de regresso…

 

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…começo por agradecer a todos os que apreciaram o meu ultimo post e nele deixaram de uma forma mais ou menos objectiva o desejo de umas boas férias. Neste momento já não tem sentido responder individualmente a esses comentários, pelo que o faço colectivamente, agradecendo a vossa gentileza.

Para cada um de nós, e dependendo de várias situações, o termo “boas férias” terá uma leitura diferente. Ele é suficientemente ecléctico para, em termos práticos e entre inúmeras possibilidades significar uma viagem pelo mundo…..o prazer em percorrer uma região do país fora da rapidez e da “efemeridade” das auto-estradas…. ou apenas ficar num mesmo lugar a descansar e a usufruir de um tempo de tranquilidade mais ou menos absoluto. E férias pode ser simplesmente o quebrar das habituais rotinas.

No momento em que escrevo estas linhas, reservo-me ao prazer de ainda estar em férias, mas agora em casa. O tempo anterior foi de estrada, de quase dois mil quilómetros partilhados com o meu companheiro, de muitos lugares novos e outros revisitados, de descobertas, de surpresas… e de muita, muita natureza!

A decisão de nada publicar durante duas semanas foi uma premissa que impus a mim própria. Porque não queria o computador no meu olhar nem o blog na minha mente. Como um “filho”, um blog acaba por nos absorver e por capitalizar muita da nossa energia. Queria liberdade de tempo e de compromissos. E foi com esse espírito que parti para férias.

Contudo…

… tal como um filho se aloja na alma, na pele e é uma parte de nós para toda a vida, também o blog se “entranha” nos nossos sentidos, olhar, pensamentos, etc. E assim, naturalmente e sem avisar, ele apareceu sorrateiro associado a uma imagem, a um momento ou lugar, a um detalhe ou sensação.

E com ternura voltei discretamente a este meu espaço em vários momentos, como exemplificarei de seguida.

Assim…

…recordei a natureza artista quando o olhar se cruzou com a expressiva árvore da imagem com que iniciei este post ou ainda com o tronco da fotografia abaixo, ambas captadas no Parque La Salette em Oliveira de Azeméis;

 

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…em vários momentos os passadiços de madeira guiaram-nos por trajectos  ambientalmente mais sensíveis. Com eles eu viajei pela natureza mas igualmente até ao blog, seja aos posts já publicados sobre essas estruturas, seja ao conteúdo que futuramente partilharei sobre outros locais onde estão implantados;

 

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…nas terras quentes de Trás-os-Montes recordei os afectos primaveris ao encontrar este casal de percevejos (Pyrrhocoris apterus, Linnaeus, 1758 ), que indiferentes à agreste envolvente continuavam a sua actividade reprodutora ou, quiçá… talvez partilhassem apenas um afecto veranil!

 

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…foi na periferia da albufeira da Barragem do Azibo (Bragança), que encontrei o lilás de lisboa, não em flores de jacarandá mas nos  vários arbustos de alfazemas que ali espalhavam a sua cor e odor;

 

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…também o humor dos dias esteve no meu sentir e pensamento através das mudanças imprevistas da meteorologia, seja no sol aberto e calor difícil, no fresco desejado, numa inesperada trovoada, na efémera chuva ou no irrequieto vento. Tudo a natureza nos ofereceu!

 

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…este belíssimo castanheiro descoberto num recanto do Parque Nacional de Montesinho trouxe à minha memória o post sobre a árvore europeia do ano. Esta árvore nunca terá certamente esse título, mas proporcionou um encontro cheio de boa e centenária energia!

 

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…e na cidade  de Pinhel, no distrito da Guarda, encontrei o galo do meu cata-vento pousado no cimo da torre de uma Igreja. E sinceramente…pareceu-me tranquilo e bastante feliz!

 

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O que significa tudo isto?

Apenas que não somos estanques e que dentro de nós tudo se relaciona. Essencialmente, este blog sou eu, o meu olhar, o meu sentir e o meu pensar. Como tal, ir sem ele para férias é impossível…porque em muitos momentos ele me apareceu com um sorridente “olá! Talvez as férias tenham sido apenas do computador!!

Por último…

…como sucedeu em anos anteriores, farei outros posts partilhando locais e detalhes destes dias de viagem. Sem tempo nem pressa…porque o tempo ainda é de férias!!

 

(E calmamente também começarei a acompanhar as vossas publicações!)

 

 

 

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o humor dos dias

 

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Limpo
alaranjado
cinzento
ou chuvoso,
o dia acorda
lento
e silencioso.

No ar,
uma energia
que gosto de acompanhar,
com o corpo
e o olhar
num calmo respirar.

Então…

…no meu trajecto diário
e matinal
pelas margens da capital,
em vários dias parei
naquele lugar,
a fim de fotografar
a poesia
a energia
e o humor de cada dia.

Seis dias…seis imagens…

Em cada uma
um sentir
único e pessoal,
talvez alimento visual
para o humor do meu dia!

 

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Imagens captadas em Lisboa perto das oito horas da manhã, nos dias 28, 29, 30  e 31 de Janeiro e a 1 e 4 de Fevereiro, de um ponto localizado entre o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém.

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2019)

 

 

 

ver com outros olhos

 

expo

 

O meu olhar permite-me ver e com ele preencher de imagens os meus dias. É naturalmente sentido como um dado adquirido, a que apenas damos o real valor quando confrontados com a sua falta ou perante situações em que nos apercebemos da realidade de outros que estão impedidos de o ter da mesma forma.

Ver com outros olhos é o título de uma exposição que resultou de uma parceria entre o Movimento de Expressão Fotográfica (MEF) e a Fundação Calouste Gulbenkian através de um projecto associado à arte, no qual foram convidadas pessoas de várias idades e com problemas de visão (amblíopes e cegas totais), para que registassem em imagens algo que tivesse a ver com a sua vida, vivência, percurso, gostos, sonhos, etc. Alguns conseguiram fazê-lo sem ajuda, outros descreveram a sua imagem e construíram-na com o apoio de outros.

Mais do que apostar na criatividade de pessoas com dificuldade de visão, esta exposição aposta na profunda sensibilidade que revelam, quer na escolha de detalhes quer nos pensamentos partilhados e que acompanham as imagens. A exposição é composta por vários módulos baseados em conceitos diferentes.

Todo o espaço expositivo está preparado para ser percorrido e sentido sem o olhar, impondo-se o táctil e o sonoro. Apesar de saber que “Ser cego não é fechar os olhos”, uma das frases que recordo da exposição, em vários momentos tentei agir como se fosse invisual, ou seja, fechei os olhos e senti/ouvi o que me era apresentado. Só posteriormente os abria e confrontava o que tinha percepcionado com a realidade, o que se revelou uma experiência estranha, diferente, mas muitíssimo interessante.

O olhar é uma forma fácil de nos relacionarmos com o mundo. Quem não o tem, desenvolve a “sabedoria dos sentidos” a partir de uma profunda e dorida aprendizagem nascida das dificuldades. E assim constrói um mundo semelhante ao de todos nós e composto igualmente de alegrias, tristezas, sonhos, devaneios, criatividade, paixões e tudo o mais que possamos imaginar. Mas sem facilitismos.

Esta exposição estará patente na Fundação Calouste Gulbenkian (Piso 0), até ao próximo dia 12 de Novembro e tem entrada livre.

 

José Oliveira, um amigo sempre presente neste blog, não só me alertou para a existência desta exposição, como continua a colaborar com o projecto que levou à sua montagem.
A imagem inicial é uma parte de um cartaz sobre a exposição e foi retirada de  https://irisinclusiva.pt/index.php?oid=3138&op=all
A fotografia original é da autoria de Igilcia Andrade / MEF,

 

 

instagram

 

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A necessidade de modernização tecnológica das novas gerações levaram-me a herdar há perto de dois anos um velhinho iPhone…e com ele um mundo totalmente novo, tendo em conta o telemóvel clássico e básico que então possuía.

Mais do que a sua óbvia utilidade em muitas situações práticas, com ele fui levada a descobrir a rede social de partilha de imagens Instagram e uma linguagem do olhar que ainda não tinha explorado de uma forma tão continuada.

Tem sido extremamente gratificante perceber como a nossa sensibilidade se pode tornar permeável ao que nos rodeia quando insistimos em traçar um caminho baseado na disponibilidade e na atenção. Abrimos-nos para o mundo e, reciprocamente, ele faz o mesmo, sendo muitos os detalhes envolventes que atraem o nosso olhar como um íman.

Como poderão verificar nas imagens que integram este post e que representam uma pequena amostra das já publicadas, aprecio uma linguagem simples, minimalista, em que predominam as linhas, a natureza, o detalhe e sempre algum espaço de respiração. Pontualmente a imagem é mais densa, mas terá certamente algo que lhe dará alguma fluidez, leveza ou transparência. Não uso filtros nem artifícios informáticos. Apenas o olhar servido ao natural! Quero ainda acrescentar que não sou uma instagramer fundamentalista, pois algumas das imagens foram obtidas com máquina fotográfica.

Discretamente convido-os a conhecer a dulce-em-pausa. Estou certa que será uma viagem tranquila!

 

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(Creio que quem não pertence a esta rede social de imagens, só poderá aceder ao link através de um computador).

 

 

 

fogo e água

 

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O dia nasceu fogo na região de Lisboa. Nasceu vibrante, esmagador e pousou esta imagem no meu olhar, que agora deixo a repousar neste post .

Mas a água “controla” o fogo, mesmo no céu. Em pouco tempo, as nuvens muito cinzentas tudo cobriram e a chuva, por vezes intensa, continuou a cumprir maravilhosamente o popular ditado Em Abril águas mil.

Entre água e fogo chegará o fim-de-semana. E assim permanecerá, para alimentar todos os gostos e partilhar connosco o seu descanso.

Que seja um tempo tranquilo!

 

 

 

 

ver e não ver

 

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Seguindo ou não as tendências da moda, uns óculos conectam-nos com o mundo quando os nossos olhos já não cumprem autonomamente a sua função. Adaptados com lentes monofocais ou progressivas permitem-nos ver o que queremos e o que não queremos e, de certa forma, também a controlar algumas “inseguranças” ao percebermos mais claramente todos os detalhes que nos rodeiam.

Sendo totalmente apologista do conforto, há muito que uso lentes progressivas, tecnologia que me agradou desde o primeiro instante e com a qual tenho uma forte relação de cooperação e empatia. Ao focar tudo sem necessidade de mudar de óculos, seja o que está próximo, a média ou a longe distância, esta opção permite-me ainda não os perder pois estão sempre no sítio certo.

Mas todas as relações, mesmo as mais próximas e intimas, não são perfeitas. Aprecio a verdade com que os óculos alimentam o meu olhar sobre o mundo, mas há um momento em que me dá um prazer especial traí-los e não os ter colocados. Acontece durante os momentos de higiene, quando me vejo ao espelho e ele me devolve a imagem de uma pessoa bem mais jovem, sem rugas e sem outros detalhes que não vou aqui especificar.

O espelho torna-se mágico! Faz-me sentir mais bonita e por momentos ficar mais próxima da idade interior, da minha real(idade), daquele modo de ser que permanece e que nos faz sentir sempre jovens. E nesses momentos, recordo muitas vezes uma frase de minha mãe, proferida pouco tempo antes de falecer, aos 71 anos: “Filha, eu não percebo…sinto-me ainda uma criança!”

Depois…

… bem…depois acaba a magia do espelho! Coloco os óculos, começa o dia e continua a vida. Quando volto a olhar para ele, já com óculos, sorrio com toda a ternura para aquela quase sexagenária que está ali, também a sorrir para mim….

…que outra coisa poderemos fazer?

 

 

a chuva…

 

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… finalmente chegou e instalou-se nos nossos dias. Dizem os especialistas que ficará ainda por algum tempo… para já, talvez uma semana ou um pouco mais… o que é muito pouco, sabemos; contudo, pode ser que prolongue a sua estadia: afinal, há muito que não era tão bem recebida por todos nós!

Com ela, regressaram imagens e sensações já um pouco esquecidas…

… a tranquilidade que sinto ao vê-la escorregar suavemente nos vidros da janela… gota aqui… gota ali…;

… como é bom estar neste lado, no lado do aconchego, a observar a sua dança selvagem com um vento que de vez em quando sopra furioso e destemido;

… quão agradável é estar protegida no interior de um carro em andamento (com alguém que o guie por mim, obviamente!), enquanto observo e fotografo os efeitos da chuva nos vidros e as imagens deformadas que eles oferecem;

… o arejamento que permitem as “janelas” de céu muito azul que de vez em quando rasgam as nuvens cinzentas em tempo de chuva, como se fosse a própria terra que necessitasse urgentemente de respirar através delas;

… gosto dos momentos em que o sol e a chuva se juntam e, de imediato, passa em “rodapé” no meu pensamento aquele provérbio que sempre dizíamos em crianças em situação semelhante “A chover e a fazer sol, estão as bruxas a comer pão mole”;

… agrada-me a ideia que durante uma chuvada e depois de tanto tempo de secura, existe um “sentimento” de alegria na terra/substrato e nas plantas que nela crescem. E de imaginar que o mostram da única forma que a natureza lhes permite, ou seja, a terra emanando o seu cheiro e as plantas abanando ao vento!

… como sabe bem respirar a “limpeza e a frescura” do ar depois de uma boa chuvada! Ou ainda, como os olhos gostam das cores brilhantes e saturadas pela água da chuva, que aqui e ali faz nascer poças que espelham o céu e o deixam naturalmente penetrar na intimidade da terra;

… e por último…

… a chuva desperta a “meteorologista” escondida que existe em mim! Graças às tecnologias actuais e às imagens via satélite disponibilizadas no site do IPMA, gosto de acompanhar as movimentações e a intensidade das manchas nebulosas que passeiam pela atmosfera. E ir comparando essa evolução com a chuva real que a natureza nos presenteia.

 

Esta, é a versão prosaica da chuva, a que me apetece escrever hoje.

A outra…ficará para um próximo post!