olhares

 

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Para além dos genes, o que de nós se prolonga em nossos filhos é sempre uma incógnita. Se os primeiros são responsáveis por um detalhe fisionómico, pela cor dos olhos ou por um trejeito, será a educação ou a vivência em comum durante o seu crescimento que estarão na origem daquilo que, não sendo visível ao olhar, é bem real no estar.

Há poucos dias a minha filha enviou-me uma imagem com um detalhe da sua casa que a sensibilizou. Nesta fotografia, uma das folhas de um grande feto descansa tranquilamente sobre o monitor do computador. A cor e a elegância das folhas em contraste com os restantes elementos presentes concedem uma beleza especial a esta imagem, harmonia que ela se apercebeu com o seu olho clínico e sentido estético, e que também me encantou quando recebi a fotografia.

O meu primeiro pensamento foi “é mesmo minha filha!”, pensamento que surgiu acompanhado de uma imensa ternura e logo complementado por divagações colaterais…

…os meus filhos nasceram e crescerem numa casa com muitas plantas. Quando a minha filha começou a andar tinha alguma tendência para ir mexer na terra dos vasos e nas plantas e pontualmente a fazer asneira. Nessa altura ensinei-a a fazer-lhes “festinhas” com carinho, atitude que foi integrada e que se foi entranhando na sua sensibilidade. Hoje ela tem uma casa com imensas plantas que trata zelosamente e as plantas gostam tanto de estar com ela como sempre gostaram de estar comigo.

Pela vivência e educação acredito que lhe transmiti isso. Não é genético, mas algo que era meu e hoje também é dela. Daí o meu doce sentir quando ela me enviou esta fotografia.

Porém, esta imagem não me sensibilizou apenas pela linguagem estética ou pelas emoções maternais que despertou, mas igualmente pelo simbolismo que tem associado. Na verdade, gosto da ideia de ver a natureza coabitar em harmonia com a tecnologia. Cada uma no seu lugar, sem agredir nem interferir no espaço da outra. Aqui, elas apenas se tocam…com suavidade…com respeito…

Eu sei que este sentir não passa de uma pequena utopia efémera… e caseira. Contudo, absolutamente nada me impede de levar a imaginação por aí!

Desejo um tranquilo fim-de-semana!

 

(Fotografia de Diana Oliveira)

 

 

 

a água no mundo

 

 

Há alguns anos, Matt Damon (actor) e Gary White uniram esforços e uma forma de pensar semelhante para criaram a organização global Water.org , baseada na filosofia de que o acesso a água potável pode transformar problemas em potencial, seja desbloqueando a educação, desenvolvendo a economia ou melhorando a saúde.

Aliaram-se a profissionais de vários países e de diversas áreas, o que lhes permitiu uma actuação mais global que neste momento já se estende a três continentes e melhorou substancialmente a qualidade de vida de muitas populações, em especial das mulheres que em certas regiões se deslocam durante horas para obter esse precioso liquido.

O video inicial deste post faz parte de uma das campanhas de angariação e de sensibilização promovidas por esta organização, neste caso com a Stella Artois, um dos seus parceiros. Estes poucos minutos são essencialmente um alerta sobre a importância da água e para a nossa insensibilidade sobre esta questão, certamente provocada pela facilidade com que abrimos uma torneira e temos toda a água disponível, seja para consumir… seja para estragar.

O video que se segue, também elaborado para essa campanha, mostra de que forma uma maior facilidade na obtenção de água pode ser importante na vida de alguém e de uma comunidade.

 

 

Todos sabemos que a questão da água é um assunto crucial na vida deste planeta.

Basta estarmos atentos à forma como ele reage quase diariamente a uma evidente falta de senso, de respeito e de humildade de todos nós, especialmente daqueles que, pelo seu poder e influência, mais atenção deveriam ter.

 

(Obrigada Manuela!)

 

 

 

tristeza

 

preto

 

Ao longo dos quase três anos deste blog, tenho tentado manter a mesma linha que o levou a nascer: partilhar sentires, momentos, lugares e alguma da criatividade que comigo nasceu, mas de uma forma tendencialmente doce, positiva e discreta, porque é essa a forma que tenho de estar comigo e de me enquadrar no mundo. Acredito, com humildade, que as energias daí nascidas são boas e que o mundo precisa das nossas melhores energias. Tento apenas contribuir com uma ínfima parte.

Contudo, sendo uma cidadã do mundo, é óbvio que há situações que geram outro tipo de energias menos simpáticas. Em resposta, não as alimento com raiva, porque esse é um sentimento que não quero dentro de mim; também não as alimento dando continuidade de uma forma quase irracional em redes sociais, como vemos amiúde; e, de uma forma geral, não as alimento com grandes conversas porque, seja em que campo for, há sempre pessoa preparadas e especializadas para falar, escrever e debater esses temas mais polémicos com competência e seriedade. Eu nada acrescentaria de novo.

Hoje, porém, vou desviar-me um pouco dessa linha de conduta, sendo certo que a energia emocional com que escrevo não é doce nem mesmo positiva. É de tristeza, incompreensão e, não obstante estar ciente que estas palavras nada acrescentam, preciso de as escrever.

Fazendo a ponte…

Apesar de vestir amiúde o preto, porque gosto dessa cor e nunca a associei a luto ou a dor, hoje vesti uma peça desse tom conscientemente e por uma causa. É um preto/negro solidário, porque esta noite mais uma mulher foi morta em Portugal pelo seu companheiro, exactamente no dia de luto nacional pela violência doméstica.

Estamos na décima semana do ano de 2019 e esta última vítima foi a 12ª a morrer no meu país. A continuar este ritmo, serão o dobro do ano anterior. Caberá ao estado e às suas instituições agir rapidamente sobre a situação, esperando que esse agir seja firme, real e com efeitos a curto prazo, pelo menos na actuação a ter com casos já referenciados. Não será tolerável que as acções recentemente divulgadas e ainda em fase embrionária não sejam desenvolvidas com rapidez e rigor. Vamos aguardar, mas todos sabemos que algo tem que ser feito.

Como ser humano, revolta perceber que as situações de violência existem porque o senso, o chamado bom senso deixou de existir e foi completamente engolido por sentimentos doentios, irracionais e até capazes de matar quem, em certo momento, se escolheu para partilhar a vida ou mesmo ter filhos.
É difícil imaginarmos o leque de emoções que este tipo de acontecimento/violência deverá gerar ao longo da vida dos protagonistas, especialmente das vítimas: haverá amor e ódio, ilusão e desilusão, alegria e dor, confiança e terror. E haverá o viver ou o morrer.

Todas as vítimas foram mulheres. Doze homens do meu país preferiram alimentar o seu orgulho masculino e matar por ciúme, amor ou ódio. Preferiram escolher a cadeia e muitos anos sem liberdade a aceitar que as situações e os sentimentos mudam, e que as suas companheiras não são objectos nas suas mãos.

A realidade nua e crua mostra que às mãos desta ignorância e de tanta falta de educação vão morrendo seres humanos que, um dia, sonharam e desejaram um futuro de paz e de comunhão com os seus parceiros.
E infelizmente, mais se seguirão.

Se por um lado é necessário actuar de imediato em algumas frentes, creio que será na família e na escola que estará a solução para este problema, mesmo que os efeitos sejam a médio ou longo prazo. Sensibilizar os jovens, será a chave.

Então que esse papel seja assumido com empenho pelo estado e pela sociedade no geral, e por todos nós em particular no nosso pequeno circulo de acção. Será a solução para uma meta a atingir. Sem desvios nem recuo.

Hoje, o meu preto, é mesmo de luto.