o navegador

 

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Seiscentos anos depois, o Infante D. Henrique, de cognome O Navegador e o grande impulsionador dos descobrimentos portugueses, enfrentou impávido e sereno um “monstro” disforme chamado nevoeiro, que esta manhã se formou no rio Tejo antes do nascer do dia.

Não resisti a  captar esta imagem, não apenas pelo simbolismo, mas pelo profundo respeito e admiração que tenho pelos portugueses daquela época. Nas piores condições, eles enfrentaram os “monstros”, interiores e exteriores, para seguir o sonho de descobrir o que estava para além da linha do horizonte.

Algumas horas depois, já apaziguado, este “monstro” dissipou-se, continuando o Infante a sua eterna tarefa de perscrutar o além.

 

Deste modo, e em tons de nevoeiro e de descobertas…desejo a todos um excelente fim-de-semana!

 

 

 

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o professor

 

trevo

 

Quando somos jovens, é comum encontrarmos pessoas que nos mostram perspectivas para as quais não estamos ainda preparados. Mas os seus valores tocam-nos, ficam alojados no nosso sentir e, com o passar do tempo e de um natural amadurecimento da nossa mente e sensibilidade, lentamente eles vão germinando e sendo percepcionados de forma diferente. Começamos então a perceber a importância de determinados ensinamentos, daquele olhar que insistentemente nos foi mostrado ou da crítica por vezes dura que nos foi direccionada. E a sentir que tudo isso poderá ter um papel importante no nosso percurso pela vida.

Se estivesse vivo, o artista, escultor e professor de várias gerações Lagoa Henriques (1923-2009) faria hoje 94 anos. Na foto acima, captada em 1981, eu teria 23 anos e o professor estaria perto dos sessenta, curiosamente onde eu hoje me situo.
No primeiro curso de conservação e restauro ocorrido em Portugal e iniciado nesse mesmo ano, o professor deu-nos aulas práticas de desenho, centradas em objectos ou modelo vivo. Nessa época, a minha noção de desenho estava muito associada ao “perfeitinho e bem acabado”, muito diferente da espontaneidade do desenho-emoção que o professor constantemente nos tentava incutir, insistindo que entre o olhar e o papel, deveria estar o sentir. Sem ele, seria uma cópia sem expressão.

Diria que o seu objectivo foi o ensinar-nos a olhar e a entender a essência da mensagem/imagem, o que ele fazia de diversas formas. Além disso, incentivava todos os seus alunos a registar o que viam, a fazer diários gráficos, a treinar a mão e sempre, sempre o olhar.

Entretanto…ainda antes do final do curso tive a minha filha e um pouco mais tarde o meu filho, tendo o meu tempo e o meu olhar muito com que se entreter. Porém, com o passar dos anos, percebi que algo continuava a fervilhar dentro de mim, não me bastando a ideia de “ter algum jeito para desenho”. Era um sentir que teria que enfrentar e explorar pois, apenas dessa forma poderia eventualmente dar o tal salto que separa o perfeito do espontâneo, o falso do genuíno, o ver do verdadeiro olhar, aspectos para os quais o professor me tinha alertado e sensibilizado.

Seguindo esse profundo sentir, decidi então iniciar registos em diários gráficos e fazer muitas experimentações. Parti a medo, com aquele medo com que se enfrenta um lugar desconhecido, em que sabemos ir encontrar desafios e sentir muita frustração. Mas que será o único com possibilidade de nos levar a determinado lugar.

Apenas posso dizer que os períodos de empenhamento e alegria têm alternado com a desmotivação, que encontrei muitas vezes a frustração a par do momento gratificante, que ultrapassei alguns medos e que a mão está um pouco mais solta e o olhar mais treinado. Porém, é especialmente a confiança que tem muito para amadurecer. Ainda.

Sei que será um trabalho para a vida, pelo que me imagino uma velhinha a fazer uns rabiscos tremidos. Contudo, tenho a certeza que se o dia desta foto fosse hoje, as críticas e as dicas seriam algo diferentes. E perceber isso, já é para mim uma vitória.

Quando olho para trás, vejo o mestre Lagoa Henriques como o professor que mais me marcou e mais sementes deixou na minha sensibilidade, na medida em que me ensinou a olhar, a relacionar e a sentir emoção com a estética desse olhar. E esse é um ensinamento que tenta estar presente em todos os momentos da minha vida e do meu dia-a-dia. Hoje mais do que nunca.

Apesar de ausente deste espaço-tempo, estou certa que ele continua a estar presente na vida de muitos dos alunos que ensinou. E onde quer que esteja… talvez continue a partilhar a sua enorme sensibilidade.

 


Autor de muitas esculturas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, o escultor Lagoa Henriques tem no centro de Lisboa uma das suas obras mais conhecidas: a representação do poeta Fernando Pessoa sentado na esplanada do café A Brasileira, em pleno Chiado, obra constantemente requisitada para uma fotografia por muitos dos turistas que visitam a capital portuguesa.

 

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http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/fernando-pessoa

 

 

hoje

 

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O dia de hoje nasceu húmido e colorido na região de Lisboa, como revela esta imagem que a janela de minha casa permitiu ao primeiro olhar da manhã.

Bancos de nevoeiro descansavam nos vales e uma nuvem horizontal, com vontade de ser diferente das restantes, pontuava o espaço e fazia nascer uma nova paisagem e uma nova linha do horizonte.

Respirei fundo e agradeci. Certamente que com este prelúdio, será um dia bom!

 

 

cantando violeta parra

 

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No início de Abril, publiquei um post sobre a cantora chilena Violeta Parra, no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento (1917-1967).

Volto hoje ao assunto, uma vez que na próxima terça-feira dia 12 de Setembro, a filha e a neta de Violeta Parra, respectivamente Isabel e Tita Parra, estarão no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para dar um concerto integrado na programação de Passado e Presente – Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017.

Serão cantados os temas mais emblemáticos de Violeta Parra e outros da autoria das suas descendentes, num espectáculo que irá certamente aliar a música popular, tradicional e de intervenção chilena com uma forte componente emocional, tendo em conta os laços familiares e afectivos que estarão sobre o palco. Este espectáculo é organizado pela Secretaria de Cultura do Governo do Chile.

Ainda no âmbito deste centenário, a 4 de Outubro, dia em que a cantora completaria cem anos, haverá na Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário, sediada em Lisboa, um outro espectáculo musical, este produzido pelo grupo el Sur.

Serão momentos com características diferentes, mas estou certa que ambos terão como lema a partilha, a força e a paixão que orientaram a vida desta mulher.

 

 

 

dois tempos

 

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Esta imagem conta uma história, para além das histórias incógnitas de cada uma das pessoas que nela aparecem.

Entre a inauguração desta ponte sobre o rio Tejo que ocorreu em 1966 e a inauguração em 2016 do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), cuja fachada aparece parcialmente à esquerda, passaram cinquenta anos na história da cidade. Nasceram duas gerações de cidadãos, saímos de uma ditadura para uma democracia, o país aprendeu a respirar e a explorar o seu potencial, e Lisboa, sempre na vanguarda desse processo, acompanhou com grande disponibilidade essa abertura ao mundo.

Nesta imagem, a ponte e o museu, o passado e o presente, estão em profunda harmonia. Sente-se na cumplicidade das linhas que “desenham” ambas as estruturas, no rio que justifica a sua presença nestes locais ou, ainda, na forma como atraem o nosso olhar, que se deleita com tal elegância.

A luz que tudo envolve, não é passado nem presente, é eterna presença.

É simplesmente a luz de Lisboa!

 

 

a procissão

 

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Em Portugal, a primeira procissão do Corpo de Deus (Corpus Christi) decorreu em Lisboa em 1389, atingindo esta celebração o seu auge no séc. XVIII durante o reinado de D. João V. Nessa época incorporava as ordens religiosas, mas igualmente as militares e as corporações profissionais da cidade, reflectindo a organização do reino e, sobretudo, a grande importância da igreja e do rei.

No século seguinte houve um período em que não se realizou, mas foi posteriormente retomada ocorrendo a partir daí anualmente por ocasião do dia do Corpo de Deus, festa do calendário católico que se celebra na quinta-feira a seguir ao Pentecostes.

Desde sempre que o Município de Lisboa se empenhou nesta procissão, tradição que se mantém ainda hoje com a participação no cortejo das principais forças da autarquia.
Deixo aqui a história deste evento, sugerindo a sua leitura para melhor perceber a importância que teve na vida da cidade.

A recriação dessa procissão, através de 1587 miniaturas em barro não cozido, encontra-se actualmente exposta numa enorme vitrina da sala do capítulo do Convento da Graça, no bairro com o mesmo nome.
O autor de tal empreendimento foi o empresário e ceramista Diamantino Tojal (1897-1958), que as elaborou entre 1944 e 1948. Nessa época todo o conjunto esteve exposto no Palácio Galveias, o que não mais se repetiu até à actualidade.

Mais do que a qualidade ou pormenor das peças, esta exposição tem um notável valor documental, pois permite perceber a dimensão e a organização do cortejo. A cargo da imaginação de cada visitante ficará a visualização do que não está recriado, como a multidão que seguia na cauda da procissão ou as ruas completamente engalanadas por onde passava.

A sala onde se encontra esta mostra foi recentemente restaurada, tal como a portaria e um dos claustros do convento, espaços que podem ser visitados gratuitamente. De notar que as miniaturas apenas estarão expostas até ao próximo dia 1 de Outubro.

Também a zona envolvente ao Convento/Igreja da Graça foi requalificada, oferecendo agora mais zonas pedonais. Vale a pena dar uma volta pelo jardim, espreitar a vista do miradouro ou descansar na esplanada aí existente. O bairro da Graça tem muitos detalhes arquitectónicos interessantes, alguns relacionados com as vilas operárias que acolheu no início do século XX e que ainda preserva. Deambular por ele e pelas áreas circundantes, permite juntar o passado com a modernidade que nos é transmitida por algumas pinturas murais realizadas no âmbito da street art.

Termino com uma imagem da cidade obtida a partir do miradouro da Senhora do Monte, localizado a poucas centenas de metros do Convento da Graça. Na foto, este espreita à esquerda e olha para o Tejo e para o seu vizinho castelo, implantado numa colina adjacente.

 

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tradições

 

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Neste dia em que a capital portuguesa está em festa, em que é feriado e dia de Santo António, em que meio mundo está de ressaca porque ontem foi dia de casamentos colectivos mas igualmente noite de folia, de marchas populares e de arraiais, de muitas febras, sardinha assada e bebida… ou seja, neste tempo em que Lisboa revive as suas tradições mais genuínas, vou publicar um post bastante sóbrio, mas igualmente relacionado com a alma que anima a cidade.

Referi há algum tempo  a existência de uma plataforma digital que permite Conhecer e contar a cidade de Lisboa. Dentro do mesmo espírito, foi recentemente lançada uma outra que nos permite conhecer antigas lojas da cidade, espaços ainda activos e que ficam com a possibilidade de ser abrangidos pelo Fundo Municipal de Apoio às Lojas com História, cujas verbas facilitarão a sua conservação e a manutenção da actividade. Esta plataforma permite igualmente a candidatura de novos espaços a esse título.

O mais importante, é que Lojas com história surge depois de alguns espaços comerciais não terem sobrevivido à recuperação/reconstrução de edifícios para hotelaria ou lojas de franchising, surgidos como resposta ao boom turístico que se tem verificado nos últimos anos na capital portuguesa. A criação destes apoios e desta plataforma de divulgação será uma forma de as dar a conhecer, preservar, proteger legalmente e de ajudar os proprietários a mantê-las em condições, tornando assim mais difícil o seu desaparecimento.

Quem conhece Lisboa e muitos dos seus recantos, é com uma certa emoção que passeia pela história destas lojas, aliando as memórias que delas detém com a esperança de as ver preservadas e activas. Doravante, é bom saber que em qualquer momento que a elas recorra, é muito maior a hipótese de as encontrar abertas e no mesmo lugar.

Porque muitos já sentimos o contrário, não posso deixar de divulgar qualquer iniciativa que promova a sua preservação.

Entretanto… haja festa e alegria em cada recanto de Lisboa!

 

 

Imagem retirada de http://lojascomhistoria.pt/lojas/ferragens-guedes