mudar

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A vida é uma luta e um constante desafio ao tempo, onde amiúde as energias que nos movem são “esquecidas” pelo pouco espaço que os dias nos permitem.

Porém, de vez em quando, essa força/energia precisa de respirar, de se manifestar, de dizer ao nosso consciente que existe e está bem viva. Talvez para nos fazer pensar se assim devemos permanecer ou, pelo contrário, se algo poderemos mudar.

Como se manifesta?

… no desejo de fuga nascido no corpo

… rasgando um olhar porque outro teima em entrar

… esquecendo aquilo que não queremos guardar

… murmurando no silêncio do nosso sentir

… através de um pensamento não convidado

… intuindo o que o pensar não está a entender

… vibrando com a diferença…

 

… e, acima de tudo, quando nos diz calmamente: tu não queres isto!

 

 

(Dulce Delgado, Abril 2019)

 

 

 

 

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miguel torga

 

torga

 

Adolfo Correia da Rocha foi buscar o segundo nome do seu pseudónimo a um arbusto da família da urze que se desenvolve espontaneamente em terrenos pobres e agrestes. Essa planta é a torga, também chamada de queiró ou leiva, uma espécie muito resistente e lutadora, como a natureza do homem que o escritor Miguel Torga tanto admirava e valorizava.

Torga não acreditava nos Deuses nem no seu virtuosismo, porque eles não sabiam o que era uma vida de trabalho e de luta. O homem sim, sabia-o bem, porque o fazia todos os dias nas piores condições, trabalhava a terra, fazia crescer, moldava e conhecia a natureza, sofria, era um resistente e um sobrevivente. Para ele o homem merecia todos os louvores.

A sua própria vida contribuiu para esse sentir. Foi trabalhar para o Brasil aos dez anos, com a energia e a resistência das terras de Trás-os-Montes onde nasceu. Insubmisso ao que lhe pediam, voltou no ano seguinte para um seminário em Lamego que o acolheu e educou. Mas não para ser padre, porque esse não era o seu caminho.

Aos treze anos voltou para o Brasil a fim de trabalhar na fazenda de um tio. Esse familiar ao perceber o seu potencial patrocinou-lhe os estudos, primeiramente naquele país e mais tarde em Portugal, onde se formou em medicina na Universidade de Coimbra.

Começou a exercer essa actividade com 26 anos nas terras agrestes onde nasceu e que foram o grande palco da sua vida, seja como humanista junto dos mais desfavorecidos, seja como escritor, poeta e ensaísta. O que vida lhe mostrou foi moldando as suas convicções, rebeldia, inconformismo, sensibilidade e um espírito sempre livre, onde os homens, os animais e a natureza tinham um lugar especial.

Miguel Torga morreu em Coimbra em 1992, faz hoje precisamente vinte e sete anos. Escreveu muito, publicou dezenas de livros e, como médico, proporcionou uma melhor vida e saúde a muitos dos homens e mulheres que tanto admirava.

É essa consciência do sofrimento do povo e a sua luta, que creio estarão na base de um dos seus poemas que muito aprecio, cujo título é Sífiso. 

Antes porém, e a fim de melhor o enquadrar, é importante dizer que Sífiso foi um ser da mitologia grega que por ter enganado os Deuses teve a punição eterna de empurrar montanha acima uma grande pedra. Contudo, quando estava perto do cume, uma força desconhecida fazia-a rolar até à base. Apesar disso, ele sempre recomeçava uma nova subida. O outro lado significaria talvez a liberdade, por isso Sífiso nunca desistiu.

Também na vida dos homens e das mulheres que Miguel Torga tanto admirava, tal como na vida de todos nós, as dificuldades e os recomeços são uma realidade.

Como em Sífiso ele tão bem descreve.

 

Sífiso

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

 

 

Imagem retirada de:
https://observador.pt/2015/01/17/casa-museu-miguel-torga-evoca-medico-e-escritor-nos-20-anos-da-sua-morte/

 

abril de liberdade

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Quarenta e quatro anos passaram sobre o 25 de Abril de 1974, uma das datas mais importantes na dinâmica do meu país. Um tempo curto na história de Portugal, mas bem mais amplo no contexto da vida humana, apesar de certamente ser sentido por muitos como um sopro que passou apressado e a correr.

Em Abril de 1974 eu tinha quinze anos, o que significa que três quartos da minha existência foram vividos respirando a liberdade conquistada nesse dia. Até essa data, não era minimamente politizada para perceber o que se passava no país. Sabia apenas que havia a guerra do Ultramar, algo que acontecia muito longe e que não afectou directamente a família porque as mulheres sempre predominaram.

Posso afirmar que a falta de liberdade que então existiria não afectou a liberdade que eu apreciava e que se baseava no silêncio, na calma e numa criativa solidão. E quando precisava de sociabilizar, o que me era permitido era mais do que suficiente, não sendo gerador de conflito nem de nenhum desejo inconsciente de liberdade. Diria que a vida simplesmente fluía nas paisagens a sul do meu país, entre a vida escolar, a leitura, a escrita, o mar, a praia e os seus areais, espaços que eram usufruídos com prazer durante grande parte do ano.

Só a partir desse Abril é que me apercebi, progressivamente, da “ignorância” em que vivia, seja quanto à conjuntura política, seja sobre o sofrimento de tantos resistentes que lutaram por esse dia. Esse abrir de olhos foi mais marcante quando, um ano mais tarde vim residir para Lisboa e, com a democracia ao rubro, compreendi através da cultura, da informação então disponível e no dia-a-dia, a real importância da vivência em liberdade.

Nesses idos quinze anos da minha adolescência, apenas o acto de pensar no futuro e nos quarenta de idade ou no enigmático ano 2000 era algo estranho e facilmente associado à velhice. Nunca imaginei que chegaria a este longínquo 2018 e aos sessenta que espero ele me ofereça em breve. E muito menos pensei que a liberdade dada por esse 25 de Abril de 1974 me permitiria “alimentar” com toda a autonomia um espaço como este, discreta ou indiscretamente, cujos limites são apenas impostos por mim e pelo meu senso.

Olho com muita ternura para a ignorância que tinha nesses tempos, ou melhor, para algo que fica entre a ignorância e a inocência. Assim como olho com um profundo respeito para todos os que activa e conscientemente lutaram, sofreram e morreram durante décadas para que aquele dia de Abril fosse uma realidade. E para que hoje, as palavras sejam naturalmente possíveis.

Não tendo a imagem de um cravo vermelho, a flor-símbolo deste dia para iniciar o post, inseri a de outra espécie, cujo nome desconheço mas que me faz companhia na janela.

Chama-se a isto… “liberdade” criativa…ou “liberdade” de escolha!

 

 

vida respirada

 

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Perceber o que é Viver,
este Estar
e este Ser,
é tudo o que queremos saber.

Gosto de sentir a Vida
como um acto de respirar,
como um fôlego que entra em nós,
alimenta
cresce
e vai,
para um dia talvez voltar.

A vida seria então um profundo inspirar …

…de sensações sentidas
entre a dor e o amor,
de saberes e presenças
momentos e experiências,
e da emoção,
talvez longa
talvez efémera
de estar nesta construção.

E seria um expirar…

…de pensamentos viajantes,
palavras ditas no ar
sorrisos ténues ou vibrantes,
e de gestos,
de tantos e tantos gestos que são nossos
sem pensar!

Inspirar… Expirar…RESPIRAR…

E no fluir deste Respirar
somos Vida,
resistência
luta
partilha
afectos,
e solidão também.

Mas mais do que tudo
somos,
uma sublime energia
vivendo a aventura
deste acto de magia!

Eu,
tu
e todos nós!

 

 

(Dulce Delgado, Abril 2018)

 

 

 

violeta parra

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Ultimamente tem sido divulgado um espectáculo de entrada gratuita, que se irá realizar no próximo dia 8 de Abril no teatro Capitólio em Lisboa, em homenagem a Violeta Parra pelo centenário do seu nascimento.
Conhecia um dos seus temas mais populares, como é Gracias a la vida, mas relativamente pouco do seu percurso. A curiosidade levou-me a procurar um pouco mais e não resisti a escrever este post

…Violeta del Carmen Parra Sandoval (1917-1967) foi compositora, cantora, artista plástica e activista política, sendo considerada a fundadora da música popular chilena, gosto que herdou dos pais. Bem cedo começou a tocar e a compor, optando logo na juventude por se dedicar à vida artística.

Teve uma vida emocional algo complexa, com três casamentos e vários filhos, alguns que se dedicaram também à música, cantando com eles durante um certo período da sua vida. Foi igualmente a grande precursora da música de intervenção, produzindo letras revolucionárias que incidiam maioritariamente na injustiça social e nas condições de vida dos pobres.

Na sua curta mas intensa vida, em que intercalaram os momentos bons e os muito difíceis, como o da morte de uma filha, foi sempre uma mulher de grande energia e força, lutadora pelos direitos dos mais desfavorecidos, mas também irreverente e que sabia o que queria.

No final dos anos 50, num período em que esteve doente e mais inactiva devido a uma hepatite, explora as artes visuais, dedicando-se a criar as arpilleras, curiosas tapeçarias bordadas que, mais tarde, foram associadas à resistência das mulheres chilenas no período da ditadura do General Pinochet. Através da figuração que nelas inseriam, iam transmitindo o que estavam a viver e a sentir enquanto os maridos estavam presos. Mas foram igualmente uma forma de sobrevivência material.

As arpilleras, assim como a pintura, o papier maché ou as esculturas em arame, foram as técnicas artísticas que Violeta Parra escolheu para expor, juntamente com as letras e canções que escrevia, tudo o que sentia, os princípios em que acreditava e pelos quais lutou toda a vida.

Estranhamente, suicidou-se aos 49 anos, não muito tempo depois de ter composto Gracias a la vida, o que de certa forma é um pouco paradoxal. Mas, a separação dramática do seu terceiro companheiro e ainda um projecto que não terá corrido bem, poderão ter contribuído para tão drástica decisão.

Pelo facto de ter deixado um grande legado, em Novembro de 2014 foi criada a Fundação Museu Violeta Parra, a fim de preservar e difundir a obra desta mulher que teve um papel tão importante na sociedade chilena.

Não poderia terminar este post sem a sua  belíssima voz. Escolhi dois temas já compostos na década de sessenta, Gracias a la vida e Run run se fue pa’l norte, criados sob emoções bastante opostas. O primeiro surgiu na sequência do grande amor que sentiu pelo seu último companheiro, o antropólogo e músico suiço Gilbert Favre; e o segundo, depois de ele a ter deixado, separação que teve fortes repercussões na sua vida.

Foi uma mulher de força e de paixões. Mas foram também essas atitudes que a levaram ao suicídio.

Foto retirada de http://www.nosgustaelvino.cl/museo-violetaparra/?age-verified=50f5b1d0a0