genérico/ créditos finais

 

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Seja em casa ou no cinema, a visualização de um filme é um momento de partilha e uma apreciação do trabalho de todos os que nele colaboraram, apareçam ou não no écran.

Especialmente numa sala de cinema em que os créditos finais são bastante perceptíveis pela dimensão das letras, não compreendo que a maioria dos espectadores se levante e abandone a sala mal aparecem as primeiras palavras que se seguem à última cena do filme. Sistematicamente isso acontece, sendo raros os que ficam até ao fim.

Com essa atitude, não apenas tapam a vista e incomodam os que permanecem sentados e atentos ao que continua a acontecer no écran, como perdem por vezes cenas que surgem durante ou após a passagem do genérico e que dão pistas importantes ao próprio filme ou a sequelas que ele possa ter. Mas, principalmente, ignoram as pessoas que contribuíram para aquele momento de lazer que acabaram de usufruir.

Creio que esta atitude estará relacionada com a “aceleração” em que se vive…com o não pensar nos outros… mas, essencialmente, com o facilitismo que prolifera por aí.

Na verdade, tudo é fácil e um dado adquirido. Moldados neste espírito, uma grande maioria consome o imediato, o momento, o que gera estímulo. Pouco mais interessa, muito menos o trabalho dos outros.

Se esses espectadores que se levantam tivessem o seu nome no genérico, certamente ficariam até ao fim. O ego precisa de alimento… então, porque não o fazer como forma de agradecer aos outros, ao “contingente silencioso” que lhes permitiu aquele momento?

Se a leitura deste post tiver como consequência que uma única pessoa permaneça na sala, atenta, até ao final do genérico da próxima vez que for ao cinema… ele já valeu a pena.

 

 

A imagem inicial é um detalhe dos créditos finais do filme Um ano especial, realizado por Ridley Scott (2006)

 

 

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o professor e o louco

 

 

Um dicionário ou uma enciclopédia ocupam na maioria das habitações um recanto de uma estante… mas todos sabemos que são cada vez menos utilizados.

Se a minha geração ainda continua a recorrer a eles porque cresceu fazendo esse gesto, já as seguinte dizem: “Dicionário para quê? Vai-se à net!”

Sou especialmente apreciadora do dicionário Lello Universal, através de uma edição organizada e publicada em 1978 pela Livraria Lello &irmãos (Porto), composta por dois grandes volumes com letra muito pequena e onde se encontram palavras que outros mais recentes não possuem. É uma delícia de livro, ainda com desenhos/gravuras a complementar muitas das entradas.

Ele está na prateleira para quando é necessário. No entanto, apesar de o apreciar e usar, é um dado adquirido, como tantos outros que temos na nossa vida. Nunca levei o meu pensamento para a sua construção, o que lhe deu origem, quem realmente o concebeu, quantos anos terá levado a surgir a primeira edição, etc, etc

O Professor e o Louco é um interessantíssimo filme irlandês realizado por Farhad Safinia, que tem como actores principais Mel Gibson e o magnífico Sean Penn, este último num dificílimo papel. Encontra-se em exibição em muitas salas de cinema portuguesas e é um drama biográfico passado no séc. XIX que narra o nascimento do conhecido Oxford English Dictionary.

Numa época em que se escrevia com tinta e aparo, a distância que separava aqueles pioneiros das potencialidades dos nossos computadores e das tecnologias de armazenamento actuais, era tão grande como a que nos separa da ideia ou do trabalho mental e físico que implicou compilar os volumes daquela enciclopédia.

É um fosso que eu senti minimizado ao visualizar este filme, razão porque o estou aqui a divulgar. Neste século XXI, a fim de melhor compreendermos a actualidade e de lhe dar o devido valor, temos o dever de conhecer este detalhe desconhecido do séc. XIX.

Esta película, na sua essência, é ainda um filme sobre uma profunda amizade e sobre a empatia que se gerou entre dois seres especiais. Gostava de referir igualmente a presença de duas personagens femininas representadas por Jennifer Ehle e Natalie Dormer, ambas de enorme força, saber e sensibilidade, tendo em conta o papel da mulher naquela época.

Espero que o procurem num cinema e que o apreciem, sabendo que relata um episódio verídico da história do pensamento e das palavras que nos unem e que circulam neste mundo.

 

 

 

dois filmes

 

 

Nesta época natalícia em que o conceito de família vibra dentro de nós de uma forma um pouco mais forte, é a altura certa para referir dois filmes ainda em cartaz em algumas salas de cinema portuguesas e que se enquadram no campo das relações familiares e dos afectos.

O trailer com que iniciei o post refere-se a Shoplifters: uma família de pequenos ladrões (2018), um magnífico filme pela forma como nos questiona sobre o significado do termo família, dos laços familiares e do que é realmente uma verdadeira família. Vagueando entre a doçura dos afectos e o drama, está muito bem realizado pelo japonês Hirokazu Kore-eda e tem excelentes interpretações dos actores envolvidos. Este filme venceu a Palma de Ouro do último Festival de Cinema de Cannes.

Isto é Vida! (2018) é o titulo da outra película que gostaria de referir. Foi realizada por Dan Fogelman, o mesmo autor da belíssima série televisiva This is us , e é um drama geracional em que os laços familiares existentes, mesmo que precocemente quebrados, vão interferir com as escolhas e no caminho a seguir. Alerta-nos de uma forma muito marcante para os imprevistos da vida e para o modo como os afectos e a família podem ser o ponto de viragem e de equilíbrio.

 

 

Aconselho vivamente ambas as películas, porque simultaneamente questionam e preenchem a nossa sensibilidade.

 

 

 

cinema solidário

 

 

O que de verdade importa… é ir ao cinema visualizar este filme, sabendo que o valor da receita terá um fim solidário. Em Portugal será para a nova Unidade de Transplante de Medula do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, dando continuidade à onda solidária que já percorreu vários países e ajudou muitas instituições. O promotor desta iniciativa é Paco Arango, o seu realizador.

Há quinze anos,  ele decidiu que deveria fazer algo diferente como forma de agradecer a vida feliz que tinha. Resolveu então ser voluntário numa instituição que tratava crianças com cancro, o que ainda continua a fazer. Além disso, abraça várias causas que lhe permitem angariar fundos para a Fundação Aladina que criou em Espanha em 2005, cujo objectivo é melhorar a vida de crianças com cancro e, implicitamente, a das suas famílias.
Os filmes que realizou, Maktub em 2011 e o que agora refiro e que originalmente tem o título The Healer, tiveram ambos um fim solidário.

É importante referir que esta película é dedicada a Paul Newman (1925-2008), actor que em 1988 fundou a rede de acampamentos de crianças doentes Serious Fun Children´s Network, que conta actualmente com trinta espaços espalhados pelo mundo. Em 2007, Paco Arango conheceu Paul Newman, momento que lhes  permitiu perceber que tinham objectivos solidários comuns.

O que de verdade importa, é um filme que celebra a Vida, misturando a comédia, o drama, o realismo e a magia num perfeito equilíbrio. Estreou a 13 de Setembro em Portugal e está disponível em muitos cinemas do país.

Vale a pena a sua visualização, porque são 113 minutos em que damos um pouco… e muito recebemos!

 

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Imagem de Paul Newman com crianças retirada de
http://www.grandmagazine.com/2018/09/the-best-week-of-their-lives-paul-newmans-promise-to-kids/

 

 

 

juliet, nua

 

 

Juliet, Nua é um filme com bons actores, bons diálogos e que, como todos os filmes românticos nos conta uma história de amor. Nele encontramos um Ethan Hawke distante da juventude de Antes do amanhecer (1995), longe do jovem adulto de Antes do anoitecer (2004) ou do adulto de Antes da meia noite (2013). Neste filme, ele faz o papel de um ex-cantor rock, já grisalho e capaz de ser avô. Ao seu lado, partilhando o filme realizado por Jesse Peretz, estão os actores Rose Byrne, Chris O’Dowd e Azhy Robertson, em bons desempenhos.

É um filme discreto, sem efeitos especiais e habitado por gente comum com problemas semelhantes aos nossos. Talvez por isso estas palavras e a referência a alguns aspectos que me chamaram a atenção…

…como pode ser mentalmente limitativo o enfoque num ídolo, havendo o perigo de criar uma teia de ideias e certezas que nada têm a ver com a vida desse ser que se idolatra. Além disso, pode levar a um alheamento da realidade e a “esquecer” as pessoas que estão por perto;

…a vida é uma grande mestra, pelo que muitas vezes nos leva a encontros que vão ter um papel importante na forma de lidarmos com a “bagagem” acumulada e com os fardos que nos acompanham. Gosto de pensar que são as “pessoas-campainha”, porque accionam mecanismo internos que facilitam olhar de frente para o que tem que ser enfrentado, especialmente em nós próprios e, com o tempo, permitirem que nos tornemos melhores pessoas;

…e por último fala-nos de amor, talvez do verdadeiro amor, daquele em que uma das partes se afasta para dar espaço porque ainda não é o momento desse amor ter o seu tempo. Nem sequer há a certeza que ele possa acontecer, porque o que está “no meio” é prioritário e tem a palavra. Entretanto, a vida continua…

É uma película simples que me agradou bastante, para além de possuir uma agradável banda sonora. Alguns dos temas são cantadas, e bem, pelo próprio Ethan Hawke, o que contribui igualmente para o interesse do filme.

Apenas uma dica: não sair do cinema mal começa o genérico!

 

 

 

olhares lugares

 

 

Agnès Varda é cineasta, fotógrafa e brevemente fará 90 anos; JR é o street artist Jean Réné, igualmente fotógrafo e agora com 34 anos.

Quando se conheceram em 2015, a cumplicidade foi notória e crescente apesar do meio século que os separa. Por esse facto surgiu a ideia de iniciar um projecto em comum, tendo como ponto de partida a sensibilidade e o gosto pela fotografia que ambos partilham.

Iniciaram então uma viagem pelas estradas secundárias de França, de onde resultou um documentário ao estilo roadmovie a que deram o título de Visages Vilages, nome que em Portugal foi traduzido como Olhares Lugares.

Essa viagem foi realizada numa carrinha transformada em máquina fotográfica gigante, uma espécie de laboratório ambulante que “imprime e expele” imagens a preto e branco em formato grande, facto que acabou por gerar muita curiosidade por onde passavam.

As imagens obtidas resultavam do contacto e diálogos estabelecidos com pessoas  encontradas em diversos lugares e situações, assim como da sua forma de estar e sentir, actividades e meios de subsistência. Mas todas as imagens revelavam o olhar artístico de ambos sobre essas personagens reais. Numa fase final, as impressões em papel foram coladas em locais específicos e sempre relacionados com a vivência dos fotografados, seguindo a técnica que caracteriza o trabalho artístico de JR.

O resultado desta viagem é um delicioso documentário sobre o quotidiano, a vida, a alegria de viver e a expressão artística, onde não faltam também interessantes diálogos sobre o passado, a morte, as escolhas ou as diferenças entre gerações. Mas toda a dinâmica se centra no profundo respeito que nasceu entre os dois como seres individuais, e neste papel em que são simultaneamente realizadores, actores, artistas e viajantes.

Com personalidades e traços identitários muito fortes e diferenciados, Agnés Varda e JR oferecem-nos noventa minutos de inteligência, partilha, humor e de imensa ternura.

Acrescento ainda que este filme se encontra nomeado para a próxima edição dos Óscares na categoria de Melhor Documentário.

 

 

voltando ao cinema…

 

 

Lucky é o primeiro filme realizado por John Carroll Lynch e o último representado por Harry Dean Stanton, actor que faleceu com 91 anos no passado mês de Setembro, antes desta película ser estreada.

Algures numa América desconhecida e ao ritmo da idade e das rotinas que caracterizam o último tempo da vida, este bonito filme mostra o processo de consciencialização e preparação de um idoso para o fim que se aproxima. Curiosamente, entre a ficção e a realidade estava um actor, que entretanto morreu, talvez sorrindo com aquele sorriso revelador e sábio com que terminou este filme.

Poderia escrever muito mais, mas não o vou fazer. Vou deixar aqui as palavras do crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, publicadas no Cinecartaz do jornal Público porque, no geral, me identifico bastante com a sua análise.

Num período do ano em que os cinemas funcionam para as “massas”, este filme é uma pequena pérola que se visualiza tranquilamente em salas quase vazias. Só por isso, merece toda a atenção e divulgação.