the only living boy in new york…

 

 

A frase que dá título a este post foi um dos temas do álbum Bridge over troubled water editado em 1970 pela dupla Simon and Garfunkel. Mas The only living boy in New York é também o título do último filme realizado por Marc Webb, agora em exibição nos cinemas.

Conta uma história simples, com princípio, meio e um inesperado fim, como convém a uma boa história. Fala de gente maioritariamente honesta e genuína, e fala de amor, de vários tipos de amor, seja do que se sente e mostra, do que flui no sangue e não se mostra, daquele que se dá porque mais não se pode dar, do amor vivido à distância, ou ainda do que ficou para trás e aí continua… à espera. Fala de amor, de amizade e de afectos.

É uma história-surpresa desempenhada por um grupo de actores jovens e menos jovens, como Callum Turner ou Jeff Bridges, que se desenrola ao som de numa excelente banda sonora. Pelo encadeamento, dinâmica das cenas e tipo de diálogos, pontualmente fez-me lembrar as películas de Woody Allen.

Diria que é um  filme “sem nada de especial”, mas que proporciona um momento agradável e nos faz sentir bem. Simplesmente isso.

Sendo essa uma boa sensação, deixo a sugestão!

 

 

 

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conforto… aconchego…

 

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Aquele calor inspirador
que nos abraça,
ou o doce
odor,
que das paredes
extravasa.

A quietude de uma paz
interior,
ou a asa,
que no ar esvoaça
e nos protege com amor.

Conforto… aconchego…

Para alguns,
uma fria
distante
e dolorosa miragem.

Para outros,
a doce aragem
que ampara como um amigo,
e ajuda a perceber
o valor
de um porto de abrigo!

 

 

(Dulce Delgado, Novembro 2017)

 

 

 

sonhar é…

 

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… um profundo respirar da mente,
que uns assumem sem receio
e outros escondem eficazmente!

… a humana e ilusória capacidade
de tudo conseguir alcançar!

…adoçar a realidade,
inventando um lugar,
mágico e lindo,
que se esfuma com facilidade!

… insistir nas expectativas,
e chegar à conclusão
que são sinónimo de desilusão!

…  criar e destruir, avançar e recuar,
sem efeitos, sem mácula
e sem sair do mesmo lugar!

… uma forma da fragilidade contornar.
Sem esforço somos heróis,
donos de sete sóis
e de muitos castelos no ar!

 

E sonhar é ainda…

…viajar sem sair do lugar
…imaginar um mundo sem dor
…escrever no ar palavras que vamos calar
…dar tudo, sem medo sentir…

…e é acreditar sempre, mas sempre no Amor!

 

(Dulce Delgado, Janeiro 2017)

 

 

leonard cohen

 

 

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“Chegámos a um tempo em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que serei o próximo, dentro em pouco. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que, se estenderes a mão, talvez possas tocar a minha. Sabes que sempre amei a tua beleza e sabedoria, mas não preciso de discorrer sobre isso porque já sabes de tudo perfeitamente. Quero apenas desejar-te boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo o amor, encontramo-nos no caminho.”

 

Foram estas as palavras que Leonard Cohen escreveu e que Marianne Ihlen ouviu antes de falecer em Julho passado. Esta norueguesa foi a musa que o inspirou em muitos temas, nomeadamente em So long, Marianne.

Viveu com ela na Grécia durante alguns anos, afastaram-se porque ele não resistia a uma mulher bonita…mas ela, foi sempre o seu grande amor.

Leonard Cohen morreu na passada quinta-feira. Gosto de pensar que ele e Marianne se irão encontrar brevemente … algures… no tal caminho… para, sem tentações nem desencontros, continuarem o seu amor.

E nós, ficaremos com a memória de uma voz inconfundível, com as suas emoções, ideias, palavras e belas músicas… e ainda com a sua imagem, única e cheia de charme… para ir serenamente apreciando neste nosso caminho!

 

Imagem retirada de  http://catswithoutdogs.blogspot.pt/2016_07_01_archive.html

 

as ondas…

 

…de longe deslizam
suavemente
sobre o mar,
talvez na ideia
de um amor encontrar.

Abraçam a praia
com uma carícia de espuma branca
leve e refrescante,
delícia sentida
por uma areia expectante.

Fundem-se a onda e a areia
à beira-mar,
palco único
e eternamente escolhido,
para tão bela forma de amar!

 

(Dulce Delgado, Julho, 2016)

 

sem escolha

 

Como mulher e cidadã deste país, tenho a liberdade que quero e nada nem ninguém me impede de fazer o que quiser, a não ser eu própria e o que me faz sentir confortável ou não. Aliás, não precisamos de pensar na nossa liberdade, porque ela é um dado adquirido neste século XXI. Mas bem longe desta realidade estão muitos países do médio oriente, onde a vida das mulheres é controlada pelas famílias, pelas leis vigentes e tradições fortemente influenciáveis pela moral e pelo poder religioso, aspectos que têm ainda mais força fora das grandes cidades.

A escolha deste tema, vem a propósito de um filme que passou recentemente nos cinemas, “Mustang“, da autoria da cineasta turca Deniz Gamze Ergüven, e de um livro em Bd que acabei de ler intitulado “Love story à l’iranienne” com textos de Jane Deuxard e desenhos de Zac Deloupy.

Sobre o filme, e para quem não o viu, é passado na Turquia actual e conta a história de cinco jovens/adolescentes, irmãs e órfãs, que ficaram ao cuidado de uma avó e de um tio. Uma sucessão de episódios leva à vontade de as “despacharem” ou seja, casá-las. Uma teve a sorte de casar com quem gostava e namorava às escondidas, outra entra apaticamente num casamento arranjado pela família, a terceira suicida-se porque não concebe uma situação semelhante, e as duas que restam, inconformadas, fogem, num final que nos alimenta a esperança mas que, caso ocorresse na vida real, nos levaria a questionar qual seria o seu futuro. No meio desta história entram muitos aspectos que regem aquela sociedade, tal como a relação entre sexos, os testes de virgindade, os abusos feitos às escondidas, etc.

O livro, por sua vez, descreve o Irão actual e revela o conteúdo de entrevistas realizadas clandestinamente e sempre com algum risco pela autora e jornalista, a jovens entre os 20 e 30 anos, que aceitaram falar-lhe das relações amorosas, dos seus sonhos, desejos e também da política vigente e da força que o poder religioso tem sobre a sociedade.

O que ambos nos transmitem tem muito em comum na forma como as mulheres são vistas e tratadas nestes dois países. Gostava de destacar vários aspectos, apesar de alguns serem do conhecimento da maioria:

– O normal são os casamentos combinados pelas famílias, logo casamentos sem amor; para a família da mulher é fundamental que o futuro noivo tenha emprego estável, apartamento e carro.

– Teoricamente não pode haver contactos sexuais antes do casamento. Mas por vezes existem aproximações e explorações entre namorados. Se a mulher não for virgem, e uma vez que é grande a probabilidade da família do noivo pedir um teste de virgindade antes do casamento, se tiver dinheiro fará uma operação para reconstituição do hímen. Muitas, por não terem capacidade monetária, suicidam-se por medo dos pais, da família e do futuro marido. Mesmo que a mulher diga e insista que é virgem, a palavra dela não vale nada e o teste normalmente é pedido e realizado. Excepcionalmente, os noivos provenientes de famílias menos tradicionais e em que há a certeza de que o teste de virgindade não é pedido, mantêm uma vida sexual activa, mas sempre às escondidas;

– As mulheres foram educadas para servir o homem, para se preocuparem em tratar da casa, da família e em estarem bonitas. Os homens ditam as regras nas ruas, elas ditam-nas em casa.

 

Mas no Irão, particularmente, sendo uma sociedade muito mais tradicional e fortemente influenciada pelas leis dos líderes religiosos, outras regras se impõem:

– Homens e mulheres não podem frequentar espaços públicos sem estarem casados. Se o fizerem, podem ser obrigados a casar. Apenas no campus universitário, único lugar onde existem aulas mistas, isso é possível sem levantar suspeição;

– A falta de “alquimia” e de amor nos casamentos tradicionais leva actualmente a muitos divórcios, apesar das implicações morais para a mulher e do valor do “mehrieh” estar a aumentar consideravelmente. Este valor é determinado pelas famílias antes do casamento e é sempre dado pelo homem à mulher em caso de divórcio, mesmo que a iniciativa seja dela. Porém, as mulheres divorciadas são vistas como traidoras pela família;

– Os divorciados podem ter uma autorização dada pelos mollahs (líderes religiosos islâmicos) para “frequentarem” outra pessoa, sem risco de serem presos. Assemelha-se a um casamento temporário, mas com a condição de não viverem juntos. Uma mulher divorciada dificilmente é aceite por outra família para casamento;

– Estes mollahs, por sua vez, podem ter contactos sexuais fora do casamento tradicional, pois criaram leis para eles próprios. Instituíram o “sigheh”, que são autorizações temporárias, que podem durar dias ou anos, e que lhes permite, por exemplo, ir ter com prostitutas fora do país;

– A infidelidade é totalmente proibida, especialmente nas mulheres;

– Tudo é proibido, mas quase tudo se faz às escondidas: amar, fumar, dançar, etc;

– Existem a circular na rua os “bassidgis”, milhares de homens à paisana que tudo controlam relativamente aos costumes e comportamento de homens e mulheres;

– Para as mulheres é obrigatório o uso do véu e de um casaco ¾ quando estão na rua. Na via pública, existem mulheres que têm como função controlar os trajes femininos, nomeadamente a altura das calças, pois os pés não podem ser mostrados;

– É comum, e um sinal de poder e de emancipação, uma mulher iraniana fazer uma operação estética ao nariz para o arrebitar. Para elas é sinónimo de beleza e, consequentemente, a possibilidade de arranjarem melhores pretendentes e um melhor casamento;

 

Mas também noutros campos, o controle é severo. Deixo aqui alguns exemplos:

– Só é permitida a música em cerimónias religiosas, mas esta ouve-se e toca-se às escondidas noutros locais. Se quem os toca for apanhado, os instrumentos são confiscados; mas depois adquire outro, pois, apesar de proibidos, estão à venda;

– As cadeias de televisão estrangeiras são igualmente proibidas, mas através de uma ligação via net, muitas pessoas contornam isso por períodos limitados. A televisão por satélite também é proibida, mas cerca de 70% das famílias possui uma parabólica. De vez em quando aparecem brigadas de homens que circulam pelos telhados a destruí-las ou a roubá-las. E depois compram-se mais, porque também estas estão à venda….

– Os animais domésticos, nomeadamente os cães, por serem considerados impuros, são proibidos, abatidos e os donos sancionados. Porém, pessoas com mais posses têm-nos às escondidas….

 

Este resumo é sintomático do controle e da falta de liberdade que existe nesses países e sociedades. A esperança de mudança está latente na maioria dos jovens, mas eles têm a noção de quanto vai ser difícil quebrar com as tradições, tão ou mais fortes que o poder político. Levará muitas gerações.

Quem se deu ao trabalho de ler este post até aqui, poderá estar a pensar: nada disto é novo, já sabemos que é assim. Certo, mas a verdade é que realmente não sabemos, nem fazemos ideia do que será este tipo de vivência. Porque apesar das incongruências que existem na nossa sociedade, a verdade é que temos livremente acesso a tudo. E temos o mais importante: a liberdade de escolha, a liberdade de poder dizer sim ou não e a liberdade de amar quem queremos e de exprimir livremente os sentimentos que nos vão na alma.

Mesmo assim somos por vezes tão insatisfeitos e resmungões!