mãe natal

IMG_2117b

Há muitos anos, quase trinta, vesti-me de Pai Natal e fui descoberta como sendo a mãe… Natal!

Traiu-me essencialmente a voz e o sotaque algarvio, o que contribuiu – creio que sem grandes traumas – para acelerar o sentir já latente nas crianças da família que o Pai Natal não vinha da Lapónia nem de trenó pelos céus do mundo.

E talvez por ter participado nesse episódio, transformei-me naturalmente em Mãe Natal, fazendo anualmente a distribuição das prendas, papel que cumpro com “rigor” enfiando na cabeça o barrete do fato usado nesses idos anos oitenta.

Neste Natal, mais uma vez se repetiu esse delicioso e longo ritual, porque na nossa família as prendas são dadas uma a uma e alvo da atenção comum. Damos tempo à abertura de cada uma, à reacção provocada, à apreciação da criatividade posta na sua realização ou à partilha de qualquer história a ela associada. E a uma segue-se outra, numa distribuição equilibrada que vai contemplando todos, tarefa facilitada pelo facto de, no geral, cada um de nós usar o mesmo papel em todas as suas prendas.

Para além do significado simbólico que esta época tem para cada um, é bom sentir o “calor” do ambiente, seja através das decorações, da vela que ilumina o presépio, das luzes da árvore ou ainda da música de fundo que nos envolve; sabe muito bem o estar calmamente à mesa e apreciar os pratos já tradicionais ou as inovações que sempre aparecem todos os anos; é bom o estarmos juntos, as conversas e a partilha sentida, apesar de sermos todos tão diferentes; mas também é muito bom e por todos desejado, o longo ritual da distribuição das prendas pela dinâmica que se cria. Além disso, quem é que não gosta de receber umas prendinhas?

Este ano, esse momento repetiu-se. E mais uma vez, eu fui orgulhosamente a Mãe Natal!

 

 

 

Advertisements

olá verão!

 

IMG_3857a

 

A repetição dos ciclos da natureza marca o tempo da nossa vida. Entre um solstício e outro passam seis meses…até ao seguinte outros seis….o que na prática significa um ano que fluiu em nós como um vento, por vezes brisa, por vezes vendaval.

Hoje, no hemisfério norte, damos as boas vindas a um novo Verão e ao dia com mais horas de luz do ano. Para outros será o oposto. E para os que vivem nos extremos norte e sul desta belíssima esfera viajante do espaço, haverá respectivamente 24 horas de sol ou 24 horas de sombra.

Nesse instante que acontece precisamente às 11h 07m de hoje, os sensores da pele e da retina de quem habita nos quatro “cantos do mundo” estarão a receber informações totalmente diferentes. A relatividade da vida está aqui bem expressa: todos estamos certos, sentindo sensações diferentes ou até opostas!
Que bom seria que esta constatação fosse bem mais ampla e abrangesse outros campos que separam a humanidade! Ou que a diversidade fosse tão naturalmente aceite!

Voltando ao tema de hoje, e ao Verão…

…nos últimos dias, uma irrequieta e instável Primavera foi surpreendida por um calor repentino, abafado, tropical e que deixou o ar quase irrespirável. O corpo não apreciou tão brusca mudança e relaxou. O cérebro, pelo contrário, activou as sinapses e os processos do pensamento mas, curiosamente, orientando-os apenas numa direcção: vontade de férias e de descanso!

Sendo o Verão um tempo de energias positivas, simbolicamente um tempo em que a luz supera as trevas, que essa imagem seja nossa mentora mesmo quando cansados e precisando urgentemente de parar e de descansar. Que se reflicta nas pequenas coisas, no detalhe, na vontade de sentir, de estar, de partilhar. De dar algo.

É esse o desejo que me acompanha hoje…aqui… neste cantinho europeu… neste recanto do mundo…neste Universo infinito em que somos apenas um ínfimo ponto….

…e neste dia em que o Verão decidiu nascer cinzento, ventoso e chuvoso em Portugal!

 

DSC_0553

 

A vida é sempre uma surpresa!

Para uns, que seja um bom Verão…e para outros um Inverno de aconchego!

 

 

 

 

conforto… aconchego…

 

IMG_8539a

 

Aquele calor inspirador
que nos abraça,
ou o doce
odor,
que das paredes
extravasa.

A quietude de uma paz
interior,
ou a asa,
que no ar esvoaça
e nos protege com amor.

Conforto… aconchego…

Para alguns,
uma fria
distante
e dolorosa miragem.

Para outros,
a doce aragem
que ampara como um amigo,
e ajuda a perceber
o valor
de um porto de abrigo!

 

 

(Dulce Delgado, Novembro 2017)

 

 

 

tristeza

fogo

A vida, num sentido bastante lato, é uma sequência de altos e baixos, de alegrias, de tristezas e de momentos opostos que alternadamente se activam na busca de um aparente e estranho equilíbrio.

Com um país a dinâmica é semelhante. Portugal tem estado na ”mó de cima” e envolto numa aura de boas energias. Nos últimos anos vivemos tempos muito complexos e deprimentes, mas pacientemente o país foi dando a volta e começou a sorrir. Economicamente está a melhorar, também pela presença de muitos turistas que resolveram dar-nos um “abraço” de ajuda e agora apreciar aquilo que sempre fomos e tivemos para oferecer, contribuindo igualmente para fortalecer o ego nacional.

Mas hoje o meu país está triste.

Com o início de uma forte vaga de calor associada a trovoadas secas e a condições atmosférica extremas, surgiu ontem uma vaga de incêndios na zona centro do país. Um inferno, dizem alguns. E até agora, a morte confirmada de mais de seis dezenas de pessoas, seres humanos que há pouco mais de vinte e quatro horas estavam tranquilos, talvez nas suas casas, talvez passeando com as suas famílias. É possível que tivessem problema semelhantes aos nossos, mas estavam vivos e também eles sentindo essa boa energia que envolve o país.

Contudo, a fragilidade e a efemeridade da vida é por vezes assustadora e de um momento para o outro tudo pode mudar. Hoje, a tristeza será profunda em todos os que perderam familiares, amigos ou os bens de uma vida. A própria natureza estará triste, porque as suas árvores continuam a ser consumidas pelo fogo e a vida animal desses habitats a ser destruída. Diria que estamos todos tristes, porque é o nosso país, o nosso território, a nossa natureza e as nossas gentes.

Eu estou triste.

Porém, neste quentíssimo domingo de Junho estou em minha casa, rodeada do que gosto, na companhia da minha família, a receber o agradável fresco de uma ventoinha e em frente de um computador a teorizar sobre algo que não imagino.

Estou muito longe da realidade que descrevi e que continua a magoar o meu país. Estou muito longe da dor e do desconforto de muitos, do esforço inumano de bombeiros e de outros profissionais de diferentes áreas que tentam equilibrar a situação e ajudar os demais.

Estou unicamente a lidar com palavras….cuja semelhança com a vida real é apenas a sua fragilidade e efemeridade. Nada mais.

 

 

 

outono

ramosa

 
Esgotada
com o calor do Verão,
a natureza pediu ao sol
um tempo de fresquidão.

Sem hesitar,
desviou o sol
o quente olhar,
deixando um lugar
no tempo
para outro poder entrar.

Então,
numa tarde
de Setembro,
vindo nas asas do vento
o fresco Outono
chegou
para ficar até Dezembro.

Veio morno
seguro
e sem pudores,
disposto a acalmar
à natureza os seus calores!

 

(Dulce Delgado, Setembro 2016)

 

nevoeiro de verão

 

nevoeiro-praia

 

Manhã de Setembro…Praia de Santo Amaro de Oeiras…

 

O nevoeiro
apareceu em onda gigante
a partir do horizonte.
Em breve engoliu
o farol do Bugio,
e de cinzento vestiu
o céu
o mar
e o meu olhar.

Na praia,
procurei no céu
o azul que se escondia,
e no mar,
as velas do barco
que o olhar já não via.

Figuras esbatidas
percorriam a beira mar,
visão invulgar
que o olhar absorvia,
pela magia
e beleza sem par.

Muitas ondas
depois
recuou o nevoeiro,
deixando um azul
ténue e rasteiro.
Sem pressa,
retomou a praia o seu lugar,
envolta agora
num manto
quente,
abafado,
mudo e sem ar.

E eu afastei-me
sem pena
nem dor.
Aquele Verão incolor,
fora lindo
refrescante
profundamente envolvente
e bem mais inspirador!

 

(Dulce Delgado, Setembro 2016)