25 de abril

Numa época em que os extremismos de direita ganham força em Portugal e no mundo, mais do que nunca os portugueses têm o dever de recordar o dia 25 de Abril de 1974 e a Revolução dos Cravos, levada a bom termo por um grupo de militares que enfrentaram o regime vigente.

Esse dia permitiu a Portugal sair de uma longa ditadura, terminar a guerra do ultramar, dar liberdade aos presos políticos e abrir progressivamente as portas ao mundo. A democracia foi-se instalando e com ela a vontade de igualdade, a liberdade de movimento, de expressão e de escolha. Se até aí imperavam os deveres, com a revolução de Abril surgiram também os direitos, sendo que ainda hoje ambos procuram encontrar um ponto de  equilíbrio.

Nestes quarenta e sete anos, a maioria respirou essa nova liberdade de uma forma saudável. Outros porém, como sempre acontece, abusaram e continuam a usá-la em proveito próprio e distorcendo os seus valores.

Por aqui, nunca este dia será esquecido mas sempre discretamente lembrado. E faço-o muito agradecida pelo que representou nas dinâmicas do meu país (apesar dos erros que sempre se vão cometendo), mas igualmente pela liberdade de decisão e de expressão que, em última linha, permite construir, manter e partilhar espaços como este.

 
(Desenho e texto de Dulce Delgado)

liberdade em dia

 

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Neste Dia da Liberdade…

…posso ler e pensar o que quiser,
partilhar as ideias que me apetecer,
voar com o imaginar,
e ser livre de pensamento
e com ele passear ao vento.

Porém,
neste Dia da Liberdade…

…estou presa em grades invisíveis
e isolada da comunidade,
com movimentos limitados
e liberdades impossíveis.

Hoje,
quarenta e seis anos depois
vivemos o paradoxo da Liberdade de Abril,
uma liberdade que nos limita os dias
os movimentos
e os gestos,
é certo,
mas que existe e é nossa.

Agora,
a liberdade espera-nos atrás da porta
e canta nas varandas do país,
respira na criatividade das redes sociais
revela-se em gestos generosos
nos detalhes partilhados
e vive,
segura e adulta,
nos direitos por Abril conquistados.

Hoje,
neste Dia da Liberdade
e um tanto à revelia,
a Liberdade é nossa
a Liberdade está em dia!

 

Dulce Delgado
(Portugal, 25 Abril 1974 / 25 Abril 2020)

 

 

 

 

pontes de liberdade

 

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Em tons de elegância, esta ponte que une as duas margens do Tejo adquiriu em 1974 o nome de “25 de Abril” em homenagem ao dia da liberdade acabada de conquistar pela revolução dos cravos.

O termo “ponte” simboliza…

…passagem e união…

Fazendo a “ponte” com a data que hoje se comemora – 45 anos sobre o 25 de Abril de 1974 – Portugal agarrou a democracia, ligou-se ao mundo e saiu de um isolamento de várias décadas. A partir desse dia e desse tempo de passagem para outro modo de estar, a união de ideias e de ideais aconteceu naturalmente, sem repressão nem medo.

…liberdade de circulação/acção/movimento…

Paralelamente, essa liberdade foi sentida no corpo e na pele, a par da liberdade de expressão e de voto, actos até aí totalmente controlados pela censura, por eleições em que apenas alguns votavam num partido único e por uma polícia política actuante e que tudo minava.

…partilha de experiências e de possibilidades….

Sobre um rio de desigualdade, de pobreza e de impossibilidades, os militares de Abril construíram uma ponte para a partilha de experiências e de possibilidades, tendo por base a liberdade e a democracia. Em pouco tempo essa ponte chegou a África e à descolonização, tornou viável a criação de um serviço de saúde universal, expandiu o ensino obrigatório e deu voz à mulher. Entre muitas outras coisas.

Quarenta e cinco anos depois, é certo que alguns problemas existem nesta “ponte de princípios” sempre em construção e precisando de constante manutenção e atenção. Mas os dois pilares principais que a sustentam, a liberdade e a democracia, estão sólidos.

E isso é o mais importante.

 

 

 

abril de liberdade

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Quarenta e quatro anos passaram sobre o 25 de Abril de 1974, uma das datas mais importantes na dinâmica do meu país. Um tempo curto na história de Portugal, mas bem mais amplo no contexto da vida humana, apesar de certamente ser sentido por muitos como um sopro que passou apressado e a correr.

Em Abril de 1974 eu tinha quinze anos, o que significa que três quartos da minha existência foram vividos respirando a liberdade conquistada nesse dia. Até essa data, não era minimamente politizada para perceber o que se passava no país. Sabia apenas que havia a guerra do Ultramar, algo que acontecia muito longe e que não afectou directamente a família porque as mulheres sempre predominaram.

Posso afirmar que a falta de liberdade que então existiria não afectou a liberdade que eu apreciava e que se baseava no silêncio, na calma e numa criativa solidão. E quando precisava de sociabilizar, o que me era permitido era mais do que suficiente, não sendo gerador de conflito nem de nenhum desejo inconsciente de liberdade. Diria que a vida simplesmente fluía nas paisagens a sul do meu país, entre a vida escolar, a leitura, a escrita, o mar, a praia e os seus areais, espaços que eram usufruídos com prazer durante grande parte do ano.

Só a partir desse Abril é que me apercebi, progressivamente, da “ignorância” em que vivia, seja quanto à conjuntura política, seja sobre o sofrimento de tantos resistentes que lutaram por esse dia. Esse abrir de olhos foi mais marcante quando, um ano mais tarde vim residir para Lisboa e, com a democracia ao rubro, compreendi através da cultura, da informação então disponível e no dia-a-dia, a real importância da vivência em liberdade.

Nesses idos quinze anos da minha adolescência, apenas o acto de pensar no futuro e nos quarenta de idade ou no enigmático ano 2000 era algo estranho e facilmente associado à velhice. Nunca imaginei que chegaria a este longínquo 2018 e aos sessenta que espero ele me ofereça em breve. E muito menos pensei que a liberdade dada por esse 25 de Abril de 1974 me permitiria “alimentar” com toda a autonomia um espaço como este, discreta ou indiscretamente, cujos limites são apenas impostos por mim e pelo meu senso.

Olho com muita ternura para a ignorância que tinha nesses tempos, ou melhor, para algo que fica entre a ignorância e a inocência. Assim como olho com um profundo respeito para todos os que activa e conscientemente lutaram, sofreram e morreram durante décadas para que aquele dia de Abril fosse uma realidade. E para que hoje, as palavras sejam naturalmente possíveis.

Não tendo a imagem de um cravo vermelho, a flor-símbolo deste dia para iniciar o post, inseri a de outra espécie, cujo nome desconheço mas que me faz companhia na janela.

Chama-se a isto… “liberdade” criativa…ou “liberdade” de escolha!

 

 

liberdade e insensibilidade

 

A Cadeia do Aljube, o Forte de Peniche ou as sedes em Lisboa, no Porto e em Coimbra da antiga polícia política PIDE-DGS, foram lugares de ausência de liberdade, de resistência, de violência física e psicológica, de tortura, sofrimento e morte.

Com a revolução ocorrida em 25 de Abril de 1974, faz hoje precisamente 43 anos, conquistamos uma democracia que permitiu a liberdade de acção, de informação e de expressão, e ainda a liquidação dessa repressiva polícia política. Os locais onde ela actuou tornaram-se espaços de difíceis memórias para os que lá estiveram e conseguiram resistir, e quase esquecidos para os que nunca neles entraram.

Entretanto passaram mais de quatro décadas.

Na sede do Porto foi instalado um Museu Militar;
A Cadeia do Aljube em Lisboa foi reconvertida em Museu do Aljube/Resistência e Liberdade;
E o Forte de Peniche, sabe-se agora que será adaptado para espaço museológico sobre a história da Resistência, ficando outra parte afecta a actividades relacionadas com o mar.

Porém…

… na sede de Coimbra funciona desde 2015 um hostel
… e na de Lisboa, a principal dessa macabra polícia, um condomínio de luxo

Talvez seja demasiada ingenuidade da minha parte pensar que a história e a memória deveriam ter mais força do que o lucro; ou que a actual “febre” de instalar hotéis e condomínios deveria ter algum prurido e rejeitar ambientes que acumularam tanta energia negativa e de sofrimento. Penso que isso seria básico e humano. Mas não foi.

Tenho muita dificuldade em entender isso. Em compreender como poderá alguém iniciar um negócio ou escolher viver num edifício onde pessoas foram torturadas e mortas durante anos e anos. No fundo, agir como se nada ali tivesse acontecido.

Sim, eu sei que isto é um ínfimo detalhe, nada mais do que isso. E talvez muito pouco para assinalar este dia tão importante para a história de Portugal e para a liberdade então conquistada. Mas, apesar de terem passado 43 anos, simbolicamente ele tem significado.

Porque revela falta de memória, de respeito e uma profunda insensibilidade.