artes e ofícios

 

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Numa sociedade predominantemente tecnológica e em que os saberes tradicionais passaram para um segundo plano, prezo saber que na capital do meu país tem havido algum cuidado na preservação desses conhecimentos, sendo certo que qualquer apoio que se associe à vontade, ao esforço e ao investimento dos próprios artífices, é potencialmente positivo.

Se há algum tempo divulguei aqui a iniciativa das Lojas com História, hoje quero referir a Rede de Artes e Ofícios de Lisboa, onde é possível encontrar, por zona da cidade ou ramo de actividade, uma série de profissões que o tempo colocou num segundo plano e que requerem conhecimentos especializados, técnica e sensibilidade. Nesta rede encontramos ofícios de todo o género, assim como os contactos de quem os realiza.

No sentido de divulgar estas actividades, também abriu recentemente o Mercado dos Ofícios do Bairro Alto, iniciativa que resultou de uma parceria entre o Município, a Misericórdia e entidades especializadas em ofícios tradicionais.

Por último, apesar de se situar numa vertente um pouco diferente, não quero deixar de referir os concursos para atribuição de ateliers municipais a baixo custo e com contrato de exploração por quatro anos, um sistema ideal para artistas em início de carreira e com poucos recursos, uma vez que o arrendamento é bastante baixo tendo em conta os altos valores do parque habitacional da capital.

Explorem os links acima e ajudem na sua divulgação.

 

 

 

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criativa paciência

 

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A paciência manifesta-se de inúmeras formas e põe à prova a nossa capacidade de resistir e de não desistir.
Ser paciente é igualmente uma forma de aprendizagem, que engloba não apenas o saber esperar, mas também o tolerar os outros com as suas diferenças e, mais difícil ainda, a capacidade de controlarmos as nossas impaciências.

De certa forma, a paciência também está associada ao “silêncio” da expressão artística. O acto de criar é suficientemente elástico para se situar entre a espontaneidade emocional de um momento e a elaboração detalhada e minuciosa de uma obra extremamente exigente em paciência. Neste último caso, porventura ainda associada a um trabalho prévio de procura e planeamento.

É precisamente um destes casos que quero hoje partilhar. Refiro-me ao trabalho realizado em meio natural por James Brunt, artista que encontra na natureza os materiais e o suporte para as suas mandalas. Isso é muito interessante, tal como o facto de estarmos perante obras muito exigentes em paciência mas simultaneamente efémeras, porque em meio natural os elementos e as condições não podem ser controladas. A natureza decide e…

…uma chuvada, uma rajada de vento ou uma onda rasteira nascidos de um momento…poderão, em segundos, pôr fim a horas e horas de trabalho e de muita concentração….

James Brunt é, sem dúvida, um artista com uma enorme paciência e certamente uma personalidade muito curiosa!

 

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(Todas as imagens foram retiradas do site do próprio artista)

 

 

 

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Desenho de Alexandre da Fonseca, 1934, Museu Miguel Bombarda

 

A arte assim denominada foi concebida em 1945 pelo pintor Jean Dubuffet, que a considerava a forma de arte “mais pura” pelo facto de estar associada a criadores livres e sem influências, não se prender a qualquer estilo oficial e ainda, por não seguir os parâmetros do circuito comercial. Este último facto, só por si, era suficiente para levar os artistas ao uso de técnicas e de materiais menos habituais ou mesmo improváveis.
A maioria das obras assim consideradas, estão ligadas a doentes psiquiátricos internados ou a indivíduos isolados.

Existem várias colecções importantes deste tipo de arte. Em Portugal, serão duas as que têm mais relevância:

– Em S. João da Madeira, no Núcleo de Arte da Oliva Creative Factory, foi instalada em Maio de 2014 a Colecção Treger/Saint Silvestre, que inclui algumas centenas de obras que podem ser diariamente visitadas.

– Em Lisboa, no Museu Miguel Bombarda, a Associação Portuguesa de Arte Outsider  possui milhares de obras no seu acervo mas, infelizmente, o espaço não está aberto ao público apesar de o site assim o indicar.

Esta associação continua a aguardar o projecto de musealização do edifício principal do antigo Hospital Miguel Bombarda, já classificado como de interesse público juntamente com o Balneário D. Maria II e o Pavilhão de Segurança, outras importantes estruturas existentes no local.

O avanço desse projecto permitiria expor toda a colecção em boas condições, mas são muitos os interesses impeditivos, nomeadamente os imobiliários, que cobiçam uma parte daquele espaço que se encontra bem localizado no centro de Lisboa.

Seria do interesse de todos, seja dos que habitam a cidade seja dos que a visitam, que impere o bom senso e se opte por uma solução que, por um lado, permita parar com a degradação em curso e, por outro, fomente a valorização deste importante património arquitectónico e artístico.

Lisboa ficaria certamente a ganhar.

 

 

(Imagem retirada de http://aparteoutsider.org/?page_id=28)

 

 

 

para além do papel…

 

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HuskMitNavn é um artista dinamarquês adepto de várias técnicas baseadas na ilustração, sendo especialmente conhecido como street artist.

Essa versatilidade permite-lhe trabalhar com vários materiais e em escalas variadas, sendo contudo no papel, que desenha, rasga e dobra, que a sua imaginação extravasa e nos leva para uma dimensão onde habita a simplicidade e o humor, mas igualmente a mensagem mais realista, como bem revela a imagem acima.

Seguem-se algumas obras em papel da sua autoria, uma pequena amostra da criatividade que o anima.

 

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Qual de vós não esboçou um sorriso ao ver estas imagens?

 

 

dança de luz

 

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No último fim-de-semana a vila de Cascais, localizada na região da Grande Lisboa, iluminou-se para a 6ª edição do Festival de Luz – Lumina, que este ano teve como tema a Natureza. Neste post vou apenas referir uma das vinte obras apresentadas nesta edição porque, na minha perspectiva, foi a que melhor homenageou e valorizou a temática do festival.

Recorrendo a lasers, fumo e vento, o português Telmo Ribeiro criou numa grande área do Parque Marechal Carmona um tecto de luz e de cor formado por planos que aparentemente se moviam sobre nós, justificando perfeitamente o título Underlight que deu à instalação. Por outro lado, a intersecção destes planos com as árvores e outro tipo de vegetação existente no jardim, davam origem a um lindíssimo jogo entre a luz e a sombra.

A tecnologia, na sua mais vibrante expressão, nada tem a ver com a vibração da mãe natureza. Porém, em muitos momentos este artista conseguiu o objectivo de nos transportar até aos pólos deste planeta e simular a sensação de estarmos perante uma aurora boreal (ou austral), certamente um dos mais bonitos fenómenos naturais que se conhece.

Nunca tive o privilégio de assistir a um evento desse tipo e, sendo realista, será pouco provável que tal venha a suceder. Contudo, a experiência vivida naquele lugar e que me conseguiu deslumbrar será, até ver… a “aurora boreal” da minha vida!

 

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As imagens acima não são reveladoras da realidade porque lhes falta o essencial: o movimento. Tentei fazer um vídeo, mas não resultou. De qualquer forma, creio que o seu conjunto permite ter uma ideia das características da obra em causa.

 

 

 

 

a procissão

 

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Em Portugal, a primeira procissão do Corpo de Deus (Corpus Christi) decorreu em Lisboa em 1389, atingindo esta celebração o seu auge no séc. XVIII durante o reinado de D. João V. Nessa época incorporava as ordens religiosas, mas igualmente as militares e as corporações profissionais da cidade, reflectindo a organização do reino e, sobretudo, a grande importância da igreja e do rei.

No século seguinte houve um período em que não se realizou, mas foi posteriormente retomada ocorrendo a partir daí anualmente por ocasião do dia do Corpo de Deus, festa do calendário católico que se celebra na quinta-feira a seguir ao Pentecostes.

Desde sempre que o Município de Lisboa se empenhou nesta procissão, tradição que se mantém ainda hoje com a participação no cortejo das principais forças da autarquia.
Deixo aqui a história deste evento, sugerindo a sua leitura para melhor perceber a importância que teve na vida da cidade.

A recriação dessa procissão, através de 1587 miniaturas em barro não cozido, encontra-se actualmente exposta numa enorme vitrina da sala do capítulo do Convento da Graça, no bairro com o mesmo nome.
O autor de tal empreendimento foi o empresário e ceramista Diamantino Tojal (1897-1958), que as elaborou entre 1944 e 1948. Nessa época todo o conjunto esteve exposto no Palácio Galveias, o que não mais se repetiu até à actualidade.

Mais do que a qualidade ou pormenor das peças, esta exposição tem um notável valor documental, pois permite perceber a dimensão e a organização do cortejo. A cargo da imaginação de cada visitante ficará a visualização do que não está recriado, como a multidão que seguia na cauda da procissão ou as ruas completamente engalanadas por onde passava.

A sala onde se encontra esta mostra foi recentemente restaurada, tal como a portaria e um dos claustros do convento, espaços que podem ser visitados gratuitamente. De notar que as miniaturas apenas estarão expostas até ao próximo dia 1 de Outubro.

Também a zona envolvente ao Convento/Igreja da Graça foi requalificada, oferecendo agora mais zonas pedonais. Vale a pena dar uma volta pelo jardim, espreitar a vista do miradouro ou descansar na esplanada aí existente. O bairro da Graça tem muitos detalhes arquitectónicos interessantes, alguns relacionados com as vilas operárias que acolheu no início do século XX e que ainda preserva. Deambular por ele e pelas áreas circundantes, permite juntar o passado com a modernidade que nos é transmitida por algumas pinturas murais realizadas no âmbito da street art.

Termino com uma imagem da cidade obtida a partir do miradouro da Senhora do Monte, localizado a poucas centenas de metros do Convento da Graça. Na foto, este espreita à esquerda e olha para o Tejo e para o seu vizinho castelo, implantado numa colina adjacente.

 

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a imaginação de Rich McCor

 

 

Rich McCor, a.k.a., Paperboyo, é um fotógrafo e artista inglês, muito jovem, que gosta de transformar as imagens, tanto as mais banais como as que guardamos de certos lugares-ícone, acrescentando-lhes recortes de papel em pontos estratégicos.

A ideia é de uma enorme simplicidade, certamente diferente da parte técnica que exigirá algum trabalho desde a concepção até à realização da foto final. Porém, produz um efeito interessante, envolvente e que nos faz sorrir, porque nos transporta de imediato para outra dimensão, para outros lugares e permite um novo olhar sobre o mundo, objectos e situações.

Deixo algumas imagens das suas aventuras fotográficas, assim como o link para a sua página no Instagram, espaço cheio de surpresas e o mais indicado para perceber a amplitude da sua imaginação.

 

 

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Taking to the slopes in Val D'Isere, Rich placed a spray can next to a cloud - with mesmerising results

 

Thanks to a cut out of a snail, London's unusually-shaped City Hall has been transformed into a mollusc 

 

Existe muita informação disponível na Internet sobre este artista. Basta procurar!