidos, a desconfiança, etc. Um pouco à semelhança do que pode acontecer quando se juntam três personalidades extremamente seguras e com fortes egos, em que é possível que cada um tente “brilhar” mais, ser superior e dominar. Então pode surgir a desconfiança, a indefinição, jogos de poder e de verdades escondidas. Ou seja, aquilo que era definido e seguro, torna-se incerto, inconsistente e dúbio.

Já a vírgula é

…caminho, meio, continuação, paragem, respiração. Uma pausa menor para algo que terá continuidade. Ela separa elementos, ideias intermédias ou orações independentes. A vírgula é uma poderosa organizadora, seja na escrita seja na matemática. Nesta ultima área, é um ponto de paragem antes de prosseguir. Uma fronteira virtual. Um respirar que vive à direita da unidade e que é rainha no reino das décimas, centésimas, milésimas, etc.

Três vírgula catorze…

Quarenta vírgula sete…

Zero vírgula vinte e cinco…

Fantástico o poder deste símbolo na matemática!

E quando se junta um ponto e uma vírgula ( ; )…

…nasce a moderação, o meio-termo, uma espécie de ordem. Estes dois símbolos equilibram-se e dão origem a uma pausa um pouco maior que a da vírgula, mas menor que a do ponto. Eles delimitam, organizam e em longas frases, podem substituir a vírgula.

Fazem a fronteira entre ideias semelhantes ou diferentes, mas nascidas de uma premissa comum, de um assunto-mãe. São obedientes, organizados, sistemáticos e descomplicam textos que podem ser difíceis para o olhar.

Juntos ou em separado, usamos estes símbolos a todo o momento de uma forma quase inconsciente, seja na escrita ou na fala, em papel ou virtualmente. Até no acto de pensar podem estar presentes, nas nuances emocionais que sempre acompanham os pensamentos.

Diria que eles pontuam, marcam o ritmo e contribuem discretamente para o design da nossa comunicação.

entre praias

Se há passeios que me preenchem são os que se desenrolam à beira-mar em tempo de maré vazia.

Adoro aquele transpirar salgado e húmido da areia molhada… as linhas de água que escorrem para o mar esculpindo a área de vazante… as rochas, pedras e conchas… as marcas deixadas na areia pelas aves…mas igualmente o som das ondas ou as ténues neblinas que nos envolvem. E adoro o cheiro que tudo emana e que tem o dom de me transportar para uma infância/juventude bem recheada de momentos semelhantes…mas em que a natureza, nomeadamente a flora e a fauna marinha, era então bem mais efusiva e rica em detalhes. Objectivamente, gosto de tudo o que a baixa-mar nos oferece!

Sempre com o Atlântico no olhar, recentemente realizamos um agradável passeio entre a Praia do Magoito e a da Aguda, ambas localizadas no concelho de Sintra. Este passeio ocorreu no dia do equinócio de Outono, mais precisamente a 22 de Setembro último, sendo uma belíssima forma de dizer adeus ao Verão e de dar as boas-vindas ao Outono.

Partilho hoje algumas imagens mais gerais desse percurso, ficando para outro post que publicarei em breve os pormenores que tanto aprecio.

Percorrido o areal até à praia da Aguda, subimos a grande escadaria que permite chegar ao topo da arriba, sendo o regresso ao ponto de partida realizado num trilho aí existente.

O passeio terminou com a chegada ao ponto de partida. Adoramos o percurso e ficamos com vontade de explorar outras zonas costeiras da região.

Antes de concluir porém, gostaria de partilhar alguns dados sobre a geologia desta área.

Enquanto que a arriba da zona percorrida é essencialmente formada por “uma sucessão de camadas quase horizontais de calcários argilosos e margas”, na praia do Magoito a arriba é uma duna consolidada, ou seja, “uma duna costeira formada pela acumulação de areia por acção conjugada do mar e do vento. Esta duna fóssil corresponde a um estádio do processo de evolução da areia solta para a rocha arenito, processo que dura milhões de anos. A duna consolidada do Magoito foi formada há cerca de 10 mil anos.

A imagem que se segue e última deste post mostra relativamente bem essas características geológicas. Na verdade “podem observar-se laminações oblíquas, que permitem determinar qual a direcção em que sopravam os ventos aquando da formação da duna.»*

Também aqui a natureza nos mostra os seus dotes de escultora!

Boa semana!

 

 
* Informação retirada da Wikipédia 

olhar meu

Fecho os olhos
e viajo pelo interior do meu olhar…

…deambulo no vasto universo
de nebulosas e constelações
que me habitam,

…viajo pelos pensamentos
que navegam no mar da minha retina

…e danço entre cores e formas
num aleatório estar.

Este,
é o único olhar que é meu.
Só meu.

(Dulce Delgado, poema e imagem)

de castelo em castelo

Estrategicamente posicionados são imensos os castelos que enriquecem a paisagem de muitos países. Localizados normalmente em posições altaneiras, a maioria terá cumprido no auge da sua existência a missão para que foram edificados. Em Portugal são muitos os que pontuam o horizonte sendo variados os seus estados de conservação. Certo é que são lugares de muita história, mas igualmente de amplas vistas e sempre uns agradáveis locais de visitação.

Mas outros castelos existem, bem mais voláteis que estes e que tocam a nossa existência…

…é o caso dos castelos de cartas que quase todos construímos em criança e que, por mais cuidado que tivéssemos, um sopro ou um nada os faria desabar sem dó nem piedade. E lá se ia mais uma tentativa…

…também os castelos de areia passaram pelas nossas mãos. Construídos a partir de um balde ou moldados manualmente, com eles formamos efémeras paisagens que uma onda sempre acabava por engolir. Surgia então aquele “Ohhhh” que já espreitava dentro de nós o momento de se manifestar.

Já os castelos construídos longe de ondas não seriam engolidos pelo mar, mas sim destruídos pelo sol e brisas, num desmoronar lento e bem mais doloroso. Diria que para qualquer castelo de areia o fim é seguramente a destruição.

…fim semelhante mas um pouco mais prosaico têm os castelos no ar ou castelos de vento, aqueles sonhos impossíveis e sem fundamento que alimentam a nossa mente. São as utopias, grandes ou pequenas, que mais tarde ou mais cedo se vão como o vento!

…já no campo alimentar recordo o castelo da melancia, que correspondia à parte central desse fruto. É um termo que trago da minha infância e que era muito desejado por ser o mais doce e não ter pevides.

…curiosa, é também a ideia da clara de um ovo ter potencial para virar castelo, dando origem às famosas claras em castelo, aquelas construções de consistência espumosas e efémera existência que são o segredo de muitos doces e preciosas na pastelaria.

..novidade para mim, foi descobrir recentemente a existência dos termos náuticos castelo de popa e o castelo de proa, que referem zonas localizadas respectivamente nas traseiras e na frente de uma embarcação.

…em Portugal, a palavra castelo, tem ainda o potencial de emprestar o seu nome a muitos aglomerados populacionais de dimensão variada. Temos por exemplo as cidades de Castelo Branco e de Viana do Castelo, assim como as vilas/aldeias de Castelo de Paiva, Castelo Rodrigo, Castelo de Vide, Castelo Melhor, Castelo Novo, Castelo Bom, Castelo Mendo, entre muitas outras que agora não recordo. Entra igualmente no nome de uma das maiores barragens do país, a de Castelo do Bode, localizada no centro de Portugal.

…e por herança familiar, a palavra castelo é ainda apelido de muitos portugueses e provavelmente de pessoas oriundas de países de expressão portuguesa.

Porquê este divagar, perguntarão?

Porque hoje é o Dia Nacional dos Castelos.

E não desfazendo no significado deste dia no conhecimento e preservação dessas estruturas históricas ou o quanto aprecio “conquistar” mais um esteja ele onde estiver, também adoro este jogo de explorar uma palavra em todas as suas vertentes e possibilidades.

E hoje foi o dia de castelo!

experimentações #26

Um pouco em simultâneo com os desenhos que partilhei nos últimos posts, esses ainda realizados em folhas soltas, comecei em 1992 a utilizar blocos como base de anotação de sentires, pensamentos/poesias, mas também de desenhos, recortes, colagens, etc,.

Funcionaram como uma espécie de diário gráfico onde materializava o que me sensibilizava, as emoções que me trespassavam, mas também os sentires sobre o que acontecia no mundo ou sobre manifestações culturais a que assistia. Uma heterogeneidade de modos de expressão que, de certa maneira, funcionaram como um escape num tempo que não foi linear nem fácil na minha vida

Apesar de muitas das folhas desses blocos não estarem datadas, algumas contêm essa referência, o que possibilita uma localização mínima no tempo, mesmo que não seja no dia certo.

Neste e no próximo post desta série, irei partilhar algumas páginas do primeiro desses blocos, datado de 1992. Além de ser o “primogénito”, exteriormente é o mais bonito, o que lhe concedeu um valor acrescentado nesta “colecção” de registos.

(Dia do tiroteio no cemitério de Santa Cruz, em Timor Leste)
Já não recordo a origem destas palavras/frases, daí não poder mencionar o autor/ fonte
Depois de ver uma exposição da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015)
E após uma ida ao teatro ver uma peça baseada na obra do artista Hieronymus Bosch
Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel) 

a busca

Neste percurso pela Vida, é importante que tentemos descobrir, desenvolver, valorizar e partilhar aquele detalhe, capacidade, talento ou característica especial que é apenas nosso e que nos torna únicos. Aquele detalhe que é a nossa impressão digital interior.

Ele está em nós, mais ou menos visível, mais ou menos consciente, mais ou menos amedrontado…

Pode ser um trabalho para toda a Vida, pois teremos que lutar contra barreiras, especialmente contra as barreiras interiores como a preguiça, a falta de confiança, o desanimo ou o cansaço dos dias.

Porém, a Vida merece essa procura e esse esforço.