dúvida

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Quando a vida não quer
o nosso querer
e diz não,
suponho…
…talvez seja o sonho que vai em contra-mão.

Ou não.

Então,
o que mudar de direcção?

A vida ou a ilusão?

 

 

(Dulce Delgado, Fevereiro  2019)

 

 

 

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boas-vindas

 

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Os passageiros que nesta quarta-feira aterraram no aeroporto de Lisboa antes do nascer do sol, foram recebidos de uma forma singular.

A dispersão de nuvens pelo vento “derramou” numa faixa de céu e sobre os aviões que aí passavam um véu fluído de luz, minúsculas gotas de água e energia.

Seria apenas um banal fenómeno atmosférico resultante do interagir de alguns elementos da natureza, mas…..porque não o ver e sentir como algo especial, como uma espécie de graça, bênção, ou algo do género?

Ou como uma forma diferente de dar as boas-vindas e desejar uma boa estadia?

Ou um bom dia?

Ou…apenas uma boa aterragem…

Foram esses os pensamentos que nasceram do meu sentir perante tão magnífica visão.

E silenciosamente, tudo isso desejei aos desconhecidos daquele avião!

 

 

 

divagações temporais

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Um novo mês…
…e literalmente uma nova folha na minha vida!

Sempre que início uma nova página no livro de ponto que diária e obrigatoriamente tenho que assinar como funcionária do estado, penso: como estarei quando preencher a última linha deste mês?
Pergunta sem resposta, porque o futuro não tem resposta. Apenas possibilidades.

Cada linha está dividida em células, sendo quatro as que me são concedidas em cada dia. Quatro células com tempo…e algumas ideias fantasiosas…

…certamente que o tempo, algo tão volátil e indomável, se deve sentir amarrado e comprimido dentro de cada uma daquelas células…

…sempre que rubrico uma célula, meto-me com o tempo…talvez, até lhe faça algumas cócegas com a caneta…

…e nesse momento silencioso por vezes “ouço”: Ok, Dulce, agradece, este tempo já é teu!

E a Dulce agradece!

– De uma forma mais ou menos tranquila no momento em que rubrico a primeira célula no início de cada mês, como hoje aconteceu mais uma vez;

– E de uma forma bem mais agradecida, ao rubricar a última “célula de tempo” de um mês que termina, como ontem sucedeu…

Nos restantes dias, encaro pontualmente aquele livro e as suas páginas com este pensamento: “Se a Vida o permitir, que surpresas me reserva o “tempo escondido” em todas estas células ainda “virgens”?
Ou nas páginas ainda por preencher?
Ou…em futuros livros?

 

(…a imaginação é a melhor forma de lidar com as “grilhetas” de um livro de ponto!!)

 

 

 

saudável atenção

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Nem só de poesia…de natureza…ou de sensibilidades, as temáticas que discretamente vão prevalecendo neste espaço, se alimenta a nossa existência. O corpo que nos sustenta é uma fabulosa estrutura que devemos cuidar com todo o carinho e de forma equilibrada.

Vivemos na época da “provocação” saudável, em que constantemente nos sentimos questionados sobre o que é bom ou mau para a nossa saúde. E as linhas orientadoras são tantas que, em certos detalhes, muitas vezes entram em contradição.

Há algum tempo dediquei-me a leituras nessa área que me permitiram chegar a várias conclusões:

– a primeira, foi que me alimentava bastante bem;

– a segunda, que a partir daí iria olhar com mais atenção para os componentes dos produtos processados;

– e a terceira, que o melhor seria não ler mais nada e limitar-me a “conversar” sensatamente com o meu corpo para entender o que ele realmente necessitava.

Nesse diálogo, apenas uma certeza: de vez em quando daria toda a liberdade ao paladar e esqueceria o “saudável” e o “não saudável”. O corpo e a mente precisam de prevaricar de vez em quando, apesar da possibilidade do primeiro vir a sentir os efeitos desse deslize. Mas será o preço a pagar em nome de um equilíbrio mais geral.

Pessoalmente, sei que o espírito “saudável” em breve regressa porque ele está nos “genes alimentares” que me constroem. Sendo filha do sul da Europa cresci na dieta mediterrânica e sempre com o mar por perto. O peixe fresco estava na mesa todos os dias, bem cozinhado por uma mãe algarvia com imenso jeito para a cozinha. Tudo era bom, inclusive os ingredientes, sendo muitos os sabores que recordo e que ainda hoje me fazem crescer água na boca. As tentativas de conseguir esses paladares nunca deram os resultados desejados porque lhes faltava sempre algo… talvez o principal… talvez a boa energia de uma mãe…

Nesses tempos quase tudo era confeccionado em casa e a lista de produtos processados diminuta. Hoje a situação é oposta e tudo se pode comprar já preparado, sendo muito raro ver alguém num supermercado a consultar o rótulo para saber o que vai realmente ingerir.

Percebi essa urgência, por exemplo, quando me foquei na quantidade de açúcar que contêm os produtos. A realidade é assustadora, especialmente quando decidimos converter o valor indicado nos rótulos em número de pacotinhos de açúcar como os que se colocam num café. Um simples iogurte, por exemplo, pode conter o equivalente a três pacotes de açúcar, o que é um absurdo. Mas procurando bem, ainda se encontram alguns com 4/5 gramas, o que apesar de ser bem menos, ainda equivale a um pacote.

Ao assumirmos um momento de gulodice sabemos conscientemente o que estamos a fazer e quais as suas consequências. O que não está certo é não termos consciência da quantidade de açúcar que constantemente ingerimos de uma forma “escondida”, apesar de ser do conhecimento geral o quanto ele prejudica o bom funcionamento do nosso organismo.

Sugiro a quem ainda não o fez, que dedique algum do seu tempo a observar e a comparar os rótulos dos produtos que consome. Talvez seja o primeiro passo a dar antes de tentar entender/seguir as muitas tendências “saudáveis” que há por aí.

O nosso corpo agradece.

 

 

 

frio sentido

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Frio
e desafiante,
o vento de Inverno
penetra os poros
e a pele
que a roupa não protege.

Com ternura
ajusto o casaco ao corpo,
aconchego as zonas expostas
e penso…

…este,
também é o papel da Mãe-Natureza…

…tocar
…alertar
…ousar despertar o sentir,
e naturalmente,
levar-nos a reagir!

 

(Dulce Delgado, Janeiro 2019)

 

 

miguel torga

 

torga

 

Adolfo Correia da Rocha foi buscar o segundo nome do seu pseudónimo a um arbusto da família da urze que se desenvolve espontaneamente em terrenos pobres e agrestes. Essa planta é a torga, também chamada de queiró ou leiva, uma espécie muito resistente e lutadora, como a natureza do homem que o escritor Miguel Torga tanto admirava e valorizava.

Torga não acreditava nos Deuses nem no seu virtuosismo, porque eles não sabiam o que era uma vida de trabalho e de luta. O homem sim, sabia-o bem, porque o fazia todos os dias nas piores condições, trabalhava a terra, fazia crescer, moldava e conhecia a natureza, sofria, era um resistente e um sobrevivente. Para ele o homem merecia todos os louvores.

A sua própria vida contribuiu para esse sentir. Foi trabalhar para o Brasil aos dez anos, com a energia e a resistência das terras de Trás-os-Montes onde nasceu. Insubmisso ao que lhe pediam, voltou no ano seguinte para um seminário em Lamego que o acolheu e educou. Mas não para ser padre, porque esse não era o seu caminho.

Aos treze anos voltou para o Brasil a fim de trabalhar na fazenda de um tio. Esse familiar ao perceber o seu potencial patrocinou-lhe os estudos, primeiramente naquele país e mais tarde em Portugal, onde se formou em medicina na Universidade de Coimbra.

Começou a exercer essa actividade com 26 anos nas terras agrestes onde nasceu e que foram o grande palco da sua vida, seja como humanista junto dos mais desfavorecidos, seja como escritor, poeta e ensaísta. O que vida lhe mostrou foi moldando as suas convicções, rebeldia, inconformismo, sensibilidade e um espírito sempre livre, onde os homens, os animais e a natureza tinham um lugar especial.

Miguel Torga morreu em Coimbra em 1992, faz hoje precisamente vinte e sete anos. Escreveu muito, publicou dezenas de livros e, como médico, proporcionou uma melhor vida e saúde a muitos dos homens e mulheres que tanto admirava.

É essa consciência do sofrimento do povo e a sua luta, que creio estarão na base de um dos seus poemas que muito aprecio, cujo título é Sífiso. 

Antes porém, e a fim de melhor o enquadrar, é importante dizer que Sífiso foi um ser da mitologia grega que por ter enganado os Deuses teve a punição eterna de empurrar montanha acima uma grande pedra. Contudo, quando estava perto do cume, uma força desconhecida fazia-a rolar até à base. Apesar disso, ele sempre recomeçava uma nova subida. O outro lado significaria talvez a liberdade, por isso Sífiso nunca desistiu.

Também na vida dos homens e das mulheres que Miguel Torga tanto admirava, tal como na vida de todos nós, as dificuldades e os recomeços são uma realidade.

Como em Sífiso ele tão bem descreve.

 

Sífiso

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

 

 

Imagem retirada de:
https://observador.pt/2015/01/17/casa-museu-miguel-torga-evoca-medico-e-escritor-nos-20-anos-da-sua-morte/

 

este dia…

 

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…que está prestes a terminar, assim nasceu na zona de Lisboa.

Por um lado apareceu com uma luz forte, profunda e um tanto mística; e por outro, com uma evidente componente de intranquilidade, transmitida pelas irrequietas nuvens.

Uma hora depois, o rio Tejo e as áreas da cidade a ele adjacentes estavam cobertos de um nevoeiro denso e de um frio penetrante, húmido e muito desagradável.

Esse sentir enevoado manteve-se uma boa parte do dia, talvez para nos preparar para a chuva prevista para amanhã, depois de muitos dias de céu azul, limpo e de um sol vivificante.

Esta alternância e sequência de estados e de humores é nossa também. É minha. É tua. É de todos e de tudo.

É a Natureza, tal e qual!