ambiente

Tranquilidade, é o que esta imagem me transmite num primeiro olhar… talvez por se tratar de um detalhe do Alentejo onde nasci e que sempre me inspira esse sentimento pela harmonia da paisagem.

Insisto no olhar……e apesar do elemento central ser um veículo motorizado, encontro um equilíbrio entre as suas componentes.

Assim…

… o homem recorre à terra, de forma manual ou mecanizada, para a cultivar e retirar os seus alimentos essenciais…

… a terra necessita dos outros elementos da natureza – água, ar e sol – para que as sementes plantadas pelo homem ou de geração mais espontânea se desenvolvam, sejam alimento ou se transformem noutros recursos vitais…

… é ainda essa terra que disponibiliza de uma forma directa ou indirecta alimento a todos os animais que a habitam…

… muitos dos quais são agentes importantes nos ciclos reprodutivos da natureza e no processo de fecundação de muitas das plantas existentes…

… todas pertencentes ao reino vegetal, o grande produtor do oxigénio que todos os seres vivos respiram neste planeta…

… e assim por diante…

Ou seja, tudo tem a ver com tudo e tudo se completa, neste ciclo que poderia ser perfeito.

O meio ambiente mantêm o equilíbrio quando os recursos existentes são usados harmoniosamente e sem excessos. Quando os ciclos naturais são respeitados. Quando nenhum elemento da natureza é abusado e não lhe é exigido mais do que pode dar.

Incompreensivelmente, é o ser mais inteligente que habita este planeta – o homem – o que menos respeita o meio ambiente e o que mais o desequilibra.

Um bom paradoxo para meditar neste Dia Mundial do Meio Ambiente.

miguel torga

 

torga

 

Adolfo Correia da Rocha foi buscar o segundo nome do seu pseudónimo a um arbusto da família da urze que se desenvolve espontaneamente em terrenos pobres e agrestes. Essa planta é a torga, também chamada de queiró ou leiva, uma espécie muito resistente e lutadora, como a natureza do homem que o escritor Miguel Torga tanto admirava e valorizava.

Torga não acreditava nos Deuses nem no seu virtuosismo, porque eles não sabiam o que era uma vida de trabalho e de luta. O homem sim, sabia-o bem, porque o fazia todos os dias nas piores condições, trabalhava a terra, fazia crescer, moldava e conhecia a natureza, sofria, era um resistente e um sobrevivente. Para ele o homem merecia todos os louvores.

A sua própria vida contribuiu para esse sentir. Foi trabalhar para o Brasil aos dez anos, com a energia e a resistência das terras de Trás-os-Montes onde nasceu. Insubmisso ao que lhe pediam, voltou no ano seguinte para um seminário em Lamego que o acolheu e educou. Mas não para ser padre, porque esse não era o seu caminho.

Aos treze anos voltou para o Brasil a fim de trabalhar na fazenda de um tio. Esse familiar ao perceber o seu potencial patrocinou-lhe os estudos, primeiramente naquele país e mais tarde em Portugal, onde se formou em medicina na Universidade de Coimbra.

Começou a exercer essa actividade com 26 anos nas terras agrestes onde nasceu e que foram o grande palco da sua vida, seja como humanista junto dos mais desfavorecidos, seja como escritor, poeta e ensaísta. O que vida lhe mostrou foi moldando as suas convicções, rebeldia, inconformismo, sensibilidade e um espírito sempre livre, onde os homens, os animais e a natureza tinham um lugar especial.

Miguel Torga morreu em Coimbra em 1995, faz hoje precisamente vinte e quatro anos. Escreveu muito, publicou dezenas de livros e, como médico, proporcionou uma melhor vida e saúde a muitos dos homens e mulheres que tanto admirava.

É essa consciência do sofrimento do povo e a sua luta, que creio estarão na base de um dos seus poemas que muito aprecio, cujo título é Sífiso. 

Antes porém, e a fim de melhor o enquadrar, é importante dizer que Sífiso foi um ser da mitologia grega que por ter enganado os Deuses teve a punição eterna de empurrar montanha acima uma grande pedra. Contudo, quando estava perto do cume, uma força desconhecida fazia-a rolar até à base. Apesar disso, ele sempre recomeçava uma nova subida. O outro lado significaria talvez a liberdade, por isso Sífiso nunca desistiu.

Também na vida dos homens e das mulheres que Miguel Torga tanto admirava, tal como na vida de todos nós, as dificuldades e os recomeços são uma realidade.

Como em Sífiso ele tão bem descreve.

 

Sífiso

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

 

 

Imagem retirada de:
https://observador.pt/2015/01/17/casa-museu-miguel-torga-evoca-medico-e-escritor-nos-20-anos-da-sua-morte/

 

zapping

 

Quando um homem se senta no sofá, pega no comando da televisão e faz um zapping, é possível que esse acto conduza ao objectivo a que se propôs, ou seja, o encontrar um programa para ver.

Mas quando uma mulher vai para o sofá e pega no comando, ou já sabe exactamente o que quer ver, ou então o processo não tem essa objectividade e o que se passa a seguir é muito curioso.

Sendo a mente feminina bem mais complexa, é continuamente palco de um encadeado de pensamentos sem princípio nem fim, em que um pensamento leva a outro, este a mais dois ou três (vindos do passado…. ou das expectativas!), depois volta de novo o tal que já tinha aparecido… e obviamente aqueles sempre presentes relacionados com o trabalho, os filhos, a casa, o jantar, o cão, o gato… etc, etc.

A maioria das mulheres saberá do que estou a falar e do filme sem nexo em que por vezes se transforma a sua cabeça.

Quando ela faz um zapping, a atenção centra-se no écran, cenário onde desfilam sequências de imagens (que raramente lhe permitem identificar o programa, mas isso também não é importante!), mas que tem alguma semelhança com o processo que ela constantemente acolhe na sua cabeça. A grande diferença aqui, está no facto de, com grande facilidade, ela ter o controle da situação, bastando-lhe para isso carregar no botão do comando e passar ao canal seguinte, num processo silencioso do tipo: “passa!”. ..”já chega”…”não!” … “fora!”…”que horror”…”este não interessa”…e assim por diante. Durante esse tempo esquece-se do seu “novelo de pensamentos de estimação” e por algum tempo a cabeça fica mais limpa e é alvo de um arejamento. Como se muitos dos pensamentos ficassem para trás juntamente com os canais da televisão!

Se este processo se desenrolar com ela confortavelmente estirada num sofá, funciona um pouco como terapia e como um spa caseiro. E é muito possível que, depois de passar por dezenas de canais, nada tenha encontrado para ver porque, objectivamente, a real intenção do seu zapping não é  essa. Porém, sente-se melhor e mais relaxada.

A partir daqui, são duas as hipóteses mais prováveis: ou adormece no sofá e continua o relaxamento, ou volta para a sua cabeça e para o seu eterno “filme”!