experimentações #35

Se as férias anuais continuavam a dar origem a blocos com desenhos/registos, nos restantes dias do ano iam crescendo os cadernos com sketches diversificados e baseados em objectos comuns do dia-a-dia.

Em 2010, no entanto, apeteceu-me variar e resolvi começar a preencher um caderno apenas com desenhos de mãos, tendo por base o “modelo” sempre disponível: a minha mão esquerda. Sendo completamente destra, a mão direita era a activa e a esquerda sempre a passiva.

Desenhar mãos é bastante difícil, pelo menos para mim. Recordo que raramente ficava satisfeita com o resultado mas, sendo o objectivo apenas treinar e aprender, o meu “gostar” não era realmente importante. Digamos que funcionava apenas como incentivo. Como todos estes esboços eram realizados a caneta, o que saía…era o que ficava.

Pontualmente, e já sem saber que mais posições arranjar para a mão, fixava-me apenas num dos dedos ou, para variar, num pé!

Guardo com muito carinho este caderno como exemplo da persistência e da motivação que então me moviam. Hoje já não tinha paciência para fazer isto, sendo talvez por isso que aprecio muito mais o seu conteúdo.

Bom fim-de-semana!🤗

experimentações #34

São inúmeras as possibilidades de registar graficamente o que se observa/pensa/sente se o objectivo final for o guardar memórias de lugares.

Foi exactamente com essa vontade de encontrar outros caminhos que, a par de registos mais tradicionais como o desenho e a aguarela, elaborei o bloco de férias do ano de 2010. O Minho, a província mais a norte de Portugal foi a área escolhida nesse ano, região que nos proporcionou belos passeios e agradáveis momentos gastronómicos.

Neste bloco, a par de alguns desenhos utilizei igualmente recortes de postais e fotografias assim como materiais naturais que ia recolhendo por onde passava. A escrita, como sempre, foi um complemento fundamental.

Partilho a seguir algumas páginas representativas desse livro de férias.

Estes registos foram maioritariamente realizados in loco. Quando não tinha o que precisava para concretizar determinada ideia, nomeadamente fotografias ou recortes, planeava a página deixando espaços em branco para preencher posteriormente.

Recordo ainda que na altura gostei muito desta experiência de utilizar recortes por ser uma técnica bastante versátil, rápida e de me permitir “brincar” com as imagens com um certo humor.

Boa semana!

pela cidade

Cidade de gente apressada
cidade de gente indiferente…

Gastam passos sem sentido
passam esquinas, casas, dor
pisam pedras,
pisam gente
negam um olhar decente
ignoram que há luz e cor
e tanto para ser percebido.

Abranda o passo,
esquece o tempo por  momentos
e usa a cidade com amor,
acaricia as pedras ao andar
faz de cada esquina uma descoberta
e de cada azulejo uma obra de arte.

Deixa a cidade tocar-te,

procura no outro uma janela aberta
e põe um sorriso no seu olhar!

Poema e desenho de Dulce Delgado, ambos com mais de três décadas mas de uma temática que se mantem actual. Diria apenas que o poema revela um pouco de idealismo a mais…

 

experimentações #33

Durante alguns anos centrei-me essencialmente nos álbuns “por aí” como os partilhados no último post desta série.

De vez enquanto surgiam algumas intranquilidades criativas, inquietações que no final de 2008 aumentaram muito, a par da sensação de estar “demasiado parada” e de precisar de crescer um pouco mais.

Comecei também a sentir que o caminho não estaria nos traços que povoavam o meu imaginar como acontecera até então, mas que precisava de saber desenhar melhor o que via, de perceber racionalmente a relação entre as formas/volumes, perspectivas, sequência de planos, etc. Percebi igualmente que precisaria de muito, muito treino até eventualmente sentir que sabia realmente desenhar. Adquiri então alguns livros que me deram dicas importantes e comecei com um treino intensivo que consistia em fazer um desenho por dia o que, verdade seja dita, nem sempre foi cumprido com rigor.

Ao centrar-me na realidade tudo começou a ser alvo do meu olhar e a ser desenhado. Utilizava a caneta para não apagar nada e assim perceber a evolução. E depois foi insistir, insistir e insistir, como consiste no geral qualquer treino.

Os blocos foram sendo preenchidos, ficando aqui apenas alguns exemplos desse treino visual e manual.

Nesse ano de 2009 voltei a fazer um bloco com registos de férias, o que já não acontecia desde 2003. Completamente diferente dos anteriores, ele foi de certa forma uma continuação dos desenhos diários para os quais eu estava “programada”. A grande diferença é que os alvos escolhidos estavam maioritariamente no exterior. 

Na última imagem, as duas páginas do bloco estão preenchidas com registos rápidos de pessoas em movimento, algo para mim extremamente dificil, quer naquela altura quer agora.

Falta-me uma boa memória visual capaz de captar a posição dos corpos em acção como uma imagem fotográfica que depois seria transposta para o papel. Precisaria realmente de muito, muito treino até conseguir registos que exprimissem a naturalidade/espontaneidade dos corpos e das expressões a ele associadas. Porém, até hoje não me apeteceu fazê-lo. Talvez um dia, quem sabe.

Neste momento assumo totalmente essa incapacidade relativamente a algo que, na minha perspectiva, caracteriza e define um verdadeiro desenhador.

sabes desenhar?

É provável que a maioria dos leitores deste post diga que não, que não tem jeito. Essa é a resposta mais comum.

Porém, se tal desejo vos habita de uma forma mais ou menos consciente, que essa primeira resposta nunca seja impeditiva de tentarem. O importante é querer iniciar essa caminhada com vontade e sobretudo sem expectativas, sendo certo que ela levará a um certo “auto-conhecimento” e a adquirir um olhar mais conciso e estético sobre o que nos rodeia.

Neste Dia Mundial do Desenhador não me vou alongar, pois iria repetir-me. Creio que o melhor será irem a este post que publiquei no início do Discretamente em 2016 e onde o desenho foi tema. Nele partilho algumas dicas para quem aceita esse desafio, sendo certo que seis anos depois essas palavras continuam actuais e a reflectir o que penso e sinto.

Antes de terminar gostaria ainda de dizer algo sobre a imagem/desenho que inicia este post. Ele simplesmente significa que tudo o que o que abarcamos com o olhar é desenhável, seja grande ou pequeno. Significa ainda que basta uma simples caneta e um caderno para o fazer, não sendo aceitável a desculpa de falta de material adequado.

E por ultimo significa que, nesta aprendizagem, o desenho mais gratificante é o mais simples, ou seja, aquele em que quer a mão quer o olhar conseguiram “perceber” o essencial e transpor isso para o papel.

Tentem e não desistam desta viagem. Ela é para toda a Vida!

Este dia justifica-se porque foi a 15 de Abril de 1452 que nasceu Leonardo da Vinci, talvez o maior desenhador de sempre. Em Portugal também é conhecido como o Dia Mundial da Arte, sendo que no Brasil, por exemplo, é conhecido como o Dia Mundial do Desenhista.

sono em dia

Entre o ter sono e dormir bem e o não conseguir dormir de uma forma tranquila e recuperadora existe um vasto leque de possibilidades. E de insónias também!

Admiro profundamente os que têm a capacidade de desligar da vida e do mundo e dormir sempre bem. Em todas as circunstâncias e seja onde for!

Gostaria imenso de ser assim!

Hoje, 18 de Março, é o Dia Mundial do Sono, uma data que pretende reforçar a importância da qualidade do sono para uma vida mais saudável e equilibrada.
Desenhos de Dulce Delgado (2009 e 2014)

as voltas da vida

Num recanto da cidade
um estendal…
…e uma branca camisa
em sonhos de liberdade!

Ora enfuna com o ar
e na vontade de voar…
ora na corda se enrola
esgotada de tanto lutar.

Na rotina dos dias
o desalento é total,
usada
e depois despida,
na roupa suja é metida
numa indiferença brutal.

Se a lavagem é desventura,
pior é a tortura
dum ferro quente a passar
percorrendo o seu corpo
para os vincos alisar.

Sucedem os dias difíceis
e nada de bom acontece,
até o tal sonho,
gasto de tão usado
em dor se desvanece.

Um dia…

…estando presa no estendal
um fortíssimo vento norte
faz renascer a esperança,
pois nas molas sentiu desnorte
e na corda insegurança.

Uma rajada maior
liberta-a
daquele lugar,
começando ofegante
numa aventura invulgar.

Como um balão insuflado
voou feliz pelo ar,
e quando longe chegou
viu-se com riso e espanto
uma manga a acenar!

(Poema e desenho, Dulce Delgado, 2016)
Há seis anos, quando iniciei o Discretamente, partilhei alguns poemas que tiveram pouquíssimas visualizações, algo comum no início de qualquer blog. Porque os aprecio, tenho a intenção de os publicar novamente.
As voltas da vida” é um deles e foi agora escolhido porque, não estando a vida e os tempos com qualquer tendência para o humor, que seja a imaginação a nos permitir, talvez, um pequeno sorriso. 
Este poema, agora revisto e com ligeiras alterações relativamente ao original, surgiu num dia de grande ventania ao observar uma camisa branca num dos estendais das habitações localizadas nas traseiras do meu emprego.
 

experimentações #31

Em 2003 concretizamos durante duas semanas uma muito ansiada viagem à Irlanda. Sendo algo fortemente desejado, vivido e sentido pelos dois, o livro que daí resultou foi em parceria, ou seja um registo com características algo diferentes dos anteriores já partilhados. A meu cargo ficou a descrição geral da viagem e a parte gráfica, escrevendo o Jorge pontualmente a sua versão/comentário a determinados momentos ou situações.

No final tínhamos o nosso livro, o único realizado em conjunto. Mas aquela viagem, que exigiu muito tempo de preparação pelos recursos envolvidos e que no final foi tão gratificante, merecia transformar-se numa recordação especial e palpável para toda a Vida.

Seguem-se algumas páginas das quase cinquenta folhas que ele engloba.

Este album foi, é e sempre será um recanto inesquecível e muito querido para nós!