mar do meu olhar

Enormes,
as ondas envolviam-se sobre si
num aconchego ao espaço
e olhar para o interior.

Crescendo em tamanho e força
libertavam um véu
que se desfazia no tempo
no vento
no mar
e no espanto do meu olhar!

Por fim,

a explosão
e a festa do branco,
um campo de espuma
como um campo de neve,
sem desaparecer
sem nunca deixar de ser!

Apetece tocar…
Apetece fugir…

Estranho o mar
e as suas formas…
…estranhos os sentimentos que me provoca!

Sempre presente na minha vida,
querendo o meu sentir
agarrando o meu fugir,
não me permitindo deixar de olhar.

Porque é mar
de amar…

…e porque eu tenho medo!

Para este Dia Mundial do Mar (26 Setembro)…
…partilho mais um poema antigo, não datado, mas sempre actual no meu sentir…e a acompanhá-lo uma imagem obtida em 2017 na Praia da Costa Norte (ou Guia), em Sines.
Estavam umas ondas belas, assustadoras e inesquecíveis!  

doce notícia!

Dois anos e um mês depois do Vasco ter nascido e de eu adquirir o estatuto de avó, posso agora partilhar convosco que, se tudo correr como previsto, na próxima Primavera serei duplamente avó.

A notícia foi divulgada de uma forma extremamente criativa como bem mostra o grafismo da t-shirt que o meu neto vestiu nesse dia.

Dou os meus parabéns aos papás designers pela engraçada ideia que tiveram e ao meu neto por desempenhar tão bem o papel que lhe foi atribuído neste futuro evento familiar.

Entretanto….se a alegria e a ternura que este tipo de notícia sempre envolve são uma realidade nas minhas emoções, quando a minha parte mais racional prevalece incomoda-me muito o estado do mundo onde esse bebé irá nascer e os meus netos irão crescer.

Diria que aquele optimismo “genético” que sempre me habitou está em fase de reflexão perante tanta insensatez, ganância, guerras absurdas, despotismo, etc., e pelo mais que evidente desequilíbrio ambiental que nos envolve.

Não é agradável pressentir um futuro que não gosto para os meus netos. É certo que eles aprenderão a viver nele, criarão defesas e espero que tudo façam para o melhorar.

Pela minha parte e enquanto a vida me permitir, tentarei ser aquela avó que prefere a paz e a sensatez, que respeita muito o outro e ainda mais a natureza e, especialmente, que sempre valoriza o imenso que temos e que nos rodeia.

Para já, o único e mais profundo desejo é que tudo corra bem com a futura mamã e seu rebento!

(Foto de Diana Oliveira/ André Simóes)

pela ilha da madeira (III)

Os detalhes

…um a um, eles vão encaixando como um puzzle e formando uma realidade paralela que complementa a paisagem. São pequenos mosaicos de uma grande construção e um verdadeiro privilégio da natureza, seja nesta ilha seja em qualquer lugar do mundo.

Olhando para o solo…

…ele é o grande receptáculo da água/humidade existente. Por ele correm rios, ribeiros, canais e levadas… repousa a água das chuvas e dos nevoeiros…. assim como toda a que se condensa na vegetação em quantidades inconcebíveis.

Esse solo é por isso o cerne da vida e útero de uma imensa rede de raízes de uma flora característica e muito diversificada. Mais recentes ou centenárias, formam um verdadeiro mundo subterrâneo que espreita à superfície.

O nosso caminhar afaga-as e talvez as perturbe. Ou talvez não. Certo é que nos oferecem beleza e expressividade, mas em troca requerem atenção pois, sendo muitas vezes escorregadias… facilmente passam uma “rasteira” à nossa desatenção.

As bermas das levadas mostram uma vegetação de beleza única composta por fetos, musgos e muitas outras espécies. Deliciam o olhar dos mais atentos e estão ali para ser apreciadas.

Alguns caminhantes porém, percorrem os trilhos com tamanha velocidade que me pareceu nada verem….

Os fetos têm nesta ilha um dos seus paraísos. Abrindo-se em folhas gigantes ou de pequena dimensão, a sua presença é realmente marcante. E o seu desabrochar é e será sempre um detalhe que nos encanta.

É aqui, neste mundo dos fetos que encaixa a fotografia inicial deste post, uma imagem simbólica e onde encontro uma belíssima e solidária parceria visual entre um tronco queimado/cortado e o feto que a seu lado cresceu empaticamente. Gosto de imaginar que a solidão e tristeza deste tronco assim ficou menor…

É importante referir que a Madeira sofreu grandes incêndios na ultima década, creio que em 2010 e 2016, eventos que deixaram feridas ainda bem visíveis em vários locais.

Erguendo um pouco o olhar….

…tão ou mais expressivos que as raízes são os troncos, solo e abrigo de muitas espécies e onde naturalmente a vida ganhou novas formas. Também aqui, fungos, musgos e líquenes são uma presença que o olhar não consegue ignorar.

A beleza está na vida mas também a encontramos na morte, especialmente no reino vegetal. A expressividade das árvores e troncos secos, são puros gritos de beleza para as nossas emoções.

Diversificando o olhar é tempo de reparar nas flores, um verdadeiro ex-libris desta ilha que lhes dedica  inclusivamente uma festa em cada Primavera. Pela minha parte lamento que tantas sejam plantadas e depois cortadas para decoração desse evento. Pessoalmente isso dói-me.

Neste post apenas me interessam as flores que decoravam os caminhos por onde andamos. Foram muitas, variadas e sempre belas, na sua simplicidade ou sofisticação.

Destaco o massaroco da Madeira, uma planta endémica que marca presença em muitos lugares, especialmente de média altitude. Formam feixes de flores cónicas de tom azul-lilás e são sempre um encontro agradável sejam quais forem as condições atmosféricas envolventes.

Detalhe maior relacionado com esta ilha e que não pode realmente ser esquecido são as bananas, um fruto com características um pouco diferentes das que consumimos normalmente, uma vez que são mais pequenas e o seu gosto ligeiramente diferente.

São cultivadas em grande escala a baixas altitudes, especialmente nas vertentes e fajãs do lado sul.

Das muitas fotografias que tirei na Madeira, o foco esteve essencialmente na paisagem e na flora, mas também na fauna, temática que estará presente no próximo post desta série e que será o ultimo sobre as férias de 2022.

Mas outros detalhes despertaram a minha atenção, nomeadamente a nível da geologia, sendo com dois deles que termino este post. Fazem parte de um lote de imagens captado na Ponta de S. Lourenço, no último dia e antes de nos dirigirmos para o aeroporto. 

Escolhi-os por serem curiosos e por transmitirem um dinamismo que é real e constante neste planeta que nos recebe. Certo é que, ao observá-los, quase consigo ver o movimento daqueles núcleos a virem à superfícies e a serem “paridos” pela terra. Mas escolhi-os, especialmente, porque foram os últimos detalhes fotografados antes do regresso.   

Num silêncio pétreo, estes “filhos” daquela terra despediram-se do nosso olhar. E nós simplesmente agradecemos!

39

Porque o teu olhar aprecia a simplicidade…..

…porque prefere “aquele menos” que diz mais…

…e porque sempre consegue encontrar no aparentemente banal aquela linha de força, energia ou estética que pode tornar algo mais belo…

…ofereço-te neste dia uma fotografia que tirei no início deste ano e que muito aprecio. Na sua subtileza encontro uma certa transcendência, seja na nudez dos troncos que revelam o essencial, seja nas névoas que temos que ultrapassar para chegar à clareza, à luz e a um “céu mais azul”.

Gosto da sua harmonia, mensagem e por este pouco me dizer-me tanto. E hoje gosto especialmente porque sei que também a irás apreciar.

A par destas palavras é o que te quero oferecer neste mundo virtual. No real terás muito mais. Haverá presenças, partilha e sentirás aquele abraço especial e aquela ternura que só uma mãe sabe dar. E que tu como mãe, já sabes bem como é profundo, intenso e tudo preenche.

Muitos parabéns minha filha!🧡

ao movimento…

…presente em cada momento!

…no barco que desliza no rio
        num pensamento sem norte,    
        num desejo em desvario
        tentando a sua sorte

…no ramo que vai e volta
        de uma árvore sem idade,
        no pombo ou na gaivota
        que voam pela cidade

…no carro que passa na ponte
        na nuvem levada pelo vento,
        na água que corre da fonte
        p’ra boca de alguém sedento

…nos corpos que vão e vêm
       com raiva, ternura ou dor,
       querendo o que não têm
       ou mostrando o seu amor

…no sangue que te corre nas veias
       na vontade de respiração,
      e na força com que desejas
      o pulsar de uma emoção!

Dulce Delgado, poema não datado

mar emoção

Mar
emoção
pleno de vida
grávido de ondas e energia
reflexo do meu coração.

Ondas crescentes
acariciam o mar azul
invadem o meu corpo
penetram os meus sentimentos.

Depois de tanta ternura
a alegria da explosão,
na pele do mar vivi
o gosto da aventura!

Numa fusão entre águas
dilui-se a espuma no azul sereno,
alimentando o sonho eterno
dos amores que não deixem mágoas.

(Dulce Delgado, poema antigo, não datado)

experimentações #34

São inúmeras as possibilidades de registar graficamente o que se observa/pensa/sente se o objectivo final for o guardar memórias de lugares.

Foi exactamente com essa vontade de encontrar outros caminhos que, a par de registos mais tradicionais como o desenho e a aguarela, elaborei o bloco de férias do ano de 2010. O Minho, a província mais a norte de Portugal foi a área escolhida nesse ano, região que nos proporcionou belos passeios e agradáveis momentos gastronómicos.

Neste bloco, a par de alguns desenhos utilizei igualmente recortes de postais e fotografias assim como materiais naturais que ia recolhendo por onde passava. A escrita, como sempre, foi um complemento fundamental.

Partilho a seguir algumas páginas representativas desse livro de férias.

Estes registos foram maioritariamente realizados in loco. Quando não tinha o que precisava para concretizar determinada ideia, nomeadamente fotografias ou recortes, planeava a página deixando espaços em branco para preencher posteriormente.

Recordo ainda que na altura gostei muito desta experiência de utilizar recortes por ser uma técnica bastante versátil, rápida e de me permitir “brincar” com as imagens com um certo humor.

Boa semana!

pela ilha da madeira (I)

Foram os históricos trilhos e veredas da Madeira, nomeadamente as chamadas “levadas” que nos levaram este ano a essa ilha atlântica, numas férias há muito pensadas mas, por diversas razões, ainda não concretizadas.

A percepção que o tempo passa demasiado rápido nas nossas vidas e que em cada ano a resistência física vai naturalmente diminuindo, fez-nos decidir que este seria o momento certo de conhecer através de caminhadas as entranhas de uma ilha que até aqui apenas nos mostrara aquela sua vertente mais turística e acessível de carro.

Pela sua localização, na ilha da Madeira as zonas mais montanhosas e situadas essencialmente a norte são bastante chuvosas, pelo que a água abunda em toda essa região, brotando de inúmeras nascentes.

Sendo este vital elemento mais escasso a sul, desde o séc. XV que os habitantes locais começaram a hercúlea tarefa de orientar essa água através de canais que percorrem as encostas das montanhas num deslizar mais ou menos suave, passando inclusivamente por muitos túneis escavados na rocha. Muitas inserem-se em vertentes de grande declive, tornando-se difícil compreender como foram aí implantadas. Sabe-se contudo, que muitos homens morreram na construção destas estruturas, obra que se prolongou até ao séc. XX.

Estes canais “domesticados”, a par das ribeiras que seguem de uma forma natural, formam um imenso aparelho circulatório que permite que a água chegue a quilómetros e quilómetros de distância para posteriormente ser gerida com responsabilidade e democraticamente aproveitada por todos para a agricultura.

Nas muitas pesquisas que fiz antes de férias li que existem cerca de duzentas levadas na ilha, totalizando mais de 2000 Km. Isto permite perceber a importância que conquistaram ao longo dos séculos na tarefa de gestão da água e dos solos cultiváveis. Em média, esses canais terão talvez entre 50 a 90 centímetros de largura e, uma mesma levada, pode ter alturas/profundidades diferentes consoante a zona por onde passa. Por vezes correm em declives acentuados através de escadarias, dando origem a uma ruidosa sequência de cascatas. Em resumo, são uma fabulosa obra de engenharia tendo em conta a orografia da ilha e as circunstâncias em que se inserem.

Lateralmente a essas levadas existe um espaço para circulação, a chamada “esplanada”, que varia muito em largura, sendo por aí que os trilhos foram maioritariamente traçados. Nos percursos que realizamos, com grau médio de dificuldade (não fizemos nenhum considerado dificil), o cruzamento de caminhantes não criou problemas de maior, apesar de haver muitas zonas em que o espaço disponível era bastante estreiro. Nessas situações há que perceber previamente onde parar ou encostar de modo a evitar situações de instabilidade ou desequilibrios.

São percursos que exigem atenção e cuidado, especialmente porque os terrenos têm muitas raízes e são escorregadios devido ao excesso de humidade. Mas não os sentimos como perigosos, seja porque os trilhos estão muito bem sinalizados, seja por existirem protecções estáveis e seguras nos locais adjacentes a precipícios. Essencialmente, é necessário ter muito respeito pelas caracteristicas do lugar onde estamos.

Outro tipo de trilhos existentes na ilha são as chamadas “veredas”, percursos onde a água pode não estar directamente presente, mas são igualmente muito bonitos. Neles encontramos imagens encantadoras e quase mágicas, especialmente de majestosas árvores,

A grande magia dos percursos desta ilha está na paisagem mas especialmente na flora exuberante e endémica que os envolve, a chamada floresta Laurissilva da Madeira. Ocupa cerca de 20% do território e pelas suas características, foi englobada na lista de lugares do Património Mundial Natural da UNESCO.

Foi portanto neste contexto de uma natureza quase “histórica” que passamos os primeiros nove dias das nossas férias…

… entre muito verde e água, envoltos em sol, nuvens, nevoeiro e também alguns chuviscos

… deixando entrar no olhar vastos lugares e detalhes encantadores

…acumulando nas pernas e no corpo dezenas de quilómetros, muitas subidas e descidas, mas tudo envolto num saudável e doce cansaço

… e especialmente sentindo uma imensa alegria e gratidão por, dia a dia e na altura certa, termos cumprido sem contratempos um dos itens presentes na nossa “lista de desejos”.

Em próximos posts voltarei a estas férias, com outras perspectivas, detalhes e mais imagens.

(As fotos onde eu estou presente foram captadas pelo meu companheiro Jorge Oliveira)

regressada de férias…

…. faço nestes dias um evidente esforço para me integrar no trabalho e em certas rotinas indispensáveis, sendo certo que este tempo absurdamente quente, irrespirável e inquietante que vivemos torna tudo mais complexo. Amiúde a minha mente envolve-se em imagens refrescantes como esta obtida no final das férias, detalhe que me recorda outros momentos igualmente frescos vividos nas ultimas semanas.

Em breve voltarei também à “rotina” do Discretamente. Assim como existe uma re-adaptação ao trabalho, também com calma e discrição me sintonizarei com a blogosfera, seja como autora seja como leitora.

Tal como me desprendi de tudo nestas ultimas três semanas, também o blog foi englobado nessa “limpeza”. Esqueci-o completamente, pelo que terei que fazer uma “revisão da matéria” pois, honestamente, não me recordo o que estava em projecto ou tinha possibilidade de ser partilhável. Preciso mesmo de me encaixar nos dias…

Por hoje, limito-se a agradecer os votos de boas férias deixados por muitos de vós no último post que publiquei há três semanas. Muito obrigada a todos.

Para já, apenas posso dizer que foi um excelente período de descanso (e de um saudável cansaço também), que oportunamente partilharei convosco.

Bom resto de semana!

de férias!

Como sempre tem sucedido no meu período de férias, o Discretamente também irá descansar temporariamente para um qualquer virtual lugar longe de mim.

Esta mudança de estação levar-me-á por aí, por caminhos e descanso, entre verdes e mar, e com os sentidos bem alerta. Preciso muito de tranquilizar as emoções da vida e as preocupações com o mundo, algo que quase três semanas em contacto com a natureza deverão certamente ajudar.

Assim, neste ultimo dia de Primavera e em véspera de mudança de estação, desejo um bom Verão a uns e um tranquilo Inverno para outros. E desejo especialmente melhores noticias para o mundo e para todos nós!

Um abraço e até meados de Julho! 🤗🌳😎🌞⛱🍉