caracóis

Uma das alterações que o crescimento me provocou foi o deixar de gostar de caracóis cozidos, um petisco deveras apreciado por muitos portugueses. Houve obviamente uma razão para isso, mas tal não é relevante neste post.

Posso não gostar deles como petisco, mas gosto muito de os ver no meio da natureza. Porém, assim como nós mudamos ao longo da nossa existência, também estes pequenos animais foram alterando alguns dos seus hábitos e adaptando-se à evolução dos tempos.

São cada vez mais os caracóis que procuram locais estranhos e bem diferentes das típicas ervas e hastes secas onde os ía apanhar na infância. Agora os caracóis são mais exploradores e vemo-los sobre os nossos carros, em sinais de trânsito, postes eléctricos, sebes metálicas ou plásticas, etc, etc,. sendo tudo um bom lugar para estacionar.

De “personalidade” bastante variável…

…tanto podemos encontrar os caracóis solitários como o da imagem inicial…

…. os que conseguem viver minimamente em sociedade respeitando o espaço dos outros…

… os que apreciam um pouco mais de confusão e convívio, mas ainda seguem algumas regras…

…e especialmente aqueles onde impera a filosofia do “tudo ao molho e fé em Deus”, como diz o velho provérbio. Sem dúvida que estes são o grupo mais abundante!

No meio de tantas possibilidades, surge irremediavelmente a minha vertente romântica que me leva a acreditar que há caracóis que têm um lado “humano e emocional”…. como os da foto ao lado que procuraram um recanto mais sossegado onde viver, namorar e criar a sua prole!

É certo que é um lugar metálico e pouco natural mas, de certa forma, isso está de acordo com a evolução e as escolhas deste nosso tempo…

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Algumas notas adicionais e curiosas sobre caracóis:

– integram-se no grupo dos moluscos terrestes que se protegem dentro de uma concha (gastrópodes)

– são maioritariamente hermafroditas, mas muitos acasalam, sendo os ovos postos por ambos os progenitores

– reproduzem-se na Primavera e Verão, fazendo várias posturas que podem ir até 100 ovos por caracol/postura

– quando eclodem a sua casca é muito frágil. Depois vai sendo fortalecida com cálcio que eles mesmos produzem. Muitas vezes alimentam-se de cascas e de ovos que não eclodiram. Nascem muitos mas também morrem imensos, pois têm muitos predadores

– a vida média de um caracol é de 2 a 5 anos, podendo ser bastante mais se estiver em cativeiro

– desloca-se sobre o pé, um forte músculo que tem na base, e produz uma substância gomosa para facilitar a deslocação

– etc, etc,.

São bem curiosos, não são? 🐌🐌

presenças ausentes

Apesar de pouco consciente em nós, é uma arte que está em todo o lado e todos os dias passa pela nossas mãos, seja numa revista ou jornal, nos livros que recebem o nosso olhar, na capa daquele disco compacto ou vinil que ouvimos, nas agendas em papel ou calendários que nos regem o tempo, nas caixas de medicamentos que consumimos ou nos modelos e documentos oficiais…seja nos belíssimos rótulos de garrafas de vinhos que existem actualmente ou nas inscrições que identificam qualquer produto.

Ainda mais indiferente ao nosso olhar, essa arte está igualmente naqueles flyers irritantes que sempre colocam nos nossos carros dizendo que o querem comprar…nos folhetos com promoções dos super e hipermercados que nos esperam na caixa de correio, em toda a publicidade de habitações para arrendar e vender, e ainda, na organização de conteúdos de todo o tipo de publicidade que nos chega às mãos em suporte de papel….e que, na maioria das vezes, vai directamente para a reciclagem.

O design gráfico está presente no que é palpável mas igualmente na construção das inúmeras páginas virtuais que diariamente procuramos na internet (aqui sob a forma de web design), e que foram construídas e modeladas por um olhar especializado para que a nossa experiência visual seja apelativa e mais facilmente atraída e conquistada.

São os trabalhadores escondidos da estética dos nossos dias e de certa forma de um certo “consumismo” que nos rege. Ao colocarem um título, imagem, desenho, texto ou um espaço no lugar certo, estão a construir e a atrair emoções. As nossas emoções. Diria que eles trabalham para o nosso olhar e para que os nossos dias sejam esteticamente mais agradáveis, mesmo que não tenhamos consciência desse facto.

Eles são os designers gráficos e hoje, 27 de Abril é o seu dia mundial.

Na generalidade, este post é para todos esses trabalhadores de bastidores e de pouca visibilidade. E é particularmente para a minha filha e para o seu companheiro, ambos designers gráficos e detentores de um sentido estético que muito aprecio. 🧡

Valorizemos o trabalho destes artistas-técnicos, inclusive naquelas áreas e detalhes que normalmente nos são indiferentes e que ignoramos.

páscoa

Num dia em que muitas famílias se juntam para celebrar a Páscoa, muitas outras estarão dolorosamente separadas devido a uma guerra e a atrocidades inconcebíveis. Abstraindo-me da importância religiosa que a data terá para muitos, prefiro agarrar a ideia de transformação e renovação a que indirectamente a Páscoa está associada e desejar…

… que as diferenças, seja da cor da pele, de ideologia, de país, mas também de língua, tendência, gostos ou culturas não seja sinónimo de descriminação, isolamento ou guerra.

… que impere o respeito por todas as fronteiras, sejam elas físicas ou de ideias

… que o desejo de possuir e de controlar a qualquer preço seja neutralizado e banido

… que a convivência pacífica e alicerçada na diferença e no respeito se torne uma realidade entre todos

… que…

Utópico? Sim, é verdade… mas será certamente o grande desejo de muitos de nós, seja neste dia, seja em todos os outros.

Boa Páscoa!🧡

experimentações #32

Qualquer concretização é sempre gratificante, mas se for algo saído da nossa criatividade, o sentimento que fica pode ser de equilíbrio, de satisfação e de ficarmos “saciados”. E se o tempo e a energia despendidos nessa construção foram marcantes, é possível que se necessite de um período de descanso…ou de nada… tal como acontece com os atletas depois de uma corrida ou jogo.

Foi precisamente isso que eu senti depois de três anos seguidos a fazer livros de férias (partilhados nos últimos três posts desta série). Senti que não precisava nem queria mais…a não ser descansar!

A realidade mostrou-me que ao partir para umas férias com essa “construção” em mente, a atenção era redobrada e o “material” necessitava ser recolhido, mesmo que não tivesse antecipadamente nada na ideia. Certo é que, se tal atenção e gestos não existissem, seria muito mais difícil a sua construção. Ou seja, comecei a sentir que precisava mesmo de relaxar nas férias e de não estar com qualquer preocupação. Queria apenas férias.

Então nos anos seguintes não fiz álbuns como os já aqui partilhados, mas iniciei outro tipo de empreendimento que ainda hoje, dezoito anos depois, tem continuidade: comecei a fazer álbuns descritivos, com fotografias tiradas quer por mim quer pelo meu companheiro e desenhos apenas muito pontuais. Muitíssimo menos exigentes que os anteriores, abarcavam períodos de férias (volumes únicos) e especialmente aqueles pequenos passeios de todo o ano realizados a dois, em família ou inseridos em grupos, mas também exposições e outros eventos que a memória gostaria de um dia recordar.

A esses álbuns chamamos carinhosamente os nossos “Por aí”, uns magníficos auxiliares de memória já com milhares de fotografias e muitas informações adicionais que neste momento ultrapassam os cinquenta volumes (foto acima). O facto de estarem catalogados por data e lugar permitem encontrar sem dificuldade o que se deseja. Também o percorrer aleatoriamente as suas páginas é sempre um delicioso refrescar de recordações e de emoções.

Com as “experimentações” propriamente ditas em stand by, entre 2004 e 2008 tudo o que fiz foi dar continuidade a estes álbuns e fazer os habituais postais/desenhos para oferecer em aniversários e/ou datas festivas a família e a amigos. Nessa altura realmente não precisava de mais nada.

Deixo agora, como amostra, algumas páginas dispersas desses álbuns “Por aí”.

Creio que eles terão continuidade nos meus/nossos dias, enquanto a Vida e a saúde o permitirem.

Boa semana!🍀


por abril

Começa Abril com o estranho “dia das mentiras” (e subsequentes verdades) e com o orgulho de ser o primeiro mês cheio de Primavera.

Entre muitos outros provérbios, a sabedoria popular diz  “em Abril águas mil” e “ao princípio e ao fim, Abril costuma ser ruim”…..bem… que venham as águas mil e até um tempo ruim, mas que a ruindade não passe disso, pois já basta a que grassa pelo mundo. Sobre isso, poderia rapidamente elaborar uma lista de más notícias, em várias áreas, de âmbito local, nacional e especialmente internacional. Mas não, não quero ir por aí neste primeiro dia de Abril, mês de bela e fluida sonoridade e de muitas energias em latência que pairam por aí….

Na Natureza…

…campos e prados estão a ficar lindos e cheios de flores!

…árvores e arbustos já exibem os novos rebentos e o desabrochar de pequenas folhas cheias de vontade de crescer;

…muitos animais estão concentrados nos seus ritos de acasalamento. Aves e insectos –  talvez os mais fáceis de observar – estão em pleno namoro. Aliás, basta observar os pombos que abundam nas nossas cidades e jardins e ver o rodopio dos machos em redor das fêmeas. Dá para perceber que pode ser bastante difícil conquistar uma mulher!

Por esta Europa…

…acredito que a energia primaveril de Abril poderá minimizar as dificuldades de integração de milhões de refugiados ucranianos especialmente neste hemisfério norte. É apenas um detalhe, é certo, mas é algo que poderá contribuir positivamente para a força dos que estão a ser ajudados e de todos aqueles que solidariamente os apoiam;

…as temperaturas de Primavera serão igualmente uma grande ajuda no controle da pandemia, seja na diminuição drástica do número de casos ainda activos, seja no regresso ao equilíbrio que tanto se deseja.

Pelos nossos dias…

… acredito que as energias de Abril – em Portugal muito associadas à ideia de Liberdade – surjam em força e em todo o seu potencial. E que no campo da criatividade, os espectáculos, as exposições e todo o género de eventos acelerem o processo de reabertura/ expansão e voltem em pleno ao vigor pré- pandemia;

…em Lisboa, já são muitos os turistas que vagueiam pelos recantos da cidade, no geral muito encalorados e vivendo o seu Verão na nossa Primavera. Entre jovens e menos jovens, é bom ver a disponibilidade que os guia e a atenção que dão a detalhes já indiferentes à rotina dos nossos olhos e dos nossos dias. São sangue novo nas artérias da cidade!

E por aqui…

…com os período de férias já definidos em Março, Abril é naturalmente um mês de fazer o balanço entre o que se gostaria de concretizar e as possibilidades reais. Um mês em que a “liberdade” fica mais próxima e o desejo de férias começa a minar o pensamento;

…Abril será o mês de aniversário do Discretamente. Seis anos será a conta. Um tempo importantíssimo na minha vida e na minha estabilidade criativa.

…por fim, habita-me um desejo maior, que creio será de todos nós: que Abril “ilumine” as mentes obscuras de alguns e seja berço daquele momento que o mundo tanto anseia: que a paz e a estabilidade regresse rapidamente a este velho continente!

Caro Abril, com a tua energia primaveril…sê um mês gentil!🤗

(Foto captada hoje, dia 1 de Abril, ao nascer do dia na zona de Belém, Lisboa)

uma imagem…

Todas as imagens contêm uma mensagem, por mais simples que seja. Outras, pelo contrário dizem-nos imenso, mesmo que num primeiro olhar impere a simplicidade.

Na imagem acima é intenso o confronto entre a máquina e o homem, seja pela forma seja no seu conteúdo…

…a modernidade do paquete vs. a simplicidade da canoa

…o grande vs. o pequeno

…o objectivo colectivo vs. o objectivo individual

…o dinamismo vs. a tranquilidade

…o força de um motor vs. a força braçal

…a confusão vs. o silêncio

…a poluição vs. o ecológico

Assim como nos meandros de um rio – neste caso do Tejo prestes a chegar à sua foz – também nos caminhos da existência humana a Vida acontece e avança gerindo confrontos, contrastes, objectivos e dinâmicas diferenciadas, adaptações constantes, lutas, modos de agir distintos, confusões ensurdecedoras, solidões, modos de estar “poluentes”, etc, etc,.

Em qualquer circunstância, a Vida simplesmente continua.

tons de primavera

Cinzenta, ventosa e um tanto tempestuosa, a Primavera chega a este recanto europeu com mau tempo e previsão de chuva para toda a semana. Uma desejada chuva, diga-se de verdade, porque este chão que nos suporta necessita urgentemente dessa água.

Não sendo um dia com tons de Primavera… facilmente associo este triste olhar que a janela me oferece com a intranquilidade que se vive neste mundo. Mas hoje… especialmente hoje… neste momento em que a Primavera está prestes a chegar (15h 33m), eu não quero ir por aí.

Preciso de pensamentos de esperança e construtivos. Preciso de lembrar que a Primavera é sabedoria e transcende os absurdos da humanidade. Através da natureza – e apesar das lutas pela sobrevivência tão comuns no seu seio – esta sempre nos mostra quão belo é o respeito, a diversidade, a partilha e a cooperação entre espécies e territórios…como a simplicidade da imagem abaixo consegue tão bem simbolizar.

É com ela na mente e no olhar que desejo uma boa Primavera para uns… um bom Outono para outros…e melhores energias para a “alma” deste nosso mundo!

pequenas invasões

Desde ontem, em consequência da passagem da depressão Célia, assistimos à invasão de uma nuvem poluída e de cor alaranjada proveniente do norte de África formada por finas poeiras em suspensão. Um estranho “filtro” que se interpôs no exterior entre o nosso olhar e tudo o que ele abrange.

Num campo totalmente diferente, outra invasão aconteceu recentemente no terminal de Alcântara do Porto de Lisboa, quando o vimos ser ocupado por quatro gruas gigantescas de origem japonesa, as quais, segundo li, são o supra sumo em tecnologia. Além disso, o seu tamanho e funcionalidades irão permitir a atracagem de navios porta-contentores igualmente gigantes, o que até aqui não sucedia.

Isto significa que a partir de agora, o olhar de quem habita e/ou trabalha naquela área da capital e desfrutava de vista para o rio foi violado por estes quatro monstros que, em certos ângulos, abafam totalmente a bela ponte 25 de Abril. Pessoalmente, deixei de ter a sua elegância no meu olhar e passei a ter umas descomunais estruturas vermelhas e brancas que ainda não consigo aceitar. E como eu, tantos outros sentirão certamente o mesmo.

Relacionando tudo isto….

…a invasão deste respirar poluído foi por momentos metaforicamente sentida como a “materialização” da “nuvem” que se abateu ultimamente sobre a energia do mundo, algo que a minha esperança precisa de acreditar que terá um fim em breve… tal como a poeira do deserto desaparecerá e dará lugar a um bonito céu azul;

…mas nada diz a minha esperança sobre a invasão das gruas-monstros, que ficarão para sempre como intrusos na “alma” desta zona ribeirinha de Lisboa. De um dia para o outro, a minha e muitas janelas foram amputadas de uma vista que me encantava todos os dias há quarenta e um anos. E sinto-me triste por isso.

Numa época em que a palavra “invasão” assombra as nossas mentes e transformou o tempo que habitamos, este post é apenas um conjunto de pequenos detalhes e emoções associadas a essa palavra que infelizmente reentrou em força no nosso vocabulário pelas piores razões. Porém, também ficará associada a uma grande “invasão de solidariedade”!

Diria, para terminar, que ele se centra nas pequenas “invasões” inócuas que vão marcando os nossos dias…porque a vida continua para além daquela (im)possível e bárbara invasão da Ucrânia.

escorrências

Quando um líquido atinge/escorre de forma continuada a camada mais superficial de uma pintura, vai deixar marcas, fenómeno a que tecnicamente chamamos de escorrências. Esses danos podem ser superficiais ou mais profundos, consoante o agente em causa e/ou o seu tempo de actuação. Na realidade, são “feridas” que alteram o equilíbrio material e visual de qualquer obra, estando posteriormente na mão de técnicos especializados a possibilidade de neutralizar esses danos a fim de recuperar a integridade física e estética entretanto perdida.

Recentemente tive em mãos uma pintura com imensas escorrências, o que exigiu um paciente e persistente trabalho de integração cromática…e obviamente, bastante tempo para divagar pelo meio…

…qualquer agressão, seja em palavras ou em atitudes, tem consequências;

…mesmo uma agressão mais superficial, originária de uma palavra menos conveniente ou de uma gesto que possa incomodar a sensibilidade de alguém tem os seus efeitos. Estes poderão ser passageiros ou persistir no tempo, o que depende principalmente da estrutura emocional e da maturidade da pessoa afectada;

… mais defesas tem igualmente uma pintura que esteja protegida com um verniz mais espesso, o qual concede uma maior protecção e resistência a danos superficiais. Pelo contrário, uma pintura com uma camada de verniz mais fina ou inexistente, sofrerá danos bem mais gravosos e profundos;

…seguindo esta linha de pensamento e voltando a nós, seres de carne e osso… também uma agressões mais profundas e de certa forma “incisa” causará maior perturbação, sendo possível que necessite de uma ajuda psicológica profissional, logo mais complexa e longa. Ou seja, muito mais investimento, atenção e tempo até o equilíbrio ser restabelecido.

Nuna pintura, dada a verticalidade e a linearidade destas linhas, normalmente bem definidas, o trabalho é exigente na medida em que é muito mais fácil harmonizar em cor e brilho fronteiras irregulares ou indefinidas, do que aquelas totalmente lineares. Aliás, não estarei errada ao afirmar que neutralizar esse tipo de dano é um dos trabalhos mais exigentes a nível da integração cromática numa intervenção de conservação e restauro em pintura.

Quem leu isto até aqui, talvez esteja a pensar que não são situações comparáveis. Realmente não são se pensarmos apenas na naturezas do que está em causa. Porém…de certa forma são, pois sendo tudo o que existe matéria e energia em movimento, qualquer agressão afectará a estabilidade dos átomos e moléculas que tudo estruturam, assim como a energia que os mantêm unidos.

Seja numa pintura… seja na matéria/energia que nos constrói e sustenta.

(Imagens de arquivo pessoal)