detalhes sentidos

Neste caminhar, todos passamos por momentos em que nos sentimos enredados/envoltos numa série de circunstâncias que nos perturbam, comprometendo o nosso olhar sobre o mundo e até a nossa forma de estar.

Cada um reagirá de acordo com a sua estrutura no sentido de clarificar e ultrapassar essa situação, mas uma coisa é certa: no meio dessa desordem sempre há detalhes, atitudes ou palavras que nos tocam se estivermos receptivos e que poderão ser uma ajuda, mesmo que indirecta. No fundo, funcionam como provas de afecto e até de confiança.

No centro da imagem acima está uma lâmpada ainda apagada. Um círculo. Simbolicamente um de nós. Num primeiro olhar, envolve-a uma “rede perturbadora” e confusa composta de muito ramos. Porém, se olharmos com mais atenção, alguns desses ramos podem ser vistos como um apoio, afago ou consolo, algo que discretamente nos pode ajudar. Na imagem serão especialmente os ramos inferiores e mais horizontais que transmitem esse sentir, essa espécie de aconchego visual e afectivo ao elemento central.

Em breve, como sempre se deseja, haverá um desanuviamento, uma resposta, uma clarificação e, quiçá até uma sublimação do que nos perturba para algo mais positivo….e o tal “elemento central” voltará a encontrar a energia e a ter a sua luz. Voltará ao desejado equilíbrio.

olhar confinado #2

Neste início de Março persiste em Portugal o confinamento e as limitações associadas à pandemia, apesar dos dados mais recentes perspetivarem para breve um alívio nas restrições. Creio que a Primavera nos trará esse presente para ser desembrulhado de uma forma cuidadosa e progressiva.

Desde o ultimo post a que dei este mesmo título e publicado no início de Fevereiro, as condições meteorológicas melhoraram imenso e os dias cinzentos deram gradualmente lugar a outros mais leves e soalheiros. Então as janelas foram abertas deixando entrar o ar e o sol.

As janelas são simultaneamente fronteira e ligação… interior e exterior…o aqui e o além…e o limite entre dois espaços que o nosso olhar une instintivamente quase sem darmos por isso. É nesses dois mundos que se desenvolve este post.

O primeiro olhar será direcionado para o exterior (alguns detalhes têm alguma semelhança com outros publicados no post anterior), mas foram agora captados em dias de sol e bastante mais luminosos.

Depois, o olhar seguiu para o interior….

…onde o sol, ao entrar pelas janelas iluminou a casa. Então, aqui e ali fui fotografando detalhes que visaram sobretudo o jogo luz-sombra e a forma harmoniosa como esses elementos se conjugam.

Deparei-me com imagens raramente apreciadas com atenção e confrontei-me com a efemeridade das sombras. O movimento do sol é realmente a música que orienta a dança das sombras! Agora estão aqui… daqui a pouco ali…e depois mais além ou, já nem existem Até ao dia seguinte, se o sol voltar a aparecer.

Se estes detalhes, apesar de procurados surpreenderam pela harmonia de linhas e contrastes, o que mais me encantou foi o ultimo registo deste post e que aconteceu por acaso. Ou talvez não. Na verdade, em tantos anos de vida nunca me tinha sucedido chegar à cozinha e nesse preciso momento ver uns raios de sol a incidir num copo de água, dupla que funcionou como uma lente que convergia, divergia e irradiava esses raios.

Fotografei de imediato e verifiquei que, também aqui, os efeitos se alteravam rapidamente em virtude do movimento solar.

Senti que era uma oferta e agradeci. Afinal era a melhor imagem que eu poderia obter no âmbito deste post em preparação.

——————————–

Termino com o desejo, profundo e cheio de esperança, de não voltar a publicar mais posts com este título!

experimentações #17

E as experiências continuaram orientadas pelo acaso, seja dos materiais seja dos gestos. Muita coisa foi parar ao lixo porque passava aquele ponto chamado “possibilidade” e virava borrão. Digamos que sabia quando isso acontecia…mas não sabia minimamente o que procurava.

Hoje, ao olhar para a maioria destes desenhos encontro pontos comuns entre eles. Encontro a vontade de “guardar algo” versus a vontade de dar/partilhar… encontro um desejo de exteriorização que se manifesta por vezes de uma forma um tanto explosiva…e encontro sempre um lado mais luminoso que contrasta com outro mais sombrio. Como sempre acontece na vida, aliás.

Ao elaborar este post e com um pouco de imaginação, achei muito engraçado o facto de percepcionar no canto inferior direito do último desenho duas figuras semi-ajoelhadas e com as mãos no chão… à semelhança de dois atletas que esperam o tiro de saída numa qualquer pista de atletismo para uma suposta corrida.

Uma espera que levou trinta e três anos a chegar ao meu olhar!

(Dulce Delgado, aguarela e tinta da China sobre papel, 1988)

pela primavera

 

1a

 

Manifesta-se com elegância a energia da Primavera, seja no alongar das horas de luz dos nossos dias, seja no aparecimento de temperaturas mais amenas nas emoções da nossa pele… e sempre, sempre no imenso acordar da natureza que está a acontecer em nosso redor.

Neste momento das nossas vidas e dadas as circunstâncias de retenção e de isolamento social em que estamos…

…não tenho um prado com flores para deleitar o olhar, mas tenho a florescência de algumas plantas de interior que aqui e ali dão cor a minha casa;

…posso não ter o aroma da terra, mas tenho o aroma intenso de um manjericão;

…não tenho a liberdade de ir passear e de proporcionar ao corpo e aos sentidos a vital energia deste início de estação, mas tenho o privilégio de ter uma casa com boa vista, muita luz e muita natureza no seu interior;

Apesar de confinada a algumas paredes e com o corpo e a mente claramente centrados num receio/medo que se pegou à nossa pele e ao nosso pensamento, eu tenho quase tudo. Em meu redor acontece o desenrolar silencioso da nova estação, os novos rebentos que brotam, as folhas em busca de um espaço próprio ou as flores revelando o seu potencial de forma e cor. 

É essa Primavera que hoje quero partilhar convosco.

 

2a  3a

A viver numa varanda fechada (apesar de ser uma planta de exterior), a minha buganvília está cheia de flores e de rebentos neste início de Primavera, como revelam as primeiras três imagens. Tenho por ela um carinho muito especial uma vez que me foi oferecida após a publicação do texto que marcou o início deste blog e onde mencionei a empatia que sinto por esta espécie vegetal.

 

4a  5a

Também o azevinho, outra planta de exterior a viver no interior, acompanha a vitalidade da buganvília e a sua energia expansiva. As pequenas flores brancas estão a dar lugar aos frutos, que um dia serão vermelhos.

 

8  6a

Todas as violetas estão felizes, cheias de botões e de vontade de partilhar as suas flores!

 

10a  12ab

Se as flores das begónias espalham o seu tom rosado, já o clorófito oferece a singeleza das suas pequenas flores brancas pontuadas pelo amarelo da antera dos estames.

 

16a  18a

Contrariamente à planta-melancia, cujas flores são tão minúsculas que quase não se vêem, as orquídeas têm vaidade no tamanho das florescências, agora ainda em botão.

 

14a  13a

Os fetos e as avencas não apresentam flores, mas são imensas as folhas que neles desabrocham…

 

IMG_1405ab  15a

…assim como no Lírio da Paz ou no Scindapsus, acontecendo o mesmo em várias outras espécies.

 

Termino com o cheiroso mangericão porque ele, como sucede na maioria das aromáticas, é uma planta “sociável” e que sempre dá algo em troca. Na vossa imaginação deixo o seu  aroma e na fotografia a evidente vontade de multiplicação das suas folhas.

 

IMG_1656a

 

Nestes tempos loucos que estamos a viver precisamos, mais do que nunca, de ser um pouco como os mangericões: sermos troca, sermos dar e receber. Como?

Procurando a beleza que continua viva perto de nós e cheia de vontade do nosso olhar. Procurando os detalhes positivos, porque eles são alimento. Procurando descobrir os pequenos prazeres que podem ser gratificantes e gerar uma boa energia. Procurando aqueles detalhes que podemos dar, receber e trocar mesmo à distância, sem toque, afagos ou abraços.

Precisamos muito…seja por nós, seja pelos outros.

 

 

 

a troca das estações

 

IMG_3968a

 

Ontem adormeci
com o Inverno no ar,
sabendo de antemão
que a Primavera estaria
a meu lado ao acordar.

Foi no escuro da noite
em silêncio
e no tempo de um respirar,
que o Inverno e a Primavera
trocaram de lugar.

Nada ouvi,
pressenti
ou em sonhos percebi,
mas de manhã ao espreguiçar
na minha pele senti
um doce afago no ar.

As boas-vindas
eu dei
a esta nova Primavera,
e com doce emoção
humildemente lhe pedi
força
luz
e serenidade
capaz de neutralizar
este momento tão ímpar
vivido pela humanidade.

A Primavera
nada disse
a esta mente sonhadora…

…mas eu suponho…

…que em breve
irá ao sul
com o Outono conversar,
para em conjunto combinar
o que farão para ajudar!

 

A melhor Primavera (e Outono) para todos nós!

 

 

(Dulce Delgado, 20 Março 2020…no primeiro dia de Primavera!)