atitude

 

Aproxima-se a cerimónia da entrega dos Óscares 2017, este ano com um interessante conjunto de filmes nomeados. Entre eles, duas produções completamente diferentes mas onde encontrei algo em comum.

O primeiro é o musical La La Land- Melodia de amor, um filme muito bem realizado, que nos revela uma história de amor com um início e um fim surpreendentes; o segundo, Elementos secretos, é uma excelente produção baseada em factos reais sobre o percurso e a luta de três mulheres negras na sociedade americana e racista de meados do séc. XX.

O primeiro é pura ficção; o segundo, a vida real. O que os une, é o termo “atitude” e a forma como determinado modo de reagir pode influenciar o trajecto e a vida de alguém.

Em La La Land- Melodia de amor, essa questão é levantada no final do filme, quando sugere que todo o desenrolar da história teria sido diferente se, em determinado momento, a atitude de um dos personagens tivesse sido outra. No fundo, talvez existam momentos-chave na vida em que a nossa resposta/atitude cria uma espécie de “matriz energética” que o futuro irá preencher de acordo com o tipo de energia então gerada. E isso terá consequências quer no percurso que se segue, quer no resultado final.

Numa outra perspectiva, o filme Elementos secretos mostra-nos que as atitudes certas nos momentos certos, seja uma decisão ou uma reacção, criam uma “matriz” positiva que, como um íman, vai atraindo e “moldando” lentamente o futuro que se deseja. Essa energia dará força para ultrapassar as dificuldades que vão surgindo e criando condições que permitem concretizar o propósito inicial e, quiçá, até os sonhos.

A vida real, que tem sempre uma componente ficcional, resulta desta diversidade de atitudes e matrizes geradas. Na verdade, somos os “actores” principais e actuamos num palco ao lado de um elenco onde fazem parte outros actores, mas também o acaso, os imprevistos, as circunstâncias, etc. Todos interferem connosco, mas temos a noção que uma boa parte das atitudes/ reacções/ decisões tomadas em momentos cruciais da nossa vida, foram determinantes para o seu desenrolar e para o presente que temos, seja ele mais ou menos agradável.

É exactamente isso que, de uma forma muito diferente mas bonita, ambos os filmes nos relembram.

 

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O apelo à liberdade e ao despojamento já foi certamente sentido por muitos de nós. Mas não o seguimos, prevalecendo o medo do desconhecido, a insegurança da situação, a família e, principalmente, o facto desse apelo não ter sido suficientemente forte para nos fazer mudar. E ficamos, adaptamo-nos, esquecemos e, apesar de tudo, conseguimos ser felizes assim.

Outros porém seguem-no e ele transforma-se em escolha. Deixam tudo para trás, até a família, e seguem o seu caminho, tendo como único objectivo o respirar a liberdade, fazer o que lhes apetece, dar asas aos desejos e à sua criatividade, aproveitando cada momento e bebendo a vida em toda a sua grandeza.

Foi isso que fez o sétimo presidente da República Portuguesa, Manuel Teixeira Gomes, um homem culto e de grande personalidade. Vivia-se em Portugal uma época de grande perturbação política, em que os jogos e interesses minavam a sociedade portuguesa e os ideais de direita iam criando fortes raízes. Em simultâneo, a moral tinham muita força numa sociedade preconceituosa e sustentada por valores católicos nem sempre bem aplicados. Crítico de todos esses valores, decidiu que não queria compactuar com eles nem com a mesquinhez vigente. Apesar de republicano convicto, deixou para trás a posição social, o estatuto, a família e duas filhas, os bens materiais que juntara como coleccionador de arte e seguiu esse apelo, tendo como principal objectivo ser livre, escrever e gozar os prazeres da vida. A sensualidade tinha muita força na sua natureza, o que o levou a escrever livros com uma componente erótica marcada, completamente vanguardistas para a época e que chegaram a ser utilizados contra si durante a sua presidência.

Assim, foi neste contexto que no final de 1925 decidiu pedir a demissão do cargo de presidente, optando pelo auto-exílio. Apanhou o primeiro cargueiro que passou no porto de Lisboa, o “Zeus”, e nele seguiu para a Argélia fixando-se em Bougie, país onde permaneceu até falecer em 1941, mantendo durante muito tempo o anonimato. Eram as cartas que o ligavam ao mundo, à família, aos amigos, sendo igualmente a forma que utilizou para gerir os bens que deixou em Portugal. Foi ajudado e servido durante muitos anos por um argelino, a sua grande companhia, que tratou quase como um filho e que foi um fiel amigo até ao último momento.

É baseado nesta biografia que o realizador Paulo Filipe Monteiro construiu o filme “Zeus”, muito bem interpretado pelo actor Sinde Filipe. Complementa-o uma bonita banda sonora que acompanha eficazmente as suas dinâmicas, os silêncios e as paisagens que integra. O filme possui algumas sequências menos conseguidas, mas tal não lhe tira o interesse.

Porém, mais do que o filme em si, o que me fascinou e me levou a escrever este post, é a personalidade de Manuel Teixeira Gomes e tudo o que ela representa. Assumindo a minha ignorância em História e Humanidades, resta-me dizer que conhecê-lo foi uma bela surpresa porque apreciei imenso….

…a sua energia, a profunda alegria de viver e como saboreava e respirava os seus dias
…o prazer com que apreciava as suas rotinas
…o olhar atento para os que o rodeavam
…a sua impulsiva necessidade de escrever
e a forma genuína de saudar a vida através de inspirações conscientes e a que associava movimentos com os braços, num ritual muito próprio e tão natural para ele como estranho para os outros.

Mas, o que mais apreciei, foi ele ser capaz de aos 65 anos e no contexto da época em que vivia, olhar para dentro de si e aceitar a sua natureza. E segui-la, simplesmente porque percebeu que isso era mais importante que tudo o que já tinha conseguido e construído na vida, inclusivamente os laços afectivos.

Difícil de entender….mas uma visão fascinante!

 

 

– Nesta data,o filme “Zeus” apenas está em exibição numa sala de Lisboa. Agradeço a quem me alertou para a sua existência!

 

(Imagem inicial retirada de http://cinecartaz.publico.pt/Filme/367073_zeus)

 

 

I, Daniel Blake

 

 

Normalmente, a opção de ir ao cinema tem por base o realizador, a temática do filme ou os actores que nele figuram, o que permite um leque razoável de possibilidades e, obviamente, de sensações diferentes após a sua visualização. Ao escolher um filme do realizador britânico Ken Loach, cuja obra se inspira nas condições de vida das pessoas comuns e da classe operária, sabemos à priori que não será pura distracção. Porém, por vezes… pode ser um verdadeiro “murro no estômago”!

I, Daniel Blake, é um filme que…

… nos faz “abanar”, porque nos confronta com uma realidade difícil, comum…mas pessoalmente nunca sentida na pele;

… revela os meandros da segurança social, neste caso da britânica, e como esta apenas se preocupa com números, legislações, formulários e regras, sendo as pessoas meros objectos iguais e padronizados;

… fala do desemprego, da falta de saúde e das incongruências do sistema que gere essas situações;

… confronta a evolução tecnológica com a realidade do cidadão comum e não preparado para ela;

… mostra pessoas reais, sensíveis, que sofrem, choram, sorriem e partilham o pouco que têm;

… apresenta gente boa, humana, mas que o sistema instalado e desumanizado trata indiferentemente;

… coloca lado a lado a frieza e gestos solidários;

… mostra como o significado do termo “ajudar” pode ser ambíguo;

… apresenta uma forma peculiar de lidar com a revolta e com sentimentos de injustiça;

… e é um filme sem saídas e sem esperança…não… é um filme em que a única esperança reside numa pequena e simbólica estante para livros construída com todo o carinho!

Por último, tem a capacidade de nos pôr em confronto com a nossa própria realidade, com o privilégio que é ter saúde, mas igualmente um emprego estável e dinheiro para as necessidades fundamentais, um direito de todos, mas que muitos não têm. A habituação faz-nos facilmente esquecer essas prerrogativas e a senti-las como dados adquiridos. Felizmente que existem realizadores como Ken Loach para lembrar a sua importância,  e para nos ajudar a dar mais valor a tudo o que temos.

I, Daniel Blake,  foi realizado em 2016 e galardoado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

 

dorayaki

 

Capturar

 

É em volta dos dorayaki, um doce típico japonês que se assemelha a duas panquecas recheadas com um creme confeccionado com feijão asuki, que se desenvolve o filme Uma pastelaria em Tóquio (An, de título original), da realizadora japonesa Naomi Kawase.

Os protagonistas são três pessoas de gerações diferentes que, de uma forma sublime, melancólica e cheia de ternura vão interagir e mutuamente ajudar-se. É um filme em que o tacto, o olhar, o cheiro, o gosto e as sensações que estes sentidos despertam no ser humano estão presentes, assim como a audição, aqui alimentada por uma relaxante banda sonora.

Como actores secundários encontramos a natureza no geral, mas em particular as cerejeiras em flor do Japão.  Acompanhamos o seu ritmo e beleza, mas igualmente a forma como toda a natureza pode contribuir para o despertar de sensibilidades tão diferentes.

É um bonito filme!

 

 

    Imagem do Dorayaki  retirada  de  http://nice-japan.com/foods/385/