divagações temporais

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Um novo mês…
…e literalmente uma nova folha na minha vida!

Sempre que início uma nova página no livro de ponto que diária e obrigatoriamente tenho que assinar como funcionária do estado, penso: como estarei quando preencher a última linha deste mês?
Pergunta sem resposta, porque o futuro não tem resposta. Apenas possibilidades.

Cada linha está dividida em células, sendo quatro as que me são concedidas em cada dia. Quatro células com tempo…e algumas ideias fantasiosas…

…certamente que o tempo, algo tão volátil e indomável, se deve sentir amarrado e comprimido dentro de cada uma daquelas células…

…sempre que rubrico uma célula, meto-me com o tempo…talvez, até lhe faça algumas cócegas com a caneta…

…e nesse momento silencioso por vezes “ouço”: Ok, Dulce, agradece, este tempo já é teu!

E a Dulce agradece!

– De uma forma mais ou menos tranquila no momento em que rubrico a primeira célula no início de cada mês, como hoje aconteceu mais uma vez;

– E de uma forma bem mais agradecida, ao rubricar a última “célula de tempo” de um mês que termina, como ontem sucedeu…

Nos restantes dias, encaro pontualmente aquele livro e as suas páginas com este pensamento: “Se a Vida o permitir, que surpresas me reserva o “tempo escondido” em todas estas células ainda “virgens”?
Ou nas páginas ainda por preencher?
Ou…em futuros livros?

 

(…a imaginação é a melhor forma de lidar com as “grilhetas” de um livro de ponto!!)

 

 

 

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livrar

 

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Disponibilizar livros que já não queremos ou ter acesso a outros que gostaríamos de ler é o que a plataforma digital LIVRAR permite desde meados deste mês.

Basta criar uma conta, escolher o que queremos fazer e posteriormente combinar a melhor forma de dar ou receber determinado livro. As bibliotecas também têm acesso a esta plataforma.

Este projecto, intitulado Cultura para todos, venceu em 2017 o Orçamento Participativo de Portugal (OPP) na Área da Cultura, e resultou de uma ideia dos cidadãos João Gonçalo Pereira e Tiago Veloso. Tem o apoio do Ministério da Cultura.

O início de novo ano é o momento ideal de olharmos para as nossas estantes e encontrar os livros que já pouco nos dizem e podem ir com o “ano velho”. E, quiçá, encontrar no LIVRAR outros que estavam em lista e que podem contribuir para crescermos um pouco no novo tempo que vai começar.

Boas trocas e melhores leituras!

 

(Imagem retirada de https://livrar.pt/)

 

 

 

o tempo e a biblioteca

 

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A evolução no sector das bibliotecas públicas tem sido enorme. Naturalmente sou levada a comparações com o que se passava há algumas décadas atrás (anos 60/70), nomeadamente no sul de Portugal, onde residia. Nesse tempo, apesar da variedade de livros juvenis disponível ser muito limitada e por vezes as leituras se repetirem, o acto de ir à biblioteca sempre foi um ritual importante.

Décadas depois, com a chegada do século XXI e de novas tecnologias, as bibliotecas adaptaram-se naturalmente a esses tempos. Hoje, sou utilizadora das bibliotecas do concelho de Oeiras, um corpo único formado por três pólos (Oeiras, Algés e Carnaxide) que é alimentado por um funcional sistema informático em rede que permite reservar a partir de qualquer computador livros, e-books, cd’s musicais ou dvd’s (filmes, documentários, etc), que, se disponíveis, em pouco tempo poderão ser levantados no núcleo desejado. Oferecem ainda um rol de recursos e de actividades, para adultos e crianças, gratuitos e servidos com muita simpatia.

Actualmente são muitas as bibliotecas integradas na Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP), uma estrutura em crescimento que abrange grande parte do país e integra excelentes espaços e equipamentos. Para os que ainda não as têm, existem as bibliotecas itinerantes que espalham pequenos prazeres pelas zonas mais distantes e recônditas, o que, em pleno século XXI, não deixa de ser simultaneamente estranho e delicioso.

Se as bibliotecas do século passado foram o espaço do livro em papel, o aparecimento da internet e do multimédia permitiu uma saudável coabitação entre todos esses meios, alargando horizontes e possibilidades de escolha. A minha geração teve o privilégio de assistir a tudo isso e, curiosamente, de se adaptar com toda a tranquilidade a estas mudanças. Neste campo, como em muitos outros, diga-se de passagem.

Porque admiro imenso este “sistema circulatório de cultura” que espalha gratuitamente saber pelos recantos do meu país, acho que deve ser valorizado e lembrado.

Especialmente hoje, no Dia Mundial das Bibliotecas!

 

 

Imagem retirada do site da Câmara Municipal de Oeiras

 

 

 

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desenho capa

Desde criança que encontraste nos livros a principal forma de satisfazer a tua curiosidade sobre a vida e sobre o mundo.

Cresceste.

O mundo continua a fazer parte das tuas experiências de vida e os livros persistem em ser uma parte fundamental do teu mundo…e também da tua bagagem!

Nesta data folheias uma simbólica página do livro da vida, a trigésima… página ainda em branco, mas por isso mesmo replecta de possibilidades e de leituras!

Um forte abraço de mãe…e boas viagens pela vida!

 

 

 

greguerías

 

Ramón Gómez de la Serna é um autor madrileno nascido em 1888, que escreveu em vários estilos, passando pelo romance, crónicas, ensaios, biografias, etc. Chegou a viver algumas temporadas em Portugal, no Estoril, falecendo em 1963 em Buenos Aires. Era um homem que vivia à frente do seu tempo, um vanguardista, mas também um provocador, muito apreciado pelos surrealistas.

Para além dos estilos mencionados, entre 1910 e 1963 escreveu inúmeras frases a que chamou Greguerías, algo que mistura a metáfora com o humor. Porque as aprecio pela acutilância mas também pela sensibilidade e humor, deixo aqui uma pequena selecção, esperando que vos agrade.

 
A lua é o espelhinho com que o sol se entretem de noite a inquietar os olhos da terra.

A harpista toca a música do tear.

À tardinha, passa em voo rápido uma pomba que leva a chave para fechar o dia.

Três andorinhas no fio do telégrafo são o alfinete no decote da tarde.

O que define as mulheres é pensarem que todos os homens são iguais, enquanto que o que perde os homens é crerem que todas as mulheres são diferentes.

A neve apaga-se na água.

O relógio não existe nas horas felizes.

As passas são uvas octógenárias.

O arco-irís é o cahecol do céu.

O pó está cheio de velhos e esquecidos espirros.

Na gruta boceja a montanha.

Vê-se que a água a ferver ficou louca e lhe saltam os olhos.

A cabeça é o aquário das ideias.

A imortalidade do caranguejo consiste em andar para trás, rejuvenescendo até ao passado.

A água solta o cabelo nas cascatas.

O mar é a rotativa mais antiga do mundo que publica incessantemente o jornal A Onda.

O chapéu que voa parece que fugiu com todas as ideias daquele que lhe corre atrás.

No primeiro eléctrico da manhã ainda há sonhos do dia anterior.

A posição mais incómoda para um livro é ficar aberto e de bruços no braço de um sofá.

Há suspiros que ligam a vida à morte.

Quando na árvore só ficou uma folha, parece que ficou com a etiqueta do preço.

O salgueiro toca harpa na água.

O Pensador de Rodin é um jogador de xadrez a quem tiraram a mesa.

Génio: o que vive de nada e não morre.

 
(Todos os dados deste post foram retirados do livro Greguerías, uma selecção, editado em 1998 pela Assírio & Alvim, com escolha e tradução de Jorge Silva Melo).

 

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A banda desenhada é uma área da literatura que me passou um pouco ao lado, sendo raros os livros desse tipo que li durante a infância e adolescência.

Apenas há alguns anos comecei a lhes prestar alguma atenção em virtude de partilhar a minha vida com um grande apreciador de banda desenhada e, por esse facto, ter acesso a muitos livros especialmente da corrente franco-belga, cuja origem remonta aos anos vinte do século passado, com a publicação dos primeiros livros da série Tintin.

De início, o que mais me atraiu foi o aspecto técnico de certos livros e autores, sendo um dos primeiros Hugo Pratt, autor de origem italiana. Este criador, de forte personalidade e espírito aventureiro, transmitiu a sua vida atribulada mas também a sua classe como artista, especialmente através da sua personagem mais conhecida, o marinheiro Corto Maltese. O seu traço é espontâneo e extremamente expressivo, parecendo de fácil execução, apesar de não o ser certamente.

O facto de gostar de desenhar, levou-me a olhar essencialmente para essa vertente. A temática dos livros não era importante. Mas com o tempo comecei a apreciar igualmente essa componente, na medida em que percebi o enorme leque de assuntos disponíveis e que passam pelas condições sociais e humanas, politica, religião, história, mas também sobre a vida e os problemas de todos os dias, o erotismo, as relações afectivas, etc, etc. E igualmente pela aventura e imaginação! Neste campo da aventura, por exemplo, os livros da série Jonathan de Cosey, que falam de um périplo de um jovem europeu pela Ásia com passagem pelos Himalaias, India, Nepal e Tibete ocupado, foram dos primeiros que apreciei sob os dois pontos de vista. Já no campo da imaginação e do fantástico, um exemplo bastante conhecido até porque está traduzido em português, são os livros da série Les Cités Obscures de François Shuiten, cujas histórias decorrem em mundos paralelos ao nosso e que têm muito bons desenhos.

Hoje sou capaz de ler um livro porque o tema me interessa apesar do desenho não me cativar especialmente, caso do título  L’Arabe du futur  de Riad Sattouf, sendo o contrário difícil, como me sucedeu recentemente com o livro Pawnee da série Sagas Indiennes de Patrick Prugne. Nesta situação, apenas vejo os desenhos, muitas vezes fabulosos.

Outros existem em que tudo agrada, quer pela história quer pelo desenho, como está a acontecer com a série Les chemins de Compostelle, da autoria do criador belga Jean-Claude Servais, que terá provavelmente cinco volumes, tendo saído até agora apenas dois.

Por se tratar de um mundo muito interessante (e vastíssimo!) que estou a descobrir, quis partilhar convosco este post. Talvez aguce o apetite…

 

lisboa e os jacarandás

 

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A floração dos jacarandás coincide normalmente com o decorrer da Feira do Livro de Lisboa. Todos os anos este ciclo se repete, na natureza e na cultura da cidade, momento a que assistimos com prazer. É certo que significa que passou mais um ano no cronograma da nossas vidas, mas perante o privilégio de poder apreciar este pulsar da cidade, só podemos ficar felizes.

Como uma história no livro da natureza, acompanhamos em cada página o desabrochar destas flores. Começa uma, depois outra, sendo mais e mais em cada dia, atingindo o auge da floração em Junho, mês do feriado da cidade e das suas festas.

Neste hino de cor e beleza, em poucos dias também o chão se transforma. Ruas, jardins e praças ficam cobertas de flores caídas, surgindo a oportunidade única de cada uma viver uma segunda vida, porque todos as voltamos a apreciar nessa nova situação. Neste capítulo do livro, todas as páginas estão coloridas daquele azul-lilás lindo, que desfolhamos com prazer ao passar o olhar pelos recantos da cidade.

A história continua por mais algumas páginas. Termina gradualmente com o início da nova estação, com o fim das festas da cidade e, talvez, com o fim da leitura daquele livro que compramos na feira.

Algum tempo depois, as flores dos jacarandás simplesmente desaparecerão do chão que as acolheu. Ciclo cumprido e fim da história.

Para o ano tudo recomeçará na Primavera, num novo ciclo, com novos livros, novas páginas e muita cor.

Que a vida nos permita assistir novamente a ele!