experimentações #23

Tal como sucedeu no post anterior desta série experimentações, o que une os desenhos que hoje partilho é apenas o tom, neste caso a presença do rosa/lilás. Não aprecio especialmente esses tons, mas naquela altura, resolvi “brincar” com eles.

São igualmente desenhos não datados, mas que creio poder situar nos primeiros anos da década de noventa.

experimentações #22

Os desenhos de hoje têm em comum a cor, neste caso o azul e fazem parte de um conjunto não datado, pelo que decidi juntá-los pelas tonalidades. O mesmo acontecerá no próximo post desta série.

Estes tons de azul sempre me levam à divagação…ao sonho…e para outras realidades!

(Dulce Delgado, aguarela e tinta da China sobre papel)

a terra… e o livro!

Imaginemos o Livro do planeta Terra…de formato gigante…infinitas páginas e conteúdo imenso. Seria em tons verde-azul de beleza única…mas já com áreas de sofrimento e destruição.

Demasiado maltratado pelos que o usam e dele abusam, revela danos, falhas e desequilíbrios crescentes, muitos já impossíveis de salvar, restaurar e reverter. Uma dor de alma para os mais atentos.

Mas a Terra continua bela. E o Livro frágil…

Perante tal realidade, está na mão de cada um dos quase oito biliões de humanos que a Terra sustenta, alimenta e dá vida neste minúsculo ponto do Universo, de tratar cuidadosamente das páginas desse gigante livro. Será aí, através das nossas escolhas, acções, cuidado, erros ou indiferença, que escreveremos, ou não, a possibilidade de futuro. Daquele futuro que todos desejamos para as gerações que nos seguem….e para os nossos filhos e netos!

Sendo hoje, 22 de Abril, o Dia Mundial do Planeta Terra e amanhã o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor…os dois decidi juntar, porque ambos são suporte e sabedoria, em ambos fluem histórias e a vida vai acontecendo e sendo partilhada. Ambos merecem respeito e atenção, mais não seja pelo facto de nos permitirem crescer e serem reservas de experiência e de conhecimento.
(Desenho e texto de Dulce Delgado)

experimentações #21

Não sei a data exacta das colagens que hoje partilho, mas creio que as posso situar entre 1992 e 1993.
A primeira, construída com a estrutura de uma folha, ao representar algo que se quebra/afasta, relaciono-a com uma separação que então ocorreu na minha vida pessoal; e a segunda, ao juntar colagem e pintura estará, tal como a anterior, na linha de outras realizadas naquele período.

A partir de então deixei naturalmente de fazer colagens, seguindo novos rumos nas minhas experimentações. Mas continuo a considerar que são uma técnica muitíssimo interessante, criativa e com imensas possibilidades.
Talvez um dia ainda volte a elas!  

(Dulce Delgado, esqueleto de folha, papel, aguarela/guache e tinta da China sobre papel, 1992/1993?)

experimentações #20

Ainda no âmbito das colagens…

…partilho hoje estes três trabalhos, sendo os dois últimos técnicas mistas uma vez que foram complementados com tinta/pintura.

Em comum têm o círculo, forma que muito aprecio por diversas razões, mas que aqui aparece associada ao planeta que habitamos e à problemática ambiental, algo que já nessa época me preocupava e preenchia alguns dos meus pensamentos.

(Dulce Delgado, papel, aguarela e tinta-da-china sobre papel, 1992/93)

experimentações #19

Continuei pelas colagens durante mais algum tempo, técnica que sempre encarei como uma forma de brincar com o papel e a que poderia associar uma mensagem, ou não.

As três colagens de hoje reflectem esse jogo entre a tesoura e o papel, neste caso com o chamado papel de lustro. Muitos destes recortes foram aleatórios e fui aproveitando inclusivamente os excedentes que iam ficando. Depois era juntá-los ou encaixá-los de uma forma que me agradasse esteticamente.

O resultado foi esta série de três colagens bastante experimentais, que em comum têm as cores …e a diversão que me proporcionaram!

 
(Dulce Delgado, papel de lustro sobre papel, 1993)

experimentações #18

O papel sempre foi o suporte preferido nas minhas experiências criativas. Em muitos momentos não o utilizei apenas como uma base, mas também como intermediário para chegar a algo.

No primeiro desenho, pequenos retângulos de papel foram utilizado como máscara, preservando algumas zonas de receber tinta; no segundo, um papel foi pintado, cortado e posteriormente colado noutro papel de suporte; e no terceiro, temos o exemplo de uma colagem pura, em que todas as formas foram recortadas de folhas de revistas e posteriormente coladas, permitindo um novo contexto e significado.

Gosto muito da versatilidade do papel e do seu fácil manuseio. Tudo se pode fazer com ele desde que haja criatividade e vontade. Até um papel amarrotado tem uma beleza muito própria. Basta pensarmos que duas folhas nunca se amarrotam do mesmo modo, sendo por isso peças e formas únicas que são palco de jogos de luz/sombra sempre diferentes.

(Dulce Delgado, papel, aguarela e tinta da china sobre papel, 1992)

experimentações #17

E as experiências continuaram orientadas pelo acaso, seja dos materiais seja dos gestos. Muita coisa foi parar ao lixo porque passava aquele ponto chamado “possibilidade” e virava borrão. Digamos que sabia quando isso acontecia…mas não sabia minimamente o que procurava.

Hoje, ao olhar para a maioria destes desenhos encontro pontos comuns entre eles. Encontro a vontade de “guardar algo” versus a vontade de dar/partilhar… encontro um desejo de exteriorização que se manifesta por vezes de uma forma um tanto explosiva…e encontro sempre um lado mais luminoso que contrasta com outro mais sombrio. Como sempre acontece na vida, aliás.

Ao elaborar este post e com um pouco de imaginação, achei muito engraçado o facto de percepcionar no canto inferior direito do último desenho duas figuras semi-ajoelhadas e com as mãos no chão… à semelhança de dois atletas que esperam o tiro de saída numa qualquer pista de atletismo para uma suposta corrida.

Uma espera que levou trinta e três anos a chegar ao meu olhar!

(Dulce Delgado, aguarela e tinta da China sobre papel, 1988)

experimentações #16

Iniciei então um tempo de experimentações, no verdadeiro sentido da palavra.

A necessidade de transmitir mensagens através dos desenhos deixou de ser importante, sento substituída pela vontade de explorar o acaso, a espontaneidade, os gestos e sobretudo os mais diversos materiais.

Apesar da prevalência deste lado tão experimental, sempre se manteve a procura de uma certa harmonia gráfica/cromática a partir do aparentemente inestético e, quantas vezes nascido do imprevisto.

Gostei muito desta fase completamente nova em que prevalecia não o pensamento mas o puro prazer de fazer.

(Gaze, cartão, caneta, aguarela e tinta da china sobre papel, Dezembro 1988)

 

palavras encontradas

É raro o dia da semana em que não subo a grande escadaria que liga a Av. 24 de Julho ao Largo 9 de Abril em Lisboa, sendo este último espaço ocupado pelo acolhedor jardim que fica entre o Museu Nacional de Arte Antiga e a Sede da Cruz Vermelha Portuguesa. São cento e tal degraus que normalmente imponho a mim própria subir com algum ritmo a fim de fazer um pouco mais de exercício e estimular o ritmo cardíaco.
Pontualmente faço-o com mais calma, seja para apreciar a vista sobre o rio, por estar mais cansada, ou simplesmente porque me apetece ir devagar e olhar… olhar…e olhar…

E foi num desses dias mais tranquilos que me apercebi de uma frase escrita no lancil de um degrau. E depois de outra, lá mais à frente. Então no dia seguinte, com o interesse bem desperto e de máquina fotográfica na mão, calcorreei os três lances duplos que compõem esta grande escadaria com o intuito de encontrar outras frases. E encontrei, não sei se todas, pois na verdade são pequenas e estão discretamente colocadas. E algumas estão repetidas.

Desconhecendo há quanto tempo ali estariam, logo me questionei sobre a sua resistência (ou efemeridade) perante a água da chuva. Dias depois tive a resposta ao verificar que se mantinham íntegras após a passagem de um forte temporal sobre Lisboa. Actualmente estão apenas um pouco desbotadas e uma delas foi vandalizada/raspada, estando ilegível.

Obviamente que a fase seguinte foi procurar a sua origem. Conclui que @voz_carmesim é a “voz” de uma poeta que se chama Mari e é oriunda de S. Paulo, Brasil. Reside em Lisboa e no Instagram descreve-se como “Poeta com sede de gente e fome do mundo”.
No seu site é possível saber um pouco mais e ainda que intitula a sua poesia como quântica.

Eu não sei o que é “poesia quântica”… e sou extremamente crítica dos graffitis absurdos que abundam por aí… mas adorei a ideia de encontrar estas frases no chão daquela escadaria de todos os dias.

Se a ideia só por si já é poética…seja por ser inovadora, discreta ou simplesmente pelo gesto que lhe deu origem, estas frases foram sentidas por mim como pequenos tesouros escondidos e descobertos…como aqueles ovos que as crianças encontram na época da Páscoa…

E gostei especialmente de imaginar o momento em que foram ali depositadas. Em que uma mulher segurando um marcador waterproof se deliciou a escrever em recantos desta enorme escadaria, frases poéticas e intemporais……mas resistentes e sobreviventes a temporais!

São encontros invulgares que aquecem os nossos dias, e sobretudo, que nos recordam a importância de sair do comum, da rotina e do previsível.