experimentações #29

Uma mudança de século talvez seja a forma mais intensa de sentir que o tempo está a passar pelo mundo e por nós. Nessa perspectiva, a passagem para o séc. XXI teve impacto em mim…abanou-me…levando-me a questionar sobre várias vertentes da Vida.

As respostas foram diversas em função das áreas, mas negativa relativamente à minha vertente criativa, pelo que senti que teria que fazer mudanças.

Sabia que não poderia arranjar “obrigações” e, fosse qual fosse o projecto deveria ser algo com princípio, meio e fim de modo a sentir alguma compensação pelo esforço. Nessa altura, para além das obrigações familiares e do emprego ainda fazia trabalhos extra, sendo o tempo livre quase inexistente. Por tudo isto sabia que necessitaria de muito tempo e muita calma para avançar.

Surgiu-me então a ideia de elaborar um livro, com texto e desenhos, centrado nas férias de 2001 que decorreram entre Portugal e Espanha. Nesse ano eu estava com 43 anos, um número que desde criança sempre apreciei e que se revelou na altura um incentivo a avançar.

Partilho convosco a introdução que escrevi nesse livro:

A melhor viagem é aquela em que nos propomos explorar o nosso interior e as nossas capacidades”

Há momentos em que nos surge a vontade ou necessidade de deixar uma marca, um sublinhado, neste livro que vamos escrevendo momento a momento e que é a nossa vida.

Assim como há palavras e frases que não podem ser esquecidas, há momentos que têm de ficar presentes de uma forma diferente e objectiva. Talvez por isso o desejo de “lhes tocar”, de os materializar, como se a memória só por si não fosse suficiente para os recordar.

43 anos!

Uma idade em que preciso de deixar essa marca!

Talvez porque gosto do número, talvez porque me sinto relativamente em paz comigo, talvez por ambos os factos. Apenas sei que o terei de fazer de uma forma minha, íntima, intimista, como se um filho da minha sensibilidade tivesse que nascer.

Preciso de reencontrar essa sensibilidade, sentir que a tenho. Ela tem andado perdida entre muros de rotina, de trabalho, de falta de disponibilidade e de um tempo que eu não consigo agarrar.

Sinto que estas férias, as férias dos meus 43 anos, são um desses momentos. Porque as férias são um tempo em que a vida e o prazer estão a par e em que tudo se torna diferente: os olhos vêem de outra forma, a ternura é mais doce, a natureza mais verde e bonita e todos os pormenores têm um sentido…o sentido da nossa disponibilidade!

Talvez seja o momento certo.

Vou tentar…

Terminado o livro, decidi que também a encadernação deveria ser caseira, mesmo que básica, pois não tinha sentido colocar uma lombada mecânica ou afins em algo tão pessoal.

O resultado é o que hoje partilho convosco, seja o seu exterior (primeira imagem), sejam algumas páginas do seu interior.

A sua concretização revelou-se importantíssima e um forte incentivo a continuar.

O poema que está ao lado da fotografia desta ultima imagem intitula-se A um Girassol e pertence ao poeta chinês Li Bai (séc. VIII d.C). Está integrado no livro A Religião do Girassol, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga e editada pela Assírio & Alvim em 2000.

32 thoughts on “experimentações #29

    1. Muito obrigada pela apreciação.
      Não, nunca senti necessidade de editar seja de que forma for o que tenho feito ao longo da Vida. Partilho estes meus “filhos” com a família, com os amigos e agora vou partilhando aqui no blog também. Isso basta-me.
      Desejo um excelente dia!

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    1. Tudo o que é feito a partir da alma, revela geralmente coerência. E este livro, importantíssimo naquele momento da minha vida, foi o fiel de uma balança que eu precisava de equilibrar.
      Muito obrigada pelas palavras e desejo uma boa semana!

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    1. Ainda hoje tenho uma predileção por esse número. E foi ele, sem dúvida que me catapultou para este desafio. O verde é também a minha cor preferida, razão que me levou a procurar um papel desse tom para o encadernar.
      Obrigada Filipa e agradeço a presença e apreciação.

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      1. Que engraçado Dulce! Nunca tinha pensado nisso mas, graças a si, dou por mim a pensar que foi pouco depois de ter feito 43 que decidi criar o blog. Apesar de uma notícia muito dolorosa, os 43 anos foram mágicos! A encadernação é linda! 💚

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    1. Realmente legado artístico desta mãe é coisa que não vai faltar aos meus filhos quando chegar o momento daquela grande Viagem que nos espera a todos!✨
      Muito obrigada.

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    1. Sim, a partilha irá continuar…ou não seja esta Vida um “campo de experimentações”!!
      Bjs e obrigada por estares presente e ires acompanhando o Discretamente.
      Boa semana!

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  1. Que bonito Dulce, realmente bonito. Não apenas pelo talento expresso em cada página, mas também porque a obra parece ser fruto de várias emoções, sentimentos, vivências…e porque seja pelas imagens ou pelas palavras sente-se doçura nessas páginas. Obrigada pela partilha. 😊

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    1. Como a Antónia bem sabe, qualquer viagem é sempre uma emoção, mesmo que seja a um qualquer recanto deste nosso belo país. Creio que este livro guarda não só esse tipo de emoção associado à descoberta de novos lugares e às férias no geral, mas também as emoções associadas à sua construção, momento a momento, olha a folha, dia a dia, etc.
      E é também uma emoção decidir neste momento da minha Vida partilhá-lo para além do pequeno circulo de pessoas que o viram.
      Muito obrigada pela apreciação.

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  2. Parabéns Dulce, adorei!
    Fiquei com vontade de folhear…mas senti os aromas, e senti a forte presença das emoções.
    Deliciada com as imagens!
    Muito obrigada pela partilha e desejo-lhe um ano de 2022 recheado com tudo o que há de melhor.
    Um abraço 🌻

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    1. A sensibilidade tem que ser “alimentada”, no sentido de haver oportunidades de se manifestar. Por vezes a rotina, o trabalho e os dias deixam-nos tão empedernidos que quase nos “esquecemos de olhar e sentir” o que de belo nos rodeia ou o que temos dentro de nós.
      A partir do momento em que nos dispomos a estar atentos, tudo flui e entramos num crescendo de sensações. Aí pode aparecer a inspiração/criatividade nas milhentas formas que a sensibilidade tem de se manifestar. Ou nada acontecer simplesmente e apenas sentir.
      Muito obrigada Silvana, e desejo um excelente 2022 para si e para os que lhe são queridos.

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  3. Thank you for sharing this important book with us. It’s beautiful! I remember what it’s like when you’re in your 40s and drowning in an endless sea of obligations. Something like this is an incredible gift to give yourself at a time like that. Your paintings reveal that you had not lost your sensitivity at all, it was just waiting for a little air, to breathe again. I love the map, the blackberries, those rounded rocks and the final page with the sunflower – that one shows your sense of humor and spirit.

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    1. Sorry, I just now noticed that I didn’t respond to this comment. I like this idea of ​​”you had not lost your sensitivity at all, it was just waiting for a little air, to breathe again”.
      It really was that, today I understand it as natural, perhaps because the confidence in myself is more consistent. But there were many times when I felt “insensitive” and incapable. Today I know that I just didn’t have time to be with me… and with my sensitivity. I think I’ve grown a little…
      Thank you.

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