experimentações #4

 

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A leitura do ensaio Elogio da mão da autoria do Historiador de Arte Henri Focillon foi tão marcante no final da minha juventude que me levou a fazer algumas colagens baseadas em frases do seu conteúdo. Também me interessou a perspectiva de outros autores que escreveram sobre estas incríveis ferramentas que nos ligam ao mundo e a que raramente damos o devido valor.

Partilho algumas das colagens então realizadas, uma técnica que me cativou imenso pelas suas potencialidades e a que recorri posteriormente em vários momentos criativos.

 

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(Dulce Delgado, colagens em papel, 1981 (?)

 

 

 

 

quatro mãos

 

mãos

 

Falar deste maravilhoso instrumento que são as nossas mãos, é falar de precisão, coordenação, harmonia, perícia, elegância, expressão, sentimento, habilidade e muito, muito mais. Também poderia referir o lado sombra das mãos, mas tal não é relevante para hoje.

Por fazerem parte do nosso corpo são uma forma de nos relacionarmos, de partilhar sensações, de sentir o que nos rodeia, de expressar sentimentos e de materializar as capacidades que nasceram connosco (e com elas!), desde que estejamos dispostos a fazer essa exploração ao longo da vida.

Se uma parte da nossa sensibilidade depende da relação que estabelecemos com os nossos sentidos – relação que pode ser mais ou menos íntima – de certa forma as mãos/tacto são a vertente mais dinâmica dessa relação. Mas todos os sentidos “brincam” e cooperam entre si, em diálogos vividos de uma forma activa e relativamente consciente.

Num músico instrumental, a audição brinca com os sons através das mãos. E estas dançam sobre as teclas de um piano, nas cordas de uma guitarra ou na sensibilidade de qualquer outro instrumento. Hoje, porém, escolho o piano e a guitarra portuguesa, e as mãos da pianista Maria João Pires e do guitarrista Carlos Paredes. Porque neste dia 23 de Julho, a primeira completa setenta e quatro anos de vida e o segundo catorze anos que deixou de estar entre nós.

Dois artistas incríveis, dois lutadores, e quatro fabulosas mãos que encantam os nossos sentidos e a nossa alma.

 

 

 

Como portuguesa, lamento que Maria João Pires desiludida com Portugal e com as suas instituições, tenha saído do país há cerca de uma década, vivendo actualmente no Brasil. Mas a minha admiração por ela não diminuiu.

 

 

 

mãos…

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… que unem e separam
afagam e agridem
oram,
são fé e devoção
gratidão
calor
paixão
e quanta sensação!

São pele
que procura pele,
gestos
que acompanham palavras,
amor
que protege e embala,
e acção
pura acção,
que tudo materializa
e dá vida à invenção.

Uma mão,
talvez a nossa…
…pode ser a paz
doce
e eficaz,
que outra mão precisa
e juntas,
ser prazer e união!

 

(Dulce Delgado, Abril 2017)

 

Imagem retirada de http://lifestyle.sapo.pt/moda-e-beleza/corpo-e-estetica/artigos/maos-como-novas

 

valor relativo

 

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Talvez as nossas mãos sejam o principal meio de transporte que lhes permite “mudar de casa”, seja para uma caixa registadora, para um porta-moedas, um mealheiro ou uma algibeira, sendo o tempo de permanência nesses lugares uma verdadeira incógnita. Mas no período que permeia entre o chegar e o partir, podem mudar de cidade ou de país, sendo por isso as melhores turistas do acaso da nossa sociedade.

As moedas vêm e vão, passando por nós de uma forma quase indiferente. Apenas nos apercebemos da sua real importância em situações muito específicas, como no momento de “alimentar” um parquímetro ou qualquer outra máquina automática que delas depende para cumprir a sua função. Apesar de tudo, nenhum mecanismo actual consegue destronar as verdadeiras “comedoras” de moedas como eram as antigas cabines telefónicas, clássicas referências de um tempo em que a moeda virtual ainda estava bem longe do nosso dia-a-dia.

De vez em quando sentimo-las de uma forma mais emocional e menos fria ou metálica. É o caso daquela moeda que segue o seu caminho como recompensa pelo momento agradável que uma performance artística nos proporcionou no meio da cidade, ou a moeda que damos a alguém mais necessitado e cujo olhar, ou silêncio, nos tocou especialmente. Estas serão recebidas com uma energia diferente, mais humanizada e provavelmente trocadas por um sorriso ou por um obrigado.

De certa forma, as moedas são a parte mais visível, palpável e até “pura” de uma enorme engrenagem que tudo controla sem dó nem piedade e cujo objectivo é o lucro, quantas vezes desumano e desenfreado. Se, para muitos, elas são míseras e não valem nada, para outros valem imenso e podem contribuir para que as suas vidas sejam menos miseráveis.

É estranha e tão injusta, esta dialéctica da sociedade em que vivemos.