experimentações #11

 

agosto 79 ab

 

O início de um namoro, e os sentimentos e emoções daí inerentes tiveram repercussão em alguns desenhos realizados em 1979.

Diria que perante o meu olhar estava um mundo a dois para descobrir, sentir e explorar.

 

julho 79 (3)ab

 

 

(Dulce Delgado, lápis cor/grafite sobre papel, Agosto 1979)

 

 

 

 

 

objectos comuns

 

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Gestos inconscientes levam-nos diariamente a pegar neles e a usufruir da sua função. Vivem connosco todos os dias, em muitos momentos, sendo úteis em diversas áreas. Em conjunto, são uma infinidade de objectos de uso comum que complementam e facilitam a nossa vida.

Contudo, a nossa atenção passa ao seu lado a não ser no momento da sua aquisição em que talvez sejam observados e/ou a sua estética/função apreciada. Depois, rapidamente passam para o nível de “indiferentes” ou “de algo já adquirido”, atitude em que somos peritos, seja no nosso dia-a-dia, nas nossas relações ou na vida em geral.

Deixemos então o olhar deter-se com calma sobre esse mar de objectos que nos rodeia e observemos as formas e os detalhes que permitem a sua função. De quando em quando, apreciemos a sua existência e o seu porquê…afinal somos mais “felizes” pelo facto de eles estarem sempre disponíveis e a nosso lado.

 

 

 

experimentações #10

 

#10 - Julho78ab

 

#10 - Junho 78 ab

 

Continuei a busca por algo que eu não sabia bem o que era… e que foi expressa em muitos desenhos realizados por volta dos meus vinte anos, como mostram os dois exemplos acima.

Entretanto, acompanhava-me uma imaginação um tanto“pueril” e infantil que me levava a penetrar em mundos bastante mágicos e fora da realidade e dos dias…

 

#10 - Agosto 78ab

 

Como sempre acontece, apenas a idade e as experiências vividas nas décadas seguintes me ajudaram a chegar a algumas das respostas que então procurava…e ainda a perceber que a realidade e a imaginação têm muito pouco em comum.

 

 

(Dulce Delgado, lápis cor/grafite sobre papel, 1978)

 

 

 

 

 

experimentações #9

 

julho 78a

 

A cor foi alternando com o preto e branco, da mesma forma que em mim habitavam dois mundos em confronto: um  imaginário leve, etéreo, algo transcendente e infinitamente belo… e a realidade do mundo em que vivia, repleta de injustiça, egoísmo, sofrimento, pobreza e de uma violência absurda que me revoltava e que eu não entendia.

Mais do que a qualidade artística das formas ou da ingénua simplicidade do traço e da anatomia humana, creio que o mais interessante é a expressividade que, apesar disso, as  figuras conseguem transmitir

 

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(Dulce Delgado, tinta da China, aguarela e lápis sobre papel, 1978)

 

 

 

 

experimentações #8

 

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E um dia, naturalmente, a vontade de cor espreitou e quebrou a hegemonia do preto e branco. Peguei nos guaches e saiu esta controlada composição geométrica, sem perspectiva e essencialmente um belíssimo treino de mistura de cores e de busca de tonalidades.

Mas a cor só espreitou, ainda não ficou…

 

(Dulce Delgado, guache sobre papel, Setembro 1977)

 

 

 

duendes e afins…

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Ao ler que a 13 de Maio, hoje portanto, se celebra o Dia do Duende, não resisto a lhes dedicar algumas linhas. A eles a todos os seus amigos que adquirem vários nomes consoante as mitologias em que se enquadram.

Parece que estes seres-energia são muito pequenos, gostam de se vestir de verde e são extremamente rápidos a ponto de se tele-transportarem. Apreciam as nossas casas, são muito travessos e gostam de se meter com os humanos, ora para os ajudar ora aprontando das suas e atrapalhando os nossos dias. Enfim, podem ser uns anjinhos ou uns pequenos diabinhos!

Tendo em conta estas características, gosto de imaginar que eles nos acompanham e que de vez em quando circulam pela casa num espreitar invisível, actuando no escuro da noite ou mesmo em plena luz do dia. De que modo?

…mexendo nos livros e tirando-os da ordem

….fazendo cair objectos sem razão objectiva

…mudando coisas do sítio

…escondendo objectos em lugares que a memória não lembra ou totalmente absurdos

…e adorando sujar o que acabamos de limpar!

 

No entanto, na sua versão de “anjinhos” …

 

…levam-nos a encontrar/descobrir o que há muito procurávamos

…fazem-nos reparar em detalhes que levarão a encontrar soluções ou a compreender situações

… são uma espécie de interruptores que nos “dão luz”

…e são despertadores da nossa intuição!

E quando em silêncio se riem  à nossa volta deixam-nos bem dispostos…e quando estão chateados, deixam má energia no ambiente…

 

Sim, meu caro leitor, eu sei que estou a divagar e que tudo isto é/pode ser justificável com as nossas distracções, com os actos falhados que todos temos ou pelo duelo entre o consciente e o inconsciente de que somos palco. Porém…

…é muito mais engraçado pensar que uma boa parte dessas situações se devem à presença atrevida desses seres que se escondem nos cantos das nossas casas. E que se riem de nós, e que jogam às escondidas connosco e que fazem partidas…

Então…

…porque não mantermos este olhar um pouco mágico sobre a Vida, sobre os dias e sobre a passagem do tempo e, com humor, duvidarmos das nossas certezas, aceitarmos as nossas falhas e principalmente, que somos apenas mais uma forma de energia que circula no meio de tantas outras?

Porque não?

 

 

(Desenho e texto de Dulce Delgado)

 

 

 

 

 

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Dooois? Onde estás?

– Quem me chama?

– Eu, o Seis. Anda aqui!

…?

– Senta-te aqui a meu lado!

O Dois senta-se pouco convicto à direita do Seis. Este último sorri e diz:

– Chegou a tua vez de ficar aqui deste lado. O Um foi ontem embora e tu és o seguinte. Não posso ficar sozinho, preciso de me encostar a ti durante um ano…

– E eu tenho que ficar quietinho?

– Sim. Podes espernear mas não sair…

Sentado mas inseguro, o Dois está surpreso e sente-se estranho. Fica silencioso, reflecte, medita… e momentos depois mais consciente da situação diz:

– Ok, se chegou a altura de eu ficar um ano a teu lado e ambos um ano na vida da Dulce, então devemos cumprir o melhor possível essa missão. Já estivemos juntos há muito tempo, quando eu estava no outro lado… éramos mais novos….e tínhamos todos outra energia. Agora, com um pouco mais de experiência tudo devemos fazer para tornar os próximos 365 dias de vida da nossa amiga saudáveis, criativos, afectivos, atentos, de partilha e tranquilos, apesar de se vislumbrar um ano de fortes emoções já que será avó pela primeira vez e está muito feliz com isso. Temos que tentar que tudo corra bem!

– Vamos a isso, diz o Seis! Sejamos então uns simpáticos Sessenta e Dois!

 
Discretamente e com muito carinho, agradeço a intenção do 6 e do 2…dos 62…e desejo com esperança, emoção e do fundo do coração que tais palavras se concretizem e sejam uma realidade!

 

 

(Dulce Delgado, 7 Maio 2020)

 

 

 

 

 

liberdade em dia

 

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Neste Dia da Liberdade…

…posso ler e pensar o que quiser,
partilhar as ideias que me apetecer,
voar com o imaginar,
e ser livre de pensamento
e com ele passear ao vento.

Porém,
neste Dia da Liberdade…

…estou presa em grades invisíveis
e isolada da comunidade,
com movimentos limitados
e liberdades impossíveis.

Hoje,
quarenta e seis anos depois
vivemos o paradoxo da Liberdade de Abril,
uma liberdade que nos limita os dias
os movimentos
e os gestos,
é certo,
mas que existe e é nossa.

Agora,
a liberdade espera-nos atrás da porta
e canta nas varandas do país,
respira na criatividade das redes sociais
revela-se em gestos generosos
nos detalhes partilhados
e vive,
segura e adulta,
nos direitos por Abril conquistados.

Hoje,
neste Dia da Liberdade
e um tanto à revelia,
a Liberdade é nossa
a Liberdade está em dia!

 

Dulce Delgado
(Portugal, 25 Abril 1974 / 25 Abril 2020)