diferença

 

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Uma das orquídeas que possuo começou recentemente a sua floração anual, momento que sempre acompanho com gosto e curiosidade.

Um olhar mais atento sobre as três primeiras flores entretanto nascidas, revelou a presença de uma bastante diferente, seja pela ausência da parte central como pelo tipo de recorte e número de pétalas. A curiosidade levou-me a contactar a Associação Portuguesa de Orquidofilia, que prontamente me esclareceu, dizendo tratar-se de uma flor defeituosa, e que “…hoje em dia e para se chegar aos preços tão baixos a que chegamos fazem-se híbridos por vezes com pouco cuidado. As outras flores devem nascer normais”.

Sendo uma leiga nesta matéria, fiquei obviamente esclarecida. Contudo…

…rapidamente fui levada a transpor esta frase para um contexto mais amplo e para a forma como a filosofia do lucro está implantada em todos os níveis da sociedade e da nossa vida. Interessa produzir rápido e muito, para vender depressa e ganhar mais. A quantidade sobrepõe-se à qualidade, filosofia que acabamos por alimentar constantemente em inúmeras ocasiões quase sem darmos por isso.

Não recordo a origem exacta desta orquídea, mas certamente é um desses híbrido nascidos de “uma linha de montagem” para alimentar o mercado em quantidade e a preços baixos.

Esse desenrolar de pensamentos, porém, não afectou em nada o prazer que tenho em olhar para a sua elegância e detalhes. Diria mesmo que me sinto privilegiada por ter esta planta comigo e por ela ter gerado algo tão diferente sob o meu olhar. Poderá ser defeituosa ou deficiente, mas é portadora de uma beleza única, muito própria e fora do habitual.

Aprecie-mo-la por isso, em toda a sua individualidade.

 

 

 

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ligações afectivas

 

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Em Setembro de 2016  partilhei um post sobre o almanaque Borda d’Água, folheto anual publicado em Portugal pela Editorial Minerva. Ele nasceu dois anos depois da editora e transmite um saber simples, ligado à terra e à agricultura, ao céu, aos astros e às estações do ano, à história, ao mundo cristão e ainda à cultura popular.

Amiúde o meu olhar passa sobre a folha do mês em curso a fim de saber algo mais sobre a “história” e acontecimentos do dia. Hoje porém, ao verificar que a editora que o publica nasceu a 2 de Junho de 1927, o que significa que completa 92 anos de vida, associei de imediato esse evento à minha progenitora e à idade que ela teria se estivesse viva, uma vez que nasceu nesse mesmo ano. 

A minha mãe tinha o saber adquirido enquanto estudante, mas guardava um saber bem maior, mais popular e fruto da simplicidade do meio em que nasceu e cresceu. Como apreciadora da natureza em todas as suas versões, sabia identificar a maioria das flores e de muitas plantas, saber talvez aprendido com o seu pai (e meu avô), um homem que sempre teve uma pequena horta ou um jardim para cultivar e zelar.

Minha mãe também entendia a meteorologia de uma forma muito empírica mas assertiva. Se o vento estava assim… tinha um significado; se estava de além…implicava outra coisa; se as nuvens apareciam naquele lado ou se a lua tomava determinado aspecto, era outra coisa qualquer;  e assim por diante. E naturalmente associava ao seu próprio conhecimento saberes populares e provérbios que depois partilhava nas mais diversas situações.

Hoje percebi que o meu gesto quase diário de deitar o olhar sobre este almanaque que a Editorial Minerva insiste heroicamente em publicar num tempo em que o “saber” se adquire pela internet é, de certa modo, um olhar sobre as raízes que me deram origem, e talvez, uma forma inconsciente de encontrar um pouco da minha mãe, da sua sensibilidade e de uma sabedoria que muito me encantava e que tantas vezes me levou a pensar “como é que ela sabe estas coisas todas?”

Um olhar ternurento sobre ela e o passado, leva-me sempre a senti-la como alguém muito especial… mas igualmente como um pequeno “almanaque humano”, uma espécie de Borda d’Água com coração!

Neste dia, longa vida à Editorial Minerva e ao seu delicioso Borda d’Água!

 

 

 

dino parque

 

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A minha vertente mais céptica não põe minimamente em causa as descobertas e as certezas científicas sobre a presença de dinossauros neste planeta, mas creio que a imaginação humana tem uma significativa quota parte no que se refere a certos detalhes morfológicos como o aspecto e a cor que esses curiosos animais teriam. Contudo, essa minha dúvida não obsta a que aconselhe vivamente um passeio à zona da Lourinhã, vila localizada no extremo NW do distrito de Lisboa e ao Dino Parque que se situa na periferia daquela localidade.

Muito recentemente, junta-mo-nos sete adultos da família, sendo a presença infantil limitada à parcela de criança que todos guardamos dentro de nós e que em determinadas situações rapidamente vem ao de cima e se manifesta. Éramos  portanto sete adultos-crianças que naquele dia primaveril aprenderam alguma coisa mais, partilharam um piquenique e tiveram um dia bem passado pelos meandros da história deste nosso planeta.

Este parque temático possui cinco percursos que abrangem vários períodos geológicos da terra e as espécies que neles habitaram: o primeiro percorre o Paleozóico, que ocorreu há uns “meros” 500 e tal milhões de anos (Ma); o segundo, terceiro e quarto percorrem as três eras do Mesozóico, respectivamente o Triásico (250 a 210 Ma),  o nosso conhecido Jurássico (210 a 140 Ma)  e o Cretácico (140 a 65 Ma); e o quinto percurso, inaugurado recentemente, é dedicado unicamente aos monstros marinhos.

A maioria dos trajectos está muito bem conseguida pela simbiose entre os dez hectares de pinhal que o parque ocupa e os animais presentes. Possui detalhes engraçados e muito bem conseguidos, assim como uma sinalética perfeita e rica em informação. Os modelos, construídos à escala real a partir dos dados existentes, estão no geral  bem concebidos e todos revelam expressividade suficiente para nos levarem àqueles remotos tempos e até a sentirmos a sua vibração.

Por tudo isto, se têm crianças na família ou se ainda guardam a vossa curiosidade de criança, aconselho uma visita a este espaço, pois estou certa que o irão apreciar.

Como imagens, partilho apenas a inicial que mostra um aspecto do portal de acesso ao recinto e este detalhe que se segue, bem mais humano e emocional.

 

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As surpresas estão lá dentro e revelar mais imagens seria quebrar esse efeito.

Saliento ainda que a Lourinhã, para além de ser a área de Portugal onde existem mais vestígios de dinossauros, está inserida numa região com muitos locais de interesse e que merecem uma visita.

Por tudo isto, vale a pena o passeio!

 

 

 

 

o professor e o louco

 

 

Um dicionário ou uma enciclopédia ocupam na maioria das habitações um recanto de uma estante… mas todos sabemos que são cada vez menos utilizados.

Se a minha geração ainda continua a recorrer a eles porque cresceu fazendo esse gesto, já as seguinte dizem: “Dicionário para quê? Vai-se à net!”

Sou especialmente apreciadora do dicionário Lello Universal, através de uma edição organizada e publicada em 1978 pela Livraria Lello &irmãos (Porto), composta por dois grandes volumes com letra muito pequena e onde se encontram palavras que outros mais recentes não possuem. É uma delícia de livro, ainda com desenhos/gravuras a complementar muitas das entradas.

Ele está na prateleira para quando é necessário. No entanto, apesar de o apreciar e usar, é um dado adquirido, como tantos outros que temos na nossa vida. Nunca levei o meu pensamento para a sua construção, o que lhe deu origem, quem realmente o concebeu, quantos anos terá levado a surgir a primeira edição, etc, etc

O Professor e o Louco é um interessantíssimo filme irlandês realizado por Farhad Safinia, que tem como actores principais Mel Gibson e o magnífico Sean Penn, este último num dificílimo papel. Encontra-se em exibição em muitas salas de cinema portuguesas e é um drama biográfico passado no séc. XIX que narra o nascimento do conhecido Oxford English Dictionary.

Numa época em que se escrevia com tinta e aparo, a distância que separava aqueles pioneiros das potencialidades dos nossos computadores e das tecnologias de armazenamento actuais, era tão grande como a que nos separa da ideia ou do trabalho mental e físico que implicou compilar os volumes daquela enciclopédia.

É um fosso que eu senti minimizado ao visualizar este filme, razão porque o estou aqui a divulgar. Neste século XXI, a fim de melhor compreendermos a actualidade e de lhe dar o devido valor, temos o dever de conhecer este detalhe desconhecido do séc. XIX.

Esta película, na sua essência, é ainda um filme sobre uma profunda amizade e sobre a empatia que se gerou entre dois seres especiais. Gostava de referir igualmente a presença de duas personagens femininas representadas por Jennifer Ehle e Natalie Dormer, ambas de enorme força, saber e sensibilidade, tendo em conta o papel da mulher naquela época.

Espero que o procurem num cinema e que o apreciem, sabendo que relata um episódio verídico da história do pensamento e das palavras que nos unem e que circulam neste mundo.

 

 

 

pontes de liberdade

 

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Em tons de elegância, esta ponte que une as duas margens do Tejo adquiriu em 1974 o nome de “25 de Abril” em homenagem ao dia da liberdade acabada de conquistar pela revolução dos cravos.

O termo “ponte” simboliza…

…passagem e união…

Fazendo a “ponte” com a data que hoje se comemora – 45 anos sobre o 25 de Abril de 1974 – Portugal agarrou a democracia, ligou-se ao mundo e saiu de um isolamento de várias décadas. A partir desse dia e desse tempo de passagem para outro modo de estar, a união de ideias e de ideais aconteceu naturalmente, sem repressão nem medo.

…liberdade de circulação/acção/movimento…

Paralelamente, essa liberdade foi sentida no corpo e na pele, a par da liberdade de expressão e de voto, actos até aí totalmente controlados pela censura, por eleições em que apenas alguns votavam num partido único e por uma polícia política actuante e que tudo minava.

…partilha de experiências e de possibilidades….

Sobre um rio de desigualdade, de pobreza e de impossibilidades, os militares de Abril construíram uma ponte para a partilha de experiências e de possibilidades, tendo por base a liberdade e a democracia. Em pouco tempo essa ponte chegou a África e à descolonização, tornou viável a criação de um serviço de saúde universal, expandiu o ensino obrigatório e deu voz à mulher. Entre muitas outras coisas.

Quarenta e cinco anos depois, é certo que alguns problemas existem nesta “ponte de princípios” sempre em construção e precisando de constante manutenção e atenção. Mas os dois pilares principais que a sustentam, a liberdade e a democracia, estão sólidos.

E isso é o mais importante.

 

 

 

planeta azul

 

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Há memórias de infância que ficam bem guardadas, talvez pela ingenuidade a que estão associadas. Recordo pensar que, se fosse caminhando sempre em frente, chegaria a um ponto em que o chão acabava e haveria um enooooorme precipício para o qual poderia espreitar. Essa ideia era assustadora, mas simultâneamente fascinante.

Depois, quando percebi que a terra era redonda, surgiu outra dúvida e esta talvez ainda maior: como é que as pessoas que estavam no outro lado da bola não caíam?

A ida para a escola esclareceu naturalmente estas interrogações silenciosas que me habitavam. Também o aparecimento em casa de um globo terrestre onde o meu país quase não se via contribuiu para a ideia ainda em formação sobre a real dimensão do planeta.

Contudo, creio que a grande tomada de consciência aconteceu já em adulta quando saí de Portugal pela primeira vez e levei duas horas e pouco para percorrer de avião os 2000 kms que separam Lisboa de Paris…ou seja, percebi que precisaria de 20 viagens iguais para dar a volta aos 40 mil quilómetros do perímetro da terra. Esta constatação, sentida na pele e acompanhada pelo olhar que não saía da janela do avião, foi algo de magnífico e inesquecível.

O tempo passou…

Apesar de ainda não ter viajado para além das fronteiras da Europa, a dimensão, características e beleza do nosso planeta fascinam-me totalmente e geram em mim um enorme respeito. Mas igualmente dor e tristeza pela forma como nós, simples convidados, temos maltratado este nosso anfitrião.

Hoje é o Dia Mundial do Planeta Terra.

O dia daquele planeta azul que nos acolheu neste infinito Universo…. e que as tecnologias como o Google Maps ou o Google Earth permitem “controlar” com um cursor e percorrer de lés a lés apenas com um click. Maravilhoso, sem duvida.

Mas também é o dia daquele pedaço de terra que eu imaginei “terminar num precipício”….uma imagem-metáfora que ninguém deseja, mas que já esteve bem mais longe de se tornar realidade.

 

 

Imagem retirada de http://institutoecoacao.blogspot.com/2017/04/dia-22-de-abril-dia-internacional-do.html

 

 

 

doce páscoa

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Num mundo em estranha turbulência, o calendário cristão é pontuado por mais uma Páscoa e pela religiosidade a ela associada.

Mais do que a fé de cada um, é um tempo de boas energias porque as famílias se juntam na partilha de afectos, de novidades, de muitas iguarias e de uma doce disponibilidade.

No entanto, em muitas não é assim. Há famílias que são complexas como o mundo, em que há jogos de interesses, oportunismos e invejas, especialmente quando existem bens materiais em causa. Ou egoísmos que precisam de muito alimento.

Seja qual for o registo familiar em que nos integramos, tentemos favorecer a coesão e a partilha. Com ou sem religião associada. Apenas a partilha de algo genuíno, de uma boa energia que possa sair de nós na direcção dos outros e ser bem recebida, apesar das diferenças que sempre nos separam.

É isso que farei no meu pequeno e tranquilo circulo familiar!

E desejo o mesmo a todos vós!

Boa Páscoa!