experimentações #33

Durante alguns anos centrei-me essencialmente nos álbuns “por aí” como os partilhados no último post desta série.

De vez enquanto surgiam algumas intranquilidades criativas, inquietações que no final de 2008 aumentaram muito, a par da sensação de estar “demasiado parada” e de precisar de crescer um pouco mais.

Comecei também a sentir que o caminho não estaria nos traços que povoavam o meu imaginar como acontecera até então, mas que precisava de saber desenhar melhor o que via, de perceber racionalmente a relação entre as formas/volumes, perspectivas, sequência de planos, etc. Percebi igualmente que precisaria de muito, muito treino até eventualmente sentir que sabia realmente desenhar. Adquiri então alguns livros que me deram dicas importantes e comecei com um treino intensivo que consistia em fazer um desenho por dia o que, verdade seja dita, nem sempre foi cumprido com rigor.

Ao centrar-me na realidade tudo começou a ser alvo do meu olhar e a ser desenhado. Utilizava a caneta para não apagar nada e assim perceber a evolução. E depois foi insistir, insistir e insistir, como consiste no geral qualquer treino.

Os blocos foram sendo preenchidos, ficando aqui apenas alguns exemplos desse treino visual e manual.

Nesse ano de 2009 voltei a fazer um bloco com registos de férias, o que já não acontecia desde 2003. Completamente diferente dos anteriores, ele foi de certa forma uma continuação dos desenhos diários para os quais eu estava “programada”. A grande diferença é que os alvos escolhidos estavam maioritariamente no exterior. 

Na última imagem, as duas páginas do bloco estão preenchidas com registos rápidos de pessoas em movimento, algo para mim extremamente dificil, quer naquela altura quer agora.

Falta-me uma boa memória visual capaz de captar a posição dos corpos em acção como uma imagem fotográfica que depois seria transposta para o papel. Precisaria realmente de muito, muito treino até conseguir registos que exprimissem a naturalidade/espontaneidade dos corpos e das expressões a ele associadas. Porém, até hoje não me apeteceu fazê-lo. Talvez um dia, quem sabe.

Neste momento assumo totalmente essa incapacidade relativamente a algo que, na minha perspectiva, caracteriza e define um verdadeiro desenhador.

olhar confinado #2

Neste início de Março persiste em Portugal o confinamento e as limitações associadas à pandemia, apesar dos dados mais recentes perspetivarem para breve um alívio nas restrições. Creio que a Primavera nos trará esse presente para ser desembrulhado de uma forma cuidadosa e progressiva.

Desde o ultimo post a que dei este mesmo título e publicado no início de Fevereiro, as condições meteorológicas melhoraram imenso e os dias cinzentos deram gradualmente lugar a outros mais leves e soalheiros. Então as janelas foram abertas deixando entrar o ar e o sol.

As janelas são simultaneamente fronteira e ligação… interior e exterior…o aqui e o além…e o limite entre dois espaços que o nosso olhar une instintivamente quase sem darmos por isso. É nesses dois mundos que se desenvolve este post.

O primeiro olhar será direcionado para o exterior (alguns detalhes têm alguma semelhança com outros publicados no post anterior), mas foram agora captados em dias de sol e bastante mais luminosos.

Depois, o olhar seguiu para o interior….

…onde o sol, ao entrar pelas janelas iluminou a casa. Então, aqui e ali fui fotografando detalhes que visaram sobretudo o jogo luz-sombra e a forma harmoniosa como esses elementos se conjugam.

Deparei-me com imagens raramente apreciadas com atenção e confrontei-me com a efemeridade das sombras. O movimento do sol é realmente a música que orienta a dança das sombras! Agora estão aqui… daqui a pouco ali…e depois mais além ou, já nem existem Até ao dia seguinte, se o sol voltar a aparecer.

Se estes detalhes, apesar de procurados surpreenderam pela harmonia de linhas e contrastes, o que mais me encantou foi o ultimo registo deste post e que aconteceu por acaso. Ou talvez não. Na verdade, em tantos anos de vida nunca me tinha sucedido chegar à cozinha e nesse preciso momento ver uns raios de sol a incidir num copo de água, dupla que funcionou como uma lente que convergia, divergia e irradiava esses raios.

Fotografei de imediato e verifiquei que, também aqui, os efeitos se alteravam rapidamente em virtude do movimento solar.

Senti que era uma oferta e agradeci. Afinal era a melhor imagem que eu poderia obter no âmbito deste post em preparação.

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Termino com o desejo, profundo e cheio de esperança, de não voltar a publicar mais posts com este título!

experimentações #13

De certa forma, este desenho marca uma fronteira no tempo, no estilo e muito na vivência e percurso de vida. Talvez por isso, mais de quarenta anos depois ele continua a ser, para o meu sentir, um dos mais significativos.

Diria que representa o equilíbrio que se deseja entre o que somos/ sentimos/ guardamos, e o modo como o exteriorizamos e partilhamos com os outros, algo nem sempre fácil de conseguir.

Creio que será um trabalho para toda a Vida.

(Dulce Delgado, lápis cor/grafite sobre papel, Agosto 1979)

 

ele tocou o nosso sentir…

 

IMG_0918

 

… nos dias mais quentes surgidos entre os frescos e os chuvosos da Primavera que hoje termina;

… na luz do sol que bem cedo invade todos os recantos das nossas casas e teima em nos acordar;

… no dia em que olhamos para o roupeiro e decidimos trocar o vestuário mais quentes por outro mais fresco;

… naquele dia primaveril com sabor a Verão em que voltamos à praia e a sentir o prazer da areia morna em nossos pés;

… na crescente e irrequieta vontade de exterior que nos invade;

… no degustar das primeiras sardinhas assadas da época, de preferência numa esplanada e em boa companhia;

… no prazer daquele gelado saboreado num dia mais quente;

… e ainda, logo no início de Primavera, quando é necessário decidir as datas a inscrever no mapa anual de férias…

…ou, a partir daí, quando as incursões pelo Google Maps começam a ser frequentes a fim de planear essas férias!

 

Contudo, apenas às 16h 54m de hoje, 21 de Junho de 2019, o Verão chegará oficialmente à nossa pele… sentidos… energia… vida… desejos… calendário…etc, neste que é o dia com mais horas de luz no hemisfério onde habito.

Inspiremos esta energia com pensamentos positivos e construtivos, de tolerância pela diferença e de um profundo respeito pela natureza.

Ao entrarmos num período propício a um contacto mais próximo com o exterior e com o ambiente, temos o dever e a obrigação de estar mais atentos e de não contribuir para o agravamento dos problemas que infelizmente ele revela. 

 

Desejo a todos um excelente e consciente Verão!

(e um aconchegante Inverno para os meus leitores do hemisfério sul!)