virgílio ferreira

Por norma prefiro lembrar/recordar alguém tendo por base a sua data de nascimento e não a do seu falecimento. Permite-me uma perspectiva mais luminosa. Hoje de manhã porém, ao virar a página do almanaque Borda d’água para o mês de Março, verifiquei que neste primeiro dia se invoca a morte de Virgílio Ferreira (1916- 1996), um escritor e professor português que deixou uma vasta obra para a posteridade.

E pensei “Curioso, ainda não o levei a passear ao Discretamente! Hoje será o dia!”

Fui então à prateleira onde tenho alguns dos seus livros e tirei o que seria mais simples de partilhar pois, sendo de pensamentos, quando o li marquei lateralmente a lápis aqueles que mais me agradaram.

Passei os olhos pelas suas páginas e logo surgiu a dúvida sobre o que escolher, dada a diversidade e a dimensão dos excertos com anotação. Decidi de imediato que optaria apenas pelos mais curtos – no máximo com cinco ou seis linhas – o que à partida reduziu bastante o leque de possibilidades.

O livro em causa tem por título Pensar, é composto por 677 textos/pensamentos com um número de ordem associado a um indíce remissivo e foi terminado em Maio de 1991, portanto cinco anos antes do falecimento do autor. Este exemplar que possuo é uma 3ª edição da Livraria Bertrand, datado de 1992 e tem uma complexa introdução do próprio Virgílio Ferreira a que deu o titulo “Do impensável”

Certo é que a maioria destes pensamentos, concordando nós ou não com eles, sempre nos levam a pensar!

  • Não penses que a sabedoria é feita do que se acumulou. Porque ela é feita apenas do que resta depois do que se deitou fora. (32)
  • Entra pela janela o rumor da avenida. E do parque entre os prédios, um músico ambulante toca o seu saxofone. É um som volumoso, oco, tem no final vibrações melodiosas. É uma música nostálgica, de uma lentidão genesíaca. E a toada sobe por entre o rumor do tráfego. E paira ao alto como uma estrela. (42)
  • Chora aos berros como as crianças até te estafares. Verás que depois adormeces. (56)
  • Disseste ou escreveste muitos milhões ou muitos milhares de palavras. E deve haver nessa nebulosa uma estrela que seja tua. Não o saberás nunca. (73)
  • A razão é um elástico. Vê se consegues não a esticar muito para não rebentar. (92)
  • Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima. (134)
  • Falar alto para quê? Poupa as forças, fala baixo. Poderás talvez assim ser ouvido ainda, quando os outros que falam alto se calarem de estoirados. (146)
  • Sol bonito, deixa-te estar. Andaste nestes dias todos na vadiagem nefelibata, vieste enfim. Não te vás. Sol português, tens as tuas obrigações para com a nossa identidade nacional, não nos deixes à mercê de um polícia que nos pilhe sem identificação. E ficas bem, deitado no tapete como um cão luminoso…(202)
  • A luz, o mar, o vento. E as flores, os animais, a vida inteira. Não te apetece gritar? Explicar tudo isso num grito? Num excesso do excesso? (244)
  • O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo. (337)
  • Não ouças só as palavras que ouvires, ouve-lhes também o silêncio, se o tiverem. Porque há tanta variedade de silêncio. O da cólera, da expectativa, do êxtase, da ameaça, da suspeita, de. Ouve. Ele te dirá decerto mais do que as palavras, que são só a sua manifestação, a face do seu aparecer. Mas há silêncios que não têm aparecer. Ouve, atende. São os que não cabem nos dicionários do mundo. Não tentes dizê-los. O mistério não se diz. (354)
  • O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos – é não termos já mesmo perguntas. (403)
  • Não te queixes muito da rotina. Ela é o sucedâneo, mais à mão, da eternidade. (429)
  • Há uma criança em ti que te acompanha sempre. Mantém-na em disciplina para não cometer disparates. Mas não te envergonhes muito dela, atende-a de vez em quando. Porque quando ela te não acompanhar, só já te resta morrer. (443)
  • Pois, A emoção é decerto uma forma de se subir mais alto. E quando se cai, de se cair de mais alto. Aprende a serenidade. Porque mesmo que caias, não te magoas tanto. (454)
  • Quantas pessoas te amaram? Quantas amaste? O afecto é a melhor forma de saberes o tamanho da tua vida. Ou seja, do até onde exististe. Haverá outro balanço para saberes se ela valeu a pena? (471)
  • Não há amor como o primeiro, mesmo que esse primeiro seja o último. (483)
  • Num quarto escuro não se pode ver nada. Não o digas. Sê humilde e responsável. Num quarto escuro podes ver a escuridão. (509)
  • No amor nunca os pratos da balança estão equilibrados. E como a essência do amor é etérea, quem pesa mais é quem ama menos. (671)

O último pensamento deste livro (677) resume bastante bem a dinâmica e o questionar do autor sobre o seu próprio pensar:

  • Minha imaginação doente. Meu pensar de loucura. Porquê a obsessão de entender o que não tem entendimento possível? Porquê a obsessão de ter de haver uma resposta, apenas porque houve uma pergunta? Todo o entender é no impossível que tem o seu limite. Mas o impossível é a medida do homem e da sua vocação. Aí sou. Aí estou.

Este não é um post fácil nem linear. Tal como a Vida e o Pensar também não o são!

Imagem retirada de   https://cm-sintra.pt/todas-as-noticias-arquivo/100-anos-do-nascimento-de-vergilio-ferreira

 

Advertisement

dar vida

A maioria das pessoas que me acompanha na blogosfera terá mais de 45 anos, a idade limite, pelo menos em Portugal, para se ser dador de medula óssea. Os que ainda não chegaram a esse marco poderão sê-lo, bastando um simples teste ao sangue para saber se estão em condições de integrar a lista universal de dadores.

Através de uma amiga chegou-me às mãos um vídeo publicado recentemente por um jovem de 23 anos, o Simão Correia, que precisa de um dador compatível para tentar ultrapassar a sua grave doença. Decidiu não desistir e tem utilizado toda a sua energia e as redes sociais, nomeadamente a sua página no instagram, para partilhar o que está a passar e sensibilizar as pessoas a serem dadores de medula.  Nesse vídeo, para além da sua enorme força ele revela também os seus excelentes dotes musicais.

Curiosamente, a amiga que me enviou isto, passou ela própria por um processo semelhante. Numa das mensagens que trocamos, ela escreveu;

  ….e eu só quando me aconteceu fiquei mais informada…e beneficiei dum gesto de um qualquer cidadão americano que, mais informado que eu, se inscreveu como dador na sua terra…eternamente grata…

A maioria de nós não tem a obrigação nem a capacidade de fazer algo suficientemente importante que pontue a história do mundo. Nem ambiciona isso certamente. Mas poderemos eventualmente ser marcantes na vida de alguém e, dessa forma, humildemente contribuir para o mais importante: permitir dar continuidade a uma vida!

A minha amiga foi um caso de sucesso. Foi difícil, mas hoje está bem. Para o Simão Correia, como não poderia deixar de ser, desejo sucesso igual. A ele e a todos os que estarão em situação semelhante em muitos lugares do mundo, esperando e desesperando por um dador compatível.

Passei pelos 45 anos, ou seja pela possibilidade de ser dadora há quase vinte. Hoje lamento não ter estado suficientemente informada e sensibilizada sobre esta realidade. Foi uma oportunidade perdida.

Por isso, caso tenham entre 18 e 45 anos, dêem o vosso contributo. Se não estiverem nessa faixa etária estimulem os mais novos a fazê-lo. Porque alertar também é importante.

Obrigada Augusta, pelo teu importante contributo neste post! Um abraço!🤗🌼

E a todos os que o lerem, desejo um bom e saudável fim-de-semana!

Imagem retirada do site https://www.nit.pt/tag/simao-correia
Creio que apenas quem tem Instagram poderá ter acesso ao link acima com o video do Simão e com a sua bela forma de pedir que o ajudem. Se não conseguirem, creio que uma pesquisa na net ou nas redes sociais poderá permitir à sua visualização.

kit com vida

Cada nascer de dia é um momento único e cada instante das vinte e quatro horas que se lhe seguem uma surpresa em todo o seu potencial. A tendência geral é a de cada instante ficar pela neutralidade/indiferença, mas são livres de oscilar e de se manifestar entre extremos, sendo um desses pontos a tragédia.

Ou seja, as tragédias ocorrem quando menos se esperam. Mais ou menos naturais, podem alterar toda a nossa vida ou ser capazes de transformar a vida de milhares de pessoas, como é o caso dos recentes tremores de terra ocorridos na Turquia e na Síria. Desta vez foi ali, mas um dia pode ser connosco.

Todos sabemos que Portugal tem um historial de grandes terramotos e que vivemos numa região com predisposição para esses eventos. É por isso conveniente que estejamos minimamente preparados e que uma certa racionalidade se sobreponha ao medo e ao pavor que estas situações-surpresa sempre nos suscitam só em pensamento.

Para que estejamos mais conscientes dessa vulnerabilidade que nos envolve, basta seguir com atenção a actividade sísmica disponibilizada no site do IPMA, para percebermos a quantidade de pequenos sismos que diariamente acontecem, apesar de, no geral, não serem por nós sentidos. Há quem diga que esses pequenos abalos são benéficos pois permitem uma dispersão de energia. Seja assim ou não, estamos sempre sujeitos a que aconteça um evento de maior dimensão.

Gostaria por isso de partilhar um artigo publicado recentemente no site da DECO PROTESTE – a mais importante organização portuguesa associada à defesa do consumidor – onde de uma forma muito objectiva se enumera o que deve constar de um kit de sobrevivência/emergência e o que será essencial em caso de uma catástrofe natural.

Essa listagem/ dados práticos estão aqui e valem uma leitura atenta.

Pessoalmente ainda não tenho uma mochila pronta para uma emergência, mas muito em breve tratarei disso. Espero nunca precisar de a utilizar… mas, mais vale prevenir do que remediar. Além disso as terríveis imagens que nos têm chegado nos últimos dias, creio que justificam toda a prevenção e objectividade.


Nesta espécie de “roleta russa” que é a nossa existência…. aproveitemos mais conscientemente os instantes, os momentos, as circunstâncias ou a companhia dos que nos são queridos, assim como as belezas ou os detalhes que o olhar sente e o coração consente.

Aproveitemos esta Vida que nos anima e que generosamente se renova em cada instante… e em cada nascer de dia!

Que seja um bom e bem aproveitado fim-de-semana para todos!🤗

 
Imagem inicial captada hoje ao nascer do dia e a imagem do kit retirada de
https://www.deco.proteste.pt/casa-energia/condominio/noticias/como-preparar-kit-sobrevivencia-fazer-caso-sismo

eugénio de andrade

Neste dia em que se comemora o centenário do nascimento do escritor Eugénio de Andrade (José Fontinhas /1923-2005), não posso deixar de o referir no discretamente uma vez que gosto bastante da generalidade da sua obra.

Muito se falou hoje sobre ele nos meios de comunicação nacionais, pelo que não me irei alongar. Pretendo apenas partilhar alguns poemas, neste caso seleccionados de um dos livros da sua autoria que tenho e que tirei ao acaso da estante. A sorte recaiu em Obscuro Domínio, uma edição da Editora Limiar datada de1986. Qualquer um dos outros seria também uma boa opção, pois todos têm poemas que gosto.

Espero que apreciem!

O SILÊNCIO

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

ARTE DE NAVEGAR

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e a minha mão marinheiro.

NAS PALAVRAS

Respiro a terra nas palavras,
no dorso das palavras
respiro
a pedra fresca da cal;

respiro um veio de água
que se perde
entre as espáduas
ou as nádegas;

respiro um sol recente
e raso
nas palavras
com lentidão de animal.

PLENAMENTE

A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave

e cantar.

VAGUÍSSIMO RETRATO

Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser –

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

EM LOUVOR DO FOGO

Um dia chega
de extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem,
a púrpura das naves.

O vento,
onde tenho casa
à beira do Outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde.

Na extrema e lenta
doçura da tarde.

 ESTRIBILHOS

No interior da música

o silêncio
que regaço procura?

Que interior é esse

onde a luz
tem morada?

E há um interior,

assim como o caroço
dentro do fruto?

E como entrar nele?

É como num corpo?

ENTRE DUAS FOLHAS

Encostado à noite
sobe de mim
a haste
que recusa a flor
e procura um pássaro
para amanhecer –

o trigo é alto
e entre duas folhas
pode-se morrer.

(A imagem inicial  é parte integrante do artigo da autoria do jornalista Pedro Dias de Almeida editado ontem (18(01/23) na revista online Visão Se7e)

coisas pequeninas

Luisa Sobral é uma cantautora portuguesa que se rege pela simplicidade e onde se sente um bater de coração em tudo o que faz. Para além de ter sido a autora do tema cantado pelo seu irmão Salvador Sobral e que permitiu a Portugal em 2017 vencer o Festival da Eurovisão, tem vários álbuns editados com temas carregados de emoções, alguns com dedicatória aos seus filhos e direccionados para um publico mais infantil.

Ao seu estilo, sempre nos alerta para aquilo que vale realmente a pena enquanto seres humanos, para o valor das emoções, o amor que a vida merece, o respeito, mas também para aquele gesto de nada que pode ser tanto no nosso dia-a-dia. É nessa linha que no final de 2021 editou um tema intitulado

Terça-feira (coisas pequeninas)

que já ouvi várias vezes no rádio e que integra o álbum Camomila composto de sete canções de embalar, cada uma dedicada a um dia da semana.

Neste desvario dos dias, das emoções pessoais, das notícias do mundo ou de uma guerra que tanto nos doi… deixemo-nos embalar por algumas das imensas “coisas pequeninas” que animam a vida, a ternura dos dias e que, sem darmos por isso, esquecemos amiúde de apreciar devidamente.

Este post associado a um momento de embalar está um pouco relacionado com a circunstância do meu neto Vasco ficar connosco quatro dias /três noites, uma estadia com uma duração bem acima da média. É nosso desejo que corra bem, mas não deixa de ser uma experiência diferente e um novo sentir para nós, para ele e especialmente para os pais, bastante necessitados de um descanso.

Entre instantes de deleite e outros eventualmente menos simples, vou vivenciar de coração aberto os momentos, os passeios, as brincadeiras, a ternura, os abraços…mas também alguma birra que possa surgir ou as três noites pior dormidas que provavelmente me esperam.

Tudo faz parte das emoções da Vida…sejam elas mais doces e “pequeninas”, sejam elas mais intensas, dolorosas ou exigentes!

Bom fim-de-semana!🌞

a palavra dos outros

Há alguns anos ofereceram-me estes dois livros de poesia de um autor que então desconhecia. Os seus títulos, extremamente belos e sugestivos, logo me encantaram ainda antes da leitura.

Gosto imenso da simplicidade como Carlos Frias de Carvalho descreve o que o sensibiliza ou imagina, mas sobretudo a forma como relaciona todo esse sentir com a natureza e os seus elementos

São vários os livros que este autor tem editados, a maioria com títulos igualmente atraentes como é o caso de No vôo do silêncio, No Umbral da sombra ou ainda Por vezes prende-me um verso.

Partilho hoje alguns poemas deste autor, esperando que os apreciem tanto como eu.

Do livro Espelho de vento, editado pela Arcádia com chancela da Babel (2013)

ave do tempo

pudesse eu ser
num só momento
linha do céu
ave do tempo

aragem

levas apenas
vogais redondas
aromas de ar

tudo tão perto
quase ao alcance
de um breve olhar

fio de aragem

às vezes basta
um fio de aragem
para uma flor
ser a viagem

pelo sítio mais tangível

pelo sítio mais tangível
do meu ser
passaste

e sem pousar
deixaste
a alma a estremecer

o trilho do poema

só no vento
eu invento
talvez o trilho

do poema
que me foge
antes do tempo

E do livro Luz da água, também editado pela Arcádia com chancela da Babel (2010)

cicatriz da água

na penumbra dos teus olhos
há uma cicatriz da água

a flor do musgo
aberta
nas dobras do silêncio

a luz da nascente


no canto
eu pressinto

a luz
que brota
da nascente

o mar dos teus olhos

bebi o mar nos teus olhos
sem saber que ali nascia
todo o esplendor

– que em tua boca
eu morria
só por amor

no espelho de água

no espelho
de água
me revia
noite e dia

em cada onda

à luz do dia

na flor
mesmo aberta
se escondia

o amor
que só desperta
à luz do dia

Antes de terminar, gostaria ainda de partilhar alguns dos desenhos de extrema simplicidade incluídos neste ultimo livro. São da autoria do artista plástico José Lourenço e creio que formam uma bela parceria com o “minimalismo” presente nos poemas deste autor.

palavras encontradas

É raro o dia da semana em que não subo a grande escadaria que liga a Av. 24 de Julho ao Largo 9 de Abril em Lisboa, sendo este último espaço ocupado pelo acolhedor jardim que fica entre o Museu Nacional de Arte Antiga e a Sede da Cruz Vermelha Portuguesa. São cento e tal degraus que normalmente imponho a mim própria subir com algum ritmo a fim de fazer um pouco mais de exercício e estimular o ritmo cardíaco.
Pontualmente faço-o com mais calma, seja para apreciar a vista sobre o rio, por estar mais cansada, ou simplesmente porque me apetece ir devagar e olhar… olhar…e olhar…

E foi num desses dias mais tranquilos que me apercebi de uma frase escrita no lancil de um degrau. E depois de outra, lá mais à frente. Então no dia seguinte, com o interesse bem desperto e de máquina fotográfica na mão, calcorreei os três lances duplos que compõem esta grande escadaria com o intuito de encontrar outras frases. E encontrei, não sei se todas, pois na verdade são pequenas e estão discretamente colocadas. E algumas estão repetidas.

Desconhecendo há quanto tempo ali estariam, logo me questionei sobre a sua resistência (ou efemeridade) perante a água da chuva. Dias depois tive a resposta ao verificar que se mantinham íntegras após a passagem de um forte temporal sobre Lisboa. Actualmente estão apenas um pouco desbotadas e uma delas foi vandalizada/raspada, estando ilegível.

Obviamente que a fase seguinte foi procurar a sua origem. Conclui que @voz_carmesim é a “voz” de uma poeta que se chama Mari e é oriunda de S. Paulo, Brasil. Reside em Lisboa e no Instagram descreve-se como “Poeta com sede de gente e fome do mundo”.
No seu site é possível saber um pouco mais e ainda que intitula a sua poesia como quântica.

Eu não sei o que é “poesia quântica”… e sou extremamente crítica dos graffitis absurdos que abundam por aí… mas adorei a ideia de encontrar estas frases no chão daquela escadaria de todos os dias.

Se a ideia só por si já é poética…seja por ser inovadora, discreta ou simplesmente pelo gesto que lhe deu origem, estas frases foram sentidas por mim como pequenos tesouros escondidos e descobertos…como aqueles ovos que as crianças encontram na época da Páscoa…

E gostei especialmente de imaginar o momento em que foram ali depositadas. Em que uma mulher segurando um marcador waterproof se deliciou a escrever em recantos desta enorme escadaria, frases poéticas e intemporais……mas resistentes e sobreviventes a temporais!

São encontros invulgares que aquecem os nossos dias, e sobretudo, que nos recordam a importância de sair do comum, da rotina e do previsível.

amália

Contrariamente à maioria, não sou a típica portuguesa apreciadora de fado. Gosto apenas de alguns fados e de algumas vozes. Nessa linha, existe um fado que sempre me “arrepia” quando o ouço na voz de Amália Rodrigues, por muitos considerada a melhor fadista de sempre.

Neste ano em que se comemora o centenário do nascimento desta mulher com um percurso de vida incrível e cuja voz e talento levou o nome de Portugal a todo o mundo, não posso deixar de, discretamente, fazer aqui uma referência.

Como? Partilhando o lindíssimo tema Barco Negro na sua voz, canção que tem uma história curiosa.

Na verdade ele é uma parceria luso-brasileira. A versão original data da década de 1930, intitulava-se Mãe Preta e fazia uma alusão à escravatura, como bem revela a letra que partilho abaixo. Quem lhe deu alma foram os compositores brasileiros Piratini &Caco Velho (António Amábile e Mateus Nunes).

Pele encarquilhada carapinha branca
Gandôla de renda caindo na anca
Embalando o berço do filho do sinhô
Que há pouco tempo a sinhá ganhou
Era assim que mãe preta fazia
Criava todo o branco com muita alegria
Porém lá na sanzala o seu pretinho apanhava
Mãe preta mais uma lágrima enxugava
Mãe preta, mãe preta
Enquanto a chibata batia no seu amor
Mãe preta embalava o filho branco do sinhô

 

O tema foi censurado e proibido em Portugal pelo Estado Novo. Então o poeta David Mourão-Ferreira escreveu um poema, tendo o mar e o amor por tema, para adaptar a essa belíssima composição musical. Foi assim que nasceu Barco Negro, título a que Amália Rodrigues deu voz, gravou e levou a todo o mundo.

Esta versão por Amália é apenas uma das muitas existentes e já cantadas quer em Portugal, quer no Brasil, quer noutros países. É sempre um momento musical fascinante e, sem qualquer dúvida, uma bela parceria luso-brasileira!

(Amália Rodrigues  23 Julho 1920 – 6 Outubro 1999)
(Video retirado do You Tube)

um ponto imenso

 

 

Tal como eu, que já o conheço há algum tempo, muitos de vós já visualizaram certamente este vídeo. Contudo, revê-lo de vez em quando é sempre um momento interessante porque nos relembra e recoloca no nosso devido lugar.

Cientificamente pode ter falhas, mas sinceramente creio que tal não é importante. Ele vale como um todo e pela mensagem que encerra…

…por um lado, ao recordar humildemente a nossa verdadeira dimensão e vulnerabilidade neste infinito espaço que nos cerca e, de uma forma mais indirecta, ao levar-nos a questionar o que somos, os nossos valores, atitudes e o que construímos como sociedade;

…por outro, coloca-nos perante o fantástico e maravilhoso universo que é a Vida existente na Terra, escolhendo o nosso corpo como exemplo dessa vida;

…e por último, intrinsecamente ele revela as capacidades que caracterizam o espírito humano, tendo por base a curiosidade, a criatividade, o conhecimento e a tecnologia. Sem elas, este vídeo simplesmente não existiria.

Ele é sempre uma boa viagem para o pensamento!

 

 

(Desconheço a autoria do vídeo)

 

 

 

dois dias, um sentir

 

jan 81 - mais leve

 

Sem qualquer objectivo em vista, gosto de passar o olhar pelas datas comemorativas do Calendarr para saber os eventos passados ou futuros.

Hoje, curiosamente, ele revelou-me que ontem foi o Dia de brincar na areia e que hoje, 12 de Agosto, é o Dia do filho do meio. Deliciam-me estes títulos, seja pela factor surpresa seja por chamarem a atenção para aspectos pouco comuns e aparentemente banais. Porém, talvez não seja exactamente assim…

Por um lado a areia…

…qual de nós não se envolveu ou envolve ainda com algum prazer na textura dos infinitos grãos de um areal e aí imagina/cria estranhos mundos ou efémeras construções? Brincar com a areia faz parte do nosso imaginário e do rol de sensações que se guardam nos recantos da memória e da pele. Creio que o nosso lado-criança sempre brinca na areia ao longo da vida, mesmo quando já não o faz ou nem tem areia por perto…

Por outro, aquela sensação de abandono por falta de atenção…

…quantos de nós, tendo ou não irmãos, já não nos sentimos o “filho do meio? E a sensação de ser invisível, indiferente ou quase ignorado em determinadas ocasiões pelo facto de outros, por estatuto, posição ou personalidade conseguirem captar facilmente a atenção e o olhar dos demais…

 

Ambos as datas me levam por aí…

…a sensações guardadas… a solidões sentidas….a detalhes vividos…à infância e aos areais dessa infância….aos castelos de areia…à idade adulta…a uma certa ingenuidade…talvez a tudo isso em conjunto….

Não sei.

Apenas senti que é importante relembrar.

 

 

(Desenho a lápis sobre papel, Janeiro 1981)