finito olhar

 

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Infinitos pontos
em tão infinito palco!

Os actores são estrelas
planetas
e demais viajantes…

E nós,
eu
tu
e todos,
da Terra apenas
simples habitantes!

 

(Dulce Delgado, Novembro 2019)

 

 

 

 

em dia de s. martinho…

castanha

…e das deliciosas castanhas a ele associadas, volto pela quarta vez a este tema desde que em 2016 iniciei o blog, reflectindo uma tradição que o tempo continua a guardar e que na minha família gostamos de celebrar.

Por questões logísticas, este ano o habitual encontro aconteceu de véspera, ontem portanto. Em volta da mesa os presentes e os ausentes, e em cima da mesa, para além das castanhas, outras iguarias tradicionais como o quente caldo verde, o chouriço e a batata doce assada, a tábua de queijos, as azeitonas, o doce de abobara e outros complementos que sempre aparecem para adoçar o evento.

O vinho acompanhou o degustar dos petiscos e o ritmo da conversa. Ele não foi “o primeiro vinho maturado do ano” como mandaria a tradição para esta data. Porém, não havendo agricultores ou vinhas na família, recorre-se ao supermercado onde a escolha é vasta. Também a jeropiga, um licor de vinho doce típico desta época esteve presente na hora de degustar as castanhas.

Da tradição faz parte um brinde colectivo, um tchim-tchim direccionado aos presentes, à saúde, à Vida e aos projectos pessoais. E ao mundo também, porque bem precisa de boas energias! Intimamente lembramos ainda os ausentes, já falecidos ou não. Afinal eles são as nossas raízes, o tronco de onde nascemos.

Ontem, num flash, esta imaginação trouxe igualmente para a mesa o S. Martinho de Tours envergando metade da sua capa vermelha. A outra metade ficou algures no séc. IV protegendo um pedinte da chuva e do frio, ou no corpo de Jesus como visionou o santo. Diz ainda a lenda que depois do S. Martinho agasalhar o pedinte, as nuvens desapareceram do céu e o sol brilhou durante três dias para os aquecer.

Este ano o S. Martinho não se fez acompanhar desses típicos “três dias de Verão”, presenteando-nos com um estranho leque de condições meteorológicas. Até ele foi obrigado a se a adaptar à instabilidade dos tempos…

Neste seu dia será celebrado e lembrado em muitos lugares… pela minha parte, gosto de pensar que ontem, virtualmente sentado à nossa mesa, ele apreciou a companhia, o calor humano, a boa disposição e os petiscos!

Obrigada Lena!

 

(Dulce Delgado, Novembro 2019)

 

 

 

 

entre libélulas

 

3 lib

 

Em voos rápidos
e aleatórios pelo ar,
elas voam sobre a água
ao som
do fresco murmurejar.

A seu lado
voa o meu olhar,
atraído pelas cores metalizadas
e transparência fluída
das suas asas.

Com  libélulas
no ar,
é tão leve
e fácil
voar neste lugar!

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2019)

 

 

 

 

preconceito…

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…as portas que a mente fecha antes do pensar

…um pensamento preso numa viela do tempo

…respirar superficial que se alimenta da moral

…escolher a rejeição sem hipótese de discussão

…a superstição de uma mente fechada e resistente

…desprezar a possibilidade perante a dualidade

…relutância em pensar fora do linear

…escolher o generalizar sem a razão procurar

…uma ideia limitada que se antecipa à possibilidade

…sentir de hostilidade perante a diversidade

…e o hábito de julgar sem ouvir, de forma justa e imparcial, outros modos de sentir!

 

(Dulce Delgado, Setembro 2019)

 

 

 

caminhar…

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Um passo
apenas…
…e o desequilíbrio
que obriga o corpo a seguir em frente
com outro passo.

Com convicção?
Emoção?
Indiferença?
Solidão?

Cada passo
é tempo
de menos futuro e mais passado…

…o menos e o mais…

…termos que se anulam
no presente
espaço de tempo!

Vivido?
Amado?
Sentido?
Partilhado?

Em passos
de espaço tempo
e em constante desequilíbrio,
naturalmente
equilibramos a Vida!

Como é fascinante este “caminhar”!

 

(Dulce Delgado, Agosto 2019)

 

 

 

a esfera

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A esfera ocupa um lugar especial no mundo das formas.

É a única que não tem arestas, clivagens ou fronteiras. Apenas envolve, é suave ao olhar e ao tacto, e sempre parece guardar algo no seu interior. Talvez a resposta.

Sendo a que menos contacto necessita ter com a materialidade da terra, basta um ponto para que esteja sempre em equilíbrio. Talvez seja, por isso, a forma mais espiritual que conhecemos.

A penumbra é real em toda a superfície, não havendo uma única passagem brusca entre luz e sombra. Sendo a penumbra o mais puro estado de equilíbrio entre o claro e o escuro ou entre a luz e a sombra… então a esfera é, seguramente, a forma mais perfeita que existe.

Pelo menos para mim.

 

 

(Dulce Delgado, Agosto 2019)

 

 

o cata-vento

 

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Irrequieto,
o vento
fustiga o cata-vento,
que roda loucamente
sem parar.

Pára!
Pede o galo
do alto do cata-vento,
estou tonto,
cansado
sem norte
e farto desta sorte!

Porquê?
pergunta o vento,
num rodopio
sonoro e menos turbulento…

Porque…
não canto
não voo
não acordo ninguém
não tenho par
nem um quintal onde reinar!
E estou preso
nesta alma de metal,
fria e intemporal!

Mais calmo,
o vento soprou
com ternura
e ecoou…

Puro engano
meu amigo!

Tu és norte,
orientação,
e o corpo que me dá voz.
És o vento que o olhar mais simples
compreende,
linguagem universal
clara e sem igual.

Não voas
é certo,
mas desse lugar
podes ver mais mundo
e horizonte que muitos
a voar.

O teu “quintal” é vasto
aprecia-o com alegria.
E voa,
quando quiseres
e disso precisares.

Basta sentires
o meu afagar em teu corpo
com emoção,
ou a minha loucura
sem razão,
e  terás penas
e asas
e voos de imaginação!

Se este é o teu lugar
e destino,
não vires as costas
ao sopro que te dá vida,
sente-o simplesmente
guiando a emoção
para junto do coração!

 

(Dulce Delgado, Junho 2019)