dois dias, um sentir

 

jan 81 - mais leve

 

Sem qualquer objectivo em vista, gosto de passar o olhar pelas datas comemorativas do Calendarr para saber os eventos passados ou futuros.

Hoje, curiosamente, ele revelou-me que ontem foi o Dia de brincar na areia e que hoje, 12 de Agosto, é o Dia do filho do meio. Deliciam-me estes títulos, seja pela factor surpresa seja por chamarem a atenção para aspectos pouco comuns e aparentemente banais. Porém, talvez não seja exactamente assim…

Por um lado a areia…

…qual de nós não se envolveu ou envolve ainda com algum prazer na textura dos infinitos grãos de um areal e aí imagina/cria estranhos mundos ou efémeras construções? Brincar com a areia faz parte do nosso imaginário e do rol de sensações que se guardam nos recantos da memória e da pele. Creio que o nosso lado-criança sempre brinca na areia ao longo da vida, mesmo quando já não o faz ou nem tem areia por perto…

Por outro, aquela sensação de abandono por falta de atenção…

…quantos de nós, tendo ou não irmãos, já não nos sentimos o “filho do meio? E a sensação de ser invisível, indiferente ou quase ignorado em determinadas ocasiões pelo facto de outros, por estatuto, posição ou personalidade conseguirem captar facilmente a atenção e o olhar dos demais…

 

Ambos as datas me levam por aí…

…a sensações guardadas… a solidões sentidas….a detalhes vividos…à infância e aos areais dessa infância….aos castelos de areia…à idade adulta…a uma certa ingenuidade…talvez a tudo isso em conjunto….

Não sei.

Apenas senti que é importante relembrar.

 

 

(Desenho a lápis sobre papel, Janeiro 1981)

 

 

 

 

 

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Um passeio nocturno pela Baixa de Lisboa é um ritual anualmente repetido nesta época festiva.

Gosto de o fazer com o meu companheiro com o espírito de descoberta e sem qualquer compra associada para não desvirtuar os objectivos a que nos propomos: apreciar e registar as iluminações natalícias das principais vias e praças do centro da cidade, e sentir de perto a dinâmica própria da época. Se o primeiro objectivo é sempre gratificante pelo factor surpresa, já o segundo foi um tanto confuso pelo vasto “emolduramento” humano de certas zonas

Constatei mais uma vez que a dupla “pessoas/ luzes” me leva naturalmente a recuar até à infância e à feira anual que agitava a rotina da cidade onde morava no sul do país. Por um lado pelos muitos visitantes que a procuravam; e por outro, pelo jogos luz/cor que o evento oferecia e que para um olhar infantil de há cinquenta anos tinha uma certa magia.

Mas voltemos ao séc. XXI, a Lisboa e a este passeio sempre algo mágico…

…a chuva entretanto caída espalhou luz, brilho, reflexos…e deixou tudo ainda mais bonito, como revela a primeira imagem obtida no “coração” da cidade, a praça do Terreiro do Paço.

 

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Termino com a fachada de uma das principais ópticas do nosso país, onde constatei que a imaginação e o humor também iluminam a cidade!

 

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costurar

 

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Costurar é um diálogo delicado entre as mãos e a máquina, a agulha, as linhas e os tecidos, inclusive quando as mãos seguem o caminho errado e se picam na agulha. É uma actividade que tem uma certa “musicalidade”, facilitando por isso a “dança” dos pensamentos que vão e vêm como uma aragem suave, depois fogem, regressam e voltam a fugir….até à próxima vez!

Nessa agradável agitação, existe uma imagem-pensamento que sempre me aparece e que encaro como uma saudação quando me dedico a essa actividade: a imagem da minha mãe a costurar. Era uma tarefa que ela fazia amiúde, pois elaborava muita da roupa da família, utilizando para isso uma máquina de costura Singer, a pedal, que bem cedo ensinou as filhas a usar.

A primeira memória que guardo dessa actividade remonta aos 4 ou 5 anos de idade. Recordo estar em frente da referida máquina a cozer num papel, mas sem a linha enfiada na agulha. Acompanha-me desses tempos o som daquela “engrenagem” que me parecia complicadíssima, mas também a voz da minha mãe a dizer constantemente para ter muito cuidado e não aproximar os dedos da agulha. Daquele exercício resultavam linhas e linhas de picotado desordenado que, no final, permitiam rasgar o papel em muitos bocadinhos de formatos diferentes, o que era muito engraçado. Mais tarde, já com a linha enfiada na máquina e obviamente com muita ajuda, as bonecas ganharam algumas peças de roupa.

O tempo foi passando, não sentindo qualquer apelo pela costura durante a adolescência e a juventude, o que apenas veio a suceder mais tarde, já em adulta. Não tendo máquina, cheguei a fazer uma peça de roupa cozida à mão o que foi um desafio superado à minha paciência. Porém, para que a epopeia não se repetisse, um familiar emprestou-me uma máquina de costura antiga, em ferro, daquelas que se moviam à custa de força braçal. Um pesadelo em todos os sentidos, não só por ser extremamente pesada, mas porque precisava de alguém que desse à manivela para eu ter as mãos livres para trabalhar.

Esta aventura foi efémera, porque rapidamente decidi comprar a minha primeira máquina de costura. Por questões afectivas foi obviamente uma Singer, que possuía um corpo igual ao da máquina da minha mãe, mas o pedal fora substituído por um motor eléctrico. Transportava-se num saco, era bastante pesada e foi usada por um longo período.

Há alguns anos comecei a alimentar a ideia de possuir um modelo mais recente, fácil de transportar e, principalmente, apetrechada com ziguezague, um ponto muito útil na fase de acabamentos. E assim aconteceu. Mantive-me obviamente fiel à marca, mas esta é uma máquina leve, versátil, com alguns pontos básicos para além do ziguezague e…será certamente uma companheira para o resto da vida!

Herdamos genes, gestos, gostos, modos de estar, princípios, etc. Da minha mãe herdei um pouco de tudo isso, com muito orgulho. Porém, a actividade que mais rapidamente me leva à sua imagem e ao seu tempo é, sem dúvida, a costura. Porque esse legado é importante, teve direito a este post!

 

 

em início de natal…

 

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Com o retorno do feriado de 8 de Dezembro, o país teve novamente disponibilidade de renovar a tradição e de, neste dia, dar verdadeiramente “início” à época natalícia. Em muitos lares é nesta data que se montam as árvores de Natal e/ou os presépios, duas tradições sem nada em comum, mas que cohabitam em várias regiões do planeta e no seio de algumas religiões… ou até no lar daqueles que não são adeptos de nenhuma!

É neste último caso que me “encaixo”…o que não implica que todos os anos a árvore de Natal e o presépio não sejam “religiosamente” montados. Vejo esse ritual como uma tradição que ficou nos meus “genes da memória”…e que gosto e quero manter, mesmo que o significado seja apenas a sua existência e as recordações que me trazem.!

Em criança…
…todos os anos se repetia o ritual de ir com uns amigos à serra de Monchique, cortar um pinheiro e apanhar musgo. Depois seguia-se a decoração da árvore e, principalmente, a montagem do presépio sempre realizada pela minha mãe, o que acontecia ao fundo de um corredor da casa, sobre uma estrutura de bancos, caixas e papel de jornal, com declives, grutas e um lago. Era lindo o que ela conseguia fazer! Decorava-o com figuras de barro, as mesmas que fizeram as delícias de um remoto natal dos meus 3 ou 4 anos…quando acreditava que era o Menino Jesus que trazia as prendas. Essas peças, ainda em bom estado, continuam a estar presentes no meu presépio, quase seis décadas depois. Têm uma carga emocional muito forte e que não esqueço.

Por outro lado, elas ainda são da época em que cada elemento da família colocava um sapato junto à chaminé depois da ceia de Natal… em que as prendas eram abertas apenas de manhã… e igualmente do tempo em que o Menino Jesus, por chegar cheio de fome, deixava sempre sobre a mesa várias nozes abertas pela ranhura, perfeitissimas…maravilha que apenas ele conseguia fazer!!! Adoro estas recordações!

Creio que a imagem dos presépios que a minha mãe construía foi integrada de tal forma, que todos os anos tento humildemente reproduzir, em pequena escala, o que recordo e adorava. Continuo a utilizar musgo… e tem sempre uma cabana tipo gruta…um caminho… um monte…
Em criança, os meus filhos adoravam a montagem do presépio…e de nele colocarem bonecos “Pin y Pons” e da “Playmobil”. Cresceram, sairam de casa e apenas pontualmente participam nesse ritual, que partilho agora com o meu companheiro.

Quanto ao pinheiro, há muitos anos que é artificial. Não tem aquele cheiro único que recordo…mas a Natureza é um bem mais precioso. Em tempos, ofereceram-me um spray com cheiro de pinheiro….acho a ideia “curiosa”…mas era tão falso!!!

No passado dia 8 de Dezembro, segui a tradição, montando o presépio e a árvore de Natal. Que o possa fazer e partilhar, com alegria e prazer, ainda por muitos anos!