dois filmes

 

 

Nesta época natalícia em que o conceito de família vibra dentro de nós de uma forma um pouco mais forte, é a altura certa para referir dois filmes ainda em cartaz em algumas salas de cinema portuguesas e que se enquadram no campo das relações familiares e dos afectos.

O trailer com que iniciei o post refere-se a Shoplifters: uma família de pequenos ladrões (2018), um magnífico filme pela forma como nos questiona sobre o significado do termo família, dos laços familiares e do que é realmente uma verdadeira família. Vagueando entre a doçura dos afectos e o drama, está muito bem realizado pelo japonês Hirokazu Kore-eda e tem excelentes interpretações dos actores envolvidos. Este filme venceu a Palma de Ouro do último Festival de Cinema de Cannes.

Isto é Vida! (2018) é o titulo da outra película que gostaria de referir. Foi realizada por Dan Fogelman, o mesmo autor da belíssima série televisiva This is us , e é um drama geracional em que os laços familiares existentes, mesmo que precocemente quebrados, vão interferir com as escolhas e no caminho a seguir. Alerta-nos de uma forma muito marcante para os imprevistos da vida e para o modo como os afectos e a família podem ser o ponto de viragem e de equilíbrio.

 

 

Aconselho vivamente ambas as películas, porque simultaneamente questionam e preenchem a nossa sensibilidade.

 

 

 

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juliet, nua

 

 

Juliet, Nua é um filme com bons actores, bons diálogos e que, como todos os filmes românticos nos conta uma história de amor. Nele encontramos um Ethan Hawke distante da juventude de Antes do amanhecer (1995), longe do jovem adulto de Antes do anoitecer (2004) ou do adulto de Antes da meia noite (2013). Neste filme, ele faz o papel de um ex-cantor rock, já grisalho e capaz de ser avô. Ao seu lado, partilhando o filme realizado por Jesse Peretz, estão os actores Rose Byrne, Chris O’Dowd e Azhy Robertson, em bons desempenhos.

É um filme discreto, sem efeitos especiais e habitado por gente comum com problemas semelhantes aos nossos. Talvez por isso estas palavras e a referência a alguns aspectos que me chamaram a atenção…

…como pode ser mentalmente limitativo o enfoque num ídolo, havendo o perigo de criar uma teia de ideias e certezas que nada têm a ver com a vida desse ser que se idolatra. Além disso, pode levar a um alheamento da realidade e a “esquecer” as pessoas que estão por perto;

…a vida é uma grande mestra, pelo que muitas vezes nos leva a encontros que vão ter um papel importante na forma de lidarmos com a “bagagem” acumulada e com os fardos que nos acompanham. Gosto de pensar que são as “pessoas-campainha”, porque accionam mecanismo internos que facilitam olhar de frente para o que tem que ser enfrentado, especialmente em nós próprios e, com o tempo, permitirem que nos tornemos melhores pessoas;

…e por último fala-nos de amor, talvez do verdadeiro amor, daquele em que uma das partes se afasta para dar espaço porque ainda não é o momento desse amor ter o seu tempo. Nem sequer há a certeza que ele possa acontecer, porque o que está “no meio” é prioritário e tem a palavra. Entretanto, a vida continua…

É uma película simples que me agradou bastante, para além de possuir uma agradável banda sonora. Alguns dos temas são cantadas, e bem, pelo próprio Ethan Hawke, o que contribui igualmente para o interesse do filme.

Apenas uma dica: não sair do cinema mal começa o genérico!

 

 

 

voltando ao cinema…

 

 

Lucky é o primeiro filme realizado por John Carroll Lynch e o último representado por Harry Dean Stanton, actor que faleceu com 91 anos no passado mês de Setembro, antes desta película ser estreada.

Algures numa América desconhecida e ao ritmo da idade e das rotinas que caracterizam o último tempo da vida, este bonito filme mostra o processo de consciencialização e preparação de um idoso para o fim que se aproxima. Curiosamente, entre a ficção e a realidade estava um actor, que entretanto morreu, talvez sorrindo com aquele sorriso revelador e sábio com que terminou este filme.

Poderia escrever muito mais, mas não o vou fazer. Vou deixar aqui as palavras do crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, publicadas no Cinecartaz do jornal Público porque, no geral, me identifico bastante com a sua análise.

Num período do ano em que os cinemas funcionam para as “massas”, este filme é uma pequena pérola que se visualiza tranquilamente em salas quase vazias. Só por isso, merece toda a atenção e divulgação.

 

 

 

the only living boy in new york…

 

 

A frase que dá título a este post foi um dos temas do álbum Bridge over troubled water editado em 1970 pela dupla Simon and Garfunkel. Mas The only living boy in New York é também o título do último filme realizado por Marc Webb, agora em exibição nos cinemas.

Conta uma história simples, com princípio, meio e um inesperado fim, como convém a uma boa história. Fala de gente maioritariamente honesta e genuína, e fala de amor, de vários tipos de amor, seja do que se sente e mostra, do que flui no sangue e não se mostra, daquele que se dá porque mais não se pode dar, do amor vivido à distância, ou ainda do que ficou para trás e aí continua… à espera. Fala de amor, de amizade e de afectos.

É uma história-surpresa desempenhada por um grupo de actores jovens e menos jovens, como Callum Turner ou Jeff Bridges, que se desenrola ao som de numa excelente banda sonora. Pelo encadeamento, dinâmica das cenas e tipo de diálogos, pontualmente fez-me lembrar as películas de Woody Allen.

Diria que é um  filme “sem nada de especial”, mas que proporciona um momento agradável e nos faz sentir bem. Simplesmente isso.

Sendo essa uma boa sensação, deixo a sugestão!

 

 

 

o jardim da esperança

 

 

Antes da ocupação alemã, o Jardim Zoológico de Varsóvia respirava harmonia e revelava um perfeito equilíbrio entre humanos e animais. Era gerido pelo casal Jan e Antonina Zabinska, que reflectiam o afecto que os unia na forma de lidar com todos os que deles dependiam.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, esse espaço foi desmantelado e destruído. O desgosto e a revolta deu ainda mais força a Jan e a Antonina, reorientando todas as suas energias, capacidades e afectos na ajuda ao próximo, apesar de colocarem em risco a sua própria vida. Foram pessoas extraordinárias, cuja acção é mostrada no filme  O jardim da Esperançatradução portuguesa de The Zookeeper’s Wife, com realização da neozelandesa Niki Caro e uma excelente interpretação de Jessica Chastain.

É uma película que nos faz sentir pequenos perante a generosidade e a força de alguns, mas simultaneamente reconfortados, porque nos relembra que existem pessoas excepcionais e acima da média, cuja acção positiva vai tentando contrabalançar a maldade e o absurdo que constitui o lado mais negro da nossa civilização. Reconforta-me saber que neste momento e algures neste planeta, algumas dessas pessoas especiais estarão a agir de forma singular em acções que eu não seria minimamente capaz de realizar porque, neste meu “mundo de conforto”, nada arrisco. Essa é a verdade. Mas admiro profundamente quem tem essa força e a capacidade emocional de enfrentar situações extremas para ajudar quem precisa.

Voltando ao filme, é importante mencionar que é baseado em factos verídicos, a partir de um diário não publicado de Antonina Zabinska e que teve como consultores os descendentes do casal. Essa veracidade permite-nos igualmente vê-lo como mais um documento importante que contribui para aumentar o conhecimento de um período difícil da nossa história, factos que inexplicavelmente alguns tendem a negar e a esquecer.

Estou certa que o apreciarão…e que ele deixará as vossas emoções bem à flor da pele!

 

 

 

moonlight

 

moonlight

 

Perante os nosso olhar passam imagens que revelam…

…actos de bullying
…medo
…abuso de poder
…revolta e sobrevivência
…carência afectiva extrema
…amor e dádiva incondicional
…saudade, do que foi bom e cedo desapareceu
…ausência, dos que deviam estar mais presentes
…solidão sentida, vivida e combatida com mais solidão
…rudeza, que esconde fragilidades
…ostentação material, como forma de ser respeitado
…controle dos outros para sobreviver
…fragilidade camuflada pelo poder
…desejo de atenção, calor humano, amizade
…desejo de intimidade, de pele contra pele

…e, uma profunda necessidade de ternura e de um abraço!

 

Moonlight, o filme, é tudo isto. É uma luz triste e fria, como a luz da lua pode ser.

 

 

imagem retirada de
https://www.google.pt/search?q=moonlight&rlz=1C1AWFC_enPT732PT732&espv=2&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjO3OG5-tHSAhUBlBQKHWxYBRwQ_AUIBigB&biw=1280&bih=591#imgrc=TmjzhZXyMPQZ6M: