experimentações #1

 

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Pegar num papel…verter sobre ela tinta-da-china preta… e deixá-la escorrer, brincando com o papel…

 

Não sei datar esta experimentação, mas tem seguramente mais de quatro décadas. Ela é importante porque simboliza o espírito do “vamos ver o que dá”, sem objectivos, ideias ou qualquer mensagem latente a não ser explorar o momento, os materiais, as formas e a dualidade preto-branco.

Durante um certo tempo o preto foi a escolha na exploração de formas e perspectiva, como mostrarei brevemente num post desta série.

 

 

(Dulce Delgado, Janeiro 2020)

 

 

 

 

 

la hulotte

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Quando se agarra um projecto de alma e coração, ele tem grande possibilidade de crescer e criar raízes.

A edição da pequena revista La Hulotte é um desses projectos, nascido em 1972 da arte e curiosidade de Pierre Déom, que desde então se empenhou como autor, redactor, desenhador e responsável desta preciosa publicação que semestralmente chega à caixa de correio de cento e cinquenta mil assinantes, entre os quais me incluo.

A sua paixão pela natureza e pela fauna e flora das Ardennes – região localizada a norte de França – levou-o a editar enquanto estava no ramo do ensino o primeiro número da revista em associação com um clube da natureza local.

O sucesso dos primeiros números foi tal que decidiu abandonar o que fazia e começou a dedicar-se unicamente à edição da revista. Pierre Déon tem actualmente 70 anos e para concretizar um número desta revista necessita, em média, de mil horas de trabalho, desde a pesquisa documental, ao contacto com especialistas sobre o tema em causa, ilustração, edição, etc.

Sendo única no género, é uma delícia para o olhar e sempre, mas sempre, uma fonte de aprendizagem sobre a natureza, a que o autor alia um humor muito inteligente.

Sendo uma grande apreciadora desta publicação assim como do empenho e saber do seu criador, não poderia deixar de os divulgar neste espaço.

 

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Imagem inicial: capa dos nºs 6 a 15 –  https://www.lahulotte.fr/collection_1.php
Imagem final: capa dos nºs 96 a 105 –  https://www.lahulotte.fr/collection_10.php

 

 

 

 

quinta dos azulejos

 

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A cultura, a arquitectura e o imaginário português estão muito associados ao azulejo, tradição importada pelos mouros e que teve grande desenvolvimento a partir do séc. XV.

D. Manuel I foi o primeiro monarca a apreciar devidamente essa arte, fazendo do Palácio Nacional de Sintra um dos primeiros locais onde eles foram usados, apesar de ainda importados de Sevilha.

Sendo um revestimento de baixo custo e com grandes possibilidades decorativas, rapidamente começou a ser produzido no nosso território e largamente aplicado. Primeiro prevaleceram os tons monocromáticos (principalmente o azul e o branco) e mais tarde os mais coloridos e a preferência por padrões mais repetitivos.

O que escrevi até aqui pretende apenas enquadrar melhor o tema do post e o jardim da Quinta dos Azulejos, espaço que recentemente visitei no âmbito do evento Jardins Abertos que decorreu em Lisboa. Localizada na zona do Paço do Lumiar esta quinta é actualmente ocupada, em conjunto com outras quintas adjacentes, pelo colégio Manuel Bernardes, uma grande escola privada da capital.

O jardim em causa revelou-se uma agradável surpresa. Insere-se na periferia de uma casa senhorial do séc. XVII que pertenceu ao ourives da casa real portuguesa António Colaço Torres. O seu interesse vem do facto de paredes, muros, bancos, colunas e outras estruturas serem integralmente cobertos por azulejos com temáticas variadas como cenas mitológicas, cenas bíblicas ou galantes, animais exóticos, etc.

As imagens não transmitem a real beleza do espaço, mas dão uma ideia do seu colorido e personalidade, para o qual também contribuem os tons outonais das lindíssimas vinhas virgens que ocupam as paredes e muitos recantos.

 

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Termino com dois detalhes que achei muito interessantes e que, na minha perspectiva, revelam o “espírito azulejar” que ali se respira. Resulta certamente de um trabalho de sensibilização do colégio para o espaço onde se insere e para a importância do espólio que detêm. Estes painéis foram muito provavelmente elaborados pelos alunos em aulas de Educação Visual.

 

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Se algum dos meus leitores tiver interesse em saber mais sobre este espaço, encontra muita informação na Internet e quiçá, até a possibilidade de uma visita ao local!

 

 

 

 

a arte do mar

 

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Como um gesto
de mão
e de mar,
as ondas desenham
nuvens
montes
vales
e efémeras paisagens
sem par.

Onda vem…
onda vai…
e outra a abraça no seu recuar!

Cada onda tem um traçar,
desenhos que o meu olhar
aprecia
mas que os corpos,
indiferentes,
pisam sem reparar…

Como é bela a arte do mar!

 

(Dulce Delgado, Agosto 2019)

 

 

 

natureza artista

 

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Aprecio profundamente as formas criadas por acção da natureza.
Gosto de procurar esses elementos naturais, imaginar o seu percurso e com eles partilhar o meu olhar no espaço onde habito.
São troncos e raízes, a maioria esculpidos pelo mar ou por um rio. Caso falassem, estou certa que contariam longas histórias de lugares e aventuras.

São obras criadas por uma natureza-artista, bela, inquieta e extremamente expressiva…

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E com esta expressiva saudação da última imagem, desejo uma boa semana!

 

 

 

 

arte urbana

 

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Nos últimos anos verificou-se em Portugal um grande desenvolvimento da arte urbana, facto que  está directamente relacionado com a ocorrência de vários festivais dedicados a este tipo de arte, como o Sm’art em Bragança, o Tons de Primavera em Viseu, o WOOL– Festival de Arte Urbana da Covilhã, o ESTAU em Estarreja, o Festival Iminente em Oeiras ou o Walk and Talk em Ponta Delgada, nos Açores.

Todos terão objectivos a atingir no plano artístico, nomeadamente na qualidade das obras realizadas, facto que se sente ao percorrer muitas das cidades do nosso país, agora bem mais coloridas e revelando excelentes obras para apreciação. Mas há outras situações em que a vertente artística se aliou a uma componente de reabilitação social mais marcante, como sucede por exemplo no distrito de Lisboa, nos Bairros Padre Cruz em Carnide e no Bairro da Quinta do Mocho em Sacavém.

Vou apenas detalhar o segundo caso, o que melhor conheço na sequência de uma visita aí realizada e que permitiu perceber o projecto que lhe deu origem.
Tudo se iniciou no âmbito do festival O bairro i o Mundo que ocorreu em 2014, evento multifacetado onde foram realizadas as primeiras pinturas em edifícios do bairro. A partir daí várias entidades se juntaram a fim de estimular uma população socialmente estigmatizado a aderir ao projecto. Foi um trabalho simultaneamente educativo e de divulgação que deu frutos nos anos seguintes, também com a realização de novas pinturas em edições posteriores desse mesmo festival.

Hoje as obras são muitas, creio que mais de sessenta, e o bairro é alvo de visitas turísticas promovidas por entidades privadas, mas também orientadas gratuitamente por moradores que, empenhada e orgulhosamente, nos acompanham por aquele manancial de criatividade. Existem obras da autoria dos melhores artistas de street art, mas igualmente de outros menos conhecidos que tiveram ali a sua oportunidade. Hoje, este bairro é considerado como a maior galeria de arte urbana a céu aberto da Europa.

São muitos os artistas nacionais e internacionais que pretendem intervir neste projecto apoiado pela Câmara Municipal de Loures através da plataforma Loures Arte Urbana. Mas o mais importante de tudo é o facto do empenhamento de muitos e da arte em particular terem transformado o sentir da maioria dos habitantes, que agora se unem no sentido de preservar e divulgar as obras que mudaram a imagem do seu bairro. E que permitiram abri-lo ao mundo e contribuir para que os seus habitantes hoje se sintam socialmente mais enquadrados e apreciados.

Termino com dois artigos publicados pelo jornal Público em 2015 e 2018, que referem de uma forma bastante mais completa o que acabei de escrever; e ainda com a página do site da Câmara Municipal de Loures que menciona a visita gratuita que ocorre no último sábado de cada mês.

E, como não poderia deixar de ser, seguem-se algumas fotografias das muitas pinturas existentes, assim com o nome e a nacionalidade dos respectivos autores.

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Nomen (Nuno Reis), Angola
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Colectivo Licuado (Camilo Núñez e Florencia Durán), Uruguai

 

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Vespa (São José dos Campos) e Utopia (Oliveiros Junior), ambos do Brasil, e Nomen, de Angola

 

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Vespa, Brasil

 

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Hopare (Alexandre Monteiro), França
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EHME (Marcelo Gomes), Portugal
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Smile (Ivo Santos), Portugal

 

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Vhils (Alexandre Farto), Portugal
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Odeith (Sérgio Odeith), Portugal

 

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Zmogk (Konstantin Danilov), Rússia

 

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L7M (Luis Martins), Brasil

 

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Styler (João Cavalheiro), França

 

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Fio Silva, Argentina

 

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Vinie, França

 

Falta referir que o autor da fachada representada na imagem inicial  do post é o artista de nacionalidade francesa, Astro.

 

 

 

ver com outros olhos

 

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O meu olhar permite-me ver e com ele preencher de imagens os meus dias. É naturalmente sentido como um dado adquirido, a que apenas damos o real valor quando confrontados com a sua falta ou perante situações em que nos apercebemos da realidade de outros que estão impedidos de o ter da mesma forma.

Ver com outros olhos é o título de uma exposição que resultou de uma parceria entre o Movimento de Expressão Fotográfica (MEF) e a Fundação Calouste Gulbenkian através de um projecto associado à arte, no qual foram convidadas pessoas de várias idades e com problemas de visão (amblíopes e cegas totais), para que registassem em imagens algo que tivesse a ver com a sua vida, vivência, percurso, gostos, sonhos, etc. Alguns conseguiram fazê-lo sem ajuda, outros descreveram a sua imagem e construíram-na com o apoio de outros.

Mais do que apostar na criatividade de pessoas com dificuldade de visão, esta exposição aposta na profunda sensibilidade que revelam, quer na escolha de detalhes quer nos pensamentos partilhados e que acompanham as imagens. A exposição é composta por vários módulos baseados em conceitos diferentes.

Todo o espaço expositivo está preparado para ser percorrido e sentido sem o olhar, impondo-se o táctil e o sonoro. Apesar de saber que “Ser cego não é fechar os olhos”, uma das frases que recordo da exposição, em vários momentos tentei agir como se fosse invisual, ou seja, fechei os olhos e senti/ouvi o que me era apresentado. Só posteriormente os abria e confrontava o que tinha percepcionado com a realidade, o que se revelou uma experiência estranha, diferente, mas muitíssimo interessante.

O olhar é uma forma fácil de nos relacionarmos com o mundo. Quem não o tem, desenvolve a “sabedoria dos sentidos” a partir de uma profunda e dorida aprendizagem nascida das dificuldades. E assim constrói um mundo semelhante ao de todos nós e composto igualmente de alegrias, tristezas, sonhos, devaneios, criatividade, paixões e tudo o mais que possamos imaginar. Mas sem facilitismos.

Esta exposição estará patente na Fundação Calouste Gulbenkian (Piso 0), até ao próximo dia 12 de Novembro e tem entrada livre.

 

José Oliveira, um amigo sempre presente neste blog, não só me alertou para a existência desta exposição, como continua a colaborar com o projecto que levou à sua montagem.
A imagem inicial é uma parte de um cartaz sobre a exposição e foi retirada de  https://irisinclusiva.pt/index.php?oid=3138&op=all
A fotografia original é da autoria de Igilcia Andrade / MEF,