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desenho capa

Desde criança que encontraste nos livros a principal forma de satisfazer a tua curiosidade sobre a vida e sobre o mundo.

Cresceste.

O mundo continua a fazer parte das tuas experiências de vida e os livros persistem em ser uma parte fundamental do teu mundo…e também da tua bagagem!

Nesta data folheias uma simbólica página do livro da vida, a trigésima… página ainda em branco, mas por isso mesmo replecta de possibilidades e de leituras!

Um forte abraço de mãe…e boas viagens pela vida!

 

 

 

greguerías

 

Ramón Gómez de la Serna é um autor madrileno nascido em 1888, que escreveu em vários estilos, passando pelo romance, crónicas, ensaios, biografias, etc. Chegou a viver algumas temporadas em Portugal, no Estoril, falecendo em 1963 em Buenos Aires. Era um homem que vivia à frente do seu tempo, um vanguardista, mas também um provocador, muito apreciado pelos surrealistas.

Para além dos estilos mencionados, entre 1910 e 1963 escreveu inúmeras frases a que chamou Greguerías, algo que mistura a metáfora com o humor. Porque as aprecio pela acutilância mas também pela sensibilidade e humor, deixo aqui uma pequena selecção, esperando que vos agrade.

 
A lua é o espelhinho com que o sol se entretem de noite a inquietar os olhos da terra.

A harpista toca a música do tear.

À tardinha, passa em voo rápido uma pomba que leva a chave para fechar o dia.

Três andorinhas no fio do telégrafo são o alfinete no decote da tarde.

O que define as mulheres é pensarem que todos os homens são iguais, enquanto que o que perde os homens é crerem que todas as mulheres são diferentes.

A neve apaga-se na água.

O relógio não existe nas horas felizes.

As passas são uvas octógenárias.

O arco-irís é o cahecol do céu.

O pó está cheio de velhos e esquecidos espirros.

Na gruta boceja a montanha.

Vê-se que a água a ferver ficou louca e lhe saltam os olhos.

A cabeça é o aquário das ideias.

A imortalidade do caranguejo consiste em andar para trás, rejuvenescendo até ao passado.

A água solta o cabelo nas cascatas.

O mar é a rotativa mais antiga do mundo que publica incessantemente o jornal A Onda.

O chapéu que voa parece que fugiu com todas as ideias daquele que lhe corre atrás.

No primeiro eléctrico da manhã ainda há sonhos do dia anterior.

A posição mais incómoda para um livro é ficar aberto e de bruços no braço de um sofá.

Há suspiros que ligam a vida à morte.

Quando na árvore só ficou uma folha, parece que ficou com a etiqueta do preço.

O salgueiro toca harpa na água.

O Pensador de Rodin é um jogador de xadrez a quem tiraram a mesa.

Génio: o que vive de nada e não morre.

 
(Todos os dados deste post foram retirados do livro Greguerías, uma selecção, editado em 1998 pela Assírio & Alvim, com escolha e tradução de Jorge Silva Melo).

 

bd

 

A banda desenhada é uma área da literatura que me passou um pouco ao lado, sendo raros os livros desse tipo que li durante a infância e adolescência.

Apenas há alguns anos comecei a lhes prestar alguma atenção em virtude de partilhar a minha vida com um grande apreciador de banda desenhada e, por esse facto, ter acesso a muitos livros especialmente da corrente franco-belga, cuja origem remonta aos anos vinte do século passado, com a publicação dos primeiros livros da série Tintin.

De início, o que mais me atraiu foi o aspecto técnico de certos livros e autores, sendo um dos primeiros Hugo Pratt, autor de origem italiana. Este criador, de forte personalidade e espírito aventureiro, transmitiu a sua vida atribulada mas também a sua classe como artista, especialmente através da sua personagem mais conhecida, o marinheiro Corto Maltese. O seu traço é espontâneo e extremamente expressivo, parecendo de fácil execução, apesar de não o ser certamente.

O facto de gostar de desenhar, levou-me a olhar essencialmente para essa vertente. A temática dos livros não era importante. Mas com o tempo comecei a apreciar igualmente essa componente, na medida em que percebi o enorme leque de assuntos disponíveis e que passam pelas condições sociais e humanas, politica, religião, história, mas também sobre a vida e os problemas de todos os dias, o erotismo, as relações afectivas, etc, etc. E igualmente pela aventura e imaginação! Neste campo da aventura, por exemplo, os livros da série Jonathan de Cosey, que falam de um périplo de um jovem europeu pela Ásia com passagem pelos Himalaias, India, Nepal e Tibete ocupado, foram dos primeiros que apreciei sob os dois pontos de vista. Já no campo da imaginação e do fantástico, um exemplo bastante conhecido até porque está traduzido em português, são os livros da série Les Cités Obscures de François Shuiten, cujas histórias decorrem em mundos paralelos ao nosso e que têm muito bons desenhos.

Hoje sou capaz de ler um livro porque o tema me interessa apesar do desenho não me cativar especialmente, caso do título  L’Arabe du futur  de Riad Sattouf, sendo o contrário difícil, como me sucedeu recentemente com o livro Pawnee da série Sagas Indiennes de Patrick Prugne. Nesta situação, apenas vejo os desenhos, muitas vezes fabulosos.

Outros existem em que tudo agrada, quer pela história quer pelo desenho, como está a acontecer com a série Les chemins de Compostelle, da autoria do criador belga Jean-Claude Servais, que terá provavelmente cinco volumes, tendo saído até agora apenas dois.

Por se tratar de um mundo muito interessante (e vastíssimo!) que estou a descobrir, quis partilhar convosco este post. Talvez aguce o apetite…

 

lisboa e os jacarandás

 

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A floração dos jacarandás coincide normalmente com o decorrer da Feira do Livro de Lisboa. Todos os anos este ciclo se repete, na natureza e na cultura da cidade, momento a que assistimos com prazer. É certo que significa que passou mais um ano no cronograma da nossas vidas, mas perante o privilégio de poder apreciar este pulsar da cidade, só podemos ficar felizes.

Como uma história no livro da natureza, acompanhamos em cada página o desabrochar destas flores. Começa uma, depois outra, sendo mais e mais em cada dia, atingindo o auge da floração em Junho, mês do feriado da cidade e das suas festas.

Neste hino de cor e beleza, em poucos dias também o chão se transforma. Ruas, jardins e praças ficam cobertas de flores caídas, surgindo a oportunidade única de cada uma viver uma segunda vida, porque todos as voltamos a apreciar nessa nova situação. Neste capítulo do livro, todas as páginas estão coloridas daquele azul-lilás lindo, que desfolhamos com prazer ao passar o olhar pelos recantos da cidade.

A história continua por mais algumas páginas. Termina gradualmente com o início da nova estação, com o fim das festas da cidade e, talvez, com o fim da leitura daquele livro que compramos na feira.

Algum tempo depois, as flores dos jacarandás simplesmente desaparecerão do chão que as acolheu. Ciclo cumprido e fim da história.

Para o ano tudo recomeçará na Primavera, num novo ciclo, com novos livros, novas páginas e muita cor.

Que a vida nos permita assistir novamente a ele!

 

livros miniatura

A pequena exposição que se encontra patente na Biblioteca de S. Domingos de Rana sobre livros miniatura é uma delícia. Também as condições que esse espaço oferece ao público foram uma agradável surpresa, dada a modernidade do edifício, as amplas instalações e a luminosidade que o envolve.

Esta exposição, que consta de dois núcleos (o outro encontra-se na Biblioteca Municipal de Cascais – Casa da Horta da Quinta de Sta. Clara), é apenas uma pequena amostra dos cerca de quinhentos livros que o coleccionador João Lizardo possui. São pequenas relíquias expostas em mesas-vitrinas, abrangendo temáticas, estilos e épocas muito diferentes e que nos levam facilmente para uma outra dimensão. Apetece imenso tocar-lhes e desfolhar as suas pequenas páginas… mas tal só é mesmo possível com o olhar!

Merece uma visita!

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