muro com história

 

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O tempo passa…

…em nós, na natureza, nas cidades, nos edifícios e na generalidade da matéria.

A vivência deste pacto deixa marcas, cicatrizes e detalhes que o olhar por vezes questiona com a curiosidade que lhe é própria. Foi nesta dinâmica que recentemente encontrei este muro numa rua de Lisboa, uma estrutura aparentemente isolada mas esculpida pelo tempo e revelando sinais de um passado de histórias.

Um olhar mais atento captou a textura e a irregularidade da sua superfície em resultado de uma amálgama de construções, acrescentos e talvez funções. É possível que tenha abrigado uma porta ou janela…tem orifícios supostamente com função de escoamento…e foi, sem qualquer dúvida percorrido por água, detalhe revelado pelas ruínas de uma tubagem cerâmica que guarda nas entranhas.

Muitas transformações originaram esta superfície ecléctica e irregular que hoje abriga ervas daninhas, teias e aranhiços, e que  vive adjacente a um passeio localizado numa rua pouco movimentada da cidade.

Desconheço que segredos visuais guardará no outro lado. No entanto, gosto de o pensar como um todo, com exterior e interior, e como uma construção activa que já viveu muito.

Talvez ele guarde recordações de corpos e de mãos que nele se apoiaram… recordações de partilha, de felicidade ou de dor… e recordações de tudo o que a imaginação nos possa permitir. Talvez…

Objectivamente, ele é uma obra de arte do tempo… e um belo muro com história!

 

 

 

 

apenas sintra!

 

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Não sou apreciadora de nevoeiro, talvez pelo desconforto e humidade penetrantes que silenciosamente nos oferece. Prefiro realmente o sol, o céu azul e as detalhes limpos de cada estação.

Reconheço contudo a beleza de um lugar quando se envolve com as nuvens e se aconchega nos nevoeiros, especialmente se esse lugar for um recanto de emoções como é para o meu sentir a Serra de Sintra.

Percorrer os seus caminhos em dias brancos permite perceber de uma forma mais marcante o contorno e a expressividade de cada árvore ou ramo, estejam estes  íntegros, quebrados ou procurando o afago de outros.

Neste branco respirar apenas o verde ressalta. Aqui, ali ou além. Ele é dono deste lugar e de imensos detalhes de vida que a água alimenta perante o nosso olhar.

 

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(Apesar de já aqui ter abordado os nevoeiros de Sintra em palavras e imagens, sempre volto a eles……como eles sempre voltam a este belo lugar!

 

(Dulce Delgado, Dezembro 2019)

 

 

 

 

água vida

 

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Meses depois, a chuva, a humidade e os dias cinzentos regressaram a uma boa parte deste Portugal sedento. Como ela é bem-vinda!

As nossas barragens estão em níveis mínimos e nunca vistos, e os rios acompanham assustadoramente essa escassez. Por isso seria bom que esta chuva permanecesse bastante tempo entre nós, para se entranhar nos solos, torná-los produtivos e simultaneamente alimentar os lençóis freáticos e aquíferos vitais para a vida de todos e para o equilíbrio da natureza.

Acreditemos nessa possibilidade.

Contudo, acreditar não basta, porque precisamos de ser pro-activos na nossa relação com a água. Todos os dias.

Em minha casa, tudo fazemos diariamente para poupar esse bem essencial. Para além das acções habitualmente divulgadas, refiro três gestos menos comuns:

– as garrafas de plástico cheias de água que ocupam há muito tempo uma parte do reservatório dos autoclismos, diminuindo a quantidade de água potável que vai em cada descarga para a sanita;

– a recolha sistemática para um balde de toda a água fria que sai da torneira da banheira até chegar a quente;

– a recolha da água de lavagens de legumes e fruta, ou de alguma roupa ou louça lavada manualmente.

Na prática, são cerca de três baldes de água que recolhemos diariamente e que substituem várias descargas simples de autoclismo. No fim do mês, esses gestos reflectem-se na conta a pagar e são uma pequena ajuda para o planeta.

Muitos dirão “que chatice, isso dá trabalho e não adianta nada!”

E eu convictamente respondo: estes gestos não dão trabalho, porque rapidamente se tornam rotina. Apenas exigem uma vontade genuína em preservarmos um bem maior e vital desta terra que nos acolhe.

Se formos muitos a fazer algo semelhante, estamos a contribuir objectivamente e não apenas com palavras para uma causa maior. Pensem nisso.

 

Entretanto,  desejo a todos um bom fim-de-semana!

 

 

 

 

 

entre libélulas

 

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Em voos rápidos
e aleatórios pelo ar,
elas voam sobre a água
ao som
do fresco murmurejar.

A seu lado
voa o meu olhar,
atraído pelas cores metalizadas
e transparência fluída
das suas asas.

Com  libélulas
no ar,
é tão leve
e fácil
voar neste lugar!

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2019)

 

 

 

 

texturas e detalhes

 

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Nos primeiros dias de Setembro voltamos à Costa Vicentina para usufruir de umas curtas férias. Esta região de Portugal é um lugar de tranquilidade e de imensos olhares, seja o mais amplo que facilmente se envolve nas neblinas locais ou aquele mais minucioso que encontra magníficos detalhes/texturas resultantes da acção do tempo e dos elementos naturais sobre este solo que pisamos.

Restringimos os dias disponíveis a quatro praias, sendo as imagens aqui publicadas captadas unicamente nas Praias de Odeceixe, Vale dos Homens, Carreagem e Amoreira, um troço de pouco mais de 10 Km da costa oeste do Algarve e uma pequena parte dos 130/140 Km do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

A maré vazia em praias que perderam alguma areia nos últimos anos facilitou o acesso a zonas rochosas de grande personalidade. Geologicamente é uma área muito rica, mas a minha ignorância e a complexidade dessa matéria não me permitem complementar este post com dados mais científicos como gostaria. Será por isso uma apreciação puramente visual, emocional e centrada nas texturas encontradas.

 

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Em toda esta área os veios de quartzo “decoram” as rochas de forma diferenciada e quase incompreensível para a nossa mente limitada no tempo. São milhões de anos de história desenhada que está ali perante o nosso olhar em resultado das movimentações dos solos e dos seus sedimentos, de infiltrações, de compactações e, especialmente, de muita, muita erosão.

 

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A interacção da água do mar com a areia, algo que sempre me fascina, cria verdadeiras obras de arte ao ar livre.

 

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A par desta natureza-artista instalou-se a natureza-vida sob muitas e diferentes formas. Mexilhões, lapas/cracas, ouriços e caracóis do mar, caranguejos, camarões, anémonas, algas, musgos, peixes, etc. assumem um papel importante no equilíbrio do ecossistema e deliciam qualquer olhar, mesmo o mais distraído.

 

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Mas a natureza é mestra nas mensagens que silenciosamente nos revela, mensagens que quer eu quer a minha imaginação apreciamos deveras descobrir.

Seguindo esse pensar, diria que a fotografia que se segue (e última deste post) encerra uma dessas mensagens. De uma forma muito simples a natureza diz-nos que o equilíbrio é possível através da diversidade e que em paz se pode viver lado a lado com a diferença, seja ela a que nível for.

Algo que muitos de nós no geral e alguns em particular, sobretudo alguns “leaders” deste mundo,  ainda não entenderam verdadeiramente.

 

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Termino, assegurando que este é realmente um belo recanto de Portugal, especialmente para os apreciadores de tranquilidade, de texturas e de detalhes!

 

 

 

 

 

outubro

 

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Este primeiro dia de Outubro, a que associamos em Portugal o Dia Nacional da Música e o Dia Nacional da Água, nasceu estranhamente bonito sobre a cidade de Lisboa.

Porque as imagens também têm música, partilho estas fotos tiradas com poucos minutos de intervalo e em lugares diferentes, mas ambas junto às águas do Tejo e ao som silencioso de um andamento musical proporcionado por esta luz e tonalidades.

A água é vital, tal como é vital a “música” que os nossos sentidos encontram no recanto dos dias!

 

 

 

 

banho de natureza

 

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A efémera beleza das flores de um nenúfar acompanha as horas de sol e o ritmo das  estações, mas a planta-mãe saboreia durante todo o ano o lento mover do fluído que a alimenta. Os nenúfares exteriorizam na Primavera e no Verão o que guardam com recato na restante metade do ano.

Recentemente senti o prazer de me banhar numa piscina biológica, cuja pureza e equilíbrio resulta da presença de diversas espécies de plantas aquáticas, incluindo nenúfares. Todas foram controladamente plantadas numa faixa na periferia do espaço e, a par dos limos e de outros micro-organismos, contribuem de uma forma natural para o processo de limpeza e oxigenação da água, meio também habitado por uma fauna específica de pequenos animais como rãs, cobras-de-água, insectos variados, incluindo muitas libélulas/libelinhas.

Centrando-me nos nenúfares…

…as várias espécies existentes  foram plantadas de modo a permitir uma certa proximidade e um diálogo “olhos nos olhos” deixando os sentidos apreciar…

…flores com morfologia e cores diferente
…folhas com formatos diferentes
…e aromas diferenciados!

Surpresa!

Apesar de olhar para os nenúfares como uma planta belíssima, misteriosa e um tanto mística, na verdade sempre esteve “longe”…ali…além…em lagos…e nunca ao nível dos meus sentidos e ao lado do meu corpo.

Ainda não experimentara…

…afagar os seus finos caules e robustas folhas…
…cheirar o aroma das flores…
…partilhar a mesma água…
…e sentir o seu tranquilo e uterino modo de vida!

Momento único este “banho de natureza”!

Como único e inesquecível foi aquele instante em que uma pequenina rã salta da folha de um nenúfar onde repousava (apreciando talvez o sol e a paisagem…), e começou a nadar junto a mim. E eu segui-a… calmamente….emocionada… e totalmente fascinada!

Depois ela seguiu para o interior do mundo dos nenúfares, uma área proibida a esta feliz humana que acabara de viver um daqueles momentos em que nos sentimos parte de algo maior e, na “pele”, a ternura desta mãe-natureza que nos enlaça e envolve.

Numa única palavra: adorei!

 

 

 

 

de regresso… IV

 

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Sendo a natureza a vertente que mais prevalece no momento de planearmos férias, não poderia terminar este conjunto de posts sem partilhar esse sentir de uma forma mais concreta.

Não foi fácil fazer uma selecção de imagens porque cada lugar revelou detalhes que facilmente atraíam a atenção e a máquina fotográfica. Mas a escolha foi necessária, sendo provável que, mais cedo ou mais tarde, as não escolhidas apareçam noutros contextos e temáticas. Afinal a natureza é uma contadora de histórias, pelo que cada detalhe que ela nos oferece é um mundo que se abre ao olhar e à imaginação.

Começando pela imagem inicial…

…estamos perante um fruto, incógnito e sem sementes descansando em terreno infértil, algo que só por si teria potencial para uma divagação. Mas não me posso perder…

Aquelas sementes estarão algures, já germinadas ou ainda dispersas no solo. Foram levadas pela água, pelo vento ou serviram de alimento a uma ave. Num tempo indeterminado, outras sementes iniciaram um ciclo de luta e sobrevivência, de cooperação e exploração, de partilha de vida e de beleza, seja através dos seus troncos…

 

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…ou da aparente fragilidade dos outros elementos que as formam, como as folhas, as flores ou os frutos.

 

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Sendo a água imprescindível na sobrevivência de todas as espécie, ela corre, escorre, afaga, penetra, alimenta e deslumbra… como fonte de Vida e como fonte de prazer, consoante os contextos.

 

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Com vegetação e água, naturalmente a vida animal surge perante o nosso olhar. Em sons e silêncios, movimentos e relações, cor, beleza, ternura e encanto…

 

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E assim, com esta imagem de uma andorinha em voo sobre o rio Tua, fotografia que gosto imenso e que foi captada pelo meu companheiro de vida e de aventuras Jorge Oliveira, termina esta série de quatro posts sobre um tempo de férias com energia e sabor lusitano. Espero ter conseguido transmitir um pouco desse sentir.

Este post especificamente, publicado num tempo crucial, difícil e de enorme importância para a natureza e para este planeta que nos recebe, é apenas um pequeno contributo para o respeito e para a atenção que ambos nos merecem. Mais não seja porque o olhar e a beleza também nos alimentam o pensar.

Desejo a todos uma boa semana!

 

 

61!

 

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Nasci em plena Primavera, por sorte na época do ano que mais aprecio.

Faz hoje precisamente 61 anos que decidi começar esta aventura para além do útero materno. Nasci rodeada da bela paisagem alentejana, um selo de harmonia e de energias que gosto de acreditar ter marcado a minha sensibilidade ou a forma como a luz, o sol, o céu, a paisagem ou a natureza me tocam e são geradores de sentires muito próprios.

Esta será certamente uma visão algo romântica da questão, pois a realidade regista que deixei o Alentejo com pouco mais de seis meses… contudo, sendo o romantismo um pensar doce e que não faz mal a ninguém, esta sexagenária não resiste ao seu paladar!

Assim, voltando à ideia que as paisagens alentejanas oxigenaram os meus genes nesse período…a verdade é que a minha estrutura emocional se manifesta de uma forma muito vibrante quando encontro um prado na Primavera. Adoro prados! E o Alentejo onde nasci… é um mar de prados!

Se me perguntarem que flores mais gosto, só tenho uma resposta: as flores de um prado e um prado com flores! Sejam as pequenas e menos visíveis que o verde protege com cuidado e gratidão, ou as mais exuberantes que atraem o nosso olhar e chamam a atenção.

Um prado é a “maior democracia” que existe na natureza. É o equilíbrio puro, na sua forma mais espontânea. Todas as espécies têm o seu papel numa cooperação harmoniosa, a que o acaso pela mão dos quatro elementos – terra, ar, água e fogo/sol – criou para deleite da própria natureza e do nosso olhar.

Tudo está no local certo, em resultado de uma dinâmica perfeita. Mesmo que exista competição entre espécies, o que sabemos ser comum na natureza, o equilíbrio é genuíno e existe só por si.

A beleza do conjunto revela-se igualmente num olhar mais detalhado, mas hoje não vou por aí, não é importante. Talvez um dia partilhe essa visão. Nesta data, em que me sinto feliz e muito agradecida por completar mais um ano de Vida (não obstante as dificuldades que sempre vão surgindo), o prado é um símbolo a que dou enorme valor, seja pela capacidade de auto-regeneração anual, seja pela harmonia que transmite e que sempre procuro guardar e “cultivar”, ou ainda pela grande lição de respeito e de cooperação pacífica que dá ao mundo.

A imagem inicial é um detalhe de um belíssimo prado que recentemente encontrei num recanto da região onde resido. Senti-o como um pedaço de Vida, como uma oferta da Natureza…e como tal, ideal para partilhar neste dia!