a sul

Sempre que possível, eu e o meu companheiro tentamos fazer umas mini-férias antes do final de cada ano, seja como agradecimento por termos chegado até ali, seja desejando que o novo ano se revele um tempo de bons momentos, de olhares amplos e de possibilidades em aberto.

No final de 2020, devido à pandemia e às restrições de circulação previstas, tivemos apenas três dias para esse respirar, sendo o sul de Portugal a região escolhida. No plano, apenas lugares “fora da civilização” e que nos permitissem estar tranquilamente sem máscara e sem pensar no distanciamento físico, algo que se tornou uma preocupação permanente no ultimo ano. Ou seja, lugares longe de pessoas! Também a escolha de um pequeno apartamento nos permitiu não ter que ir para locais mais frequentados e, sem preocupações, usufruir das refeições já confecionadas que levamos.

As nossas explorações centraram-se em áreas de salinas e sapal localizadas entre a Fuseta e Tavira, lugares amplos, de olhar vasto e propícios à observação de aves. Este é um gosto que ambos partilhamos, o meu companheiro com mais técnica e profissionalismo, e eu de uma forma muito mais amadora, versátil e abrangente, encarando as aves como parte de uma natureza imensa e que sempre me encanta.

As imagens que se seguem revelam um pouco da paisagem que nos envolveu e, sobretudo, a beleza que os nossos olhos respiraram nesse hiato de liberdade e de pura natureza.

Termino com uma foto de várias Pegas-rabudas (Pica pica) pousadas ao amanhecer no topo de uma árvore. Quando as vi, instintivamente transportei esta imagem para a situação de grande instabilidade e insegurança que todos vivenciamos e pensei…como seria bom que nos conseguíssemos equilibrar – individualmente e como sociedade – desta forma tão tranquila e harmoniosa!

importante

Em véspera de um novo período de confinamento decretado para o meu país em virtude da pandemia e que também me irá abranger, sei que por algum tempo não passarei por este lugar de todos os dias e por estes belíssimos olhares que Lisboa me oferece.

No meu íntimo e perante esta imagem, para além de agradecer mais uma vez esta dádiva matinal, desejei sobretudo que a energia emanada por este tranquilo nascer do dia se reflicta na consciência deste país, seja alimentando a esperança que nos habita, seja na lucidez e na atitude responsável com que devemos cumprir rigorosamente o que nos é pedido a partir de amanhã.

E temos a obrigação de o fazer em prol de uma sociedade que neste momento tem recursos a atingir o limite e muita gente afectada pelo cansaço, pelo sofrimento e pelo desgaste emocional provocado por toda esta situação. Sem esquecer obviamente as graves dificuldades económicas que já atingem uma boa parte da população.

Por tudo isso e pelo todo que formamos como país, façamos o nosso melhor.

por aí…

Que prazer partilhar
um passeio pela cidade
pela serra
ou junto ao mar!

Passo a passo,
assiste-se com emoção
à lenta libertação
de pensamentos sem paz,
alicerces obscuros
de uma rotina sempre voraz.

A par dessa libertação
a conquista do lugar,
arejada sensação
de respirar com o olhar.

Completam-se com ternura
o meu e o teu olhar,
um prefere a paisagem
o detalhe
e a textura,
o outro a borboleta
ou a ave a voar!

Por fim,
prolonga-se o passeio
em palavras e imagens
semeadas com ternura
nas brancas folhas dos álbuns,
guardiões para o futuro
das memórias que já falham!

Este poema já conta alguns anos de vida, mas tem surgido amiúde no meu pensamento do decurso da actual pandemia e dos confinamentos/restrições de liberdade a que temos sido sujeitos sobretudo os fins-de semana e feriados.

Compartilho com o meu companheiro um gosto especial em andarmos “por aí” explorando novos locais ou a revisitar outros, mas com toda a disponibilidade, ao nosso ritmo e sem restrições de horários. Neste ano de 2020 essas incursões diminuíram drasticamente para um nível que desconhecíamos e limitado imenso a liberdade a que estávamos habituados.

Dadas as circunstâncias actuais sabemos ser um mal necessário. E sabemos ainda, sendo realmente objectivos, que este nosso “mal-estar” é um mal menor e um não-problema comparativamente com tantas situações difíceis que esta pandemia tem semeado pelo mundo.

Entretanto, e sempre acreditando que qualquer dia voltaremos sem restrições às nossas explorações, vamos andamos “por aí” muito pontualmente…
…passeando sobretudo com a imaginação…
…lendo e relendo a lista dos locais que esperam a nossa visita…
…revisitando lugares através dos muitos álbuns já construídos…
…e sempre, mas sempre viajando através da magnífica fonte de devaneios que é o Google Maps!

Melhores dias virão para todos nós!

palavras encontradas

É raro o dia da semana em que não subo a grande escadaria que liga a Av. 24 de Julho ao Largo 9 de Abril em Lisboa, sendo este último espaço ocupado pelo acolhedor jardim que fica entre o Museu Nacional de Arte Antiga e a Sede da Cruz Vermelha Portuguesa. São cento e tal degraus que normalmente imponho a mim própria subir com algum ritmo a fim de fazer um pouco mais de exercício e estimular o ritmo cardíaco.
Pontualmente faço-o com mais calma, seja para apreciar a vista sobre o rio, por estar mais cansada, ou simplesmente porque me apetece ir devagar e olhar… olhar…e olhar…

E foi num desses dias mais tranquilos que me apercebi de uma frase escrita no lancil de um degrau. E depois de outra, lá mais à frente. Então no dia seguinte, com o interesse bem desperto e de máquina fotográfica na mão, calcorreei os três lances duplos que compõem esta grande escadaria com o intuito de encontrar outras frases. E encontrei, não sei se todas, pois na verdade são pequenas e estão discretamente colocadas. E algumas estão repetidas.

Desconhecendo há quanto tempo ali estariam, logo me questionei sobre a sua resistência (ou efemeridade) perante a água da chuva. Dias depois tive a resposta ao verificar que se mantinham íntegras após a passagem de um forte temporal sobre Lisboa. Actualmente estão apenas um pouco desbotadas e uma delas foi vandalizada/raspada, estando ilegível.

Obviamente que a fase seguinte foi procurar a sua origem. Conclui que @voz_carmesim é a “voz” de uma poeta que se chama Mari e é oriunda de S. Paulo, Brasil. Reside em Lisboa e no Instagram descreve-se como “Poeta com sede de gente e fome do mundo”.
No seu site é possível saber um pouco mais e ainda que intitula a sua poesia como quântica.

Eu não sei o que é “poesia quântica”… e sou extremamente crítica dos graffitis absurdos que abundam por aí… mas adorei a ideia de encontrar estas frases no chão daquela escadaria de todos os dias.

Se a ideia só por si já é poética…seja por ser inovadora, discreta ou simplesmente pelo gesto que lhe deu origem, estas frases foram sentidas por mim como pequenos tesouros escondidos e descobertos…como aqueles ovos que as crianças encontram na época da Páscoa…

E gostei especialmente de imaginar o momento em que foram ali depositadas. Em que uma mulher segurando um marcador waterproof se deliciou a escrever em recantos desta enorme escadaria, frases poéticas e intemporais……mas resistentes e sobreviventes a temporais!

São encontros invulgares que aquecem os nossos dias, e sobretudo, que nos recordam a importância de sair do comum, da rotina e do previsível.

nevoeiros…

Nos últimos dias a zona ribeirinha de Lisboa não viu o sol matinal. Cobria-a um denso e cinzento banco de nevoeiro que apenas deixava visíveis os topos da Ponte 25 de Abril e do Cristo-Rei.

Sempre que tal sucede, de caminho para o trabalho penetro nessa massa que aí se adensa. Hoje mais uma vez isso aconteceu…. e eu mais uma vez levei o corpo e os pensamentos a passear pelo nevoeiro…

Individualmente ou como parte da sociedade, na vida de todos nós surgem momentos complexos, seja porque nos “enganamos” no caminho, seja porque as circunstâncias exteriores se alteraram bruscamente e nos afectam. Como por exemplo, a crise pandémica que estamos a viver. Naturalmente surge a indefinição, a confusão, o receio e amiúde a falta de perspectivas, por vezes o mais difícil de lidar.

Perante o nosso olhar esbatem-se os caminhos, as ligações, pontes e soluções. Tudo é neutro, de uma “beleza” neutra que nem sempre conseguimos compreender.

Na verdade, o que era dado como certo e quase inquestionável pode, de um momento para o outro desaparecer, alterar-se, entrar em rotura, esfumar-se. Tal como desapareceu no denso nevoeiro, metaforicamente falando, a Ponte 25 de Abril, o ex-libris desta zona ribeirinha de Lisboa e que num dia normal estaria presente na maioria das imagens que se seguem.

Como resposta, é fundamental não perder as referências interiores e algumas exteriores, porque elas sempre existem, mesmo que perdidas nos meandros dos imprevistos e dos “nevoeiros”.

Há que acreditar, continuar a caminhar, fixar objectivos, rever perspectivas e, se necessário, “correr” um pouco mais, mesmo que mais devagar. Eventualmente ter a humildade de pedir ajuda se o cansaço e a desorientação for demais. E ter fé, seja em que tom for essa fé.

Este nevoeiro, tal como os nevoeiros da Vida sempre se dissipam. Porque o sol está lá e aparecerá. Assim como surgirão as respostas, os caminhos e até as pontes, seja as que ligam margens de rios, que nos ligam a nós próprios ou as que nos mantêm ligados ao mundo.

Assim é a Vida, entre margens e em nós. Tal e qual.

a sós

Há uma solidão que é nossa e genuína, porque vive e sempre viverá connosco. De vez em quando e muito silenciosamente ela pede que nos afastemos dos outros para lhe fazer companhia. E nós vamos, porque esta é uma solidão amiga.

Já a outra, a que entra sem nada pedir, a que cria raízes na rotina dos dias e nas palavras que não foram trocadas, aquela que abre feridas e magoa sem sangrar, é a solidão difícil. E um luto de alma para muitos, sós ou acompanhados .

Esta solidão difícil pode não ser a nossa, a minha ou a tua, mas é a de muitos que se cruzam connosco no caminho dos dias. Quantas vezes ela emana timidamente em olhares, atitudes e gestos, ou em palavras que se mascaram muitas vezes do oposto.

Sim, sabemos que não é um olhar, um gesto ou um sorriso nosso que resolve. Mas pode adoçar e, por momentos, aquecer uma alma.

(Dulce Delgado, Novembro 2020)

experimentações #14

Na década iniciada em 1980 as “experimentações” centraram-se nas emoções e na Vida.

Para além de ter casado, decidi que a profissão de Terapeuta Ocupacional não era realmente para mim e enveredei para um ramo profissional completamente diferente e associado à conservação e restauro de obras de arte. Isso implicou um novo curso, muita matéria diferente para estudar e consequentemente uma quebra quase total de tempo e disponibilidade para a vertente criativa.

Na fase final do curso nasceu a minha filha e poucos anos depois o meu filho. Gosto de dizer que este foi o período mais criativo da minha existência, porque criei Vida, explorei um mundo de emoções, desenvolvi a imaginação com os meus filhos e as minhas mãos ficaram mais ágeis e experientes em todas as áreas possíveis. Creio que a tal “criatividade” se diluiu naturalmente nas emoções e no dia-a-dia. Na verdade, aquela necessidade de “fazer algo” que sempre existiu em mim estava bastante apaziguada, manifestando-se apenas em certos trabalhos necessários ao curso, nos álbuns pós-nascimento dos meus filhos e ainda naqueles detalhes-surpresa oferecidos em datas marcantes.

Este foi o tempo de “experimentar” a família. Mas foi essencialmente um tempo de imensas aprendizagens, como é sempre o tempo de ser Mãe.

(Dulce Delgado, aguarela sobre papel)

amália

Contrariamente à maioria, não sou a típica portuguesa apreciadora de fado. Gosto apenas de alguns fados e de algumas vozes. Nessa linha, existe um fado que sempre me “arrepia” quando o ouço na voz de Amália Rodrigues, por muitos considerada a melhor fadista de sempre.

Neste ano em que se comemora o centenário do nascimento desta mulher com um percurso de vida incrível e cuja voz e talento levou o nome de Portugal a todo o mundo, não posso deixar de, discretamente, fazer aqui uma referência.

Como? Partilhando o lindíssimo tema Barco Negro na sua voz, canção que tem uma história curiosa.

Na verdade ele é uma parceria luso-brasileira. A versão original data da década de 1930, intitulava-se Mãe Preta e fazia uma alusão à escravatura, como bem revela a letra que partilho abaixo. Quem lhe deu alma foram os compositores brasileiros Piratini &Caco Velho (António Amábile e Mateus Nunes).

Pele encarquilhada carapinha branca
Gandôla de renda caindo na anca
Embalando o berço do filho do sinhô
Que há pouco tempo a sinhá ganhou
Era assim que mãe preta fazia
Criava todo o branco com muita alegria
Porém lá na sanzala o seu pretinho apanhava
Mãe preta mais uma lágrima enxugava
Mãe preta, mãe preta
Enquanto a chibata batia no seu amor
Mãe preta embalava o filho branco do sinhô

 

O tema foi censurado e proibido em Portugal pelo Estado Novo. Então o poeta David Mourão-Ferreira escreveu um poema, tendo o mar e o amor por tema, para adaptar a essa belíssima composição musical. Foi assim que nasceu Barco Negro, título a que Amália Rodrigues deu voz, gravou e levou a todo o mundo.

Esta versão por Amália é apenas uma das muitas existentes e já cantadas quer em Portugal, quer no Brasil, quer noutros países. É sempre um momento musical fascinante e, sem qualquer dúvida, uma bela parceria luso-brasileira!

(Amália Rodrigues  23 Julho 1920 – 6 Outubro 1999)
(Video retirado do You Tube)