I, Daniel Blake

 

 

Normalmente, a opção de ir ao cinema tem por base o realizador, a temática do filme ou os actores que nele figuram, o que permite um leque razoável de possibilidades e, obviamente, de sensações diferentes após a sua visualização. Ao escolher um filme do realizador britânico Ken Loach, cuja obra se inspira nas condições de vida das pessoas comuns e da classe operária, sabemos à priori que não será pura distracção. Porém, por vezes… pode ser um verdadeiro “murro no estômago”!

I, Daniel Blake, é um filme que…

… nos faz “abanar”, porque nos confronta com uma realidade difícil, comum…mas pessoalmente nunca sentida na pele;

… revela os meandros da segurança social, neste caso da britânica, e como esta apenas se preocupa com números, legislações, formulários e regras, sendo as pessoas meros objectos iguais e padronizados;

… fala do desemprego, da falta de saúde e das incongruências do sistema que gere essas situações;

… confronta a evolução tecnológica com a realidade do cidadão comum e não preparado para ela;

… mostra pessoas reais, sensíveis, que sofrem, choram, sorriem e partilham o pouco que têm;

… apresenta gente boa, humana, mas que o sistema instalado e desumanizado trata indiferentemente;

… coloca lado a lado a frieza e gestos solidários;

… mostra como o significado do termo “ajudar” pode ser ambíguo;

… apresenta uma forma peculiar de lidar com a revolta e com sentimentos de injustiça;

… e é um filme sem saídas e sem esperança…não… é um filme em que a única esperança reside numa pequena e simbólica estante para livros construída com todo o carinho!

Por último, tem a capacidade de nos pôr em confronto com a nossa própria realidade, com o privilégio que é ter saúde, mas igualmente um emprego estável e dinheiro para as necessidades fundamentais, um direito de todos, mas que muitos não têm. A habituação faz-nos facilmente esquecer essas prerrogativas e a senti-las como dados adquiridos. Felizmente que existem realizadores como Ken Loach para lembrar a sua importância,  e para nos ajudar a dar mais valor a tudo o que temos.

I, Daniel Blake,  foi realizado em 2016 e galardoado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes.