pensamento ao vento

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O vento
levou-me um pensamento…

…que logo procurei
no instante de um olhar.

Um pedaço
voava no céu,
outro nadava no mar.

Tentei resgatá-los
no tempo de um respirar,
na esperança de os unir
e o pensamento voltar.

Impossível.

Com o original partido
e no éter meio perdido…
…logo outro me veio habitar!

 

(Dulce Delgado…no Dia Mundial do Vento!)

 

 

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diferença

 

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Uma das orquídeas que possuo começou recentemente a sua floração anual, momento que sempre acompanho com gosto e curiosidade.

Um olhar mais atento sobre as três primeiras flores entretanto nascidas, revelou a presença de uma bastante diferente, seja pela ausência da parte central como pelo tipo de recorte e número de pétalas. A curiosidade levou-me a contactar a Associação Portuguesa de Orquidofilia, que prontamente me esclareceu, dizendo tratar-se de uma flor defeituosa, e que “…hoje em dia e para se chegar aos preços tão baixos a que chegamos fazem-se híbridos por vezes com pouco cuidado. As outras flores devem nascer normais”.

Sendo uma leiga nesta matéria, fiquei obviamente esclarecida. Contudo…

…rapidamente fui levada a transpor esta frase para um contexto mais amplo e para a forma como a filosofia do lucro está implantada em todos os níveis da sociedade e da nossa vida. Interessa produzir rápido e muito, para vender depressa e ganhar mais. A quantidade sobrepõe-se à qualidade, filosofia que acabamos por alimentar constantemente em inúmeras ocasiões quase sem darmos por isso.

Não recordo a origem exacta desta orquídea, mas certamente é um desses híbrido nascidos de “uma linha de montagem” para alimentar o mercado em quantidade e a preços baixos.

Esse desenrolar de pensamentos, porém, não afectou em nada o prazer que tenho em olhar para a sua elegância e detalhes. Diria mesmo que me sinto privilegiada por ter esta planta comigo e por ela ter gerado algo tão diferente sob o meu olhar. Poderá ser defeituosa ou deficiente, mas é portadora de uma beleza única, muito própria e fora do habitual.

Aprecie-mo-la por isso, em toda a sua individualidade.

 

 

 

afectos primaveris

 

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A Primavera é cor, vigor e tempo de procriação, pelo que tudo se conjuga para cumprir tal objectivo.

Se no reino vegetal a cor é um dos elos mais forte na forma de disseminação da espécie, no reino animal serão as feromonas e o instinto que estão na base dos rituais de acasalamento e da necessidade de deixar descendência.

Já na nossa espécie, por sua vez, é tudo mais complexo e belo porque, para além do instinto e das hormonas, liga-nos sentimento que se situam entre o afecto e a paixão. Mas a racionalidade humana tem a capacidade transformar todos esses factores num “jogo” que se manifesta em inúmeras formas de comportamento, sendo uma das mais comuns a capacidade de orientar os momentos mais íntimos para recantos menos expostos.

Pela complexidade e diversidade que representamos, vou esquecer a panóplia de sentires que nos abrangem em tempo de Primavera e incidir o olhar sobre a natureza, partilhando algumas imagens que esta Primavera já ofereceu.

Se na fotografia que inicia o post, obtida à poucos dias, o olhar encontrou esta enorme quantidade de aranhiços vermelhos numa só flor, só pode significar que os progenitores desta espécie aproveitaram bem as energias reprodutivas da estação. Apenas feromonas bem activas poderão ter dado tão admirável resultado!

Mas outros continuam a trabalhar para a continuação da espécie, seja no cimo de uma planta em equilíbrio bastante instável…

 

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…seja na transparência do vidro da janela onde trabalho em plena Lisboa!

 

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Continuando…

Já todos presenciamos o ritual de acasalamento dos pombos que proliferam nas nossas cidades. Um jogo bem exigente e cansativo para a parte masculina, diga-se de verdade. Mas ver um casal de pombos a partilhar um passeio cúmplice à beira-mar é simplesmente delicioso….

 

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…tal como é doce para o olhar ver este casal de patos reais a fazê-lo tranquilamente no seu ambiente natural.

 

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Outros animais contudo, preferem locais mais recatados e sossegados para fazer esse jogo de sedução ou quem sabe, talvez projectos para o futuro, como é o caso deste casal de charnecos.

 

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Por último….

…os afectos são tão amplos e cheios de possibilidades, e a imaginação algo tão vasto e sem limites, que até no meio de uma Lisboa invadida por uns seres chamados trotinetes… eu  encontrei duas calmamente a namorar!

 

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Continuação de uma amorosa Primavera!

 

 

(A segunda e a quinta imagens são da autoria do meu companheiro Jorge Oliveira)

 

 

dino parque

 

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A minha vertente mais céptica não põe minimamente em causa as descobertas e as certezas científicas sobre a presença de dinossauros neste planeta, mas creio que a imaginação humana tem uma significativa quota parte no que se refere a certos detalhes morfológicos como o aspecto e a cor que esses curiosos animais teriam. Contudo, essa minha dúvida não obsta a que aconselhe vivamente um passeio à zona da Lourinhã, vila localizada no extremo NW do distrito de Lisboa e ao Dino Parque que se situa na periferia daquela localidade.

Muito recentemente, junta-mo-nos sete adultos da família, sendo a presença infantil limitada à parcela de criança que todos guardamos dentro de nós e que em determinadas situações rapidamente vem ao de cima e se manifesta. Éramos  portanto sete adultos-crianças que naquele dia primaveril aprenderam alguma coisa mais, partilharam um piquenique e tiveram um dia bem passado pelos meandros da história deste nosso planeta.

Este parque temático possui cinco percursos que abrangem vários períodos geológicos da terra e as espécies que neles habitaram: o primeiro percorre o Paleozóico, que ocorreu há uns “meros” 500 e tal milhões de anos (Ma); o segundo, terceiro e quarto percorrem as três eras do Mesozóico, respectivamente o Triásico (250 a 210 Ma),  o nosso conhecido Jurássico (210 a 140 Ma)  e o Cretácico (140 a 65 Ma); e o quinto percurso, inaugurado recentemente, é dedicado unicamente aos monstros marinhos.

A maioria dos trajectos está muito bem conseguida pela simbiose entre os dez hectares de pinhal que o parque ocupa e os animais presentes. Possui detalhes engraçados e muito bem conseguidos, assim como uma sinalética perfeita e rica em informação. Os modelos, construídos à escala real a partir dos dados existentes, estão no geral  bem concebidos e todos revelam expressividade suficiente para nos levarem àqueles remotos tempos e até a sentirmos a sua vibração.

Por tudo isto, se têm crianças na família ou se ainda guardam a vossa curiosidade de criança, aconselho uma visita a este espaço, pois estou certa que o irão apreciar.

Como imagens, partilho apenas a inicial que mostra um aspecto do portal de acesso ao recinto e este detalhe que se segue, bem mais humano e emocional.

 

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As surpresas estão lá dentro e revelar mais imagens seria quebrar esse efeito.

Saliento ainda que a Lourinhã, para além de ser a área de Portugal onde existem mais vestígios de dinossauros, está inserida numa região com muitos locais de interesse e que merecem uma visita.

Por tudo isto, vale a pena o passeio!

 

 

 

 

amigos da nespereira

 

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Um ano……outro……e outro mais, e todos os anos eles voltam à nespereira! Sempre!

Entretanto a árvore continua a crescer…

E eu  tenho mais um ano de idade……e outro…..e outro mais……

Em cada Primavera a nespereira dá frutos para as aves que a procuram. Literalmente.
O acesso a esta árvore não é fácil e a verdade é que nunca vi humano por perto. Mas o dia não tem apenas as minhas horas de trabalho, período em que o meu olhar a pode espreitar.

Os periquitos-de-colar são os mais ávidos e expressivos. O seu tamanho e colorido favorece essa percepção. Pombos, melros, pardais e outras pequenas aves também se deleitam com tal néctar.

Por muito devagar que se abra a janela para os fotografar, uma nesga apenas…é gesto suficiente para que o detectem e fujam!  Sempre que tal acontece sinto-me “culpada” por mais uma vez interromper tão aprazível momento.

Saio da janela, volto para a minha actividade…. e estou certa que em breve eles voltarão para continuar a sua.

Muito raramente, algum mais concentrado (ou surdo…), demora mais tempo a reagir e torna uma fotografia viável. Como as duas que inseri no post.

Nesta última, creio que ele até me estava a cumprimentar!

 

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Se nos próximos cinco anos continuarmos este “jogo”, será um bom sinal para mim e para eles!

 

 

 

 

61!

 

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Nasci em plena Primavera, por sorte na época do ano que mais aprecio.

Faz hoje precisamente 61 anos que decidi começar esta aventura para além do útero materno. Nasci rodeada da bela paisagem alentejana, um selo de harmonia e de energias que gosto de acreditar ter marcado a minha sensibilidade ou a forma como a luz, o sol, o céu, a paisagem ou a natureza me tocam e são geradores de sentires muito próprios.

Esta será certamente uma visão algo romântica da questão, pois a realidade regista que deixei o Alentejo com pouco mais de seis meses… contudo, sendo o romantismo um pensar doce e que não faz mal a ninguém, esta sexagenária não resiste ao seu paladar!

Assim, voltando à ideia que as paisagens alentejanas oxigenaram os meus genes nesse período…a verdade é que a minha estrutura emocional se manifesta de uma forma muito vibrante quando encontro um prado na Primavera. Adoro prados! E o Alentejo onde nasci… é um mar de prados!

Se me perguntarem que flores mais gosto, só tenho uma resposta: as flores de um prado e um prado com flores! Sejam as pequenas e menos visíveis que o verde protege com cuidado e gratidão, ou as mais exuberantes que atraem o nosso olhar e chamam a atenção.

Um prado é a “maior democracia” que existe na natureza. É o equilíbrio puro, na sua forma mais espontânea. Todas as espécies têm o seu papel numa cooperação harmoniosa, a que o acaso pela mão dos quatro elementos – terra, ar, água e fogo/sol – criou para deleite da própria natureza e do nosso olhar.

Tudo está no local certo, em resultado de uma dinâmica perfeita. Mesmo que exista competição entre espécies, o que sabemos ser comum na natureza, o equilíbrio é genuíno e existe só por si.

A beleza do conjunto revela-se igualmente num olhar mais detalhado, mas hoje não vou por aí, não é importante. Talvez um dia partilhe essa visão. Nesta data, em que me sinto feliz e muito agradecida por completar mais um ano de Vida (não obstante as dificuldades que sempre vão surgindo), o prado é um símbolo a que dou enorme valor, seja pela capacidade de auto-regeneração anual, seja pela harmonia que transmite e que sempre procuro guardar e “cultivar”, ou ainda pela grande lição de respeito e de cooperação pacífica que dá ao mundo.

A imagem inicial é um detalhe de um belíssimo prado que recentemente encontrei num recanto da região onde resido. Senti-o como um pedaço de Vida, como uma oferta da Natureza…e como tal, ideal para partilhar neste dia!