para além do olhar

 

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A existência daquele conjunto de árvores passou literalmente ao meu lado até ao dia em que o seu contorno atravessou o meu olhar e fui atraída pela elegante nudez, despojamento e solidão que exprimiam.

No tronco e nos ramos possuem uma grande quantidade de espinhos agressivos e duros, estruturas que estou certa cumprem bem a sua função e que impedem qualquer tentativa de aproximação. Na prática, apenas o olhar as pode tocar.

Há certas pessoas que são um pouco assim. Que têm o dom de atrair olhares por um qualquer aspecto ou detalhe mais físico, mas simultaneamente afastam a vontade de aproximação, seja pela atitude, pelas palavras ou até energia. São pessoas que têm “espinhos” como este Espinheiro-da-Virgínia (Gleditsia triacanthos L.).

Contudo, tal como esta árvore protege no seu âmago os frutos e as sementes, a sua verdadeira essência, também esses seres humanos “guardam” algo potencialmente genuíno, vital, humano e doce.

Indefinida e difícil poderá ser a forma de contornar esses “espinhos” e de chegar ao que é importante.

Mas tal é sempre possível.

 

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landfill harmonic

 

 

Apesar deste vídeo/teaser sobre o filme Landfill Harmonic datar de 2015 e provavelmente já muitos de vós o conhecerem, só recentemente o visualizei pela primeira vez. E ele emocionou-me o suficiente para decidir partilha-lo neste espaço, porque a essência da mensagem que transmite é importante e sempre actual.

A sobrevivência tem várias faces, sendo tendencialmente associada a uma vertente mais física e material. Porém, a força anímica e a vontade que constrói o ser humano podem ser de tal forma superiores, que suplantam as adversidades materiais e os desequilíbrios criados por uma sociedade incapaz de proporcionar condições mínimas de existência.

Um dos aspectos mais marcantes da mensagem é a forma como, indirectamente, equaciona algumas das nossas atitudes e os pretextos que arranjamos pelo facto de não termos as condições “ideais” para avançar, construir ou criar algo de diferente. E ainda como tudo, nomeadamente os valores, podem ser relativos nesta vida.

 

(Algumas informações sobre a Orquestra de Reciclados de Cateura, a protagonista deste filme)

 

(Obrigada Manuela!)

 

 

conduzindo…

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A condução de uma viatura requer:

conhecer as regras estipuladas
atenção e concentração
boa visão
bons reflexos e coordenação motora
muita paciência e alguma afabilidade
e, com os outros… um constante cuidado!

Com estas premissas activas, é grande a probabilidade da condução/viagem correr bem, a não ser que a nossa viatura avarie, que lhe falte o combustível ou que outro automóvel choque connosco.

Curiosamente, conduzir a viagem pela vida tem bastante de semelhante. Na verdade:

devemos estar atentos a nós próprios, aos outros e ao que se passa à nossa volta,
orientar da melhor forma os nossos gestos e acções,
manter uma atitude positiva, mas consciente da realidade
ter a capacidade de dar a resposta adequada/reagir no momento certo
respeitar os outros, os princípios que nos orientam e as regras desta sociedade
ser pacientes e afáveis…

…mas, também aqui, a viagem pode não correr bem. Porquê?

Porque o combustível que nos move é um composto onde entram energia, pensamentos, desejos e emoções. Isso leva-nos a escolhas e a seguir direcções em que outros também estarão envolvidos. Não dependemos só de nós. E nessa incógnita viagem em que estão em jogo várias formas de conduzir, poderá haver calmas viagens mas igualmente choques, acidentes e situações difíceis. E haverá troços bem iluminados e outros que não o são, ou até túneis escuros e difíceis de atravessar .

Neste conduzir a vida, tal como na condução de uma viatura, os “problemas/avarias” imprevistos são uma realidade, tornando urgente a necessidade de parar. E de fazer um ponto da situação/revisão, arranjar a viatura, rever o itinerário, reprogramar a viagem e recomeçar. E a necessária aceitação de que algo na engrenagem poderá simplesmente ficar diferente depois desses percalços.
Curiosamente, em ambas as situações – dentro de um carro ou na vida –  poderemos optar por não seguir as regras vigentes e simplesmente transgredir, seja ultrapassando os limites existentes, seja optando pela “contra mão”, acarretando obviamente com as consequências dessa atitude.

Contudo, apesar destas enormes semelhanças, algo importantíssimo separa estes dois actos: o nosso livre arbítrio.

Na condução da vida, ele permite-nos escolher qualquer direcção em qualquer momento. Temos a capacidade de decidir para onde queremos ir, seja em função do trajecto já percorrido, de uma necessidade presente ou do futuro que desejamos. Objectivamente, nada nos impede de fazer escolhas. A não ser nós próprios e toda a “teia” emocional e moralista que fomos construindo ao longo da vida.

Já na condução de uma viatura, a própria estrada é limitativa. Temos bermas, valas, protecções laterais, troços cortados etc, que nos impedem pura e simplesmente de mudar de direcção a qualquer momento. E nela teremos que seguir, talvez procurando bem mais à frente outro caminho.

Apesar disto tudo…é mais fácil lidar com os impedimentos da estrada do que com os impedimentos da vida. Os primeiros, exigem apenas uma aceitação das condições existentes. Ponto final.
Quanto aos segundos…serão uma presença constante dentro de nós, se não houver força para os ultrapassar, sublimar ou decidir mudar de rumo.

No fundo, nós conduzimos a Vida. Um carro, apenas se conduz.

 

 

atitude

 

Aproxima-se a cerimónia da entrega dos Óscares 2017, este ano com um interessante conjunto de filmes nomeados. Entre eles, duas produções completamente diferentes mas onde encontrei algo em comum.

O primeiro é o musical La La Land- Melodia de amor, um filme muito bem realizado, que nos revela uma história de amor com um início e um fim surpreendentes; o segundo, Elementos secretos, é uma excelente produção baseada em factos reais sobre o percurso e a luta de três mulheres negras na sociedade americana e racista de meados do séc. XX.

O primeiro é pura ficção; o segundo, a vida real. O que os une, é o termo “atitude” e a forma como determinado modo de reagir pode influenciar o trajecto e a vida de alguém.

Em La La Land- Melodia de amor, essa questão é levantada no final do filme, quando sugere que todo o desenrolar da história teria sido diferente se, em determinado momento, a atitude de um dos personagens tivesse sido outra. No fundo, talvez existam momentos-chave na vida em que a nossa resposta/atitude cria uma espécie de “matriz energética” que o futuro irá preencher de acordo com o tipo de energia então gerada. E isso terá consequências quer no percurso que se segue, quer no resultado final.

Numa outra perspectiva, o filme Elementos secretos mostra-nos que as atitudes certas nos momentos certos, seja uma decisão ou uma reacção, criam uma “matriz” positiva que, como um íman, vai atraindo e “moldando” lentamente o futuro que se deseja. Essa energia dará força para ultrapassar as dificuldades que vão surgindo e criando condições que permitem concretizar o propósito inicial e, quiçá, até os sonhos.

A vida real, que tem sempre uma componente ficcional, resulta desta diversidade de atitudes e matrizes geradas. Na verdade, somos os “actores” principais e actuamos num palco ao lado de um elenco onde fazem parte outros actores, mas também o acaso, os imprevistos, as circunstâncias, etc. Todos interferem connosco, mas temos a noção que uma boa parte das atitudes/ reacções/ decisões tomadas em momentos cruciais da nossa vida, foram determinantes para o seu desenrolar e para o presente que temos, seja ele mais ou menos agradável.

É exactamente isso que, de uma forma muito diferente mas bonita, ambos os filmes nos relembram.