nome de tempestade

 

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Ultimamente ficou mais humanizada a nossa relação com a meteorologia e com as tempestades que nos têm visitado. Sendo conhecidas até aqui apenas como depressões ou “zonas de baixa pressão atmosférica”, estes eventos meteorológicos adquiriram desde o dia 1 de Dezembro de 2017 nomes humanos e um estatuto muito mais interessante. Com esta decisão e associando alguma imaginação, diria que passaram a ser encarados como mais uns visitantes que integram o contínuo fluxo turístico que alimenta o nosso país.

Primeiro vieram a Ana, o Bruno e a Carmen, estes um pouco mais espaçados no tempo. Mas é provável que tenham gostado da recepção e das saudades que tínhamos das suas chuvas/neve e vento forte, que passaram a palavra a outros e, mais exuberantes, visitaram-nos depois o David, a Ema, o Felix e a Gisela. Este fim-de-semana foi a vez do Hugo e, a seu tempo, será a vez da Irene, do José e de outros mais, estes últimos ainda pensando e planeando a sua futura viagem pelo Atlântico.

Prevendo-se antecipadamente as características de uma depressão, como por exemplo a velocidade dos ventos associados, ela será considerada ou não tempestade e tomará o nome humano seguinte caso se apresente com alguma força e agressividade. E nós poderemos “preparar” a casa para receber tal visitante, seja fechando portos e barras à navegação, protegendo as habitações, fazendo alertas meteorológicos ou colocando de prevenção equipas de socorro e protecção.

Desta forma, seja o que for que suceda em dias de mau tempo mais evidente, sabemos que resultou do humor da Carmen, do Felix, da Gisele ou de outro nome constante de uma lista previamente escolhida, e não apenas daquele B maiúsculo, impessoal e normalmente de cor vermelha, que conhecemos das cartas meteorológicas disponíveis nos sites da especialidade.

Apesar da indicação de nomes para as tempestades geradas no Atlântico ou no Pacifico já ser antiga e não ter nada de original, a sua adopção por Portugal, Espanha e França é uma novidade e uma forma de melhorar a troca de informação e a comunicação entre estes territórios quando afectados por depressões mais extremas.

Por último, apenas quero acrescentar que me agrada bastante esta resolução…apesar de não apreciar alguns dos nomes escolhidos para tão respeitáveis visitantes!

 

(Imagem retirada do site do IPMA)

 

 

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olhares lugares

 

 

Agnès Varda é cineasta, fotógrafa e brevemente fará 90 anos; JR é o street artist Jean Réné, igualmente fotógrafo e agora com 34 anos.

Quando se conheceram em 2015, a cumplicidade foi notória e crescente apesar do meio século que os separa. Por esse facto surgiu a ideia de iniciar um projecto em comum, tendo como ponto de partida a sensibilidade e o gosto pela fotografia que ambos partilham.

Iniciaram então uma viagem pelas estradas secundárias de França, de onde resultou um documentário ao estilo roadmovie a que deram o título de Visages Vilages, nome que em Portugal foi traduzido como Olhares Lugares.

Essa viagem foi realizada numa carrinha transformada em máquina fotográfica gigante, uma espécie de laboratório ambulante que “imprime e expele” imagens a preto e branco em formato grande, facto que acabou por gerar muita curiosidade por onde passavam.

As imagens obtidas resultavam do contacto e diálogos estabelecidos com pessoas  encontradas em diversos lugares e situações, assim como da sua forma de estar e sentir, actividades e meios de subsistência. Mas todas as imagens revelavam o olhar artístico de ambos sobre essas personagens reais. Numa fase final, as impressões em papel foram coladas em locais específicos e sempre relacionados com a vivência dos fotografados, seguindo a técnica que caracteriza o trabalho artístico de JR.

O resultado desta viagem é um delicioso documentário sobre o quotidiano, a vida, a alegria de viver e a expressão artística, onde não faltam também interessantes diálogos sobre o passado, a morte, as escolhas ou as diferenças entre gerações. Mas toda a dinâmica se centra no profundo respeito que nasceu entre os dois como seres individuais, e neste papel em que são simultaneamente realizadores, actores, artistas e viajantes.

Com personalidades e traços identitários muito fortes e diferenciados, Agnés Varda e JR oferecem-nos noventa minutos de inteligência, partilha, humor e de imensa ternura.

Acrescento ainda que este filme se encontra nomeado para a próxima edição dos Óscares na categoria de Melhor Documentário.

 

 

pelo sudoeste de França

 

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Saint-Cirq Lapopie, nas margens do rio Lot

 

A dois dias da chegada do Verão, voei com o meu companheiro sobre as fronteiras da Península Ibérica e pousamos no sudoeste de França para uns dias de férias, a fim de encontrar algumas imagens que há anos esperavam uma visita que as tornasse realidade.

Naturalmente, deixaram agora de ser imagens e tornaram-se lugares, apreciados com outro olhar, com ternura, com tacto, muito suor, muito calor, alguns chuviscos, mas sempre com algum deslumbramento e rara desilusão.

Percorremos lugares de tradição, de história e de peregrinação, penetramos na ruralidade e na tranquilidade da região, estendemos o olhar nos vastos campos plantados de milho, de vinha e de cereais em tempo de ceifa, contornamos alguns dos sinuosos meandros do rio Lot, sentimos a calma do rio Dordogne ou percebemos a magnitude dos rochedos da região de Quercy. Mas apreciamos ainda alguns dos aromas e da estética da cozinha local, assim como a simpatia dos seus habitantes e a grande dedicação e empenho que têm com o cultivo das flores que embelezam e decoram qualquer vila visitada.

Este não pretende ser um post de palavras alargadas, mas sim um espaço de partilha de alguns dos lugares visitados. Espero que apreciem o passeio!

 

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Pelas ruas de Saint-Cirq Lapopie

 

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Caminho de sirga (chemin de halage) que liga Saint-Cirq Lapopie a Bouziès (3,9 Kms), escavado na rocha em 1847 e que permitia o reboque de barcos, por homens ou animais, quando não havia vento ou a corrente do rio era forte.

 

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Rocamadour, imponente vila santuário e local de peregrinação que se situa sobre o vale de Alzou

 

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Gouffre de Padirac, que permite penetrar nas profundezas da terra e navegar um rio que aí circula

 

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La Roque-Gageac, nas margens do tranquilo rio Dordogne

 

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As flores e a pedra são a imagem das regiões de Périgord e Quercy

 

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Um recanto de Sarlat-la-Canéda, que homenageia os gansos e o (polémico…) fois-gras da região

 

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O Castelo de Bonaguil, um dos muitos que dominam esta área

 

Esses dias foram complementadas com uma incursão pela costa atlântica do sudoeste de França, que permitiu atravessar a vastidão dos pinhais da Aquitânia e encontrar lugares em que a natureza marca o ritmo e connosco partilha as suas dinâmicas.

 

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A reserva ornitológica do Teich

 

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…e algumas das espécies observadas

 

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Duna de Pilat, na bacia de Arcachon

 

Agora, entre imagens de muitos lugares…ainda estou a tentar reencontrar o meu!