detalhes sentidos

Neste caminhar, todos passamos por momentos em que nos sentimos enredados/envoltos numa série de circunstâncias que nos perturbam, comprometendo o nosso olhar sobre o mundo e até a nossa forma de estar.

Cada um reagirá de acordo com a sua estrutura no sentido de clarificar e ultrapassar essa situação, mas uma coisa é certa: no meio dessa desordem sempre há detalhes, atitudes ou palavras que nos tocam se estivermos receptivos e que poderão ser uma ajuda, mesmo que indirecta. No fundo, funcionam como provas de afecto e até de confiança.

No centro da imagem acima está uma lâmpada ainda apagada. Um círculo. Simbolicamente um de nós. Num primeiro olhar, envolve-a uma “rede perturbadora” e confusa composta de muito ramos. Porém, se olharmos com mais atenção, alguns desses ramos podem ser vistos como um apoio, afago ou consolo, algo que discretamente nos pode ajudar. Na imagem serão especialmente os ramos inferiores e mais horizontais que transmitem esse sentir, essa espécie de aconchego visual e afectivo ao elemento central.

Em breve, como sempre se deseja, haverá um desanuviamento, uma resposta, uma clarificação e, quiçá até uma sublimação do que nos perturba para algo mais positivo….e o tal “elemento central” voltará a encontrar a energia e a ter a sua luz. Voltará ao desejado equilíbrio.

moinhos

Na infância, os moinhos de papel eram sonho, construção, movimento e com eles voamos felizes ao vento. Depois crescemos e naturalmente os esquecemos.

Os outros, os reais – sejam de vento, de água ou de maré – ainda vão resistindo na paisagem. A maioria estará destruída, muitos foram recuperados para habitação ou musealizados, sendo poucos os que ainda se mantêm íntegros e conseguem funcionar.

Gosto especialmente dos moinhos de vento, porque sempre que o meu olhar os encontra sente-se bem acolhido. Com eles é muito fácil voltar à ingenuidade dos desenhos de infância em que um moinho com quatro velas não podia faltar no cimo de uma paisagem com montes.

Neste Dia Nacional dos Moinhos, 7 de Abril, partilho convosco alguns dos muitos moinhos de vento que o meu país ainda acolhe… com mais ou menos carinho.

– Conjunto de cinco moinhos recuperados para funções diversas no Alto da Pinhôa, Moita de Ferreiros, Lourinhã

– Conjunto de vinte e três Moinhos da Serra da Atalhada, Friúmes, Penacova. Alguns estão recuperados para habitação.

-Conjunto de catorze moinhos em Gavinhos, Penacova. Alguns estão recuperados e creio que actualmente um deles ainda funciona com moleiro, provavelmente para escolas.

-Moinhos de Portela de Oliveira, Penacova. Originalmente seriam quase duas dezenas, sendo que alguns foram reaproveitados para habitação, outros estão em ruína ou em mau estado, e um deles, que pertenceu ao escritor Vitorino Nemésio, foi totalmente recuperado pela Câmara Municipal de Penacova, estando funcional. Anexo a um desses moinhos foi instalado o Museu do Moinho Vitorino Nemésio.

Este escritor adorava moinhos, tendo possuído três naquela região. O seu apreço era tanto que chegou a ser Presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moinhos.

-Aqui e ali, no cimo dos montes ou em zonas mais ventosas, eles convidam a um olhar terno e sempre delicioso.

Outros continuam activos por tradição, seja para fins educativos seja como complemento de um negócio. É o que sucede com o Moinho dos Caixeiros (Silveira, Torres Vedras), cujas velas a rodar são um chamariz para visitar uma padaria tradicional com um excelente pão.

– Por fim, uma simbólica homenagem a todos os que foram abandonados e engolidos pelo tempo, talvez a grande maioria dos que existem em Portugal. Pedra a pedra foram-se desmoronando… caindo… e naturalmente voltando à terra. Não tiveram fôlego para lutar contra o esquecimento e aguentar o avanço da civilização.

Mas gosto de pensar que um dia já foram felizes!

acasos…

Há acontecimentos que nos levam a pensar se os chamados “acasos”… serão realmente acasos. Questiono-me sobre isso, especialmente quando sucedem na dinâmica do dia-a-dia e se concentram num certo período de tempo. Passo a citar…

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Horas depois de ter publicado o post intitulado Variação em dois temas, onde relaciono o “Dia das canalizações” com o “Dia do Rim”, um cano de minha casa entupiu, algo que já não acontecia há muitos anos.

Entre a surpresa, a irritação e o decidirmos como resolver a situação, tentei analisar a coincidência e, com um certo humor avancei para mim própria com três justificações: ou é o sistema de drenagem da minha casa a agradecer a atenção dada no referido post….ou é o duende que habita em nossas casas a fazer uma brincadeira de mau gosto….ou então é a “vida” a me dizer simplesmente: “Maria Dulce, tu tens muita conversa e ideias, escreves sobre temas que não lembram a ninguém e hoje até falaste da atenção que as canalizações merecem. Mas, a verdade é que já há muitíssimo tempo que vocês não fazem qualquer manutenção a fim de impedir entupimentos. Portanto, vejam isto como uma lição”.

Não vos vou dizer qual destas hipóteses ganhou maior percentagem de votos na minha mente. Mas, seja ela qual for e depois de resolvida a questão no dia seguinte, logo delineamos um plano de manutenção das canalizações de nossa casa, para que tal não volte a suceder.

Outra situação:

A pandemia e este segundo período de confinamento levaram ao encerramento de lojas não essenciais, como é o caso das retrosarias. Para dar continuidade a um trabalho de tricot precisava de uma lã amarela, mas não a podia comprar no local habitual por estar encerrada.

Porém, já no início do desconfinamento, ao passar junto de uma retrosaria a que raramente vou, verifiquei que a porta estava entreaberta. Espreitei, falei com o vendedor, deixando-me este entrar e procurar no pequeno stock que tinha se alguma coisa serviria. Logo percebi que um dos rolos que lá estava se adequava ao que pretendia e tirei-o. Fiquei boquiaberta e sem palavra quando verifiquei que a marca da lã era “Dulce”.

Foi estranho… estranhíssimo. E naquele exacto momento não tive qualquer dúvida que aquele rolo…estava ali à minha espera!

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Nos dias em que ocorreram os episódios acima descritos, outros “acasos” se juntaram ao rol. Diferentes, de outro género, mas que sempre me arrepiam quando acontecem.

Cada um fará a sua leitura deste tipo de situações, sendo que, entre o absurdo e o transcendente o leque será certamente vasto.

Sobretudo, creio que quando estes “acasos” ou “coincidências com sentido” são percepcionados, sempre nos fazem pensar – mesmo que não cheguemos a qualquer conclusão – sobre a Vida e a nossa existência, sobre as forças que nos rodeiam e qual o nosso “papel” no meio de tudo isto.

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esperança primaveril

Com a Primavera que hoje se iniciou às 9h 37m (a.m.), hora de Portugal, chegam os dias maiores e mais luminosos, uma natureza vestida de cor e, em cada detalhe, muita vida em latência brotando para um novo ciclo.

Todavia, apesar de tudo isso sempre me encantar, associo muito esta Primavera a uma “Esperança de Equilíbrio”…a um tempo-força que nos deixará mais próximo de uma estabilidade que acredito será possível nos próximos meses com o controle da pandemia pela vacinação.

E na sequência disso…

…a possibilidade de retornar, mesmo que lenta e progressivamente aos ritmos e gestos conhecidos

… aos afectos sentidos na pele

…à emoção das palavras e gestos sem máscaras

…à espontaneidade social

…aos passeios que não se fizeram

…às rotinas que deixaram saudades

…etc.

Para os que perderam o emprego, a habitação ou algum familiar/amigo durante a pandemia, ou para os que adoeceram e ainda não recuperaram totalmente, talvez os detalhes acima sejam um pouco secundários. Para eles, o equilíbrio estará em arranjar um novo emprego que lhes assegure o que tinham antes, no restabelecimento da saúde, ou no tempo interior necessário ao luto e à aceitação da perda.

Caberá a cada um perceber o que deverá colocar nos “pratos da balança da sua Vida”, para que a estabilidade se instale e seja real. Se for necessário ir à luta, mas sempre tentando envolver essa procura de esperança e de energias construtivas…

…como a boa energia que a Primavera gratuita e silenciosamente nos oferece todos os anos.

Boa Primavera!

(Que esta “esperança de equilíbrio” seja imensa e se estenda igualmente aos meus leitores do hemisfério sul que hoje abraçam o Outono! ) 

avó… incompleta!

Sou avó pela descendência, pelas emoções e pela imensa ternura sentida….mas sou meia-avó no toque e no gesto.

Entre mim e o meu neto sempre existiu uma máscara a nos separar. Reutilizável ou descartável, não interessa. Uma barreira necessária mas uma barreira fria e desumana que impede aproximações mais sensoriais. Na verdade, ainda mal senti aquele “cheiro a bebé” que inspira mimos mais intensos e próximos… ainda não senti a minha face na sua pele macia…e beijinhos, apenas os pés os têm recebido!

Facilmente imaginamos gestos para um primeiro neto. Este nasceu, amo-o profundamente, mas esse imaginário de sensações cutâneas, de toque, abraços e proximidade em parte foi adiado. Porque uma parte importante dos meus sentidos está obrigatoriamente tapada e os gestos impedidos daquela espontaneidade que é tão natural perante um bebé. A vida é realmente um baú de surpresas!

Doem estes tempos a muita gente e por inúmeras razões como todos sabemos. A mim, incomoda emocionalmente este detalhe – que realmente não passa disso mesmo – e o facto de ainda não ser uma avó de pleno direito e de corpo inteiro. Mas compreendo que deve ser assim. Por enquanto.

Com a expansão da vacinação em Portugal acredito que 2021 me fará finalmente uma “avó completa”….com um ano de atraso! Mas apesar da máscara que nos separa e dos gestos que ainda não foram possíveis…o Vasquinho já conhece a avó Dulce e aprecia a sua companhia.

E, quem sabe, talvez a vida ainda me proporcione o prazer de ser novamente avó e de acompanhar o primeiro ano de um neto…sem ser em tempo de pandemia!

o passeio

Para nós foi um agradável passeio de domingo pela bonita vila de Alenquer; para eles, provavelmente um passeio de todos os dias pelo rio com o mesmo nome que atravessa a povoação.

Gosto da tranquilidade que emana desta imagem, tal como gosto dos contrastes que envolve. Por um lado, por se tratarem de espécies muito diferentes; e por outro, pelo facto de um elemento revelar a pose e a calma de um adulto e o outro, a energia, a curiosidade e o ímpeto característicos da infância.

Creio que se equilibram mutuamente. E isso sempre seduz qualquer olhar!

(Alenquer, Lisboa, 17 Abril 2011)