experimentações #28

Dando continuidade aos dois posts anteriores desta série, diria que outros blocos se seguiram preenchidos com o mesmo tipo de registos “gráfico-emocionais”, como eu gosto de lhes chamar. Inicialmente isso aconteceu com uma certa continuidade, mas amiúde os intervalos foram aumentando e os registos sendo cada vez menos. Até desaparecerem simplesmente.

Não minto ao dizer que nos últimos anos da década de noventa as minhas “experimentações” ficaram reduzidas a postais de aniversário e/ou de Natal para oferecer, e ainda a um ou outro desenho realizado em férias.

A criatividade passou nitidamente para um plano muito secundário, porque outras dinâmicas surgiram na minha vida, nomeadamente a necessidade de fazer trabalhos extra, acompanhar o estudo e crescimento dos filhos de uma forma mais atenta e ainda o início da relação com o meu actual companheiro. Ou seja, muita coisa para me ocupar/preencher… e uma total falta de tempo e de disponibilidade para a vertente criativa.

Em muitos momentos não foi fácil lidar com esse “desligar”…mas era assim, não poderia ser de outra forma e no futuro logo se veria. Diria que a criatividade estava no final da lista de prioridades… mesmo que por vezes bastante intranquila e irrequieta.

E foi assim que cheguei ao século XXI!

experimentações #27

Partilho hoje mais algumas páginas desse primeiro bloco de registos/diário gráfico datados de 1992.

São mais alguns momentos… e um verdadeiro transpirar de emoções!

Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel) 

de castelo em castelo

Estrategicamente posicionados são imensos os castelos que enriquecem a paisagem de muitos países. Localizados normalmente em posições altaneiras, a maioria terá cumprido no auge da sua existência a missão para que foram edificados. Em Portugal são muitos os que pontuam o horizonte sendo variados os seus estados de conservação. Certo é que são lugares de muita história, mas igualmente de amplas vistas e sempre uns agradáveis locais de visitação.

Mas outros castelos existem, bem mais voláteis que estes e que tocam a nossa existência…

…é o caso dos castelos de cartas que quase todos construímos em criança e que, por mais cuidado que tivéssemos, um sopro ou um nada os faria desabar sem dó nem piedade. E lá se ia mais uma tentativa…

…também os castelos de areia passaram pelas nossas mãos. Construídos a partir de um balde ou moldados manualmente, com eles formamos efémeras paisagens que uma onda sempre acabava por engolir. Surgia então aquele “Ohhhh” que já espreitava dentro de nós o momento de se manifestar.

Já os castelos construídos longe de ondas não seriam engolidos pelo mar, mas sim destruídos pelo sol e brisas, num desmoronar lento e bem mais doloroso. Diria que para qualquer castelo de areia o fim é seguramente a destruição.

…fim semelhante mas um pouco mais prosaico têm os castelos no ar ou castelos de vento, aqueles sonhos impossíveis e sem fundamento que alimentam a nossa mente. São as utopias, grandes ou pequenas, que mais tarde ou mais cedo se vão como o vento!

…já no campo alimentar recordo o castelo da melancia, que correspondia à parte central desse fruto. É um termo que trago da minha infância e que era muito desejado por ser o mais doce e não ter pevides.

…curiosa, é também a ideia da clara de um ovo ter potencial para virar castelo, dando origem às famosas claras em castelo, aquelas construções de consistência espumosas e efémera existência que são o segredo de muitos doces e preciosas na pastelaria.

..novidade para mim, foi descobrir recentemente a existência dos termos náuticos castelo de popa e o castelo de proa, que referem zonas localizadas respectivamente nas traseiras e na frente de uma embarcação.

…em Portugal, a palavra castelo, tem ainda o potencial de emprestar o seu nome a muitos aglomerados populacionais de dimensão variada. Temos por exemplo as cidades de Castelo Branco e de Viana do Castelo, assim como as vilas/aldeias de Castelo de Paiva, Castelo Rodrigo, Castelo de Vide, Castelo Melhor, Castelo Novo, Castelo Bom, Castelo Mendo, entre muitas outras que agora não recordo. Entra igualmente no nome de uma das maiores barragens do país, a de Castelo do Bode, localizada no centro de Portugal.

…e por herança familiar, a palavra castelo é ainda apelido de muitos portugueses e provavelmente de pessoas oriundas de países de expressão portuguesa.

Porquê este divagar, perguntarão?

Porque hoje é o Dia Nacional dos Castelos.

E não desfazendo no significado deste dia no conhecimento e preservação dessas estruturas históricas ou o quanto aprecio “conquistar” mais um esteja ele onde estiver, também adoro este jogo de explorar uma palavra em todas as suas vertentes e possibilidades.

E hoje foi o dia de castelo!

experimentações #26

Um pouco em simultâneo com os desenhos que partilhei nos últimos posts, esses ainda realizados em folhas soltas, comecei em 1992 a utilizar blocos como base de anotação de sentires, pensamentos/poesias, mas também de desenhos, recortes, colagens, etc,.

Funcionaram como uma espécie de diário gráfico onde materializava o que me sensibilizava, as emoções que me trespassavam, mas também os sentires sobre o que acontecia no mundo ou sobre manifestações culturais a que assistia. Uma heterogeneidade de modos de expressão que, de certa maneira, funcionaram como um escape num tempo que não foi linear nem fácil na minha vida

Apesar de muitas das folhas desses blocos não estarem datadas, algumas contêm essa referência, o que possibilita uma localização mínima no tempo, mesmo que não seja no dia certo.

Neste e no próximo post desta série, irei partilhar algumas páginas do primeiro desses blocos, datado de 1992. Além de ser o “primogénito”, exteriormente é o mais bonito, o que lhe concedeu um valor acrescentado nesta “colecção” de registos.

(Dia do tiroteio no cemitério de Santa Cruz, em Timor Leste)
Já não recordo a origem destas palavras/frases, daí não poder mencionar o autor/ fonte
Depois de ver uma exposição da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015)
E após uma ida ao teatro ver uma peça baseada na obra do artista Hieronymus Bosch
Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel) 

experimentações #25

Completam estes desenhos o ultimo post que publiquei desta série, ou seja, um conjunto de experimentações em que prevaleceu a técnica do pontilhismo.

Tal como nos anteriores, também estes revelam a vontade – mesmo que ainda inconsciente – de quebrar com algo, inovar, explorar, expandir… etc. Enfim, qualquer coisa que eu ainda não sabia bem o que era!

(Dulce Delgado, lápis de cor, aguarela e tinta da China sobre papel, 1993)

olhares

Cruzam-se por aí
incontáveis olhares,
rede invisível de energias
que se tocam
sem querer
saber
ou pensar.

Olhares doces
intensos
objectivos
seguros ou perdidos,
bucólicos
tristes
disfarçados ou plenos.

Olhares de nós.

Alguns
poucos
aninham-se noutro olhar
ou lugar…

…ficando a maioria
perdida no tempo
no vazio
no éter
e no ar…

…perdidos de nós!

(Desenho e poema de Dulce Delgado, Agosto 2021))

experimentações #24

Tempos mais conturbados na minha vida poderiam ter levado a um afastamento da vertente criativa. Mas tal não aconteceu. Pelo contrário, sendo o momento de trilhar um novo caminho, senti necessidade de fazer coisas um pouco diferentes.

O curioso é que os desenhos que publico neste e no próximo post, tecnicamente exigentes e requerendo muita atenção e cuidado uma vez que muitas das zonas de sombras e relevos foram realizadas com pontos de caneta (e muita paciência também!), serviram para eu perceber que realmente não era isto que queria porque, na essência, eles simbolizavam contenção, controle e a total ausência de espontaneidade.

Contudo, aprecio este conjunto de desenhos como um todo por terem sido únicos e marcarem um tempo de mudança na minha vida. Gosto especialmente do inicial pelo simbolismo que encerra, desenho que há uns anos decidi oferecer a uma sobrinha que o adorava, vivendo desde então feliz em sua casa.

(Dulce Delgado, lápis de cor, aguarela e e tinta da China sobre papel, 1993)

experimentações #23

Tal como sucedeu no post anterior desta série experimentações, o que une os desenhos que hoje partilho é apenas o tom, neste caso a presença do rosa/lilás. Não aprecio especialmente esses tons, mas naquela altura, resolvi “brincar” com eles.

São igualmente desenhos não datados, mas que creio poder situar nos primeiros anos da década de noventa.

pelo mundo das letras…

Inquieto,
deambulava o P
pelo mundo das letras
da escrita
e da aventura.

Num atalho encontrou o O
e logo a seguir o E,
o que gerou confusão
no momento de decidir
qual a ordenação
deste trio em formação.

As hipóteses eram demais…
…mas a personalidade do P
não era de subestimar,
decidindo com firmeza
que POE seriam
no futuro caminhar.

E assim continuaram.

Mais à frente
ouviu-se um forte suspirar…
…era um S
triste
e muito carente,
desejoso de encontrar
alguém a quem abraçar.

Com ternura no olhar
o E deu-lhe um forte abraço,
fazendo-o logo sentir
que finalmente encontrara
um lugar onde ficar.

E como POES seguiram…

…até num recanto avistarem
um ditongo a namorar
com fulgor e ousadia
em plena luz do dia.
Era o IA!

De imediato perceberam
a forte emoção
que esse par lhes traria,
pois juntos seriam corpo,
alma
acção
e uma imensa energia!

Logo entendeu o IA
o apelo vibratório
que o POES lhe fazia,
e o forte potencial
que a situação traria
a todos na vida real.

Tomada a decisão
o ditongo avançou
e ao S se agarrou…

…com tão forte a atracção…

…que num acto de magia
a palavra ganhou asas
e nasceu a POESIA!

(Poema e desenho de Dulce Delgado)