educar…

Deveria ter escrito e publicado este post antes do Natal para estar no timing certo. Porém, apesar de isso não ter sido possível decidi não abandonar a ideia uma vez que se refere a um tema sempre actual como é a relação pais/filhos e a educação que consciente ou inconscientemente vamos dando aos nossos descendentes.

Antes do Natal passou pelos ecrãs dos canais de televisão uma longa publicidade da operadora de telecomunicações NOS, associada ao início em Portugal da nova tecnologia 5G. Não a encarei como uma publicidade qualquer, mas como algo que me entristeceu e que me deixou a pensar sobre a educação e valores que estamos a incutir nas nossas crianças. Dias depois o filme deixou de ser dado na totalidade mas apenas partes ou imagens a ele associadas.

Nessa publicidade, uns pais bastante criativos tudo fazem para proporcionar à sua filha um boneco de neve, algo que era o seu grande desejo. Não havendo neve, eles constroem com todo o empenho e carinho vários bonecos em materiais diversos, tentativas que a criança ignora com insensibilidade e sem qualquer agradecimento, mantendo uma expressão fria e de indiferença perante todo o esforço e desilusão dos pais. A felicidade apenas surge naquele rosto com a oferta de uns óculos de realidade virtual que a transportam para o meio da neve e para junto de um boneco de neve…virtual.

Eu sei que o objectivo de qualquer publicidade é vender. Vender produtos, tecnologias e até formas de pensar. Sei ainda que pertenço a uma geração que está em vias de extinção pelo facto de ainda estar muito orientada para as artes manuais, apesar de não ignorar e utilizar diariamente tecnologias. E tenho consciência que na actualidade as mãos estão essencialmente direccionadas para teclados, ecrãs tácteis, botões, etc.

No fundo, sei que as mentes estão demasiado orientadas para virtualidades. Mas a verdade é que há muitos valores que não são virtuais. Não concebo que as tecnologias aniquilem valores associados à gentileza, ao empenho, ao agradecimento, à boa educação, à criatividade etc. já para não falar nas capacidades manuais do ser humano, algo que realmente o distingue dos restantes animais.

Não podemos educar as nossas crianças dando-lhes tudo o que querem ou fazendo quase o impossível por lhes agradar e, no final, aceitar naturalmente a sua arrogância e indiferença porque não era aquilo que desejavam. E continuamos a dar, a dar e a dar.

O que mais me incomodou é que aquela publicidade e aquela falta de valores foi vista em Portugal por milhares e milhares de crianças durante dias. O que passou certamente para muitas é que com a sua indiferença podem “manipular” os pais, que tendencialmente tudo fazem para agradar aos filhos e os ver felizes. E que, com comportamentos de certa forma disfuncionais, têm a possibilidade de obter tudo o que desejam…

Nenhuma tecnologia deve neutralizar ou aniquilar valores de respeito e gratidão pelo empenhamento e esforço dos outros. Ou pelo trabalho manual. Pensemos um pouco nisto e nos reais valores que estamos a transmitir aos que nos seguem. As virtualidades podem ir “absorvendo” esta sociedade, mas não podemos deixar de incentivar as nossas crianças a valorizar com respeito tudo o que nasce da criatividade, do empenhamento, do esforço e desta fantástica ferramenta que são as mãos humanas.

As nossas e as dos outros.

(A imagem inicial é uma decoração com o molde da mão do meu neto e foi-me oferecido neste Natal pelos seus papás. Uma pequena oferta familiar que muito apreciei como recordação, mas especialmente pelo seu significado, não só por valorizar o “poder” da mão mas também por ser um objecto que resultou da criatividade e do trabalho manual.)

24 thoughts on “educar…

  1. Não conhecia o anúncio mas fui procurar, e não poderia estar mais de acordo. Tem havido, parece-me, progressivamente, um maior cuidado com algumas questões nos anúncios publicitários, mas depois vemos isto e ficamos tristes. Uma empresa daquela dimensão tem obrigação de ter o cuidado acrescido de promover valores basilares da sociedade e boas práticas. Louvo o texto da Dulce, a crítica tão pertinente.

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    1. Pessoalmente incomodou-me bastante. E fico grato por saber que a Antónia concorda, porque sendo nós da mesma geração (ou quase), os valores que nos regem são bastante semelhantes.
      Muito obrigada por ir procurar esse filme e partilhar aqui o seu sentir.

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  2. Eu, que quase não vejo televisão, vi esse anúncio e achei estranhíssimo, quase aterrador… Eu não tenho medo da tecnologia, sempre lidei com ela há muitos anos, o problema não é da coisa, mas do uso. Na porta do meu vizinho em frente, está uma criação lindíssima de Natal, feita artesanalmente pelas crianças da casa. É preciso que as duas coabitem e se complementem.

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    1. É realmente importantíssimo que trabalhemos para essa coabitação. Foi isso que me fez escrever o post. Sabemos que o mundo avança, as tecnologias ainda mais, mas não podemos permitir que isso anule o potencial criativo e os valores que alcançamos e que nos fazem ser únicos.
      Ainda bem que persistem os pais criativos e que transmitem isso aos seus filhos!
      Muito obrigada Guida e desejo uma boa semana.

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  3. Concordo com o seu texto, Dulce.
    Sei e visualizei algumas vezes o anúncio publicitário, tal era a frequência com que passava, e de facto não abona em nada os valores base de uma educação equilibrada.
    Já agora, adorei o presente que os pais do seu netinho Vasco lhe ofereceram.
    São os melhores presentes….
    Valorizo bastante estes pequenos miminhos e posso lhe dizer que ainda guardo muitos, mas mesmo muitos trabalhos do meu filho, agora um homem, sendo visualizados algumas vezes em família e é muito enriquecedor.
    Desejo-lhe uma boa noite e uma boa semana!

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    1. Obrigada Fernanda pelas suas palavras e por nos lembrar como as memórias nascidas das mãos e que se guardam naquele lugar especial são tão importantes. Porque são reais e não virtuais. Porque tocam na pele e não se perdem na efemeridade do olhar.
      Desejo igualmente uma boa e tranquila semana!

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    1. E verdade Cris, investir na educação das crianças que serão os pais do futuro…e também na “educação” dos pais de hoje, que muitas vezes não percebem qual é a sua missão ou os exemplos que devem dar.
      Muito obrigada e desejo uma boa semana.

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  4. Muito e oportuno esse comentário. Precisamos resistir à inversão de valores que se mostram essenciais na formação dos menores. A sanha comercial é uma lástima. Parabéns pelo inteligente protesto!

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    1. Muito obrigada pelo comentário e por compreender o sentir que me levou a escrever o texto acima. Sim, no fundo é a minha forma de protestar e de alertar.
      Desejo uma boa semana.

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  5. Pensei exactamente o mesmo quando vi o anúncio… e concordo com tudo o que escreves. Acho que ser publicidade não é desculpa.. Ainda para mais no Natal, época em que os valores deviam ser realmente outros. Enfim… pode ser que a NOS tenha aprendido alguma coisa, porque sei que houve muitas críticas em relação a este anúncio. (Adorei a fotografia… a força do Amor e do trabalho manual <3)

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    1. Nem sabes como fico contente por saber que houve muitas críticas ao anúncio, pois isso significa que esses “muitos” sentiram o mesmo que eu! E também significa que ainda não vale tudo no campo da publicidade!
      E agradeço mais uma vez a vossa ideia e a manufatura do pendente. Acho delicioso!
      Bjs de mãe🧡

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  6. I’m glad you did not abandon the post – the ideas in it are too important. It’s frightening, the way that children are living more and more on screens, less and less in the physical world. They may grow up with great hunger for physical experiences. It’s also sad that parents think their role is to give everything to their children, and that children think they should have everything. The little Christmas ornament is a nice example of different values. Thank you for taking the time to express your reaction to that ad, Dulce.

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    1. There are topics that require a little more reflection and availability, something that is difficult before Christmas…
      But I really thought I should explore it, since I continue to be an “educator” (now much more indirectly with my grandson), but it is necessary to remain alert so that the cleavage between nature/human values ​​and technologies does not become too accentuated.
      Glad you enjoyed it and thank you for commenting!
      I wish you a happy day!

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      1. I see that disconnect all the time – I feel sorry for children who don’t run barefoot in the grass – and I see people desperate to be outdoors because they know they’re missing something. I’m glad you’re showing your grandson a middle way. 🙂

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  7. Educar surge da ideia de pegar nas mãos e guiar por elas… Eis que a tecnologia, está a fazer este papel pedagógico? É cada coisa que vemos neste mundo tecnológico! Está a acontecer muito rápido.

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    1. Creio que está a acontecer demasiado rápido. De qualquer forma cabe aos pais “educarem-se” sobre os valores realmente importantes para depois educarem os filhos de uma forma equilibrada.
      Educar actualmente é difícil, reconheço. Em todos os aspectos. Mas creio que é algo que em todas as épocas é sempre um desafio.
      Contudo, ainda bem que agora sou apenas uma avó…mas uma avó daquelas que impõe respeitinho!
      Muito obrigada e desejo um bom dia.

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