o humor dos dias

 

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Limpo
alaranjado
cinzento
ou chuvoso,
o dia acorda
lento
e silencioso.

No ar,
uma energia
que gosto de acompanhar,
com o corpo
e o olhar
num calmo respirar.

Então…

…no meu trajecto diário
e matinal
pelas margens da capital,
em vários dias parei
naquele lugar,
a fim de fotografar
a poesia
a energia
e o humor de cada dia.

Seis dias…seis imagens…

Em cada uma
um sentir
único e pessoal,
talvez alimento visual
para o humor do meu dia!

 

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Imagens captadas em Lisboa perto das oito horas da manhã, nos dias 28, 29, 30  e 31 de Janeiro e a 1 e 4 de Fevereiro, de um ponto localizado entre o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém.

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2019)

 

 

 

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o olhar da natureza

 

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A Natureza é poderosa e sábia.

Acredito que de uma forma silenciosa controla as nossas acções, reagindo na devida altura para se defender e equilibrar.

Aqui e ali terá os seus observadores capazes de captar com a sua sensibilidade a nossa (in)sensibilidade, dados que lhe chegarão de uma forma que desconhecemos. Na altura devida, decidirá onde, quando e como actuar na tentativa de restabelecer o equilíbrio necessário.

Ao encontrar este olhar no tronco de uma árvore, imaginei estar perante um desses seres silenciosos e mágicos. Só poderia ser um desses seres!

Magia aparte….

…o “olhar” pertence à Brachychiton acerofolius ou Árvore do Fogo que se encontra no Jardim Botânico do Porto, mais precisamente no espaço que envolve a Galeria da Biodiversidade/Centro de Ciência Viva, o segundo pólo do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto.

Esta Galeria, a que aconselho vivamente uma visita, ocupa a Casa Andresen, aquela que foi a habitação dos avós da poetiza Sophia de Mello Breyner Andresen e que a acolheu em muitos períodos da sua infância. Quer a casa quer os jardins inspiraram Sophia em muitos dos seus contos e poemas.

Numa altura em que se iniciam as comemorações do centenário do nascimento desta escritora (1919 – 2004), quer a casa quer o jardim serão palco de eventos e referências. A par disso, no espaço temporal que se situa entre a Primavera e o Verão, a Árvore do Fogo irá florir, espalhará novamente a sua beleza e cativará muitos olhares. Mas o seu olhar, este olhar que aqui partilho e nos questiona é intemporal e está ali todos os dias.

Não sei a história nem a idade desta árvore, mas gosto de imaginar que é a guardiã daquele jardim. E acredito que, se existisse desta forma há um século, poderia facilmente tornar-se numa fonte de inspiração para Sophia.

Essa ideia torna-a ainda mais bonita!

 

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A natureza é realmente espantosa em seus detalhes!

Não concordam?

 

pelo nevoeiro de sintra…

 

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Numa recente incursão pela Serra de Sintra, esta recebeu-nos da forma que mais aprecia: envolta em nevoeiro!

Apesar de eu não ser uma forte adepta da humidade e do frio associados a esse estado meteorológico, nesta serra tão próxima das minhas emoções ele transforma-se em magia para o olhar e preenche-o de tal forma que se torna belo, envolvente e acolhedor.

Ao atenuar os detalhes e as cores, o nevoeiro valoriza as formas e a sua expressividade…

 

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Mas os detalhes estão ali, agarrados aos troncos das árvores, na textura dos blocos graníticos ou no coberto vegetal do solo. Basta olhar…

 

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E na base de toda esta vida está a água, sempre o elemento água, que de uma forma mais ou menos visível está bem presente nesta altura do ano.

 

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Estas poucas imagens, das imensas que aqui poderiam estar, foram obtidas na periferia do Santuário da Peninha, local que fica relativamente perto do cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa Continental.

Espero que as apreciem!

 

 

 

detalhes de outono

 

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Volto ao Jardim 9 de Abril em Lisboa, espaço já aqui referido mais do que uma vez. E esta não será certamente a última…
Talvez me repita um pouco ao dizer que gosto muito deste recanto por onde passo diariamente. É um sentir de quase quatro décadas, nascido de uma observação viva e continuada, estação após estação, ano após ano.

Em Novembro de 2017, há precisamente um ano, publiquei um post com uma imagem geral deste jardim em pleno Outono. Este ano vou aproximar o olhar um pouco mais e mostrar a relação entre a paineira-rosa, a árvore central, e a vinha-virgem que a circunda. Se aparentemente a força e o poder está na robustez do tronco da primeira, é a fragilidade da segunda que protege esse tronco e dá estabilidade e beleza ao conjunto.

Muitas vezes, os que parecem mais frágeis conseguem com a sua sensibilidade e gestos obter o respeito dos mais fortes. E, lado a lado, ambos cooperarem com um fim comum. Neste caso…diria… em prol da beleza que alimenta os nossos dias!

 

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As imagens acima foram captadas a uma sexta-feira, na véspera de um fim-de-semana que se revelou cinzento, desagradável, com vento e muita chuva. Nesse período, a maioria das flores da paineira-rosa e das folhas da vinha-virgem caíram, cobrindo o chão de um tapete de cor.

 

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Naturalmente, tudo mudou em dois dias para estes seres vivos e para este recanto da cidade, mostrando bem o dinamismo e a força da natureza.

Para mim, contrariamente, esse foi um tranquilo fim-de-semana, caseiro e muito acolhedor!

 

 

por torres novas

 

torres novas

 

Gostando de surpresas, aprecio tudo o que positivamente me surpreende. Foi isso que sucedeu numa recente passagem pela cidade de Torres Novas, urbe do distrito de Santarém e localizada nas margens do rio Almonda, um afluente do rio Tejo.

O principal motor desta incursão pelo Ribatejo foi conhecer as grutas da vila de Lapas, localizadas nos arredores da cidade e recentemente abertas ao público de forma regular apesar de estarem classificadas como Imóvel de Interesse Público desde 1943.

Estes túneis labirintos foram escavados no morro onde assenta a aldeia, razão porque esta adoptou o nome de Lapas. O percurso visitável é apenas uma parte dessa rede, uma vez que muitas estão em terrenos privados e foram reaproveitadas para adegas, arrecadações, etc,. É um espaço diferente, também pelo facto de terem sido talhadas por mão humana.
Deixo o link sobre o que oficialmente é dito deste local. A nível popular, há quem as associe a lendas e outras histórias.

 

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Deixamos esta aldeia e seguimos para o centro da cidade de Torres Novas, começando por ir ao acolhedor castelo que o rei D. Sancho I conquistou aos mouros em 1190. Este possui onze torres, permite uma ampla vista sobre a área envolvente e no interior guarda um tranquilo jardim. Foi alvo de várias reconstruções, sendo a última datada de 1940.

 

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Em seu redor, especialmente para norte e leste, e ladeando os meandros do rio, desenvolve-se um amplo parque verde com vários equipamentos municipais.

 

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Mais antigos são o Açude Real, que foi fundamental no reencaminhar das águas para importantes unidades fabris que existiram na cidade e ainda a Ponte Pedrinha, que tem por perto uma tarambola gigante que continua a rodar serenamente.
Penso que as imagens transmitem melhor a ambiência do que qualquer palavra.

 

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Por último, ainda visitamos na periferia da cidade as ruínas romanas de Vila Cardílio, um espaço que necessita de alguma atenção e investimento, o que se espera ocorra brevemente.

 

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Como nota final, o facto de todos estes equipamentos (grutas, castelo e ruínas romanas) serem de acesso gratuito. É claro que isso sabe bem, mas penso que deveria ser cobrada uma taxa, mesmo que mínima e simbólica, para ajudar à sua manutenção. Verifica-se muitas vezes que tudo o que é fácil de adquirir acaba por não ser devidamente apreciado e cuidado.

Neste link encontram muitos locais com interesse na bonita região do Ribatejo. A cidade de Torres Novas é apenas um deles!

 

 

artes e ofícios

 

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Numa sociedade predominantemente tecnológica e em que os saberes tradicionais passaram para um segundo plano, prezo saber que na capital do meu país tem havido algum cuidado na preservação desses conhecimentos, sendo certo que qualquer apoio que se associe à vontade, ao esforço e ao investimento dos próprios artífices, é potencialmente positivo.

Se há algum tempo divulguei aqui a iniciativa das Lojas com História, hoje quero referir a Rede de Artes e Ofícios de Lisboa, onde é possível encontrar, por zona da cidade ou ramo de actividade, uma série de profissões que o tempo colocou num segundo plano e que requerem conhecimentos especializados, técnica e sensibilidade. Nesta rede encontramos ofícios de todo o género, assim como os contactos de quem os realiza.

No sentido de divulgar estas actividades, também abriu recentemente o Mercado dos Ofícios do Bairro Alto, iniciativa que resultou de uma parceria entre o Município, a Misericórdia e entidades especializadas em ofícios tradicionais.

Por último, apesar de se situar numa vertente um pouco diferente, não quero deixar de referir os concursos para atribuição de ateliers municipais a baixo custo e com contrato de exploração por quatro anos, um sistema ideal para artistas em início de carreira e com poucos recursos, uma vez que o arrendamento é bastante baixo tendo em conta os altos valores do parque habitacional da capital.

Explorem os links acima e ajudem na sua divulgação.

 

 

 

ria formosa III

 

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Voltando a este lugar…

No primeiro post publicado sobre este tema optei por dar informações gerais… no seguinte, o meu olhar percorreu a paisagem a nível do horizonte… e hoje, para concluir, irei centrar-me na beira-mar e nos seus areais, pelo que as imagens serão essencialmente detalhes de uma região que vive do dinamismo das marés.

Entre os extremos destes fluxos passam seis horas e alguns minutos, sendo estes últimos variáveis. É assim neste planeta que habitamos, seja aqui ou em qualquer outro lugar junto ao mar. Em Julho, apesar das marés serem mortas, o facto desta área natural possuir grandes bancos de areia permite sentir bem os seus extremos.

 

Maré vazia…

Nesse recuo, são variadas as formas que o mar escolhe para se despedir da areia…

 

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Para além dessas aleatórias marcas, ele aproveita os recursos que tem à mão e naturalmente “desenha” na areia suaves linhas ou manchas de maior densidade e visibilidade.

 

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Nesse tempo de aparente paragem o mar permite o descanso das formas, seja em silenciosa solidão ou em caos partilhado…

 

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Algumas horas depois do início da vazante, o calor do sol seca a “pele da areia” fazendo nascer novos grafismos. Por outro lado, aqui e ali, surgem marcas reveladoras da passagem de humanos.

 

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Um segundo…

Será um segundo o tempo que separa o final de uma maré e o início de outra. No relógio. Talvez exista mesmo um período de quietude e de nada, mas à beira-mar esse momento é imperceptível. Porém, com um pouco de imaginação e pela calmaria das águas, vamos supor que seria o instante da imagem que se segue…

 

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Algum tempo depois, a subida das águas começa a ser visível de variadas formas, seja através das pequenas ondas e das espécies que vêm embaladas por esse fluxo…

 

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…seja no efeito de ondas mais activas que fazem surgir bolhas resultantes do ar que entretanto se infiltrara na porosidade da areia.

 

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Em zonas de ria, em que os fluxos são mais passivos, a subida da maré pode ser acompanhada pelo contínuo arrastamento de finas placas de areia na superfície liquida…como pequenas nuvens em andamento que vão projectando a sua sombra no fundo arenoso…

 

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E assim, ao ritmo da terra, da lua e do mar, a maré vai tranquilamente enchendo. E depois voltará a baixar, sem cansaço nem atrasos.

Enquanto isto… maré após maré…dia após dia…talvez todos os dias do ano…

…na areia seca, as carochas deambulavam sem parar, de declive em declive, até o meu olhar as perder de vista.

Que procuram?… Para onde vão?… Encontrarão a família?…

 

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Mas a carocha da imagem seguinte era especial e determinada. Por isso termino o post com a sua companhia.

Subia…e caía…subia e voltava a cair…e subia e caía novamente…

E ali ficou, naquela luta, insistindo, na tentativa de chegar a algo….

 

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Senti-a tão humana e tão parecida connosco!!

 

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2018)