arte subterrânea

Os parques de estacionamento subterrâneos são espaços fechados, geralmente escuros, bastante poluídos e cujo interesse é apenas o de permitirem estacionar um carro sem stress nem perda de tempo. O que se paga, é claro.

No âmbito dos muitos existentes na região de Lisboa há um que destaco pela diferença, uma vez que foi o único que nos fez andar a passear no seu interior para ver e fotografar as pinturas que ocupam as suas paredes. Refiro-me ao parque de estacionamento do Centro Comercial Alegro, em Alfragide.

Pelo facto de estar localizado no subsolo, os autores deste projecto focaram-se essencialmente nos organismos que habitam esses níveis da terra, como é o caso dos insectos, gastrópodes, fungos, etc. dando origem a uma curiosa galeria de arte subterrânea que surpreende quem frequenta este estacionamento e que revela pinturas com detalhes muito bem elaborados.

É um trabalho que resultou da criatividade de vários artistas – José Carvalho, Fredy Klit, Kruella D’Enfer, Mosaik, Regg, Tamara Alves e Violante – e foram patrocinadas pela Immochan (actual Ceetrus) em parceria com a Galeria de Arte Urbana.

Pela curiosidade e localização pouco habitual, e porque aprecio muito este tipo de arte, partilho hoje algumas das pinturas presentes nos dois pisos subterrâneos desse estacionamento.


Para além da formiga gigante com que iniciei o post, muitas outras passeiam por ali tranquilamente ou, pelo contrário, irrompem as paredes e encaram-nos de uma forma um tanto ameaçadora.

Caracóis diferenciados rastejam entre cogumelos e outros insectos…

Também há lagartos e lagartas mais ou menos ficcionados e com diferentes humores…

…assim como uma série de outros insectos, como escaravelhos, libélulas, vespas, etc, nem sempre simpáticos ou amigáveis, mas capazes de relembrar que nós, humanos, somos peritos em invadir e a destruir habitats e os espaços a eles reservados.

Mas neste mundo meio subterrâneo, de disputa de territórios e por vezes bastante agressivo, a esperança também está presente numa longa pintura que mostra a transformação da lagarta em borboleta através da evolução da crisálida.

Também a Arte é transformação e, no geral, tem o dom de modificar o banal e o indiferente em algo único e que merece o nosso apreço e atenção.

Na verdade, é sempre isso que penso quando entro neste espaço. Realmente ele vale pela diferença.

entre praias (II)

Nenhum lugar é verdadeiramente compreendido sem um olhar que detalhe e oriente a atenção para o menos óbvio e para o particular. Na natureza como na vida, o generalizar não é caminho, sendo necessário parar para conhecer e “dialogar” para compreender.

Não sei se este será o termo certo, mas gosto de perceber as “presenças” que constroem os lugares e o que lhes permite ser como são. E os nossos sentidos são o meio disponível para o fazer, sendo o olhar talvez um dos mais importante nessa compreensão de relações, posições, movimentos, jogos de luz, texturas, etc. Diria que penetrar no grafismo dos lugares é sempre um objectivo que me acompanha e que me envolve totalmente.

Hoje irei publicar alguns detalhes captados durante um passeio que aqui partilhei há algumas semanas e que ocorreu durante a baixa-mar entre as praias do Magoito e da Aguda, no concelho de Sintra. O facto de encontrar uma relação temática ou gráfica entre essas imagens levou-me a agrupá-las, porque sinto que cada uma fica mais completa ao lado da outra. Antes porém, gostaria de me centrar um pouco na imagem que inicia este post.

Esta fotografia nada mais é do que um pequeno detalhe do vasto areal percorrido. Encontro nela uma certa beleza pela sua estética, pelas “presenças” que revela, mas igualmente pelas respostas que não me dá. Ao observá-la, eu sei que por ali passou alguém calçado… sei que existem marcas/sulcos resultantes do escorrer continuo da água rumo ao mar…mas não sei a causa dos três finos traços que aleatoriamente a atravessam. Tentei seguir o rasto ou encontrar a origem, mas não percebi o que poderia ser, pois eles simplesmente desapareciam na areia mais molhada. 

Esta possibilidade de relacionar pormenores, de tentar compreender “presenças” ou de levar o imaginar a passear por aquilo que o olhar encontra é algo que me cativa imenso. E no post de hoje, essa forma de olhar está igualmente na base das relações existentes entre as imagens que escolhi.

Como peças que se encaixam….

No fundo, todos estes detalhes são histórias que a natureza conta!

alegria de outono

O Jardim 9 de Abril em Lisboa já passou pelo Discretamente em diversos momentos, pois sempre encontro nele um ou outro detalhe que me sensibiliza.

A foto acima foi aí tirada recentemente e nela atrai-me a simbiose que este ano se criou entre os troncos da Paineira-rosa (Ceiba speciosa) e as ramagens da Vinha-virgem americana (Parthenocissus quinquefolia), as duas principais espécies que ocupam a área central deste jardim.

Apesar de estarmos em pleno Outono, as cores que ele emana parecem contradizer esta realidade e levam-nos naturalmente para a ideia de estarmos perante uma fulgurante Primavera.

Vista do lado sul
Vista do lado oriental do jardim, onde existem igualmente algumas buganvílias bem floridas

Curiosamente, na altura da Primavera, esta área do jardim limita-se a oferecer uma viçosa harmonia em tons de verde, como revela a foto abaixo captada no final do último mês de Abril.

Vista do lado norte

Ano após ano tenho o privilégio de ir acompanhando diariamente estas transformações. E sempre que chega o Outono e a cor aparece em pleno, gosto de pensar….ou de imaginar…. que tal colorido representa a exuberância, a alegria e a festa da Natureza por estar prestes a cumprir mais um ciclo antes de entrar na letargia e na fria nudez do Inverno.

Só pode ser isso!

Boa semana!🍂

entre praias

Se há passeios que me preenchem são os que se desenrolam à beira-mar em tempo de maré vazia.

Adoro aquele transpirar salgado e húmido da areia molhada… as linhas de água que escorrem para o mar esculpindo a área de vazante… as rochas, pedras e conchas… as marcas deixadas na areia pelas aves…mas igualmente o som das ondas ou as ténues neblinas que nos envolvem. E adoro o cheiro que tudo emana e que tem o dom de me transportar para uma infância/juventude bem recheada de momentos semelhantes…mas em que a natureza, nomeadamente a flora e a fauna marinha, era então bem mais efusiva e rica em detalhes. Objectivamente, gosto de tudo o que a baixa-mar nos oferece!

Sempre com o Atlântico no olhar, recentemente realizamos um agradável passeio entre a Praia do Magoito e a da Aguda, ambas localizadas no concelho de Sintra. Este passeio ocorreu no dia do equinócio de Outono, mais precisamente a 22 de Setembro último, sendo uma belíssima forma de dizer adeus ao Verão e de dar as boas-vindas ao Outono.

Partilho hoje algumas imagens mais gerais desse percurso, ficando para outro post que publicarei em breve os pormenores que tanto aprecio.

Percorrido o areal até à praia da Aguda, subimos a grande escadaria que permite chegar ao topo da arriba, sendo o regresso ao ponto de partida realizado num trilho aí existente.

O passeio terminou com a chegada ao ponto de partida. Adoramos o percurso e ficamos com vontade de explorar outras zonas costeiras da região.

Antes de concluir porém, gostaria de partilhar alguns dados sobre a geologia desta área.

Enquanto que a arriba da zona percorrida é essencialmente formada por “uma sucessão de camadas quase horizontais de calcários argilosos e margas”, na praia do Magoito a arriba é uma duna consolidada, ou seja, “uma duna costeira formada pela acumulação de areia por acção conjugada do mar e do vento. Esta duna fóssil corresponde a um estádio do processo de evolução da areia solta para a rocha arenito, processo que dura milhões de anos. A duna consolidada do Magoito foi formada há cerca de 10 mil anos.

A imagem que se segue e última deste post mostra relativamente bem essas características geológicas. Na verdade “podem observar-se laminações oblíquas, que permitem determinar qual a direcção em que sopravam os ventos aquando da formação da duna.»*

Também aqui a natureza nos mostra os seus dotes de escultora!

Boa semana!

 

 
* Informação retirada da Wikipédia 

arte urbana

Sou uma apreciadora convicta da chamada street art, seja daquele detalhe tímido que se encontra num recanto, seja daquela obra de grande formato que ocupa uma empena, muro ou outro espaço com alguma dimensão.

Nesta matéria, como em quase tudo, existe o lado agradável e existe o lado menos bom. Este post centra-se no primeiro, em obras que considero de qualidade, já que há muito rabisco inscrito por aí sem qualquer interesse e que não representa mais do que ruído visual e falta de civismo.

Centrando-me no assunto do post:

Ao saber através da internet da existência do Mapa online de arte urbana da Amadora (cidade adjacente a Lisboa), resolvemos ir em busca das obras aí referidas, o que foi realizado em três incursões, já que a urbe é bastante grande e as obras muitas. Fomos fotografando o que mais nos agradou, fosse pela técnica, dimensão, imaginação ou até pelo humor.

Começando pela imagem que dá início a este post, é uma obra da autoria do artista português Sérgio Odeith e representa dois personagens da série televisiva americana Breaking Bad. Ele é um dos autores que mais aprecio e, sendo originário do conselho da Amadora, mais precisamente da Damaia, são várias as obras com a sua assinatura existentes nesta área.

Actualmente está mais dedicado a obras anamórficas o que significa, de uma forma muito sucinta, que são pinturas realizadas com deformações mas, quando observadas de determinado ângulo, a percepção da forma é a correcta e o que foi pintado aparece a três dimensões, ou seja, penetrando ou destacando-se das paredes. Algumas são realmente fabulosas como poderão verificar no site oficial do artista.

Tal como a imagem inicial, também a série que se segue é da sua autoria. De realçar que as duas primeiras têm algumas das características que mencionei no parágrafo anterior.

Odeith, Light music
Odeith, ?
Odeith, Fernando Pessoa, 2017
Odeith, José Afonso (2016)
Odeith, Amália Rodrigues, (2016)
Odeith – Carlos Paredes (2015)
Odeith, Vasco Santana, 2018

Desde 1989 que o município da Amadora promove um festival de BD para promoção e divulgação deste tipo de arte. Apenas a pandemia cortou esse ciclo, que este ano deverá ser retomado. Sendo um evento reconhecido e muito importante, são várias as pinturas promovidas pela Associação Portuguesa de Arte Urbana que o homenageiam. Deixo aqui uma pequena selecção de obras de vários autores, das muitas que ocupam grandes espaços na cidade.

Este ultimo conjunto de imagens que seleccionei integra obras de diferentes autores e estilos. Tal como os anteriores, também estes são portugueses e mostram muito bem a sua qualidade. 

Daniela Guerreiro
Pantónio, 2018
Regg Salgado, 2016 (Aspecto parcial da pintura)
Tamara Alves, 2019
Pedro Peixe, 2018
Caver, 2019
Estúdio Altura/Pedro Peixe, 2019

Não visitamos todos os locais possíveis e verificamos que algumas das pinturas indicadas no roteiro já não existem ou foram substituídas. Ou que outras apareceram entretanto, não estando nele mencionadas.

Por último, não posso terminar sem salientar a profunda admiração que tenho por estes artistas que pintam grandes superfícies, talvez porque tenho a noção das dificuldades que se podem sentir ao fazer algo… apenas em pequeno formato!

Esta forma de expressão é certamente uma viagem bem desafiante pelo mundo da arte!

Rui Lacas, 2009 (detalhe)

a ponte do meu olhar

O valor que damos a algo é sempre relativo, sendo imenso o que passa despercebido ao nosso olhar enquanto outros alvos são privilegiados por esta transparência que brota de nós. 

A ponte 25 de Abril, que une as duas margens do Tejo em Lisboa, talvez seja a campeão dos meus olhares. Há mais de quarenta anos que descansa na janela da sala onde trabalho e há outros tantos que sob ela passo duas vezes ao dia.

Normalmente mostra bem os seus contornos e elegância, linhas que os nevoeiros surgidos no rio gostam de afagar ou esconder num jogo dinâmico e sensual, ora tapando a base dos pilares, ora os topos, ora tudo. Neste ultimo caso em que ela simplesmente desaparece, gosto de pensar que foi de viagem, que se cansou de estar estática no mesmo lugar há tantos anos…ou então que eu mudei de lugar e outra cidade me recebe! Certo é que, limpa ou envolta em nevoeiro, é sempre bonita e cativante.

Esta estrutura longa e flexível tem uma vida muito própria. Pelas suas entranhas passa um comboio (como se pode ver à esquerda da imagem), um meio de transporte importante na dinâmica dos fluxos de pessoas que se deslocam diariamente entre as duas margens do rio; e no tabuleiro, um tráfego muito intenso ou mais fluido pode, de um momento para o outro, dar lugar a um acidente de onde resulta um humor engarrafado, congestionado e sempre enervante. Por outro lado, mantém uma relação sonora com a cidade emanando um ruído constante, um “vrumm” metálico um tanto cansativo e certamente muito incomodativo para os que vivem perto dela.

Na sua passividade e para além da função de ligação, já foi palco de muitos momentos desde que foi inaugurada em 1966: grandes obras, manifestações, bloqueios, corridas com milhares de pessoas, etc, etc. Já sabe o que é o calor dos passos humanos, do mesmo modo que sabe o que é o desespero dos muitos que decidiram terminar a vida no seu tabuleiro, atirando-se daí ao rio. Com este pensamento, a ponte sempre perde muita da poesia que lhe encontro…

Olhando em seu redor…

…é uma estrutura que tem a seu lado, na margem sul, o Santuário do Cristo-Rei, formando uma parceria inconfundível no perfil da cidade e uma espécie de ex-libris que dá as boas vindas a muitos dos visitantes. No céu, passa sobre eles um dos corredores aéreos de acesso ao aeroporto de Lisboa, percorrido por um constante fluxo de aviões que só a pandemia permitiu travar totalmente. E em baixo, sob a ponte, flui o magnifico rio Tejo prestes a chegar ao oceano e permitindo agora, depois dos trabalhos de despoluição realizados, que muitos golfinhos penetrem diariamente o seu leito e sejam vistos na zona dos dois pilares submersos. Que melhor companhia poderia ter a ponte 25 de Abril?

Os pilares que a sustentam são suporte, mas não só. Na verdade, vale muito a pena ir até ao primeiro em betão implantado no lado norte, em Alcântara, e aí visitar o Centro Interpretativo da Ponte 25 de Abril – Experiência Pilar 7 – inaugurado aquando dos 50 anos desta estrutura. Muito mais do que o interesse do miradouro e do elevador panorâmico que possui, vale imenso pelo percurso expositivo que disponibiliza complementado por meios interativos. E responde a muitas questões que os mais curiosos terão ao olhar para esta belíssima obra de engenharia que resultou do trabalho árduo de muita gente, numa época em que as tecnologias e as questões de segurança era bem diferentes da actuais, facto que levou à morte de muitos trabalhadores em acidentes durante a sua construção.

Publico este divagar no dia de mais um aniversário desta ponte, mais precisamente dos 55 anos após a sua inauguração. Nessa altura, era a maior ponte suspensa da Europa e foi um evento marcante para todos os portugueses. Até para mim, uma criança com apenas oito anos que vivia no Algarve….e que jamais imaginaria que aquela enorme construção seria uma presença constante no seu olhar e, de certa forma, na sua vida.

(Foto captada neste dia de aniversário, logo pela manhã!)

arriba fóssil

Atraí-me imenso tudo o que se relaciona com a geologia do nosso planeta e com os efeitos, formas e texturas que os elementos naturais lhe provocam através da erosão.

O território português é pequeno, mas apresenta uma grande diversidade de ambientes naturais, uns convertidos em parques naturais, outros em paisagens protegidas e muitos sem qualquer classificação mas igualmente interessantes.

A Área Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica foi criada em 1984 e, entre as suas várias componentes, tem uma arriba paralela à zona costeira constituída por estratos de rochas sedimentares com cerca de 10 milhões de anos (do período Pliocénico). Uma arriba fóssil é uma zona costeira alta, mas “morta”, ou seja, onde o mar já não chega e não lhe provoca erosão. Contudo, é afectada pelas chuvas, vento, temperatura, etc, que a vai desgastando e dando origem a formas muito peculiares.

Na costa portuguesa existem outros locais com arribas fósseis, mas creio que pelas características e antiguidade, esta é a única integrada numa área protegida.

Um percurso de alguns quilómetros ao longo do areal que separa o mar desta arriba permitiu-nos visualizar muitas formas de grande beleza e expressividade, imagens que hoje gostaria de partilhar.

A deposição de sedimentos diferenciados deu origem a estratos com várias colorações e sobretudo com diversos graus de resistência à erosão. Este facto levou ao aparecimento de formações não uniformes, seja em volumetria seja em textura.

Por tudo isso, esta paisagem é propícia a aliar a imaginação com o olhar e a vislumbrar o que a criatividade quiser. Nesta foto que se segue, por exemplo, facilmente encontro um conjunto de silenciosos seres numa marcha parada no tempo…

Uma aproximação à arriba através da máquina fotográfica (era difícil chegar perto devido ao terreno acidentado e à vegetação), permitiu perceber melhor a textura e os elementos constituintes de alguns desses estratos.

A par deste olhar mais terreno, outro bem mais aéreo ia acompanhando o voo das gaivotas sobre o mar…ou, na imensidão do azul do céu, estas “nuvens-ave” gigantes que livremente se deslocavam na tranquilidade do momento.

Num plano mais intermédio – entre esta terra que nos sustenta e o céu que nos aconchega – aproveitamos com prazer mais este momento de contacto com a natureza e a boa energia de um belíssimo dia de Primavera.

Depois de muitos quilómetros percorridos em areia, sentíamos bem o cansaço nas pernas. Mas estávamos felizes!

Boa semana!

lisboa em festa

No dia do feriado da nossa capital poderia falar do culto ao seu padroeiro Santo António de Lisboa, dos dotes de casamenteiro associados a este santo ou ainda do curioso responso/oração com o seu nome que muitos alegam ser uma preciosa ajuda na procura de objectos perdidos.

E poderia falar dos populares casamentos patrocinados pelo município, ou ainda das marchas populares e arraiais que habitualmente movem multidões pelas ruas da cidade, eventos que não se realizaram nos dois últimos anos devido à situação pandémica.

É certo que não haverá as tradicionais Festas de Lisboa…mas Lisboa está envolta numa festa de cor e emana uma imensa alegria proporcionada pelas flores dos jacarandás, evento que se repete anualmente e a que este Discretamente não resiste…

Para além do Santo António, há um outro santo também associado à cidade, o São Vicente, cujo corpo viaja eternamente dentro de uma barca vigiada por dois corvos no cimo de muitos postos de iluminação pública da cidade.

Sendo uma imagem já naturalmente curiosa, sempre me delicia encontrar nesta época do ano a referida barca navegando sobre e os jacarandás… num mar de ondas lilás!

No mínimo, é adorável!

Termino com uma fotografia que me parece revelar bastante bem a “essência” desta belíssima árvore.

A elegância e a expressividade que emana em cada um dos seus ramos permite desenhar histórias visuais únicas e irrepetíveis. São por isso infindáveis as que estão disponíveis no céu de Lisboa …e que eu tanto gosto de ler e apreciar nesta tempo de festa e de despedida da Primavera.

Esperemos que em 2022 a cidade volte finalmente a se vestir de gente e de muita Festa …porque os jacarandás sempre voltarão para a vestir de cor!!💜

serra de carnaxide

Os dois períodos de confinamento a que fomos sujeitos em Portugal no último ano no âmbito da pandemia, concentraram o nosso olhar num circulo muito mais restrito do que o habitual. Por um lado, a casa, os detalhes, as suas janelas e o que estas nos ofereciam; e por outro, a área em que se insere a nossa residência, território que foi o limite do nosso restrito mundo durante esses meses.


Foi nesse contexto que a Serra de Carnaxide, uma pequeno maciço pertencente ao Complexo Vulcânico de Lisboa com uma área de 6 quilómetros quadrados e 211 metros de altura, foi por nós explorado em vários momentos, uma vez que a nossa residência se encontra na sua periferia.

Limitada a leste pela ribeira de Algés e a oeste pela ribeira do Jamor, é no seu cimo que passa a linha que separa os concelhos de Oeiras e da Amadora.

A área correspondente a este segundo concelho, localizado no lado norte, está a ser urbanizada e literalmente engolida por arruamentos e grandes empreendimentos habitacionais.

Infelizmente o mesmo está a suceder noutras áreas que integram o perímetro da serra, como é o caso da urbanização de grande volumetria que está a crescer em redor do pequeno maciço onde se localiza o farol da Mama de Carnaxide, este já no concelho Oeiras. Uma verdadeira dor de alma!

Já o lado sul do maciço central da serra, tal como bem revela a primeira imagem deste post, ainda mantém o seu estado natural e a flora espontânea que foi nascendo quando as terras deixaram de ser cultivadas. Algumas áreas porém, pertencentes a privados, ainda são alvo de cultivo.

São várias as colmeias que ainda existem no perímetro da serra

Por ser uma zona com nascentes, nas suas entranhas passa um aqueduto construído no séc. XVIII que forneceu a vila de Carnaxide e ainda contribuía com água para o grande Aqueduto das Águas Livres que abastecia Lisboa. Por esse motivo são várias as claraboias/respiradouros que pontuam esta serra e que muito a personalizam. A Mãe de Água é a estrutura de maior dimensão e de planta octogonal.

Em Carnaxide a água era recebida neste chafariz, datado de 1766 e mandado construir pelo rei D. José I. A primeira imagem mostra o seu alçado principal, em cantaria e equipado com duas bicas e um tanque; e a outra o alçado posterior com revestimento em azulejos, que creio serem já do séc. XX.

Voltando à serra e aos nossos passeios, foram muitos os atalhos que percorremos e exploramos…muitas subidas e descidas…por zonas abertas ou de densa vegetação…com ampla vista ou sem ela.
Cada incursão significou um novo caminho, mas em todos foram imensas as flores e os insectos que nos acompanharam e deleitaram o olhar.

No céu, em voos planados, as aves de rapinas estiveram presentes em vários momentos.

Por isso termino com esta bonita imagem de uma Águia d’asa redonda (Buteo buteo) captada pelo meu companheiro. Creio ser uma boa forma de concluir este post…por esses voos representarem aquela liberdade sem restrições que nós realmente não tínhamos.

Foto de Jorge Oliveira