olá primavera!

 

IMG_3316a

 

Folheia hoje a Natureza mais uma página do tempo com a chegada da Primavera.

Curiosa, em vários momentos esta estação já espreitou pelas frestas dos dias e aqueceu demasiado o nosso sentir. O inverno não aceitou bem essa intromissão e esfriou marcadamente as noites das últimas semanas, efeito sentido com amplitudes térmicas diárias que chegaram aos 15 graus, algo dificilmente aceite pelo nosso organismo.

Hoje, finalmente, às 21h 58 m, uma Primavera confiante do seu poder e força abriu a porta do tempo e disse silenciosamente “Estou aqui, cheguei!”

Não sei como o Inverno vai aceitar a sua vinda e os ajustes entre ambos serão certamente por nós sentidos com aceitação ou incompreensão. A Natureza tem humores, mas também discernimento para actuar da forma necessária a partir das premissas e condições a que está exposta, e dos desequilíbrios que nós humanos lhe vamos proporcionando. Infelizmente e da pior forma, diga-se.

Que seja uma doce Primavera nos meandros complexos da história deste hemisfério norte….

Que seja um Outono capaz de harmonizar e acalmar as energias perturbadoras do hemisfério sul….

E por último, que se revele apaziguadora das intranquilidades que habitam em cada um de nós…

 

O planeta terra agradece. E nós também!

 

 

 

Advertisements

o humor dos dias

 

1

 

Limpo
alaranjado
cinzento
ou chuvoso,
o dia acorda
lento
e silencioso.

No ar,
uma energia
que gosto de acompanhar,
com o corpo
e o olhar
num calmo respirar.

Então…

…no meu trajecto diário
e matinal
pelas margens da capital,
em vários dias parei
naquele lugar,
a fim de fotografar
a poesia
a energia
e o humor de cada dia.

Seis dias…seis imagens…

Em cada uma
um sentir
único e pessoal,
talvez alimento visual
para o humor do meu dia!

 

2

 

3

 

4

 

5

 

6

 

Imagens captadas em Lisboa perto das oito horas da manhã, nos dias 28, 29, 30  e 31 de Janeiro e a 1 e 4 de Fevereiro, de um ponto localizado entre o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém.

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2019)

 

 

 

este dia…

 

img_2780a

 

…que está prestes a terminar, assim nasceu na zona de Lisboa.

Por um lado apareceu com uma luz forte, profunda e um tanto mística; e por outro, com uma evidente componente de intranquilidade, transmitida pelas irrequietas nuvens.

Uma hora depois, o rio Tejo e as áreas da cidade a ele adjacentes estavam cobertos de um nevoeiro denso e de um frio penetrante, húmido e muito desagradável.

Esse sentir enevoado manteve-se uma boa parte do dia, talvez para nos preparar para a chuva prevista para amanhã, depois de muitos dias de céu azul, limpo e de um sol vivificante.

Esta alternância e sequência de estados e de humores é nossa também. É minha. É tua. É de todos e de tudo.

É a Natureza, tal e qual!

 

 

 

arquivos rtp

 

 

As novas gerações não conhecerão este genérico que iniciava diariamente as emissões da Radio Televisão Portuguesa (RTP). Mas estou certa que a maioria dos meus leitores portugueses ainda se lembrarão desta animação.

A sua presença neste post resulta do facto de hoje, dia 7 de Março, fazer precisamente 61 anos que a televisão iniciou em Portugal as suas emissões regulares e, simultaneamente, um projecto de expansão logístico, técnico e de divulgação da sua actividade. A entidade/empresa detentora da Televisão pública integra igualmente a Rádio pública, cujas emissões oficiais foram iniciadas cerca de trinta anos antes.

Possuindo um vasto espólio e muita história, a RTP  disponibilizou recentemente online os seus arquivos, proporcionando a todos uma nostálgica viagem pelo tempo.

Organizado por Conteúdos, Colecções e Programas, encontramos neste arquivo uma parte do que foi emitido nestas seis décadas de televisão pública em Portugal. A ideia é apostar no seu crescimento.

Deixo alguns exemplos do vasto acervo disponível:

  • A nível da Informação a escolha é enorme. Destaco apenas a curiosa série “50 anos, 50 notícias” sobre acontecimentos ocorridos em Portugal e no estrangeiro desde a primeira emissão de televisão;
  • No Documentário, refiro a título de exemplo pela sua qualidade, a série sobre os Açores intitulada Ilhas da Bruma, que foi emitida nos anos noventa e que tão bem recordo;
  • Na ficção, encontram-se por exemplo todos os episódios da Vila Faia, a primeira telenovela portuguesa e um marco na história da televisão;
  • No humor, o arquivo disponibiliza mais de três centenas de episódios da série Contra-informação cujos bonecos diariamente nos faziam rir;
  • E encontramos ainda a ficção, o desporto, a história ou a política, entre muitas outras temáticas!

Cada uma oferece um leque enorme de possibilidades, seja em filmes, fotografias ou textos. A pesquisa, também disponível, permite encontrar algo mais especifico que se pretenda.

Vale a pena explorar as potencialidades deste magnífico arquivo, não apenas pelo seu valor histórico, mas por representar um pouco da vida de todos nós e das nossas memórias. Por isso deve ser saudado, apreciado e explorado com carinho!

 

 

Vídeo retirado de: YouTube – Victor Luiz Channel – Vinheta de abertura da RTP1, exibido em 7 de Março de 1957.
© 1957 – RÁDIO E TELEVISÃO DE PORTUGAL (RTP1). (Colaborou Mistério Juvenil)

 

 

greguerías

 

Ramón Gómez de la Serna é um autor madrileno nascido em 1888, que escreveu em vários estilos, passando pelo romance, crónicas, ensaios, biografias, etc. Chegou a viver algumas temporadas em Portugal, no Estoril, falecendo em 1963 em Buenos Aires. Era um homem que vivia à frente do seu tempo, um vanguardista, mas também um provocador, muito apreciado pelos surrealistas.

Para além dos estilos mencionados, entre 1910 e 1963 escreveu inúmeras frases a que chamou Greguerías, algo que mistura a metáfora com o humor. Porque as aprecio pela acutilância mas também pela sensibilidade e humor, deixo aqui uma pequena selecção, esperando que vos agrade.

 
A lua é o espelhinho com que o sol se entretem de noite a inquietar os olhos da terra.

A harpista toca a música do tear.

À tardinha, passa em voo rápido uma pomba que leva a chave para fechar o dia.

Três andorinhas no fio do telégrafo são o alfinete no decote da tarde.

O que define as mulheres é pensarem que todos os homens são iguais, enquanto que o que perde os homens é crerem que todas as mulheres são diferentes.

A neve apaga-se na água.

O relógio não existe nas horas felizes.

As passas são uvas octógenárias.

O arco-irís é o cahecol do céu.

O pó está cheio de velhos e esquecidos espirros.

Na gruta boceja a montanha.

Vê-se que a água a ferver ficou louca e lhe saltam os olhos.

A cabeça é o aquário das ideias.

A imortalidade do caranguejo consiste em andar para trás, rejuvenescendo até ao passado.

A água solta o cabelo nas cascatas.

O mar é a rotativa mais antiga do mundo que publica incessantemente o jornal A Onda.

O chapéu que voa parece que fugiu com todas as ideias daquele que lhe corre atrás.

No primeiro eléctrico da manhã ainda há sonhos do dia anterior.

A posição mais incómoda para um livro é ficar aberto e de bruços no braço de um sofá.

Há suspiros que ligam a vida à morte.

Quando na árvore só ficou uma folha, parece que ficou com a etiqueta do preço.

O salgueiro toca harpa na água.

O Pensador de Rodin é um jogador de xadrez a quem tiraram a mesa.

Génio: o que vive de nada e não morre.

 
(Todos os dados deste post foram retirados do livro Greguerías, uma selecção, editado em 1998 pela Assírio & Alvim, com escolha e tradução de Jorge Silva Melo).