fogo e água

 

IMG_7138

 

A chuva caiu no momento mais desejado. Caiu e apagou numa única noite, muitos dos incêndios ainda activos, das centenas que deflagraram no último fim-de-semana no meu país. Novamente.

Fogos nascidos maioritária e intencionalmente de mãos humanas, porque os fogos raramente deflagram sozinhos. Fogos loucos e dramáticos que voltaram a matar dezenas de portugueses, pessoas que apenas viviam mais um fim-de-semana das suas vidas.

A chuva caiu e apagou o fogo que já apagara muitas vidas..

…talvez essa chuva tenha evitado o desaparecimento de outras;

…talvez a Natureza tivesse pena deste pequeno país em fogo;

….ou, talvez a Natureza não quisesse mais sofrimento neste solo, nas nossas florestas, nos animais e neste povo.

Não havendo culpados conhecidos, gosto de acreditar que existe algo Superior, com discernimento, equilíbrio e que sabe o que faz.

 

 

 

Advertisements

entre a água… e a música!

 

Um breve movimento
e a vida sai em torrente,
liquida
fresca
e transparente.

Vida
quase ignorada
nesse acto banalizado
de abrir uma torneira,
acção breve
e rotineira
a que apenas damos valor
quando a água aí rareia.

Gesto simples
mas vital
que de nós merecia,
atenção
e gratidão
ao longo do dia-a-dia!

 

Este poema não é recente e surgiu após um corte de água em minha casa, situação sempre incómoda mas muito interessante pela reacção que nos provoca.

Esperava uma ocasião propícia para ser partilhado, momento que surgiu quando há pouco percebi que hoje se comemora em Portugal o Dia Nacional da Água e que se inicia o ano hidrológico, eventos que acontecem num período em que as reservas hídricas do país estão assustadoramente abaixo do desejável. Contudo, a água ainda continua a sair das torneiras… e a cair na nossa indiferença!

Mas este nosso dia nacional é hoje acompanhado por algo maior em dimensão, o Dia Mundial da Música. Esta complexa arte que brota da criatividade de muitos, existe igualmente de uma forma mais simples e minimalista na natureza e nos imensos sons que ela produz e nos oferece, sendo talvez um dos mais agradáveis e tranquilizadores o da água a correr num riacho ou a jorrar de um fontanário.

A água alimenta o corpo…e a sua “música” alimenta a alma…

…por isso, neste dia de água e de música… apreciemos devidamente e com gratidão as “fontes” que estão na sua origem!

 

 

 

dança de luz

 

IMG_2934

 

No último fim-de-semana a vila de Cascais, localizada na região da Grande Lisboa, iluminou-se para a 6ª edição do Festival de Luz – Lumina, que este ano teve como tema a Natureza. Neste post vou apenas referir uma das vinte obras apresentadas nesta edição porque, na minha perspectiva, foi a que melhor homenageou e valorizou a temática do festival.

Recorrendo a lasers, fumo e vento, o português Telmo Ribeiro criou numa grande área do Parque Marechal Carmona um tecto de luz e de cor formado por planos que aparentemente se moviam sobre nós, justificando perfeitamente o título Underlight que deu à instalação. Por outro lado, a intersecção destes planos com as árvores e outro tipo de vegetação existente no jardim, davam origem a um lindíssimo jogo entre a luz e a sombra.

A tecnologia, na sua mais vibrante expressão, nada tem a ver com a vibração da mãe natureza. Porém, em muitos momentos este artista conseguiu o objectivo de nos transportar até aos pólos deste planeta e simular a sensação de estarmos perante uma aurora boreal (ou austral), certamente um dos mais bonitos fenómenos naturais que se conhece.

Nunca tive o privilégio de assistir a um evento desse tipo e, sendo realista, será pouco provável que tal venha a suceder. Contudo, a experiência vivida naquele lugar e que me conseguiu deslumbrar será, até ver… a “aurora boreal” da minha vida!

 

IMG_2928

 

IMG_2931

 

IMG_2933

 

IMG_2948

 

As imagens acima não são reveladoras da realidade porque lhes falta o essencial: o movimento. Tentei fazer um vídeo, mas não resultou. De qualquer forma, creio que o seu conjunto permite ter uma ideia das características da obra em causa.

 

 

 

 

outono aqui…primavera além…

IMG_9335ab

Entre nós e a natureza existem paralelismos, mas igualmente formas muito diferenciadas de adaptação. Diria que a energia-vida que nos alimenta é a mesma, mas a sua elasticidade permite manifestações por vezes opostas. Isto vem a propósito do equinócio de hoje no calendário astronómico e das alterações que entretanto ocorrem.

No hemisfério norte, onde resido, inicia-se o Outono. Os dias mais frescos começam a tocar a nossa pele e a provocar aquele primeiro arrepio que sempre nos surpreende. Os seguintes levam-nos a ir buscar um agasalho e, com o avançar dos dias, progressivamente a roupa mais quente irá proteger-nos e substituir o calor do sol. Isto significa que, para retermos e pouparmos energia, tapamos o nosso corpo, sendo com mais ou menos camadas de roupa que enfrentaremos o frio que o Outono e o Inverno nos irão oferecer.

Mas na natureza o processo pode ser oposto, como se constata em muitas espécies do reino vegetal. Vejamos as árvores, nomeadamente as de folha caduca, que enfrentam o frio e os rigores do Inverno perdendo as suas folhas, ou seja despindo-se, num processo assaz interessante e bem diferente do nosso.

Nesse grupo de árvores, à medida que os dias começam a ficar mais curtos e com menos horas de sol, reduz-se a produção de clorofila, o pigmento verde existente nas folhas e responsável pela captação da luz e produção da energia que a planta necessita. Com menos energia, as folhas começam a ficar amarelas e a adquirir aqueles tons outonais que alimentam e deliciam o nosso olhar. Entretanto, a própria planta produz uma substância que se vai acumular na base das hastes de cada folha, que tem como função destruir as células dessa zona e assim impedir a passagem da água. Sem ela, a folha seca, cai, o que acontece progressivamente com toda a folhagem.

Despida e sem folhas, o objectivo de “poupar” está cumprido, porque a área que permitiria perder os elementos vitais foi drasticamente reduzida. Ficam os troncos, bem mais resistentes ao frio e ao gelo, e capazes de guardar o potencial energético da árvore até à próxima Primavera.

Em suma, a natureza despe-se…e nós adicionamos roupa…duas estratégias de sobrevivência opostas e algo incongruentes, se considerarmos que o mecanismo adoptado pela natureza parece muito mais inteligente e genuíno do que o nosso.

Tendo em conta o descrito, perante o colorido que o Outono irá espalhar na paisagem e oferecer ao nosso olhar, pensemos um pouco na importância e na beleza do processo escondido que está a acontecer em cada árvore e em cada folha. Simultâneamente, porque não sentir alguma gratidão no gesto banal de ir buscar um agasalho mais quente e confortável, uma vez que isso significa que, também nós, estamos a iniciar um novo Outono nas nossas vidas?

Entretanto…na metade sul do planeta, o equinócio dará lugar à Primavera e os agasalhos voltarão progressivamente ao roupeiro. Na natureza reaparecerão as folhas nos troncos das árvores… folhas que irão captar a luz e produzir a energia necessária ao ciclo de reprodução que se aproxima e que naturalmente será cumprido.

Aqui…ou além… é constante e activa a adaptação da natureza a este planeta que vagueia pelo universo e onde nós somos apenas convidados. Recordando isso…desejo a todos uma vivência consciente e tranquila do Outono…ou da Primavera!

 

 

 

enxaqueca

 

foto enxa

 

Quem diria que essa dor-agonia denominada “enxaqueca”, termo tão diferente da fluída palavra anglo-saxónica migraine, tem hoje o seu Dia Europeu!

Este democrático continente em que vivo permitiu que a enxaqueca ocupe um dos 365 dias do ano, facto que poderá parecer um atrevimento a quem dela padece. Não é o meu caso felizmente, pois não sofro desse mal, mas conheço quem convive com essa difícil dor, sendo uma relação deveras conturbada.

Como observadora, apenas vou olhar para a palavra, porque é um termo que sempre me despertou uma estranha curiosidade…

…diz o dicionário que deriva do árabe, de ex-xaquica…

…é uma palavra sonoramente desagradável, pelo menos na minha perspectiva…

…e, na sua estrutura, aparece o termo queca, palavra que em bom português não se enquadra minimamente com a situação em causa pois, quem está com uma enxaqueca, estará certamente longe da vontade e dos prazeres do acto sexual!

Porém, olhando para a sua constituição encontramos:

        en – Prefixo que indica posição interior, movimento para dentro

 xaque – O mesmo que “xeque” no jogo de xadrez, significando um ataque estratégico às peças mais importantes

        ca – A primeira sílaba da palavra cabeça…

 

Então…associando estas três ideias e um pouco de imaginação, consigo encontrar uma justificação plausível para a existência de tão curiosa palavra. Assim:

enxaqueca = movimento para o interior com ataque estratégico ao “centro de controle”…ou seja, à cabeça!

Deve ser por isso que, quem dela padece, fica completamente KO!

 

 

Imagem retirada de  http://cidadeverde.com/vida/p/110

 

 

“poesia” no futebol

 

futebol

 

… refrescar a tarde de calor com salpicos de futebol…

… meter o radar no pé esquerdo…

… mas há destinos e obras de arte que não entram em estatísticas (referindo um golo)

… o defesa brasileiro não teve samba para o tango do argentino…

… o guarda-redes tem sempre um palmo a mais…

… da marca dos onze metros pôs o poste a tilintar…

… adormeceu no turno…e ofereceu o golo…

… agarrou entre as mãos, a vontade de chamar pelo golo…

… colocou aquela bicicleta com umas mudanças acima…

… a bola levava certinha as coordenadas da cabeça do avançado…

… ele só tem olhos para a bola…

… Cristiano soltava a alegria…

… a classe com que põe a bola a morar no lugar favorito…

… é assim, quando se soltam os génios!

… etc.

 

Ao ouvir frases como estas a comentar resumos de jogos de futebol…a minha relação com esta modalidade melhorou consideravelmente.

A partir desse momento comecei a encontrar alguma “poesia” no futebol, não propriamente nas imagens emitidas, mas em comentários da autoria do jornalista João Alves Domingos, nome que aparece em rodapé no écran do primeiro canal da televisão pública portuguesa (RTP1), aquando da apresentação de resumos de alguns jogos.

A maioria destas frases são da sua autoria, e têm o dom de sugerir imagens e metáforas que facilmente nos transportam para outra realidade que não a de vinte e dois seres humanos atrás de uma bola tentando meter golos em duas balizas.

Tal descoberta levou-me a a percorrer outros canais televisivos, pois poderíamos estar perante uma nova linha jornalística de fazer comentários. Porém, nada encontrei de comparável nem com um estilo tão próprio, sendo este jornalista o detentor das melhores frases sobre esta modalidade desportiva.

Pelo menos para mim… que sou mais adepta de poesia do que de futebol!

 

 

Imagem retirada de  http://gqportugal.pt/melhor-sabado-futebol-da-historia/

 

 

 

cantando violeta parra

 

isa + tit

 

No início de Abril, publiquei um post sobre a cantora chilena Violeta Parra, no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento (1917-1967).

Volto hoje ao assunto, uma vez que na próxima terça-feira dia 12 de Setembro, a filha e a neta de Violeta Parra, respectivamente Isabel e Tita Parra, estarão no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para dar um concerto integrado na programação de Passado e Presente – Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017.

Serão cantados os temas mais emblemáticos de Violeta Parra e outros da autoria das suas descendentes, num espectáculo que irá certamente aliar a música popular, tradicional e de intervenção chilena com uma forte componente emocional, tendo em conta os laços familiares e afectivos que estarão sobre o palco. Este espectáculo é organizado pela Secretaria de Cultura do Governo do Chile.

Ainda no âmbito deste centenário, a 4 de Outubro, dia em que a cantora completaria cem anos, haverá na Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário, sediada em Lisboa, um outro espectáculo musical, este produzido pelo grupo el Sur.

Serão momentos com características diferentes, mas estou certa que ambos terão como lema a partilha, a força e a paixão que orientaram a vida desta mulher.