olhares lugares

 

 

Agnès Varda é cineasta, fotógrafa e brevemente fará 90 anos; JR é o street artist Jean Réné, igualmente fotógrafo e agora com 34 anos.

Quando se conheceram em 2015, a cumplicidade foi notória e crescente apesar do meio século que os separa. Por esse facto surgiu a ideia de iniciar um projecto em comum, tendo como ponto de partida a sensibilidade e o gosto pela fotografia que ambos partilham.

Iniciaram então uma viagem pelas estradas secundárias de França, de onde resultou um documentário ao estilo roadmovie a que deram o título de Visages Vilages, nome que em Portugal foi traduzido como Olhares Lugares.

Essa viagem foi realizada numa carrinha transformada em máquina fotográfica gigante, uma espécie de laboratório ambulante que “imprime e expele” imagens a preto e branco em formato grande, facto que acabou por gerar muita curiosidade por onde passavam.

As imagens obtidas resultavam do contacto e diálogos estabelecidos com pessoas  encontradas em diversos lugares e situações, assim como da sua forma de estar e sentir, actividades e meios de subsistência. Mas todas as imagens revelavam o olhar artístico de ambos sobre essas personagens reais. Numa fase final, as impressões em papel foram coladas em locais específicos e sempre relacionados com a vivência dos fotografados, seguindo a técnica que caracteriza o trabalho artístico de JR.

O resultado desta viagem é um delicioso documentário sobre o quotidiano, a vida, a alegria de viver e a expressão artística, onde não faltam também interessantes diálogos sobre o passado, a morte, as escolhas ou as diferenças entre gerações. Mas toda a dinâmica se centra no profundo respeito que nasceu entre os dois como seres individuais, e neste papel em que são simultaneamente realizadores, actores, artistas e viajantes.

Com personalidades e traços identitários muito fortes e diferenciados, Agnés Varda e JR oferecem-nos noventa minutos de inteligência, partilha, humor e de imensa ternura.

Acrescento ainda que este filme se encontra nomeado para a próxima edição dos Óscares na categoria de Melhor Documentário.

 

 

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voltando ao cinema…

 

 

Lucky é o primeiro filme realizado por John Carroll Lynch e o último representado por Harry Dean Stanton, actor que faleceu com 91 anos no passado mês de Setembro, antes desta película ser estreada.

Algures numa América desconhecida e ao ritmo da idade e das rotinas que caracterizam o último tempo da vida, este bonito filme mostra o processo de consciencialização e preparação de um idoso para o fim que se aproxima. Curiosamente, entre a ficção e a realidade estava um actor, que entretanto morreu, talvez sorrindo com aquele sorriso revelador e sábio com que terminou este filme.

Poderia escrever muito mais, mas não o vou fazer. Vou deixar aqui as palavras do crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, publicadas no Cinecartaz do jornal Público porque, no geral, me identifico bastante com a sua análise.

Num período do ano em que os cinemas funcionam para as “massas”, este filme é uma pequena pérola que se visualiza tranquilamente em salas quase vazias. Só por isso, merece toda a atenção e divulgação.

 

 

 

the only living boy in new york…

 

 

A frase que dá título a este post foi um dos temas do álbum Bridge over troubled water editado em 1970 pela dupla Simon and Garfunkel. Mas The only living boy in New York é também o título do último filme realizado por Marc Webb, agora em exibição nos cinemas.

Conta uma história simples, com princípio, meio e um inesperado fim, como convém a uma boa história. Fala de gente maioritariamente honesta e genuína, e fala de amor, de vários tipos de amor, seja do que se sente e mostra, do que flui no sangue e não se mostra, daquele que se dá porque mais não se pode dar, do amor vivido à distância, ou ainda do que ficou para trás e aí continua… à espera. Fala de amor, de amizade e de afectos.

É uma história-surpresa desempenhada por um grupo de actores jovens e menos jovens, como Callum Turner ou Jeff Bridges, que se desenrola ao som de numa excelente banda sonora. Pelo encadeamento, dinâmica das cenas e tipo de diálogos, pontualmente fez-me lembrar as películas de Woody Allen.

Diria que é um  filme “sem nada de especial”, mas que proporciona um momento agradável e nos faz sentir bem. Simplesmente isso.

Sendo essa uma boa sensação, deixo a sugestão!

 

 

 

paixão de van gogh

 

 

O inglês Hugh Welchman e a polaca Dorota Kobiela realizaram um inovador filme de animação que estreou recentemente nos cinemas portugueses e  emprestou o seu nome a este post. O título original é Loving Vincent.

Tecnicamente complexo, o filme revela alguns aspectos menos conhecidos que antecederam a morte deste pintor e resulta da curiosa associação de uma técnica tradicional como é a pintura a óleo com as modernas tecnologias digitais, tendo sempre por base as obras pintadas pelo artista.

Deixo-vos um interessante artigo publicado na última quinta-feira no jornal Observador, uma vez que é bastante completo e disponibiliza muita informação.

Termino acrescentando que já o visualizei e gostei imenso, merecendo sem dúvida uma ida ao cinema pela inovação que representa no mundo do filme de animação.

 

 

dunkirk

 

 

“Pátria…espaço telúrico e moral, cultural e afectivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro.

Miguel Torga, in O Dia, de 11 de Setembro de 1976

 

Por regra, não vou ao cinema ver filmes de guerra, centrando as minhas escolhas noutras temáticas. Mas fui ver Dunkirk, um filme que conta um episódio ocorrido na Segunda Guerra Mundial, nos areais que se localizam na costa norte de França, perto da fronteira com a Bélgica.

Em 1940, ainda no início dessa guerra, a progressão rápida e eficaz das forças alemãs, empurrou franceses, ingleses e belgas para essa longa faixa de areia, deixando-os encurralados. Apenas por mar poderia vir a ajuda e a sua salvação. Mas uma certa contenção por parte da Inglaterra no envio de meios que permitissem a recolha dessas tropas (uma vez que iriam ser necessários no prosseguimento da guerra), levou a que o governo inglês solicitasse a ajuda de embarcações civis de todo o tipo, para fazer essa operação de evacuação. E eles foram, com a pátria no coração buscar os seus, atravessando o canal em condições dificílimas porque os bombardeamentos aéreos dos alemães eram constantes. Foram e salvaram milhares e milhares de homens nos poucos dias em que durou a missão.

O filme, muito bem dirigido por Christopher Nolan, é contado de forma a entrosar perfeitamente os diferentes momentos e acções, vistos e sentidos a partir de terra, mar e ar. O medo e a esperança de quem está em terra à espera de ser evacuado, mistura-se com a força de quem se meteu no seu barquinho para resgatar compatriotas, ou na coragem necessária para os desafiadores e arriscados combates aéreos.

É nos momentos difíceis que o melhor e o pior das pessoas vem ao de cima, seja a maldade e o egoísmo, seja a sensibilidade, a compaixão e a solidariedade. E a força ou a perda de controle. Tudo isso está sobriamente filmado nesta película, tal como o medo da morte, o cansaço ou a força necessária para enfrentar uma situação extrema.

Porém, o que mais me marcou em toda a película, é a força e as formas que o sentimento de ligação à Pátria podem ter. Manifesta-se na vergonha de uma possível derrota, na luta pela sobrevivência (luta essa que pode incluir a ocultação da própria nacionalidade), na vontade férrea de salvar outros em memória de um filho falecido ao serviço do país ou, ainda, na decisão de lutar até ao último momento para defender e salvar compatriotas, mesmo sabendo que essa pode ser a sua derradeira acção.

A frase de Miguel Torga com que iniciei este post é uma notável descrição de Pátria, desse espaço físico e de afectos com as melhores condições para “sermos e crescermos”. Teoricamente, pelo menos.

De certa forma, todos sentimos diariamente esse sentimento de patriotismo de um modo doce, subtil e indolor. Pessoalmente, esse sentir é pouco consciente e até inconsistente, porque nunca lhe “medi o pulso” em situações limites, ou seja, nunca fui posta à prova. Estou certa que será apenas no terreno e nos momentos “nus e crus”, que essa ligação “telúrica e afectiva” poderá mostrar (ou não) a sua real força.

Este filme, quanto a mim, mostra-o muito bem.

 

 

o jardim da esperança

 

 

Antes da ocupação alemã, o Jardim Zoológico de Varsóvia respirava harmonia e revelava um perfeito equilíbrio entre humanos e animais. Era gerido pelo casal Jan e Antonina Zabinska, que reflectiam o afecto que os unia na forma de lidar com todos os que deles dependiam.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, esse espaço foi desmantelado e destruído. O desgosto e a revolta deu ainda mais força a Jan e a Antonina, reorientando todas as suas energias, capacidades e afectos na ajuda ao próximo, apesar de colocarem em risco a sua própria vida. Foram pessoas extraordinárias, cuja acção é mostrada no filme  O jardim da Esperançatradução portuguesa de The Zookeeper’s Wife, com realização da neozelandesa Niki Caro e uma excelente interpretação de Jessica Chastain.

É uma película que nos faz sentir pequenos perante a generosidade e a força de alguns, mas simultaneamente reconfortados, porque nos relembra que existem pessoas excepcionais e acima da média, cuja acção positiva vai tentando contrabalançar a maldade e o absurdo que constitui o lado mais negro da nossa civilização. Reconforta-me saber que neste momento e algures neste planeta, algumas dessas pessoas especiais estarão a agir de forma singular em acções que eu não seria minimamente capaz de realizar porque, neste meu “mundo de conforto”, nada arrisco. Essa é a verdade. Mas admiro profundamente quem tem essa força e a capacidade emocional de enfrentar situações extremas para ajudar quem precisa.

Voltando ao filme, é importante mencionar que é baseado em factos verídicos, a partir de um diário não publicado de Antonina Zabinska e que teve como consultores os descendentes do casal. Essa veracidade permite-nos igualmente vê-lo como mais um documento importante que contribui para aumentar o conhecimento de um período difícil da nossa história, factos que inexplicavelmente alguns tendem a negar e a esquecer.

Estou certa que o apreciarão…e que ele deixará as vossas emoções bem à flor da pele!

 

 

 

moonlight

 

moonlight

 

Perante os nosso olhar passam imagens que revelam…

…actos de bullying
…medo
…abuso de poder
…revolta e sobrevivência
…carência afectiva extrema
…amor e dádiva incondicional
…saudade, do que foi bom e cedo desapareceu
…ausência, dos que deviam estar mais presentes
…solidão sentida, vivida e combatida com mais solidão
…rudeza, que esconde fragilidades
…ostentação material, como forma de ser respeitado
…controle dos outros para sobreviver
…fragilidade camuflada pelo poder
…desejo de atenção, calor humano, amizade
…desejo de intimidade, de pele contra pele

…e, uma profunda necessidade de ternura e de um abraço!

 

Moonlight, o filme, é tudo isto. É uma luz triste e fria, como a luz da lua pode ser.

 

 

imagem retirada de
https://www.google.pt/search?q=moonlight&rlz=1C1AWFC_enPT732PT732&espv=2&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjO3OG5-tHSAhUBlBQKHWxYBRwQ_AUIBigB&biw=1280&bih=591#imgrc=TmjzhZXyMPQZ6M: