experimentações #26

Um pouco em simultâneo com os desenhos que partilhei nos últimos posts, esses ainda realizados em folhas soltas, comecei em 1992 a utilizar blocos como base de anotação de sentires, pensamentos/poesias, mas também de desenhos, recortes, colagens, etc,.

Funcionaram como uma espécie de diário gráfico onde materializava o que me sensibilizava, as emoções que me trespassavam, mas também os sentires sobre o que acontecia no mundo ou sobre manifestações culturais a que assistia. Uma heterogeneidade de modos de expressão que, de certa maneira, funcionaram como um escape num tempo que não foi linear nem fácil na minha vida

Apesar de muitas das folhas desses blocos não estarem datadas, algumas contêm essa referência, o que possibilita uma localização mínima no tempo, mesmo que não seja no dia certo.

Neste e no próximo post desta série, irei partilhar algumas páginas do primeiro desses blocos, datado de 1992. Além de ser o “primogénito”, exteriormente é o mais bonito, o que lhe concedeu um valor acrescentado nesta “colecção” de registos.

(Dia do tiroteio no cemitério de Santa Cruz, em Timor Leste)
Já não recordo a origem destas palavras/frases, daí não poder mencionar o autor/ fonte
Depois de ver uma exposição da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015)
E após uma ida ao teatro ver uma peça baseada na obra do artista Hieronymus Bosch
Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel) 

experimentações #25

Completam estes desenhos o ultimo post que publiquei desta série, ou seja, um conjunto de experimentações em que prevaleceu a técnica do pontilhismo.

Tal como nos anteriores, também estes revelam a vontade – mesmo que ainda inconsciente – de quebrar com algo, inovar, explorar, expandir… etc. Enfim, qualquer coisa que eu ainda não sabia bem o que era!

(Dulce Delgado, lápis de cor, aguarela e tinta da China sobre papel, 1993)

arte urbana

Sou uma apreciadora convicta da chamada street art, seja daquele detalhe tímido que se encontra num recanto, seja daquela obra de grande formato que ocupa uma empena, muro ou outro espaço com alguma dimensão.

Nesta matéria, como em quase tudo, existe o lado agradável e existe o lado menos bom. Este post centra-se no primeiro, em obras que considero de qualidade, já que há muito rabisco inscrito por aí sem qualquer interesse e que não representa mais do que ruído visual e falta de civismo.

Centrando-me no assunto do post:

Ao saber através da internet da existência do Mapa online de arte urbana da Amadora (cidade adjacente a Lisboa), resolvemos ir em busca das obras aí referidas, o que foi realizado em três incursões, já que a urbe é bastante grande e as obras muitas. Fomos fotografando o que mais nos agradou, fosse pela técnica, dimensão, imaginação ou até pelo humor.

Começando pela imagem que dá início a este post, é uma obra da autoria do artista português Sérgio Odeith e representa dois personagens da série televisiva americana Breaking Bad. Ele é um dos autores que mais aprecio e, sendo originário do conselho da Amadora, mais precisamente da Damaia, são várias as obras com a sua assinatura existentes nesta área.

Actualmente está mais dedicado a obras anamórficas o que significa, de uma forma muito sucinta, que são pinturas realizadas com deformações mas, quando observadas de determinado ângulo, a percepção da forma é a correcta e o que foi pintado aparece a três dimensões, ou seja, penetrando ou destacando-se das paredes. Algumas são realmente fabulosas como poderão verificar no site oficial do artista.

Tal como a imagem inicial, também a série que se segue é da sua autoria. De realçar que as duas primeiras têm algumas das características que mencionei no parágrafo anterior.

Odeith, Light music
Odeith, ?
Odeith, Fernando Pessoa, 2017
Odeith, José Afonso (2016)
Odeith, Amália Rodrigues, (2016)
Odeith – Carlos Paredes (2015)
Odeith, Vasco Santana, 2018

Desde 1989 que o município da Amadora promove um festival de BD para promoção e divulgação deste tipo de arte. Apenas a pandemia cortou esse ciclo, que este ano deverá ser retomado. Sendo um evento reconhecido e muito importante, são várias as pinturas promovidas pela Associação Portuguesa de Arte Urbana que o homenageiam. Deixo aqui uma pequena selecção de obras de vários autores, das muitas que ocupam grandes espaços na cidade.

Este ultimo conjunto de imagens que seleccionei integra obras de diferentes autores e estilos. Tal como os anteriores, também estes são portugueses e mostram muito bem a sua qualidade. 

Daniela Guerreiro
Pantónio, 2018
Regg Salgado, 2016 (Aspecto parcial da pintura)
Tamara Alves, 2019
Pedro Peixe, 2018
Caver, 2019
Estúdio Altura/Pedro Peixe, 2019

Não visitamos todos os locais possíveis e verificamos que algumas das pinturas indicadas no roteiro já não existem ou foram substituídas. Ou que outras apareceram entretanto, não estando nele mencionadas.

Por último, não posso terminar sem salientar a profunda admiração que tenho por estes artistas que pintam grandes superfícies, talvez porque tenho a noção das dificuldades que se podem sentir ao fazer algo… apenas em pequeno formato!

Esta forma de expressão é certamente uma viagem bem desafiante pelo mundo da arte!

Rui Lacas, 2009 (detalhe)

olhares

Cruzam-se por aí
incontáveis olhares,
rede invisível de energias
que se tocam
sem querer
saber
ou pensar.

Olhares doces
intensos
objectivos
seguros ou perdidos,
bucólicos
tristes
disfarçados ou plenos.

Olhares de nós.

Alguns
poucos
aninham-se noutro olhar
ou lugar…

…ficando a maioria
perdida no tempo
no vazio
no éter
e no ar…

…perdidos de nós!

(Desenho e poema de Dulce Delgado, Agosto 2021))

experimentações #24

Tempos mais conturbados na minha vida poderiam ter levado a um afastamento da vertente criativa. Mas tal não aconteceu. Pelo contrário, sendo o momento de trilhar um novo caminho, senti necessidade de fazer coisas um pouco diferentes.

O curioso é que os desenhos que publico neste e no próximo post, tecnicamente exigentes e requerendo muita atenção e cuidado uma vez que muitas das zonas de sombras e relevos foram realizadas com pontos de caneta (e muita paciência também!), serviram para eu perceber que realmente não era isto que queria porque, na essência, eles simbolizavam contenção, controle e a total ausência de espontaneidade.

Contudo, aprecio este conjunto de desenhos como um todo por terem sido únicos e marcarem um tempo de mudança na minha vida. Gosto especialmente do inicial pelo simbolismo que encerra, desenho que há uns anos decidi oferecer a uma sobrinha que o adorava, vivendo desde então feliz em sua casa.

(Dulce Delgado, lápis de cor, aguarela e e tinta da China sobre papel, 1993)

experimentações #23

Tal como sucedeu no post anterior desta série experimentações, o que une os desenhos que hoje partilho é apenas o tom, neste caso a presença do rosa/lilás. Não aprecio especialmente esses tons, mas naquela altura, resolvi “brincar” com eles.

São igualmente desenhos não datados, mas que creio poder situar nos primeiros anos da década de noventa.

a terra… e o livro!

Imaginemos o Livro do planeta Terra…de formato gigante…infinitas páginas e conteúdo imenso. Seria em tons verde-azul de beleza única…mas já com áreas de sofrimento e destruição.

Demasiado maltratado pelos que o usam e dele abusam, revela danos, falhas e desequilíbrios crescentes, muitos já impossíveis de salvar, restaurar e reverter. Uma dor de alma para os mais atentos.

Mas a Terra continua bela. E o Livro frágil…

Perante tal realidade, está na mão de cada um dos quase oito biliões de humanos que a Terra sustenta, alimenta e dá vida neste minúsculo ponto do Universo, de tratar cuidadosamente das páginas desse gigante livro. Será aí, através das nossas escolhas, acções, cuidado, erros ou indiferença, que escreveremos, ou não, a possibilidade de futuro. Daquele futuro que todos desejamos para as gerações que nos seguem….e para os nossos filhos e netos!

Sendo hoje, 22 de Abril, o Dia Mundial do Planeta Terra e amanhã o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor…os dois decidi juntar, porque ambos são suporte e sabedoria, em ambos fluem histórias e a vida vai acontecendo e sendo partilhada. Ambos merecem respeito e atenção, mais não seja pelo facto de nos permitirem crescer e serem reservas de experiência e de conhecimento.
(Desenho e texto de Dulce Delgado)

experimentações #21

Não sei a data exacta das colagens que hoje partilho, mas creio que as posso situar entre 1992 e 1993.
A primeira, construída com a estrutura de uma folha, ao representar algo que se quebra/afasta, relaciono-a com uma separação que então ocorreu na minha vida pessoal; e a segunda, ao juntar colagem e pintura estará, tal como a anterior, na linha de outras realizadas naquele período.

A partir de então deixei naturalmente de fazer colagens, seguindo novos rumos nas minhas experimentações. Mas continuo a considerar que são uma técnica muitíssimo interessante, criativa e com imensas possibilidades.
Talvez um dia ainda volte a elas!  

(Dulce Delgado, esqueleto de folha, papel, aguarela/guache e tinta da China sobre papel, 1992/1993?)