voltando ao cinema…

 

 

Lucky é o primeiro filme realizado por John Carroll Lynch e o último representado por Harry Dean Stanton, actor que faleceu com 91 anos no passado mês de Setembro, antes desta película ser estreada.

Algures numa América desconhecida e ao ritmo da idade e das rotinas que caracterizam o último tempo da vida, este bonito filme mostra o processo de consciencialização e preparação de um idoso para o fim que se aproxima. Curiosamente, entre a ficção e a realidade estava um actor, que entretanto morreu, talvez sorrindo com aquele sorriso revelador e sábio com que terminou este filme.

Poderia escrever muito mais, mas não o vou fazer. Vou deixar aqui as palavras do crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, publicadas no Cinecartaz do jornal Público porque, no geral, me identifico bastante com a sua análise.

Num período do ano em que os cinemas funcionam para as “massas”, este filme é uma pequena pérola que se visualiza tranquilamente em salas quase vazias. Só por isso, merece toda a atenção e divulgação.

 

 

 

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the only living boy in new york…

 

 

A frase que dá título a este post foi um dos temas do álbum Bridge over troubled water editado em 1970 pela dupla Simon and Garfunkel. Mas The only living boy in New York é também o título do último filme realizado por Marc Webb, agora em exibição nos cinemas.

Conta uma história simples, com princípio, meio e um inesperado fim, como convém a uma boa história. Fala de gente maioritariamente honesta e genuína, e fala de amor, de vários tipos de amor, seja do que se sente e mostra, do que flui no sangue e não se mostra, daquele que se dá porque mais não se pode dar, do amor vivido à distância, ou ainda do que ficou para trás e aí continua… à espera. Fala de amor, de amizade e de afectos.

É uma história-surpresa desempenhada por um grupo de actores jovens e menos jovens, como Callum Turner ou Jeff Bridges, que se desenrola ao som de numa excelente banda sonora. Pelo encadeamento, dinâmica das cenas e tipo de diálogos, pontualmente fez-me lembrar as películas de Woody Allen.

Diria que é um  filme “sem nada de especial”, mas que proporciona um momento agradável e nos faz sentir bem. Simplesmente isso.

Sendo essa uma boa sensação, deixo a sugestão!

 

 

 

paixão de van gogh

 

 

O inglês Hugh Welchman e a polaca Dorota Kobiela realizaram um inovador filme de animação que estreou recentemente nos cinemas portugueses e  emprestou o seu nome a este post. O título original é Loving Vincent.

Tecnicamente complexo, o filme revela alguns aspectos menos conhecidos que antecederam a morte deste pintor e resulta da curiosa associação de uma técnica tradicional como é a pintura a óleo com as modernas tecnologias digitais, tendo sempre por base as obras pintadas pelo artista.

Deixo-vos um interessante artigo publicado na última quinta-feira no jornal Observador, uma vez que é bastante completo e disponibiliza muita informação.

Termino acrescentando que já o visualizei e gostei imenso, merecendo sem dúvida uma ida ao cinema pela inovação que representa no mundo do filme de animação.

 

 

dunkirk

 

 

“Pátria…espaço telúrico e moral, cultural e afectivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro.

Miguel Torga, in O Dia, de 11 de Setembro de 1976

 

Por regra, não vou ao cinema ver filmes de guerra, centrando as minhas escolhas noutras temáticas. Mas fui ver Dunkirk, um filme que conta um episódio ocorrido na Segunda Guerra Mundial, nos areais que se localizam na costa norte de França, perto da fronteira com a Bélgica.

Em 1940, ainda no início dessa guerra, a progressão rápida e eficaz das forças alemãs, empurrou franceses, ingleses e belgas para essa longa faixa de areia, deixando-os encurralados. Apenas por mar poderia vir a ajuda e a sua salvação. Mas uma certa contenção por parte da Inglaterra no envio de meios que permitissem a recolha dessas tropas (uma vez que iriam ser necessários no prosseguimento da guerra), levou a que o governo inglês solicitasse a ajuda de embarcações civis de todo o tipo, para fazer essa operação de evacuação. E eles foram, com a pátria no coração buscar os seus, atravessando o canal em condições dificílimas porque os bombardeamentos aéreos dos alemães eram constantes. Foram e salvaram milhares e milhares de homens nos poucos dias em que durou a missão.

O filme, muito bem dirigido por Christopher Nolan, é contado de forma a entrosar perfeitamente os diferentes momentos e acções, vistos e sentidos a partir de terra, mar e ar. O medo e a esperança de quem está em terra à espera de ser evacuado, mistura-se com a força de quem se meteu no seu barquinho para resgatar compatriotas, ou na coragem necessária para os desafiadores e arriscados combates aéreos.

É nos momentos difíceis que o melhor e o pior das pessoas vem ao de cima, seja a maldade e o egoísmo, seja a sensibilidade, a compaixão e a solidariedade. E a força ou a perda de controle. Tudo isso está sobriamente filmado nesta película, tal como o medo da morte, o cansaço ou a força necessária para enfrentar uma situação extrema.

Porém, o que mais me marcou em toda a película, é a força e as formas que o sentimento de ligação à Pátria podem ter. Manifesta-se na vergonha de uma possível derrota, na luta pela sobrevivência (luta essa que pode incluir a ocultação da própria nacionalidade), na vontade férrea de salvar outros em memória de um filho falecido ao serviço do país ou, ainda, na decisão de lutar até ao último momento para defender e salvar compatriotas, mesmo sabendo que essa pode ser a sua derradeira acção.

A frase de Miguel Torga com que iniciei este post é uma notável descrição de Pátria, desse espaço físico e de afectos com as melhores condições para “sermos e crescermos”. Teoricamente, pelo menos.

De certa forma, todos sentimos diariamente esse sentimento de patriotismo de um modo doce, subtil e indolor. Pessoalmente, esse sentir é pouco consciente e até inconsistente, porque nunca lhe “medi o pulso” em situações limites, ou seja, nunca fui posta à prova. Estou certa que será apenas no terreno e nos momentos “nus e crus”, que essa ligação “telúrica e afectiva” poderá mostrar (ou não) a sua real força.

Este filme, quanto a mim, mostra-o muito bem.

 

 

moonlight

 

moonlight

 

Perante os nosso olhar passam imagens que revelam…

…actos de bullying
…medo
…abuso de poder
…revolta e sobrevivência
…carência afectiva extrema
…amor e dádiva incondicional
…saudade, do que foi bom e cedo desapareceu
…ausência, dos que deviam estar mais presentes
…solidão sentida, vivida e combatida com mais solidão
…rudeza, que esconde fragilidades
…ostentação material, como forma de ser respeitado
…controle dos outros para sobreviver
…fragilidade camuflada pelo poder
…desejo de atenção, calor humano, amizade
…desejo de intimidade, de pele contra pele

…e, uma profunda necessidade de ternura e de um abraço!

 

Moonlight, o filme, é tudo isto. É uma luz triste e fria, como a luz da lua pode ser.

 

 

imagem retirada de
https://www.google.pt/search?q=moonlight&rlz=1C1AWFC_enPT732PT732&espv=2&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjO3OG5-tHSAhUBlBQKHWxYBRwQ_AUIBigB&biw=1280&bih=591#imgrc=TmjzhZXyMPQZ6M:

 

 

cinema atlântida-cine

 

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Entrar no cinema Atlântida-Cine em Carcavelos, é realizar uma viagem no tempo e recuar algumas dezenas de anos. Sugiro uma incursão na Sala 1, a de maior dimensão e personalidade.

Ultrapassada a entrada, o nosso olhar é imediatamente levado para um enorme cortinado claro, transparente e iluminado por luzes difusas e coloridas, que cobre literalmente toda a parede do écran, revelando uma imagem que associamos ao teatro e que há muito se afastou das salas de cinema.

Um olhar mais detalhado por este espaço um tanto austero mas cuidado, leva-nos forçosamente a um piano colocado à esquerda do palco, um objecto invulgar num cinema do séc. XXI. Ele ficou parado no tempo e certamente no lugar, mas não é difícil imaginar o seu som a pairar na sala.

Sentamo-nos.

Aproximando-se a hora do início da sessão, começa o verdadeiro espectáculo. Somos alertados para esse momento através das badaladas que ressoam na sala. Num ápice, voltamos à nossa infância e ao tempo em que os cinemas tinham aquela sonoridade tão característica, formada por quatro tons em crescendo seguidos por outros tantos em decrescendo. Segue-se o lento movimento do cortinado de palco a abrir, como se uns actores se retirassem para dar lugar a outros. Persiste em nós o tal som, porque a viagem ao passado foi longínqua e precisamos de tempo para regressar…

Entretanto começam as primeiras imagens…alguns trailers dos filmes em cartaz ou a estrear brevemente… e finalmente o filme que nos levou ali. Tudo isto sem publicidade!
No intervalo, volta ao palco o cortinado-actor …que sairá novamente ao som de mais badaladas antes do início da segunda parte. Terminado o filme e o genérico, abrem-se as luzes e tudo regressa ao ponto inicial…até à próxima sessão.

Gosto de ir a este cinema. Não apenas porque oferece uma programação cuidada e centrada no cinema independente, mas especialmente porque cheira a cinema… e não cheira a pipocas! Esta “solidão” e este não alinhamento com o mercado só sobrevive com bilhetes ligeiramente mais caros que a média. Mas sendo uma experiência única, vale a pena visitá-lo com carinho e contribuir para este projecto. Dadas as suas características, é óbvio que é maioritariamente frequentado por espectadores acima dos cinquenta anos, os que melhor apreciam a tranquilidade que ele proporciona.

O Alântida-Cine possui duas salas e está localizado na cave de um centro comercial que tem actualmente muitas lojas vazias. Ele é a pérola daquele espaço. E se resistiu até aqui, gosto de acreditar que tem futuro, porque o proprietário merece-o, pelo facto de ser um resistente e um verdadeiro amante de cinema.

Este post, é o meu pequeno contributo para um projecto que admiro.

 

 

atitude

 

Aproxima-se a cerimónia da entrega dos Óscares 2017, este ano com um interessante conjunto de filmes nomeados. Entre eles, duas produções completamente diferentes mas onde encontrei algo em comum.

O primeiro é o musical La La Land- Melodia de amor, um filme muito bem realizado, que nos revela uma história de amor com um início e um fim surpreendentes; o segundo, Elementos secretos, é uma excelente produção baseada em factos reais sobre o percurso e a luta de três mulheres negras na sociedade americana e racista de meados do séc. XX.

O primeiro é pura ficção; o segundo, a vida real. O que os une, é o termo “atitude” e a forma como determinado modo de reagir pode influenciar o trajecto e a vida de alguém.

Em La La Land- Melodia de amor, essa questão é levantada no final do filme, quando sugere que todo o desenrolar da história teria sido diferente se, em determinado momento, a atitude de um dos personagens tivesse sido outra. No fundo, talvez existam momentos-chave na vida em que a nossa resposta/atitude cria uma espécie de “matriz energética” que o futuro irá preencher de acordo com o tipo de energia então gerada. E isso terá consequências quer no percurso que se segue, quer no resultado final.

Numa outra perspectiva, o filme Elementos secretos mostra-nos que as atitudes certas nos momentos certos, seja uma decisão ou uma reacção, criam uma “matriz” positiva que, como um íman, vai atraindo e “moldando” lentamente o futuro que se deseja. Essa energia dará força para ultrapassar as dificuldades que vão surgindo e criando condições que permitem concretizar o propósito inicial e, quiçá, até os sonhos.

A vida real, que tem sempre uma componente ficcional, resulta desta diversidade de atitudes e matrizes geradas. Na verdade, somos os “actores” principais e actuamos num palco ao lado de um elenco onde fazem parte outros actores, mas também o acaso, os imprevistos, as circunstâncias, etc. Todos interferem connosco, mas temos a noção que uma boa parte das atitudes/ reacções/ decisões tomadas em momentos cruciais da nossa vida, foram determinantes para o seu desenrolar e para o presente que temos, seja ele mais ou menos agradável.

É exactamente isso que, de uma forma muito diferente mas bonita, ambos os filmes nos relembram.