a onda…

 

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No deslizar do mar….

 

…vem uma onda
que ultrapasso a saltar,

…outra
que me eleva a flutuar,

 …e outra
em que mergulho sem pensar,

…mas numa maior e inesperada
sou enrolada,
esbracejo
e num salgado respirar
sou arrastada para a beira-mar!

Em terra firme
um pensamento fugaz…

…nas ondas da Vida
como nas ondas do mar,
há sempre uma surpresa
que nos confronta
dá luta
incomoda
e ensina sem palavras,
que a atenção não pode faltar!

 

(Dulce Delgado, Julho 2020)

 

 

 

 

 

texturas e detalhes

 

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Nos primeiros dias de Setembro voltamos à Costa Vicentina para usufruir de umas curtas férias. Esta região de Portugal é um lugar de tranquilidade e de imensos olhares, seja o mais amplo que facilmente se envolve nas neblinas locais ou aquele mais minucioso que encontra magníficos detalhes/texturas resultantes da acção do tempo e dos elementos naturais sobre este solo que pisamos.

Restringimos os dias disponíveis a quatro praias, sendo as imagens aqui publicadas captadas unicamente nas Praias de Odeceixe, Vale dos Homens, Carreagem e Amoreira, um troço de pouco mais de 10 Km da costa oeste do Algarve e uma pequena parte dos 130/140 Km do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

A maré vazia em praias que perderam alguma areia nos últimos anos facilitou o acesso a zonas rochosas de grande personalidade. Geologicamente é uma área muito rica, mas a minha ignorância e a complexidade dessa matéria não me permitem complementar este post com dados mais científicos como gostaria. Será por isso uma apreciação puramente visual, emocional e centrada nas texturas encontradas.

 

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Em toda esta área os veios de quartzo “decoram” as rochas de forma diferenciada e quase incompreensível para a nossa mente limitada no tempo. São milhões de anos de história desenhada que está ali perante o nosso olhar em resultado das movimentações dos solos e dos seus sedimentos, de infiltrações, de compactações e, especialmente, de muita, muita erosão.

 

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A interacção da água do mar com a areia, algo que sempre me fascina, cria verdadeiras obras de arte ao ar livre.

 

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A par desta natureza-artista instalou-se a natureza-vida sob muitas e diferentes formas. Mexilhões, lapas/cracas, ouriços e caracóis do mar, caranguejos, camarões, anémonas, algas, musgos, peixes, etc. assumem um papel importante no equilíbrio do ecossistema e deliciam qualquer olhar, mesmo o mais distraído.

 

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Mas a natureza é mestra nas mensagens que silenciosamente nos revela, mensagens que quer eu quer a minha imaginação apreciamos deveras descobrir.

Seguindo esse pensar, diria que a fotografia que se segue (e última deste post) encerra uma dessas mensagens. De uma forma muito simples a natureza diz-nos que o equilíbrio é possível através da diversidade e que em paz se pode viver lado a lado com a diferença, seja ela a que nível for.

Algo que muitos de nós no geral e alguns em particular, sobretudo alguns “leaders” deste mundo,  ainda não entenderam verdadeiramente.

 

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Termino, assegurando que este é realmente um belo recanto de Portugal, especialmente para os apreciadores de tranquilidade, de texturas e de detalhes!

 

 

 

 

 

vento de areia

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O vento bate forte na seca areia…

…feliz com a boleia,
esta voa rasteira
para outro lugar…

…talvez para junto do mar…

…para este lhe tocar
namorar
e um dia, talvez amar!

 

(E assim, o irritante vento que insiste em soprar forte neste país de litoral e praias…permite a felicidade de alguém!)

 

(Dulce Delgado, Agosto 2019)

 

 

 

a arte do mar

 

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Como um gesto
de mão
e de mar,
as ondas desenham
nuvens
montes
vales
e efémeras paisagens
sem par.

Onda vem…
onda vai…
e outra a abraça no seu recuar!

Cada onda tem um traçar,
desenhos que o meu olhar
aprecia
mas que os corpos,
indiferentes,
pisam sem reparar…

Como é bela a arte do mar!

 

(Dulce Delgado, Agosto 2019)

 

 

 

pensamento ao vento

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O vento
levou-me um pensamento…

…que logo procurei
no instante de um olhar.

Um pedaço
voava no céu,
outro nadava no mar.

Tentei resgatá-los
no tempo de um respirar,
na esperança de os unir
e o pensamento voltar.

Impossível.

Com o original partido
e no éter meio perdido…
…logo outro me veio habitar!

 

(Dulce Delgado…no Dia Mundial do Vento!)

 

 

natureza artista

 

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Aprecio profundamente as formas criadas por acção da natureza.
Gosto de procurar esses elementos naturais, imaginar o seu percurso e com eles partilhar o meu olhar no espaço onde habito.
São troncos e raízes, a maioria esculpidos pelo mar ou por um rio. Caso falassem, estou certa que contariam longas histórias de lugares e aventuras.

São obras criadas por uma natureza-artista, bela, inquieta e extremamente expressiva…

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E com esta expressiva saudação da última imagem, desejo uma boa semana!

 

 

 

 

ondas

 

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Uma onda…
outra…
e outra mais…
muitas ondas…

Linhas deslizantes
que se cruzam
neutralizam
e ultrapassam
no tempo de um olhar.

Desejos fluidos
do mar
nascidos em cada instante,
seja ao longe
na linha do horizonte,
ou aqui,
na beira deste lugar
tão fácil de eu amar!

Uma onda…
outra onda…

Serão as ondas
as mãos do mar
que acariciam a beira-mar?

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2018)

 

 

partilha

 

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Era uma vez um bivalve pequenino, com genes de ostra.

Teve a sorte de não ser apanhado por um peixe enquanto andou livre, ao sabor das correntes ou nos fundos arenosos. Depois cresceu um pouco, chegando o momento de parar e talvez de se fixar a algo para as suas conchas desenvolver. Muito perto desse lugar estaria um búzio vazio, sem alma nem gente.

A nossa ostra começou a crescer e, nesse expandir de camadas estava a entrada do búzio. Então…porque não aproveitar e ali depositar algum carbonato de cálcio? Uma casa com anexo, não é privilégio de muitos bivalves!

Aproveitou a oportunidade…cresceu…cresceu um pouco mais…o tempo passou… e um dia, a vida que guardava….morreu!

O tempo não parou, porque o tempo nunca pára.

Naturalmente, o mar e as marés fizeram o resto separando as duas partes da ostra, que se afastaram para sempre. Uma ficou só e só estará neste mundo.

Esta não. Agarrada ao búzio, viajaram pelo mar. Muito…pouco…ninguém saberá!

Num dia do mês de Julho de 2018, as ondas do Atlântico deixaram-nas a descansar durante a maré baixa no vasto areal da ilha de Tavira, na Ria Formosa. E aqui entro eu na história…

…ao passear pela beira-mar, vi este conjunto e fiquei encantada não com a sua beleza mas com tão estranha partilha. Agarrei-a com carinho, logo com o intuito de a oferecer a uma amiga bióloga e coleccionadora de conchas, que a recebeu com muito agrado e me explicou, com mais exemplos, o processo que leva a esta partilha de corpos.

Todas as histórias têm um final. Se este é feliz…eu não sei!

Porque…

…talvez este par tivesse preferido ficar naquela beira-mar e deixar que o tempo, a natureza, um instante ou uma onda quebrasse o elo que o une… ou, quem sabe…

..talvez esteja feliz com esta inesperada longevidade, num conforto partilhada com muitas da sua família.

 

Seja qual for a verdade, obrigada Lília pelas explicações e…cuida bem deste par!