diospiro surpresa

Gosto muito de diospiros de roer, mas não aprecio os de abrir. Nestes últimos nem sempre é fácil perceber o momento ideal em que devem ser consumidos, pelo que estamos sujeitos a sentir aquela desagradável sensação de adstringência que os seus muitos taninos provocam na nossa mucosa bucal quando o fruto não está suficientemente maduro.

Sendo um alimento muito rico em vitaminas A e C, e ainda em potássio, cálcio e fósforo, é excelente para consumir no Outono e no Inverno, época em que são comercializados. Por tudo isso sou uma forte adepta da espécie de roer e à qual dedico hoje este post.

Visualmente é um fruto alegre, de bela cor e que nos oferece de presente uma espécie de flor quando cortado a meio, forma que é mais evidente e perfeita se o diospiro está no grau certo de maturação. Normalmente essa “flor” tem oito pétalas, mais já as encontrei com um número diferente.

O mais curioso foi o ter descoberto há poucos dias, não sei se por estar mais atenta ou por ter feito um corte diferente do habitual…que o diospiro não guarda apenas uma flor…mas que guarda também uma aranha!

Como as demais aranhas, esta tinha igualmente quatro pares de patas ligadas a um corpo… e facilmente a visualizei a passear sobre a mesa… e pelos meandros desta imaginação! Acrescente-se, para melhor compreensão, que aprecio aranhas e que tudo faço para as salvar quando decidem ocupar o meu território.

No dia seguinte abri este diospiro. Encontrei a flor…cumprimentei a aranha…captei estas imagens….e depois saboreei-o tranquilamente e com o prazer de sempre.

Gosto imenso destas surpresas que a natureza esconde!

a sul

Sempre que possível, eu e o meu companheiro tentamos fazer umas mini-férias antes do final de cada ano, seja como agradecimento por termos chegado até ali, seja desejando que o novo ano se revele um tempo de bons momentos, de olhares amplos e de possibilidades em aberto.

No final de 2020, devido à pandemia e às restrições de circulação previstas, tivemos apenas três dias para esse respirar, sendo o sul de Portugal a região escolhida. No plano, apenas lugares “fora da civilização” e que nos permitissem estar tranquilamente sem máscara e sem pensar no distanciamento físico, algo que se tornou uma preocupação permanente no ultimo ano. Ou seja, lugares longe de pessoas! Também a escolha de um pequeno apartamento nos permitiu não ter que ir para locais mais frequentados e, sem preocupações, usufruir das refeições já confecionadas que levamos.

As nossas explorações centraram-se em áreas de salinas e sapal localizadas entre a Fuseta e Tavira, lugares amplos, de olhar vasto e propícios à observação de aves. Este é um gosto que ambos partilhamos, o meu companheiro com mais técnica e profissionalismo, e eu de uma forma muito mais amadora, versátil e abrangente, encarando as aves como parte de uma natureza imensa e que sempre me encanta.

As imagens que se seguem revelam um pouco da paisagem que nos envolveu e, sobretudo, a beleza que os nossos olhos respiraram nesse hiato de liberdade e de pura natureza.

Termino com uma foto de várias Pegas-rabudas (Pica pica) pousadas ao amanhecer no topo de uma árvore. Quando as vi, instintivamente transportei esta imagem para a situação de grande instabilidade e insegurança que todos vivenciamos e pensei…como seria bom que nos conseguíssemos equilibrar – individualmente e como sociedade – desta forma tão tranquila e harmoniosa!

inverno

A buganvília que vive em minha casa floresce quando lhe apetece. Este ano o Outono também foi tempo de floração, enchendo de cor o espaço que habita junto a uma janela. Porém, nesta altura do ano essa janela é muitas vezes fechada devido ao frio e à chuva, o que lhe causa certamente alguma tristeza como planta de exterior que é.
Foi esse o sentimento que esta imagem despertou em mim, num dia cinzento, frio, chuvoso… e de janela fechada! Fiz-lhe um afago e pensei “Ok…se floriste no Outono e o crescimento não parou…não pode ser grave! Há dias assim!”.

Novo pensamento:

A chegada do Inverno ao hemisfério norte neste ano totalmente atípico e de menos afectos, levará provavelmente a uma maior interiorização, a mais momentos de melancolia e a uma evidente diminuição da energia.
Apesar da meteorologia ter muita influência nesse processo, creio que este ano será sobretudo a pandemia a funcionar como “algo invisível e frio” que nos afasta do mundo e impede o calor humano.

Recorrendo a uma metáfora e à imagem acima diria que, tal como a minha buganvília, também nós…

…estamos perante uma “barreira invisível” e limitativa que nos separa do mundo
…o cansaço dessa situação leva a momentos de alguma tristeza
…apesar desse cansaço, continuamos a encontrar energia para viver e lutar
…sabemos que no outro lado dessa barreira estará uma saída e a liberdade
…que a esperança é algo poderoso e que a mudança sempre acontece
…e que a “janela”, mais tarde ou mais cedo se abrirá novamente!

E é com esta imagem que mistura tantos sentimentos que vos desejo um Inverno de esperança, de resiliência e apesar de tudo, sempre de gratidão!

Semelhante desejo dirijo aos meus leitores do hemisfério sul que hoje receberam o quente Verão…mas seguramente com alguns sentimentos análogos aos descritos!

a viagem

Viajam as folhas de Outono ao sabor do vento num rodopio sem parar. Por vezes aterram na água e o voar vira navegar.

Nesta viagem, duas folhas de plátano adoptaram outra mais pequena e de espécie diferente, talvez de choupo, deram-lhe boleia e seguiram num lento flutuar ao ritmo do lago.

Provavelmente esta foi a sua última viagem. Tranquila, como um passeio em família.