cinema solidário

 

 

O que de verdade importa… é ir ao cinema visualizar este filme, sabendo que o valor da receita terá um fim solidário. Em Portugal será para a nova Unidade de Transplante de Medula do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, dando continuidade à onda solidária que já percorreu vários países e ajudou muitas instituições. O promotor desta iniciativa é Paco Arango, o seu realizador.

Há quinze anos,  ele decidiu que deveria fazer algo diferente como forma de agradecer a vida feliz que tinha. Resolveu então ser voluntário numa instituição que tratava crianças com cancro, o que ainda continua a fazer. Além disso, abraça várias causas que lhe permitem angariar fundos para a Fundação Aladina que criou em Espanha em 2005, cujo objectivo é melhorar a vida de crianças com cancro e, implicitamente, a das suas famílias.
Os filmes que realizou, Maktub em 2011 e o que agora refiro e que originalmente tem o título The Healer, tiveram ambos um fim solidário.

É importante referir que esta película é dedicada a Paul Newman (1925-2008), actor que em 1988 fundou a rede de acampamentos de crianças doentes Serious Fun Children´s Network, que conta actualmente com trinta espaços espalhados pelo mundo. Em 2007, Paco Arango conheceu Paul Newman, momento que lhes  permitiu perceber que tinham objectivos solidários comuns.

O que de verdade importa, é um filme que celebra a Vida, misturando a comédia, o drama, o realismo e a magia num perfeito equilíbrio. Estreou a 13 de Setembro em Portugal e está disponível em muitos cinemas do país.

Vale a pena a sua visualização, porque são 113 minutos em que damos um pouco… e muito recebemos!

 

pn

 

Imagem de Paul Newman com crianças retirada de
http://www.grandmagazine.com/2018/09/the-best-week-of-their-lives-paul-newmans-promise-to-kids/

 

 

 

Advertisements

juliet, nua

 

 

Juliet, Nua é um filme com bons actores, bons diálogos e que, como todos os filmes românticos nos conta uma história de amor. Nele encontramos um Ethan Hawke distante da juventude de Antes do amanhecer (1995), longe do jovem adulto de Antes do anoitecer (2004) ou do adulto de Antes da meia noite (2013). Neste filme, ele faz o papel de um ex-cantor rock, já grisalho e capaz de ser avô. Ao seu lado, partilhando o filme realizado por Jesse Peretz, estão os actores Rose Byrne, Chris O’Dowd e Azhy Robertson, em bons desempenhos.

É um filme discreto, sem efeitos especiais e habitado por gente comum com problemas semelhantes aos nossos. Talvez por isso estas palavras e a referência a alguns aspectos que me chamaram a atenção…

…como pode ser mentalmente limitativo o enfoque num ídolo, havendo o perigo de criar uma teia de ideias e certezas que nada têm a ver com a vida desse ser que se idolatra. Além disso, pode levar a um alheamento da realidade e a “esquecer” as pessoas que estão por perto;

…a vida é uma grande mestra, pelo que muitas vezes nos leva a encontros que vão ter um papel importante na forma de lidarmos com a “bagagem” acumulada e com os fardos que nos acompanham. Gosto de pensar que são as “pessoas-campainha”, porque accionam mecanismo internos que facilitam olhar de frente para o que tem que ser enfrentado, especialmente em nós próprios e, com o tempo, permitirem que nos tornemos melhores pessoas;

…e por último fala-nos de amor, talvez do verdadeiro amor, daquele em que uma das partes se afasta para dar espaço porque ainda não é o momento desse amor ter o seu tempo. Nem sequer há a certeza que ele possa acontecer, porque o que está “no meio” é prioritário e tem a palavra. Entretanto, a vida continua…

É uma película simples que me agradou bastante, para além de possuir uma agradável banda sonora. Alguns dos temas são cantadas, e bem, pelo próprio Ethan Hawke, o que contribui igualmente para o interesse do filme.

Apenas uma dica: não sair do cinema mal começa o genérico!

 

 

 

olhares lugares

 

 

Agnès Varda é cineasta, fotógrafa e brevemente fará 90 anos; JR é o street artist Jean Réné, igualmente fotógrafo e agora com 34 anos.

Quando se conheceram em 2015, a cumplicidade foi notória e crescente apesar do meio século que os separa. Por esse facto surgiu a ideia de iniciar um projecto em comum, tendo como ponto de partida a sensibilidade e o gosto pela fotografia que ambos partilham.

Iniciaram então uma viagem pelas estradas secundárias de França, de onde resultou um documentário ao estilo roadmovie a que deram o título de Visages Vilages, nome que em Portugal foi traduzido como Olhares Lugares.

Essa viagem foi realizada numa carrinha transformada em máquina fotográfica gigante, uma espécie de laboratório ambulante que “imprime e expele” imagens a preto e branco em formato grande, facto que acabou por gerar muita curiosidade por onde passavam.

As imagens obtidas resultavam do contacto e diálogos estabelecidos com pessoas  encontradas em diversos lugares e situações, assim como da sua forma de estar e sentir, actividades e meios de subsistência. Mas todas as imagens revelavam o olhar artístico de ambos sobre essas personagens reais. Numa fase final, as impressões em papel foram coladas em locais específicos e sempre relacionados com a vivência dos fotografados, seguindo a técnica que caracteriza o trabalho artístico de JR.

O resultado desta viagem é um delicioso documentário sobre o quotidiano, a vida, a alegria de viver e a expressão artística, onde não faltam também interessantes diálogos sobre o passado, a morte, as escolhas ou as diferenças entre gerações. Mas toda a dinâmica se centra no profundo respeito que nasceu entre os dois como seres individuais, e neste papel em que são simultaneamente realizadores, actores, artistas e viajantes.

Com personalidades e traços identitários muito fortes e diferenciados, Agnés Varda e JR oferecem-nos noventa minutos de inteligência, partilha, humor e de imensa ternura.

Acrescento ainda que este filme se encontra nomeado para a próxima edição dos Óscares na categoria de Melhor Documentário.

 

 

voltando ao cinema…

 

 

Lucky é o primeiro filme realizado por John Carroll Lynch e o último representado por Harry Dean Stanton, actor que faleceu com 91 anos no passado mês de Setembro, antes desta película ser estreada.

Algures numa América desconhecida e ao ritmo da idade e das rotinas que caracterizam o último tempo da vida, este bonito filme mostra o processo de consciencialização e preparação de um idoso para o fim que se aproxima. Curiosamente, entre a ficção e a realidade estava um actor, que entretanto morreu, talvez sorrindo com aquele sorriso revelador e sábio com que terminou este filme.

Poderia escrever muito mais, mas não o vou fazer. Vou deixar aqui as palavras do crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, publicadas no Cinecartaz do jornal Público porque, no geral, me identifico bastante com a sua análise.

Num período do ano em que os cinemas funcionam para as “massas”, este filme é uma pequena pérola que se visualiza tranquilamente em salas quase vazias. Só por isso, merece toda a atenção e divulgação.

 

 

 

the only living boy in new york…

 

 

A frase que dá título a este post foi um dos temas do álbum Bridge over troubled water editado em 1970 pela dupla Simon and Garfunkel. Mas The only living boy in New York é também o título do último filme realizado por Marc Webb, agora em exibição nos cinemas.

Conta uma história simples, com princípio, meio e um inesperado fim, como convém a uma boa história. Fala de gente maioritariamente honesta e genuína, e fala de amor, de vários tipos de amor, seja do que se sente e mostra, do que flui no sangue e não se mostra, daquele que se dá porque mais não se pode dar, do amor vivido à distância, ou ainda do que ficou para trás e aí continua… à espera. Fala de amor, de amizade e de afectos.

É uma história-surpresa desempenhada por um grupo de actores jovens e menos jovens, como Callum Turner ou Jeff Bridges, que se desenrola ao som de numa excelente banda sonora. Pelo encadeamento, dinâmica das cenas e tipo de diálogos, pontualmente fez-me lembrar as películas de Woody Allen.

Diria que é um  filme “sem nada de especial”, mas que proporciona um momento agradável e nos faz sentir bem. Simplesmente isso.

Sendo essa uma boa sensação, deixo a sugestão!

 

 

 

paixão de van gogh

 

 

O inglês Hugh Welchman e a polaca Dorota Kobiela realizaram um inovador filme de animação que estreou recentemente nos cinemas portugueses e  emprestou o seu nome a este post. O título original é Loving Vincent.

Tecnicamente complexo, o filme revela alguns aspectos menos conhecidos que antecederam a morte deste pintor e resulta da curiosa associação de uma técnica tradicional como é a pintura a óleo com as modernas tecnologias digitais, tendo sempre por base as obras pintadas pelo artista.

Deixo-vos um interessante artigo publicado na última quinta-feira no jornal Observador, uma vez que é bastante completo e disponibiliza muita informação.

Termino acrescentando que já o visualizei e gostei imenso, merecendo sem dúvida uma ida ao cinema pela inovação que representa no mundo do filme de animação.

 

 

dunkirk

 

 

“Pátria…espaço telúrico e moral, cultural e afectivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro.

Miguel Torga, in O Dia, de 11 de Setembro de 1976

 

Por regra, não vou ao cinema ver filmes de guerra, centrando as minhas escolhas noutras temáticas. Mas fui ver Dunkirk, um filme que conta um episódio ocorrido na Segunda Guerra Mundial, nos areais que se localizam na costa norte de França, perto da fronteira com a Bélgica.

Em 1940, ainda no início dessa guerra, a progressão rápida e eficaz das forças alemãs, empurrou franceses, ingleses e belgas para essa longa faixa de areia, deixando-os encurralados. Apenas por mar poderia vir a ajuda e a sua salvação. Mas uma certa contenção por parte da Inglaterra no envio de meios que permitissem a recolha dessas tropas (uma vez que iriam ser necessários no prosseguimento da guerra), levou a que o governo inglês solicitasse a ajuda de embarcações civis de todo o tipo, para fazer essa operação de evacuação. E eles foram, com a pátria no coração buscar os seus, atravessando o canal em condições dificílimas porque os bombardeamentos aéreos dos alemães eram constantes. Foram e salvaram milhares e milhares de homens nos poucos dias em que durou a missão.

O filme, muito bem dirigido por Christopher Nolan, é contado de forma a entrosar perfeitamente os diferentes momentos e acções, vistos e sentidos a partir de terra, mar e ar. O medo e a esperança de quem está em terra à espera de ser evacuado, mistura-se com a força de quem se meteu no seu barquinho para resgatar compatriotas, ou na coragem necessária para os desafiadores e arriscados combates aéreos.

É nos momentos difíceis que o melhor e o pior das pessoas vem ao de cima, seja a maldade e o egoísmo, seja a sensibilidade, a compaixão e a solidariedade. E a força ou a perda de controle. Tudo isso está sobriamente filmado nesta película, tal como o medo da morte, o cansaço ou a força necessária para enfrentar uma situação extrema.

Porém, o que mais me marcou em toda a película, é a força e as formas que o sentimento de ligação à Pátria podem ter. Manifesta-se na vergonha de uma possível derrota, na luta pela sobrevivência (luta essa que pode incluir a ocultação da própria nacionalidade), na vontade férrea de salvar outros em memória de um filho falecido ao serviço do país ou, ainda, na decisão de lutar até ao último momento para defender e salvar compatriotas, mesmo sabendo que essa pode ser a sua derradeira acção.

A frase de Miguel Torga com que iniciei este post é uma notável descrição de Pátria, desse espaço físico e de afectos com as melhores condições para “sermos e crescermos”. Teoricamente, pelo menos.

De certa forma, todos sentimos diariamente esse sentimento de patriotismo de um modo doce, subtil e indolor. Pessoalmente, esse sentir é pouco consciente e até inconsistente, porque nunca lhe “medi o pulso” em situações limites, ou seja, nunca fui posta à prova. Estou certa que será apenas no terreno e nos momentos “nus e crus”, que essa ligação “telúrica e afectiva” poderá mostrar (ou não) a sua real força.

Este filme, quanto a mim, mostra-o muito bem.