30

desenho capa

Desde criança que encontraste nos livros a principal forma de satisfazer a tua curiosidade sobre a vida e sobre o mundo.

Cresceste.

O mundo continua a fazer parte das tuas experiências de vida e os livros persistem em ser uma parte fundamental do teu mundo…e também da tua bagagem!

Nesta data folheias uma simbólica página do livro da vida, a trigésima… página ainda em branco, mas por isso mesmo replecta de possibilidades e de leituras!

Um forte abraço de mãe…e boas viagens pela vida!

 

 

 

59…

 

59

 

Num rápido olhar sobre os últimos 59 anos, vejo que…

… fui feliz na década da infância
… ultrapassei sem traumas a década da adolescência/juventude
… na terceira década vivenciei a maternidade com enorme alegria
… passei a quarta década na busca de maior equilíbrio e de novos caminhos
… vivi a quinta década como um tempo de maturação das escolhas
… e nesta última década prestes a terminar, a sexta, percebi entre várias outras coisas, que muito gradualmente todas as células se estão alterando…

Ou seja, estou precisamente a 365 dias de me tornar sexagenária, o que visto das décadas anteriores significava naturalmente “ser velha”…

…porém,

sempre que vejo um parque infantil, tenho uma vontade enorme de entrar…transgredir…sentar-me num baloiço…e andar nele totalmente à maluca!

Será que já estou a entrar na fase de regressão?
Ou será que ainda não cresci?

 

 

 

nunca…

caminho

..será seguramente uma das palavras mais difíceis do nosso vocabulário. Diria mesmo que, tal como a sua antónima sempre, ela é uma das mais “falsas”. Mas como sabemos, os opostos têm frequentemente pontos de contacto.

Hoje, o objectivo é “desmascarar” o termo nunca, porque ele pode ser “falso” quando…

… o aliamos a emoções ou a sentimentos. O tempo ajudará a demonstrá-lo e a desmenti-lo;

… ele se agarra às palavras que proferimos. Mais tarde ou mais cedo serão outras palavras que o poderão contradizer;

 … o associamos a acções que negamos ou recusamos fazer. A necessidade ou uma emergência leva-nos muitas vezes a agir contrariamente;

 … o usamos contra novas sensações. Porque no futuro, outra situação ou  circunstância, poderão levar-nos a aceitar novas experimentações.

O termo nunca é, pois, excessivo e extremado. Podemos usa-lo olhando para o passado, mas não o devemos fazer olhando para o futuro. É muito provável que nos enganemos. Porém, ele é totalmente verdadeiro numa única situação: quando se refere aos termos “futuro/tempo/vida”, porque…

          …nunca sabemos o que pode acontecer no momento seguinte

          …nunca sabemos o dia de amanhã

          …nunca sabemos o que a vida tem ainda para nos dar!

Como podem ser ambíguas as palavras que utilizamos!

entre linhas

 

img_7563

 

  • A linha da vida, dizem, está na palma das nossas mãos. Talvez sim…ou talvez não. Eu prefiro pensar na vida como um emaranhado de linhas, ora rectas, ora curvas, ora cruzadas…e de muitas imaginadas!
  • A linha de pensamento precisa de muita segurança para não ter desvios, mas flexibilizá-la revela no mínimo alguma inteligência;
  • A linha do tempo é a história do mundo, mas igualmente a nossa história, com muitos momentos marcantes…e muito outros sentidos como semelhantes. E nesse fluir, o tempo vai alterando o mundo, a natureza e transformando-nos também. E vai escrevendo em nós e na nossa pele, aquelas linhas expressivas, tão belas quanto difíceis… como são as rugas!
  • No olhar, a linha está em tudo. Pura, como contorno ou escondida na perspectiva, ela é a essência. Aliás, basta pensar como o desenho sintetiza a sua presença. De uma forma geral não temos consciência dessa multitude de linhas e de contornos, porque os volumes ou as cores são mais chamativos e atractivos ao nosso olhar. Porém… a linha está sempre, mas sempre presente.
    Pontualmente reparamos nessa essência, nessa linha, mas apenas quando nos provoca uma emoção: ao ver as elegantes linhas arquitectónicas de um edifício, o bonito perfil de um rosto, o contorno de um corpo ou o recorte de uma agradável paisagem. E reparamos na linha do horizonte, pela carga emocional que desperta ao estar associada ao além e ao desconhecido;
  • Visíveis ou invisíveis, as linhas estão nas páginas de um caderno ou nas folhas dos livros. E formam a pauta onde vivem as claves, as notas musicais…e tantos símbolos mais!
  • Na ponta de um lápis ou de uma caneta que seguramos, nascem as infinitas linhas que formam as letras, as palavras e que desenham o mundo. Estas linhas são arte, são prosa, são poesia…e são parte da magia que alimenta o nosso dia!

 

Mas são muitas outras as linhas que nos envolvem:

  • Na terra que habitamos, existem os virtuais paralelos e meridianos, sendo o mais popular o de Greenwich; e existem as linhas de fronteira…a linha de costa…as linhas de água…as linhas férreas… a linha de metropolitano…
  • O céu… é o campo das linhas aéreas e, mais longuiquamente, das linhas-órbita dos planetas e de outros astros, ou ainda das imaginadas linhas que dão forma e nome às constelações de estrelas;
  • Na atmosfera e na meteorologia, temos as linhas isotérmicas…as isobáricas… e outras do género mas que não sei o nome.

 

Também na sociedade que construímos elas são imensas:

  • Começando pelas linhas telefónicas, temos as de emergência…de informação…de apoio ao cliente…de saúde…etc;
  • Noutros campos, temos as linhas de crédito…as linhas de montagem…as de costura, crochet e afins…
  • As linhas de fogo… marcam as guerras deste mundo;
  • E no desporto, temos a linha de partida…a desejada linha da meta…a linha de meio campo…a linha de baliza…etc.

 

E existem ainda as linhas mais invisíveis, psicológicas, de comportamento, de conduta…  linhas  que seguimos…que nos perseguem…que transgredimos… e os “fios da navalha” das nossas vidas…

Estamos rodeados de linhas, visíveis e invisíveis. E muitas haverá que certamente esqueci. É muito interessante pensar nesse “emaranhado”de linhas que nos envolvem… regem… usamos… seguimos… vemos…

…mas curiosamente, neste tão amplo contexto, o “manter a linha” é uma das tarefas mais difíceis!!!

 

 

vida(s)

img_7066

Envolto em pensamentos
e ao som da respiração,
bate o coração,
lento
louco
irreverente
ou cheio de emoção.

A esse pulsar
chamamos vida,
misto de células e de energia
que um rio,
vermelho e sem foz,
alimenta com sabedoria.

Um dia,
pára o rio e o coração,
terminando essa magia
na última expiração
de um corpo,
sem vida nem reacção.

Fica a energia,
talvez a alma,
talvez  o espírito…
algo que desconheço,
mas sinto
e acredito!

Passará um tempo,
transitório,
lento
e sem memória,
até chegar a hora
da energia e da magia
iniciarem outro ciclo
e escrever uma nova história.

Novo corpo
outro coração
e outro rio…

Uma primeira inspiração
faz nascer um novo ser,
que na vida irá escolher
e aprender,
com o bem e o mal
a vitória e a derrota
o amor e a dor
o dar e o receber
o medo
o sofrimento
o arrependimento
a partilha
a paz
a felicidade
e sempre
mas sempre com a verdade!

Não,
a Vida não pode ser
apenas um único Viver!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

 

valor relativo

 

IMG_3474

 

Talvez as nossas mãos sejam o principal meio de transporte que lhes permite “mudar de casa”, seja para uma caixa registadora, para um porta-moedas, um mealheiro ou uma algibeira, sendo o tempo de permanência nesses lugares uma verdadeira incógnita. Mas no período que permeia entre o chegar e o partir, podem mudar de cidade ou de país, sendo por isso as melhores turistas do acaso da nossa sociedade.

As moedas vêm e vão, passando por nós de uma forma quase indiferente. Apenas nos apercebemos da sua real importância em situações muito específicas, como no momento de “alimentar” um parquímetro ou qualquer outra máquina automática que delas depende para cumprir a sua função. Apesar de tudo, nenhum mecanismo actual consegue destronar as verdadeiras “comedoras” de moedas como eram as antigas cabines telefónicas, clássicas referências de um tempo em que a moeda virtual ainda estava bem longe do nosso dia-a-dia.

De vez em quando sentimo-las de uma forma mais emocional e menos fria ou metálica. É o caso daquela moeda que segue o seu caminho como recompensa pelo momento agradável que uma performance artística nos proporcionou no meio da cidade, ou a moeda que damos a alguém mais necessitado e cujo olhar, ou silêncio, nos tocou especialmente. Estas serão recebidas com uma energia diferente, mais humanizada e provavelmente trocadas por um sorriso ou por um obrigado.

De certa forma, as moedas são a parte mais visível, palpável e até “pura” de uma enorme engrenagem que tudo controla sem dó nem piedade e cujo objectivo é o lucro, quantas vezes desumano e desenfreado. Se, para muitos, elas são míseras e não valem nada, para outros valem imenso e podem contribuir para que as suas vidas sejam menos miseráveis.

É estranha e tão injusta, esta dialéctica da sociedade em que vivemos.