o rei e o jacarandá

 

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Discretamente e ano após ano, o lilás dos jacarandás passa por este espaço a fim de partilhar a ambiência vivida na cidade de Lisboa neste período de transição entre a Primavera e o Verão. Estou certa que até o mais desatento lisboeta será atraído por tanta beleza e magnetismo espalhada pelas ruas da capital.

Foi um instante que me levou a este detalhe surpresa na Praça do Rossio, também denominada Praça D. Pedro IV, monarca cuja estátua encima uma coluna colocada no seu centro. A copa deste jacarandá isolou e elevou a figura, destacando-a sobre o coração da cidade. Então, lá bem no alto e observando em redor…

…foi fácil imaginar este rei de liberais ideias e dois títulos, mais precisamente D. Pedro IV em  Portugal e  D. Pedro I no Brasil, a recordar e a pensar…

…sobre a sua voluntariosa, dinâmica e intensa vida amorosa

…talvez sobre este pequeno e aventureiro país que o viu nascer e onde morreu

…quiçá sobre o estado do mundo em geral

…ou sobre o Brasil em particular, país onde viveu quase toda a sua vida e que levou à independência

…talvez recordando o famoso grito que deu junto ao rio Ipiranga

…ou, simplesmente pensando com alguma tristeza: “Brasil… Brasil…onde tu chegaste!”

 

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Um aspecto geral da Praça D. Pedro IV ou Praça do Rossio – Lisboa

 

 

o navegador

 

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Timoneiro de uma barca com raízes em terra firme, o infante D. Henrique recorda ao nosso olhar e memórias o espírito de procura, de aventura, de conquista e de superação que está na genética dos portugueses, desde que a vontade tenha energia suficiente para ir à luta.

Eu sou uma portuguesa um tanto acomodada e o meu mundo algo restrito, familiar e de pequenas conquistas. Contudo, sempre que aprecio na beira-Tejo este grande monumento/escultura liderado simbolicamente pelo espírito aventureiro deste homem, sinto muito orgulho no potencial deste país tão pequenino em dimensão e do tanto que ele já deu ao mundo. Eu sei que isto daria uma longa conversa, eventualmente controversa, mas não desejo ir por aí.

As verdadeiras razões da publicação deste post são duas: a primeira é o facto de hoje fazer anos que nasceu o infante D. Henrique, de cognome o Navegador (4 Março 1394); e a segunda, o desejo de partilhar num contexto mais emocional e não isoladamente esta fotografia que tirei recentemente, de que gosto muito e em que o infante é um dos intervenientes.

Na verdade…

…gosto da imponência deste lugar-monumento reflectido num espelho da cidade

… gosto da solidão visual daquele desconhecido que corre à beira-mar numa tímida e fria manhã de Inverno, mas em plena sintonia com a solidão do timoneiro da barca

… gosto de relembrar a emoção que senti perante esta imagem

….e gosto de pensar que 626 anos depois estou a recordar alguém que foi fundamental na história do meu país.

 

Este é portanto o dia certo para a imagem certa.

 

 

 

 

 

muro com história

 

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O tempo passa…

…em nós, na natureza, nas cidades, nos edifícios e na generalidade da matéria.

A vivência deste pacto deixa marcas, cicatrizes e detalhes que o olhar por vezes questiona com a curiosidade que lhe é própria. Foi nesta dinâmica que recentemente encontrei este muro numa rua de Lisboa, uma estrutura aparentemente isolada mas esculpida pelo tempo e revelando sinais de um passado de histórias.

Um olhar mais atento captou a textura e a irregularidade da sua superfície em resultado de uma amálgama de construções, acrescentos e talvez funções. É possível que tenha abrigado uma porta ou janela…tem orifícios supostamente com função de escoamento…e foi, sem qualquer dúvida percorrido por água, detalhe revelado pelas ruínas de uma tubagem cerâmica que guarda nas entranhas.

Muitas transformações originaram esta superfície ecléctica e irregular que hoje abriga ervas daninhas, teias e aranhiços, e que  vive adjacente a um passeio localizado numa rua pouco movimentada da cidade.

Desconheço que segredos visuais guardará no outro lado. No entanto, gosto de o pensar como um todo, com exterior e interior, e como uma construção activa que já viveu muito.

Talvez ele guarde recordações de corpos e de mãos que nele se apoiaram… recordações de partilha, de felicidade ou de dor… e recordações de tudo o que a imaginação nos possa permitir. Talvez…

Objectivamente, ele é uma obra de arte do tempo… e um belo muro com história!

 

 

 

 

lisboa natalícia

 

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Um passeio nocturno pela Baixa de Lisboa é um ritual anualmente repetido nesta época festiva.

Gosto de o fazer com o meu companheiro com o espírito de descoberta e sem qualquer compra associada para não desvirtuar os objectivos a que nos propomos: apreciar e registar as iluminações natalícias das principais vias e praças do centro da cidade, e sentir de perto a dinâmica própria da época. Se o primeiro objectivo é sempre gratificante pelo factor surpresa, já o segundo foi um tanto confuso pelo vasto “emolduramento” humano de certas zonas

Constatei mais uma vez que a dupla “pessoas/ luzes” me leva naturalmente a recuar até à infância e à feira anual que agitava a rotina da cidade onde morava no sul do país. Por um lado pelos muitos visitantes que a procuravam; e por outro, pelo jogos luz/cor que o evento oferecia e que para um olhar infantil de há cinquenta anos tinha uma certa magia.

Mas voltemos ao séc. XXI, a Lisboa e a este passeio sempre algo mágico…

…a chuva entretanto caída espalhou luz, brilho, reflexos…e deixou tudo ainda mais bonito, como revela a primeira imagem obtida no “coração” da cidade, a praça do Terreiro do Paço.

 

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Termino com a fachada de uma das principais ópticas do nosso país, onde constatei que a imaginação e o humor também iluminam a cidade!

 

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paixão

 

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A chuva caiu sofregamente
sobre a cidade,
apareceu com ternura
molhou com carícia
foi provocação
depois paixão,
louca paixão…

Num acto arrebatador e único
penetrou-lhe em todos os poros
pormenores
cantos e recantos,
e ávida correu nas ruas
onde loucamente todos se molhavam
corriam
e nada percebiam.

No céu,
relâmpagos e trovões
tornavam tudo mais sensual
forte e excitante…
…num momento único!

No meio daquela loucura molhada
e de paixão tão arrebatadora
parei,
sorri,
e senti-me quase feliz…

…que mais poderia eu fazer senão compartilhar?

 

(Dulce Delgado, Abril 2019)

 

 

 

este dia…

 

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…que está prestes a terminar, assim nasceu na zona de Lisboa.

Por um lado apareceu com uma luz forte, profunda e um tanto mística; e por outro, com uma evidente componente de intranquilidade, transmitida pelas irrequietas nuvens.

Uma hora depois, o rio Tejo e as áreas da cidade a ele adjacentes estavam cobertos de um nevoeiro denso e de um frio penetrante, húmido e muito desagradável.

Esse sentir enevoado manteve-se uma boa parte do dia, talvez para nos preparar para a chuva prevista para amanhã, depois de muitos dias de céu azul, limpo e de um sol vivificante.

Esta alternância e sequência de estados e de humores é nossa também. É minha. É tua. É de todos e de tudo.

É a Natureza, tal e qual!

 

 

 

detalhes de outono

 

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Volto ao Jardim 9 de Abril em Lisboa, espaço já aqui referido mais do que uma vez. E esta não será certamente a última…
Talvez me repita um pouco ao dizer que gosto muito deste recanto por onde passo diariamente. É um sentir de quase quatro décadas, nascido de uma observação viva e continuada, estação após estação, ano após ano.

Em Novembro de 2017, há precisamente um ano, publiquei um post com uma imagem geral deste jardim em pleno Outono. Este ano vou aproximar o olhar um pouco mais e mostrar a relação entre a paineira-rosa, a árvore central, e a vinha-virgem que a circunda. Se aparentemente a força e o poder está na robustez do tronco da primeira, é a fragilidade da segunda que protege esse tronco e dá estabilidade e beleza ao conjunto.

Muitas vezes, os que parecem mais frágeis conseguem com a sua sensibilidade e gestos obter o respeito dos mais fortes. E, lado a lado, ambos cooperarem com um fim comum. Neste caso…diria… em prol da beleza que alimenta os nossos dias!

 

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As imagens acima foram captadas a uma sexta-feira, na véspera de um fim-de-semana que se revelou cinzento, desagradável, com vento e muita chuva. Nesse período, a maioria das flores da paineira-rosa e das folhas da vinha-virgem caíram, cobrindo o chão de um tapete de cor.

 

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Naturalmente, tudo mudou em dois dias para estes seres vivos e para este recanto da cidade, mostrando bem o dinamismo e a força da natureza.

Para mim, contrariamente, esse foi um tranquilo fim-de-semana, caseiro e muito acolhedor!

 

 

amarelo e lilás

 

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Harmonioso é o elo que une o lilás ao amarelo…como é expressiva a parceria que une o jacarandá e a tipuana!

Apesar de não estar sol e, naquele dia, uma estranha luz pairar sobre a cidade, o meu olhar ficou fascinado com estas imagens que encontrou na zona de Santos, em Lisboa. Estou certa que terão provocado um sentir semelhante em muitos dos que por ali terão passado.

 

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Em certos recantos, o amarelo das tipuanas superava totalmente o lilás dos jacarandás…

 

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…sendo com este tipo de detalhes que a cidade, em tempo de festa e de descanso, vai partilhando o seu colorido com todos os que nela vivem, trabalham ou visitam!

Espero que o vosso olhar aprecie esta Lisboa!

 

 

 

 

colorindo lisboa

 

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Lisboa ameniza o cinzento e a inconstância desta estranha Primavera com a beleza dos jacarandás que recentemente iniciaram a floração, como um relógio da natureza que marca o tempo no colorido da cidade.

Em muitos recantos o seu lilás abraça o céu e as nuvens, noutros encosta-se aos edifícios ou delicia-se a pintar os passeios e as estradas com as flores já caídas, atraindo docemente o nosso olhar……olhar que espera que o sol apareça sem filtros e puro, para saturar as cores, contrastar a cidade e permitir apreciar esta época de uma forma mais viva e límpida.

A cor dos silenciosos jacarandás pontua e acompanha a energia e a confusão das festas da cidade e dos santos populares que agora se vive. E pontua a nossa! Afinal o reaparecimento deste lilás também significa mais um ano no livro da nossa história, no nosso corpo e nas emoções que nele vibram. E indica que a Primavera está prestes a terminar….e que brevemente outro Verão aparecerá no calendário.

Pela minha parte….

…para o ano aqui estarei mais uma vez para partilhar a minha satisfação pela sua presença nos meandros da cidade e, obviamente, nos caminhos do meu olhar!

 

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