dois tempos

 

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Esta imagem conta uma história, para além das histórias incógnitas de cada uma das pessoas que nela aparecem.

Entre a inauguração desta ponte sobre o rio Tejo que ocorreu em 1966 e a inauguração em 2016 do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), cuja fachada aparece parcialmente à esquerda, passaram cinquenta anos na história da cidade. Nasceram duas gerações de cidadãos, saímos de uma ditadura para uma democracia, o país aprendeu a respirar e a explorar o seu potencial, e Lisboa, sempre na vanguarda desse processo, acompanhou com grande disponibilidade essa abertura ao mundo.

Nesta imagem, a ponte e o museu, o passado e o presente, estão em profunda harmonia. Sente-se na cumplicidade das linhas que “desenham” ambas as estruturas, no rio que justifica a sua presença nestes locais ou, ainda, na forma como atraem o nosso olhar, que se deleita com tal elegância.

A luz que tudo envolve, não é passado nem presente, é eterna presença.

É simplesmente a luz de Lisboa!

 

 

a procissão

 

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Em Portugal, a primeira procissão do Corpo de Deus (Corpus Christi) decorreu em Lisboa em 1389, atingindo esta celebração o seu auge no séc. XVIII durante o reinado de D. João V. Nessa época incorporava as ordens religiosas, mas igualmente as militares e as corporações profissionais da cidade, reflectindo a organização do reino e, sobretudo, a grande importância da igreja e do rei.

No século seguinte houve um período em que não se realizou, mas foi posteriormente retomada ocorrendo a partir daí anualmente por ocasião do dia do Corpo de Deus, festa do calendário católico que se celebra na quinta-feira a seguir ao Pentecostes.

Desde sempre que o Município de Lisboa se empenhou nesta procissão, tradição que se mantém ainda hoje com a participação no cortejo das principais forças da autarquia.
Deixo aqui a história deste evento, sugerindo a sua leitura para melhor perceber a importância que teve na vida da cidade.

A recriação dessa procissão, através de 1587 miniaturas em barro não cozido, encontra-se actualmente exposta numa enorme vitrina da sala do capítulo do Convento da Graça, no bairro com o mesmo nome.
O autor de tal empreendimento foi o empresário e ceramista Diamantino Tojal (1897-1958), que as elaborou entre 1944 e 1948. Nessa época todo o conjunto esteve exposto no Palácio Galveias, o que não mais se repetiu até à actualidade.

Mais do que a qualidade ou pormenor das peças, esta exposição tem um notável valor documental, pois permite perceber a dimensão e a organização do cortejo. A cargo da imaginação de cada visitante ficará a visualização do que não está recriado, como a multidão que seguia na cauda da procissão ou as ruas completamente engalanadas por onde passava.

A sala onde se encontra esta mostra foi recentemente restaurada, tal como a portaria e um dos claustros do convento, espaços que podem ser visitados gratuitamente. De notar que as miniaturas apenas estarão expostas até ao próximo dia 1 de Outubro.

Também a zona envolvente ao Convento/Igreja da Graça foi requalificada, oferecendo agora mais zonas pedonais. Vale a pena dar uma volta pelo jardim, espreitar a vista do miradouro ou descansar na esplanada aí existente. O bairro da Graça tem muitos detalhes arquitectónicos interessantes, alguns relacionados com as vilas operárias que acolheu no início do século XX e que ainda preserva. Deambular por ele e pelas áreas circundantes, permite juntar o passado com a modernidade que nos é transmitida por algumas pinturas murais realizadas no âmbito da street art.

Termino com uma imagem da cidade obtida a partir do miradouro da Senhora do Monte, localizado a poucas centenas de metros do Convento da Graça. Na foto, este espreita à esquerda e olha para o Tejo e para o seu vizinho castelo, implantado numa colina adjacente.

 

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novamente os jacarandás!

 

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Em poucos dias, Lisboa ficou a respirar a cor dos jacarandás! A cidade está a ficar linda e apelando a um olhar mais demorado para as suas ruas e jardins.

O aparecimento desta floração significa que se aproxima a época mais activa da vida da capital. Com a chegada do mês de Junho terá início a habitual Feira do Livro no Parque Eduardo VII, um cenário colorido por estas belíssimas árvores, e teremos igualmente as Festas da Cidade e dos santos populares, que se irão prolongar até ao final desse mês. Diria que a cidade está a ficar bonita e pronta para a festa!

E significa ainda que passou outro ano na nossa vida. Mais uma vez, é a natureza que, de uma forma suave e colorida, nos relembra docemente a passagem do tempo.

A mãe-natureza… sempre a marcar o ritmo!

 

 

a nespereira

 

Tenho o privilégio de trabalhar diariamente numa sala com muita luz natural, luminosidade que entra por uma grande janela de onde se desfruta uma razoável vista sobre Lisboa. Para um lado, o olhar pousa na belíssima ponte 25 de Abril e no seu inseparável companheiro Cristo-Rei e, no lado oposto, sobre as cúpulas de alguns edifícios da Baixa da cidade. Mas permite igualmente um olhar mais humanizado, uma vez que esta janela se enquadra nas traseiras de alguns edifícios de habitação.

Naquela “ilha” vive a intimidade de um pedaço da cidade, por vezes nua, por vezes crua, mas muitas vezes doce e soalheira. Há trinta e seis anos que acompanho o tempo a passar por ali, seja nos apartamentos que se foram renovando, seja nos edifícios que perderam a corrida do tempo a favor da degradação e das ervas daninhas, seja no envelhecimento natural dos seus habitantes ou, ainda, através da renovação de gerações, reveladas ao nosso olhar pelo minúsculo vestuário que de vez em quando aparece nos estendais.

E o tempo passou também por uma árvore de fruto, por uma nespereira, a razão de ser deste post. Vimo-la crescer, mas julgo que com os anos se tornou meio selvagem, uma vez que grande parte da copa está sobre telhados de difícil acesso. Talvez por isso, a maioria dos seus frutos secam e morrem na árvore.

Apesar de aparentemente abandonada, estou certa que é uma nespereira feliz, pois está enorme, apanha muito sol, produz imensos frutos e cumpre com rigor o seu ciclo anual de vida. Quando se inicia a Primavera algumas nêsperas já estão amarelas e maduras, começando a servir de alimento a várias espécies de aves que, em divertidas acrobacias, as saboreiam em vários momentos do dia.

Delicia-me assistir a este processo que se repete ano a ano. Por isso, num dia desta Primavera decidi tirar algumas fotografias através do vidro da referida janela, uma vez que todas as tentativas de a abrir resultaram em voos para parte incerta.

Em pouco tempo vi um periquito-de-colar…

 

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…e toutinegras-de-barrete jovens e adultas, cuja diferenciação reside, respectivamente, na mancha castanha ou preta que possuem na cabeça.

 

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Este adulto era um belíssimo cantor!

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Fotografei ainda um pardal…

 

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….e uma rola!

 

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Em momentos não registados em imagens, vi igualmente melros de bico amarelo, pombos e outros pássaros que não identifiquei. Mas estas fotografias permitem ter uma pequena ideia da actividade que se gera em torno daquela árvore de fruto nesta altura do ano. Estou certa que, para além da cor que empresta a este recanto escondido, esta solitária nespereira é um parceiro importante no ciclo de vida das aves que habitam esta área da cidade.

O futuro levará seguramente à repetição deste ciclo. E se a vida o permitir, serei espectadora e cúmplice por mais alguns anos.

Há rotinas que sabem bem!

 

 

 

passeios da cidade

 

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Pelos passeios de uma cidade deslizam vidas, cruzam-se olhares, vagueiam pensamentos.

São lugares de energias vividas, de sentires vários  que rolam ao ritmo de cada passada e, seguramente, lugares de muita indiferença como são imensas as vidas anónimas que os percorrem.

Por esses passeios se cruzam olhares efémeros, normalmente sem memória. Pontualmente, sem razão discernível, alguns são mais doces, agarrados a um sorriso e tocam a alma, sendo por isso mais duradouros. Outros são tão estranhos, que ficam gravados para a vida, envoltos numa aura de magia, como se tivessem um qualquer significado. Mas são apenas isso.
Os passeios são, por tudo isto, uma espécie de rios de emoções individuais ou partilhadas, que circulam pela cidade.

Quando se percorre amiúde o mesmo passeio, cruzamo-nos com pessoas que o fazem também de forma recorrente. Porque se trabalha na mesma área da cidade e os horários são semelhantes, os encontros acontecem naturalmente. Com algumas, o sorriso e um cumprimento aparecem com o passar dos anos, mas com outras, o olhar que se cruza é apenas isso, mais nada. Nunca houve um próximo episódio. Mas continuamos nesse ritual, assistindo mutuamente aos efeitos da passagem do tempo, o aparecimento das rugas ou dos cabelos brancos, o engordar ou o emagrecer, etc. Por vezes, o outro parece bem e saudável, mas noutros momentos triste, talvez doente. Mas nada sabemos.

Não havendo comunicação, entra em campo a imaginação e construímos um filme, sendo o guião baseado na postura, na passada, no olhar, ou se andam sós ou acompanhadas. Há pessoas em que é fácil imaginar-lhes a vida. Ou as vidas! É fácil imaginá-las com família, com filhos, sorridentes, a fazer desporto ou divertindo-se. Mas há outras que nunca nos transmitem dados para esse filme. É como se houvesse um muro, um filtro, uma aparente solidão na vida. E sempre que nos cruzamos com essa pessoa, sentimo-la como uma desconhecida. Para ela não temos uma história virtual na nossa imaginação.

Porém, de um momento para o outro tudo pode mudar. Foi o que aconteceu comigo há alguns dias.
Depois de muitos anos a me cruzar com aquele homem, que sempre vi sozinho, naquele dia ele estava com uma criança ao lado. No momento em que nos cruzamos, a criança perguntou algo, começando a frase por “Pai…”
Foi uma revelação e adorei aquele momento! Afinal ele tinha vida, emoções, era pai, provavelmente marido, e talvez ainda filho. Ia satisfeito e ouvi-lhe a voz, que saiu com algumas palavras que rapidamente desapareceram na brisa quente do dia ou, quem sabe, pousando na calçada portuguesa daquele passeio que tão bem conhecemos.

Fiquei feliz naquele dia! Por ele, por saber que afinal tem uma vida e afectos, e por mim… porque finalmente tenho alguns dados para construir o tal filme!