sementes mágicas

Um passeio pela natureza é um momento de indescritível alegria. Esqueço problemas, complicações, intranquilidades e até as notícias do mundo. E sinto-me liberta. Apenas estou ali para sentir, observar, fotografar, partilhar…e agradecer a beleza dos lugares que me dão passagem!

Por uma razão ou por outra, sempre me vêm à memória imagens de uma infância que, a par das belas praias algarvias, contemplou igualmente muitos espaços onde a natureza e as plantas silvestres eram presença, áreas que percorríamos na brincadeira ou em passeio.

É nesse contexto que recordo as sementes de uma planta que, após serem separadas de um espigão tinham a capacidade de rodar como se fossem ponteiros de relógio. Geralmente colocávamo-las sobre a roupa para ficarem mais libertas e melhor apreciarmos o movimento. Era uma diversão.

Foi há muito pouco tempo que descobri que se trata de Erodium moschatum vulgarmente conhecida como Erva-relógio ou Agulheira-moscada.

Todos os anos a encontro, mas este ano resolvi olhá-la com um olhar mais fotográfico e partilhar no Discretamente esse detalhe da infância.

Nessa época o tempo não existia e estava bem longe do meu pensar. Ele era o presente, os instantes e a brincadeira. E aqueles ponteiros que rodavam sozinhos durante uns minutos eram magia de um tempo em que o encantamento por isto ou por aquilo acontecia naturalmente.

O tempo passou…a ingenuidade quase voou….mas o gesto recente de separar estas sementes e observar os “ponteiros” foi mais uma vez vivido com alegria, o que me deu vontade de rir porque, objectivamente senti o mesmo e continuo sem saber porque rodam aquelas pontas nem qual será o fenómeno físico que desencadeia o movimento.

E percebi que, definitivamente, não quero saber!

Prefiro continuar a olhar para aquela planta-relógio que guarda “ponteiros mágicos” com uma ignorância que ainda me consegue encantar.

Bom domingo!🤗

antes do verão

Ofereceu-nos o Algarve o primeiro dia de praia e o primeiro banho de mar do ano. Maio é normalmente o mês dessa estreia (raramente a sul, diga-se de verdade), sendo este ano um momento excepcional pelas temperaturas do ar e da água que essa região nos proporcionou.

Adoro esse reencontro do corpo com a areia, com o sol, com a água e, de certa forma, também com a Vida que me habita. Sempre agradeço essa possibilidade renovada que o tempo me vai oferecendo em cada Primavera e que tanta alegria e satisfação me dá.

A maré vazia, a tranquilidade do mar e a transparência da água valorizaram esse primeiro banho, tomado entre ondas suaves e na companhia de um imenso cardume de pequeninos peixes que, pelo brilho pareciam sardinhas. Confirmei essa hipótese mais tarde, ao encontrar dois sem vida à beira-mar. Há sempre aqueles que não resistem à jornada….

Sempre posso caminhar pela beira-mar, mas o primeiro passeio de cada ano com o sol no corpo e os pés na água tem um gosto especial. Representa um reencontro dos sentidos com algo que foi estruturante e que está intimamente ligado à minha pessoa e, sobretudo, à minha sensibilidade. Na realidade sinto uma forte ligação entre a infância/adolescência que tive e a praia/beira-mar que sempre me acompanhou, elo que renovo há quase cinco décadas de uma forma ainda mais intensa quando o palco é o Algarve que me viu crescer.

Nesse envolvimento, em qualquer direcção o olhar reencontra raízes. Seja…

…no céu azul, no mar ou na linha do horizonte

…na beira-mar, nos brilhos ou nos reflexos da areia molhada

…nas pedras, conchas ou algas que espreitam mais ou menos timidamente na areia

…ou na presença das gaivotas que sempre pontuam estes espaços.

No baú das emoções guardei esta “estreia” da época balnear com um sentir especial. E mais do que nunca envolta num grato obrigado a par daquela frase tão certa como é “este momento já ninguém me tira”!

Ao olhar para o estado do mundo as incertezas são imensas. Como nunca as sentimos. Por isso, seja em dias excepcionais como o descrito, seja num daqueles aparentemente igual como o de hoje ou naquele mais difícil que sempre surge no caminho, aproveitemos as suas possibilidades. Afinal todos eles são “vida para ser vivida”. E isso já é tanto! 🤗

o passeio

Para nós foi um agradável passeio de domingo pela bonita vila de Alenquer; para eles, provavelmente um passeio de todos os dias pelo rio com o mesmo nome que atravessa a povoação.

Gosto da tranquilidade que emana desta imagem, tal como gosto dos contrastes que envolve. Por um lado, por se tratarem de espécies muito diferentes; e por outro, pelo facto de um elemento revelar a pose e a calma de um adulto e o outro, a energia, a curiosidade e o ímpeto característicos da infância.

Creio que se equilibram mutuamente. E isso sempre seduz qualquer olhar!

(Alenquer, Lisboa, 17 Abril 2011)

a sopa

Sob o meu olhar descansava uma consistente e bem quente sopa com vários legumes; e em mim habitava o tempo e a disponibilidade para deixar o pensamento divagar ao ritmo lento do seu arrefecimento…e do vapor que teimava em embaciar-me os óculos!

Naturalmente fui levada pelos meandros da palavra sopa, seja pelas histórias lidas e vividas, memórias guardadas ou pelo imaginário que sempre nos habita…

……o primeiro pensamento levou-me a um tempo inimaginável para a mente humana e à teoria da Sopa primordial, aquela eventual mistura de compostos orgânicos que poderá ter estado na origem da vida que habita este nosso planeta. Enfim, um assunto demasiado complexo… que logo foi levado pelo vapor…

……lembrei as sopas/refeições altruístas que tantas instituições distribuem diariamente pelos mais desfavorecidos, um pouco à semelhança das antigas Sopas do Sidónio ou dos pobres, uma doação estabelecida em Portugal durante a 1ª Guerra Mundial pelo interino e controverso presidente Sidónio Pais;

……mergulhei nas Sopas de letras, seja naquele passatempo que é um verdadeiro jogo de escondidas entre o olhar e um mar de letras na busca de determinadas palavras… seja naquela Sopa de letrinhas da minha infância, em que pacientemente se tentava escrever na borda do prato algumas palavras com esse tipo de massa;

……continuei pela minha infância/juventude e lembrei as sopas da minha mãe, sempre deliciosas, especialmente a Sopa de beldroegas que eu tanto gostava ou, no calor do Verão, a sua Sopa Fria, semelhante ao gaspacho, mas não triturada;

……imaginei estar a passear/almoçar na zona de Almeirim, no Ribatejo, e numa colherada mágica apanhar a pedra que a tradicional, robusta e excelente Sopa de Pedra dessa região costuma incluir;

……viajei aos dias em que ainda faço uma Sopa alentejana, encimada pelo ovo escalfado e cheirando deliciosamente a coentros. E depois, por oposição…

……um pensamento menos prosaico trouxe-me à modernidade e às pouco saudáveis sopas instantâneas que habitam as prateleiras dos supermercados… e que há muito não entram em minha casa!

Porém, já prestes a acabar de a comer…ainda surgiu o pensamento de que uma sopa também pode ser doce e ter poesia…

……é o caso da Sopa dourada, um doce conventual confecionado com imensos ovos e ainda mais açúcar que está presente em muitas mesas de Natal do meu país…

…..ou da poética e tão portuguesa Sopa do mar, uma abrangente e deliciosa sopa com gosto a ondas e cheiro a maresia!

Entretanto…terminei-a. E estava excelente!

dois dias, um sentir

 

jan 81 - mais leve

 

Sem qualquer objectivo em vista, gosto de passar o olhar pelas datas comemorativas do Calendarr para saber os eventos passados ou futuros.

Hoje, curiosamente, ele revelou-me que ontem foi o Dia de brincar na areia e que hoje, 12 de Agosto, é o Dia do filho do meio. Deliciam-me estes títulos, seja pela factor surpresa seja por chamarem a atenção para aspectos pouco comuns e aparentemente banais. Porém, talvez não seja exactamente assim…

Por um lado a areia…

…qual de nós não se envolveu ou envolve ainda com algum prazer na textura dos infinitos grãos de um areal e aí imagina/cria estranhos mundos ou efémeras construções? Brincar com a areia faz parte do nosso imaginário e do rol de sensações que se guardam nos recantos da memória e da pele. Creio que o nosso lado-criança sempre brinca na areia ao longo da vida, mesmo quando já não o faz ou nem tem areia por perto…

Por outro, aquela sensação de abandono por falta de atenção…

…quantos de nós, tendo ou não irmãos, já não nos sentimos o “filho do meio? E a sensação de ser invisível, indiferente ou quase ignorado em determinadas ocasiões pelo facto de outros, por estatuto, posição ou personalidade conseguirem captar facilmente a atenção e o olhar dos demais…

 

Ambos as datas me levam por aí…

…a sensações guardadas… a solidões sentidas….a detalhes vividos…à infância e aos areais dessa infância….aos castelos de areia…à idade adulta…a uma certa ingenuidade…talvez a tudo isso em conjunto….

Não sei.

Apenas senti que é importante relembrar.

 

 

(Desenho a lápis sobre papel, Janeiro 1981)

 

 

 

 

 

lisboa natalícia

 

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Um passeio nocturno pela Baixa de Lisboa é um ritual anualmente repetido nesta época festiva.

Gosto de o fazer com o meu companheiro com o espírito de descoberta e sem qualquer compra associada para não desvirtuar os objectivos a que nos propomos: apreciar e registar as iluminações natalícias das principais vias e praças do centro da cidade, e sentir de perto a dinâmica própria da época. Se o primeiro objectivo é sempre gratificante pelo factor surpresa, já o segundo foi um tanto confuso pelo vasto “emolduramento” humano de certas zonas

Constatei mais uma vez que a dupla “pessoas/ luzes” me leva naturalmente a recuar até à infância e à feira anual que agitava a rotina da cidade onde morava no sul do país. Por um lado pelos muitos visitantes que a procuravam; e por outro, pelo jogos luz/cor que o evento oferecia e que para um olhar infantil de há cinquenta anos tinha uma certa magia.

Mas voltemos ao séc. XXI, a Lisboa e a este passeio sempre algo mágico…

…a chuva entretanto caída espalhou luz, brilho, reflexos…e deixou tudo ainda mais bonito, como revela a primeira imagem obtida no “coração” da cidade, a praça do Terreiro do Paço.

 

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Termino com a fachada de uma das principais ópticas do nosso país, onde constatei que a imaginação e o humor também iluminam a cidade!

 

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costurar

 

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Costurar é um diálogo delicado entre as mãos e a máquina, a agulha, as linhas e os tecidos, inclusive quando as mãos seguem o caminho errado e se picam na agulha. É uma actividade que tem uma certa “musicalidade”, facilitando por isso a “dança” dos pensamentos que vão e vêm como uma aragem suave, depois fogem, regressam e voltam a fugir….até à próxima vez!

Nessa agradável agitação, existe uma imagem-pensamento que sempre me aparece e que encaro como uma saudação quando me dedico a essa actividade: a imagem da minha mãe a costurar. Era uma tarefa que ela fazia amiúde, pois elaborava muita da roupa da família, utilizando para isso uma máquina de costura Singer, a pedal, que bem cedo ensinou as filhas a usar.

A primeira memória que guardo dessa actividade remonta aos 4 ou 5 anos de idade. Recordo estar em frente da referida máquina a cozer num papel, mas sem a linha enfiada na agulha. Acompanha-me desses tempos o som daquela “engrenagem” que me parecia complicadíssima, mas também a voz da minha mãe a dizer constantemente para ter muito cuidado e não aproximar os dedos da agulha. Daquele exercício resultavam linhas e linhas de picotado desordenado que, no final, permitiam rasgar o papel em muitos bocadinhos de formatos diferentes, o que era muito engraçado. Mais tarde, já com a linha enfiada na máquina e obviamente com muita ajuda, as bonecas ganharam algumas peças de roupa.

O tempo foi passando, não sentindo qualquer apelo pela costura durante a adolescência e a juventude, o que apenas veio a suceder mais tarde, já em adulta. Não tendo máquina, cheguei a fazer uma peça de roupa cozida à mão o que foi um desafio superado à minha paciência. Porém, para que a epopeia não se repetisse, um familiar emprestou-me uma máquina de costura antiga, em ferro, daquelas que se moviam à custa de força braçal. Um pesadelo em todos os sentidos, não só por ser extremamente pesada, mas porque precisava de alguém que desse à manivela para eu ter as mãos livres para trabalhar.

Esta aventura foi efémera, porque rapidamente decidi comprar a minha primeira máquina de costura. Por questões afectivas foi obviamente uma Singer, que possuía um corpo igual ao da máquina da minha mãe, mas o pedal fora substituído por um motor eléctrico. Transportava-se num saco, era bastante pesada e foi usada por um longo período.

Há alguns anos comecei a alimentar a ideia de possuir um modelo mais recente, fácil de transportar e, principalmente, apetrechada com ziguezague, um ponto muito útil na fase de acabamentos. E assim aconteceu. Mantive-me obviamente fiel à marca, mas esta é uma máquina leve, versátil, com alguns pontos básicos para além do ziguezague e…será certamente uma companheira para o resto da vida!

Herdamos genes, gestos, gostos, modos de estar, princípios, etc. Da minha mãe herdei um pouco de tudo isso, com muito orgulho. Porém, a actividade que mais rapidamente me leva à sua imagem e ao seu tempo é, sem dúvida, a costura. Porque esse legado é importante, teve direito a este post!

 

 

em início de natal…

 

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Com o retorno do feriado de 8 de Dezembro, o país teve novamente disponibilidade de renovar a tradição e de, neste dia, dar verdadeiramente “início” à época natalícia. Em muitos lares é nesta data que se montam as árvores de Natal e/ou os presépios, duas tradições sem nada em comum, mas que cohabitam em várias regiões do planeta e no seio de algumas religiões… ou até no lar daqueles que não são adeptos de nenhuma!

É neste último caso que me “encaixo”…o que não implica que todos os anos a árvore de Natal e o presépio não sejam “religiosamente” montados. Vejo esse ritual como uma tradição que ficou nos meus “genes da memória”…e que gosto e quero manter, mesmo que o significado seja apenas a sua existência e as recordações que me trazem.!

Em criança…
…todos os anos se repetia o ritual de ir com uns amigos à serra de Monchique, cortar um pinheiro e apanhar musgo. Depois seguia-se a decoração da árvore e, principalmente, a montagem do presépio sempre realizada pela minha mãe, o que acontecia ao fundo de um corredor da casa, sobre uma estrutura de bancos, caixas e papel de jornal, com declives, grutas e um lago. Era lindo o que ela conseguia fazer! Decorava-o com figuras de barro, as mesmas que fizeram as delícias de um remoto natal dos meus 3 ou 4 anos…quando acreditava que era o Menino Jesus que trazia as prendas. Essas peças, ainda em bom estado, continuam a estar presentes no meu presépio, quase seis décadas depois. Têm uma carga emocional muito forte e que não esqueço.

Por outro lado, elas ainda são da época em que cada elemento da família colocava um sapato junto à chaminé depois da ceia de Natal… em que as prendas eram abertas apenas de manhã… e igualmente do tempo em que o Menino Jesus, por chegar cheio de fome, deixava sempre sobre a mesa várias nozes abertas pela ranhura, perfeitissimas…maravilha que apenas ele conseguia fazer!!! Adoro estas recordações!

Creio que a imagem dos presépios que a minha mãe construía foi integrada de tal forma, que todos os anos tento humildemente reproduzir, em pequena escala, o que recordo e adorava. Continuo a utilizar musgo… e tem sempre uma cabana tipo gruta…um caminho… um monte…
Em criança, os meus filhos adoravam a montagem do presépio…e de nele colocarem bonecos “Pin y Pons” e da “Playmobil”. Cresceram, sairam de casa e apenas pontualmente participam nesse ritual, que partilho agora com o meu companheiro.

Quanto ao pinheiro, há muitos anos que é artificial. Não tem aquele cheiro único que recordo…mas a Natureza é um bem mais precioso. Em tempos, ofereceram-me um spray com cheiro de pinheiro….acho a ideia “curiosa”…mas era tão falso!!!

No passado dia 8 de Dezembro, segui a tradição, montando o presépio e a árvore de Natal. Que o possa fazer e partilhar, com alegria e prazer, ainda por muitos anos!