de volta (II)

O corpo e a mente não acompanham ao mesmo ritmo o regresso ao trabalho no pós-férias.
O primeiro adapta-se melhor e rapidamente reaprende as rotinas…mas a mente, bem mais dispersa, vagueia entre esses dois tempos num saltitar irrequieto que apenas o passar dos dias permite tranquilizar um pouco mais.
Como sempre me acontece, mais uma vez estive dentro desse filme em modo bem activo. Por vezes até cansa esse  “deambular” sem sair do mesmo sitio…

Entretanto, a transição vai acontecendo porque a realidade se impõe e exige atenção e concentração. Contudo, não obstante este voltar à realidade, de vez em quando surgem sentires…imagens…detalhes que nos levam a esses dias…..

…a visão da maré baixa (que adoro!)
…os longos areais e os passeios matinais à beira-mar
…o primeiro banho de mar do dia, logo bem cedo e que nos faz sentir em comunhão com a Vida e com tudo!
…dormir na praia (tão bom!)
…o sabor de inesquecíveis bolas de Berlim
…a satisfação de degustar deliciosas sardinhas assadas


…e aquele dolce far niente que só os dias de férias permitem!

E há um momento, muito especial e bem diferente deste tipo de sentires que não desaparecerá da memória: o da imagem que inicia este post!

Este guarda-rios pousou a pouco mais de dois metros do observatório onde nos encontrávamos no parque Ambiental de Vilamoura. Vi-o, mas logo me escondi parcialmente para que o meu companheiro, em boa posição e já com a máquina ligada o pudesse fotografar devidamente.

Dada a proximidade do tronco em que esta pequena ave se encontrava, se naquele exacto momento eu ligasse a minha máquina, certamente ele voaria pois são aves muito assustadiças e que reagem ao  mínimo gesto ou som em seu redor.
Para nosso deleite, ele permaneceu alguns segundos naquele tronco. Virou-se para um lado, depois para outro e foi lindo, pois nunca tínhamos visto esta espécie tão próximo e com tanto pormenor. Não o fotografei, é certo, mas não tenho pena. Por vezes é importante saber parar e não querer demais…para que não se perca tudo.

Fico muito feliz em partilhar esta imagem captada pelo meu companheiro. É dele, mas indirectamente também é minha. E ambos sabemos que este silencioso momento das nossas férias nunca será esquecido!

de volta!

Em dia de regresso…

…começo por agradecer os muitos comentários deixados no ultimo post desejando-me boas férias e a que não dei resposta. O compromisso que fiz de me afastar duas semanas deste espaço foi literalmente cumprido, sendo certo que é importante distanciarmo-nos um pouco do que nos “prende” pois sempre voltamos com um olhar mais atento e renovado.

Agradecer faz parte dos meus dias, muitas das vezes em silêncio e centrada em pequenos detalhes. Hoje porém, para além do agradecimento inicial, também em palavras escritas eu gostaria de…

…agradecer o facto de tudo ter corrido sem precalços nestas duas ultimas semanas;

…agradecer os belíssimos dias de praia e de sol que aqueceram o corpo e aquietaram a alma;

…agradecer ao vento pelos dias em que decidiu soprar sem exagero do quadrante sueste e assim aquecer a água do mar algarvio como tão bem sabe fazer;

…agradecer ao mar não ter exagerado nas ondas e permitido deliciosos banhos entre o tranquilo e o activo;

…agradecer ao céu o seu belíssimo azul…e às nuvens, por não terem aparecido durante toda a semana de praia…mas apenas após esse período!

…agradecer à natureza alguns agradáveis passeios, assim como a possibilidade de observar e fotografar bastantes aves… apesar de Julho e Agosto serem os piores meses do ano para o fazer!

E por último…

…agradecer o facto de ter saúde e condições para poder desfrutar destes períodos fora de casa e das rotinas habituais… e em que os relógios, as notícias e a pandemia quase foram esquecidos!

…e por ter a meu lado um companheiro em doce sintonia na partilha de todos estes agradáveis momentos!

(E já agora agradeço o estarem a ler isto… e a me acompanharem novamente!🙂)

limites

Portugal tirita de frio nestes primeiros dias de Janeiro e assim continuará na próximos dias. Ontem, na região de Lisboa as temperaturas variaram entre os 2 e os 9 graus Celcius, valores que o vento tornava ainda mais desagradáveis.

De regresso a casa, um céu intenso de fim de dia pedia uma fotografia, registo que aconteceu no lado oriental da Praia do Dafundo, localizada entre Algés e a Cruz Quebrada. Muito bem agasalhada mas apesar disso sentindo algum desconforto apreciei o momento com aquela boa sensação de sexta-feira à tarde e de véspera de fim-de-semana.

Deambulava o olhar por ali, quando de repente tive a maior surpresa do dia tendo em conta a temperatura que se fazia sentir: alguém tomava banho na praia!

Um arrepio percorreu o meu corpo enquanto a curiosidade fotográfica não resistiu a captar o que via, apesar da distância a que me encontrava.

Saindo da água estava uma senhora revelando uma enorme segurança corporal e confiança de gestos. A harmonia entre os tons do fato de banho e os sapatos era evidente, detalhe que achei maravilhoso dado o contexto. Depois, já no areal, limpou-se com a toalha e vestiu-se, seguindo depois caminho ao lado de um companheiro, esse sim vestido mais de acordo com o dia.

Entretanto, uma gaivota solitária continuava a vaguear à beira-mar….

E eu regressei ao carro e ao conforto de casa, envolta em vários pensamentos…

…a postura de segurança e confiança demonstrada por aquela mulher só poderia resultar de um gesto já conhecido e talvez habitual, sendo provavelmente uma daquelas pessoas que tomam banho de mar durante todo o ano, seja qual for a temperatura…

…tudo é relativo nesta vida. O que para mim e para uma grande maioria seria simplesmente inconcebível, para outros pode ser perfeitamente normal…

…se fosse um jovem a estar ali, talvez eu não ficasse tão surpresa com o facto. A surpresa maior foi o perceber que a idade daquela senhora não estaria muito longe da minha…

….e que eu nunca estaria ali!

…contudo, senti uma profunda admiração por aquela mulher, seja pela segurança e coragem demonstrada, seja por fazer uma escolha tão fora dos meus limites e da ideia que eu tenho de prazer para um dia muito frio de Inverno…

…e ainda por reforçar de uma forma muito objectiva aquela ideia que os “limites” devem ser uma fronteira ténue e suficientemente permeável aos limites, necessidades e opções das partes envolvidas. Na verdade, não há razão para o contrário desde que haja respeito, tolerância e aceitação mútua.

Já em casa, bebi um chá bem quente para aquecer o desconforto do dia. E pensei…estará ela fazer o mesmo para aquecer? Apreciará este gesto?

por aí…

Que prazer partilhar
um passeio pela cidade
pela serra
ou junto ao mar!

Passo a passo,
assiste-se com emoção
à lenta libertação
de pensamentos sem paz,
alicerces obscuros
de uma rotina sempre voraz.

A par dessa libertação
a conquista do lugar,
arejada sensação
de respirar com o olhar.

Completam-se com ternura
o meu e o teu olhar,
um prefere a paisagem
o detalhe
e a textura,
o outro a borboleta
ou a ave a voar!

Por fim,
prolonga-se o passeio
em palavras e imagens
semeadas com ternura
nas brancas folhas dos álbuns,
guardiões para o futuro
das memórias que já falham!

Este poema já conta alguns anos de vida, mas tem surgido amiúde no meu pensamento do decurso da actual pandemia e dos confinamentos/restrições de liberdade a que temos sido sujeitos sobretudo os fins-de semana e feriados.

Compartilho com o meu companheiro um gosto especial em andarmos “por aí” explorando novos locais ou a revisitar outros, mas com toda a disponibilidade, ao nosso ritmo e sem restrições de horários. Neste ano de 2020 essas incursões diminuíram drasticamente para um nível que desconhecíamos e limitado imenso a liberdade a que estávamos habituados.

Dadas as circunstâncias actuais sabemos ser um mal necessário. E sabemos ainda, sendo realmente objectivos, que este nosso “mal-estar” é um mal menor e um não-problema comparativamente com tantas situações difíceis que esta pandemia tem semeado pelo mundo.

Entretanto, e sempre acreditando que qualquer dia voltaremos sem restrições às nossas explorações, vamos andamos “por aí” muito pontualmente…
…passeando sobretudo com a imaginação…
…lendo e relendo a lista dos locais que esperam a nossa visita…
…revisitando lugares através dos muitos álbuns já construídos…
…e sempre, mas sempre viajando através da magnífica fonte de devaneios que é o Google Maps!

Melhores dias virão para todos nós!

continuidade

Terminou o Verão e diluem-se no Outono os últimos instantes com sabor a praia. São momentos maravilhosos pela luz apaziguadora desta época do ano, pela tranquilidade que transmitem ao corpo e pelo amplo espaço que os areais com poucos visitantes permitem ao olhar. Tudo é paz. Ali não entram as incongruências do mundo.

É possível que ainda retorne à praia neste Outono, mas a despedida formal, aquele ultimo banho de agradecimento está em mim. Frio e intenso. Faz parte de um silencioso e íntimo ritual que acontece anualmente, como o ponto final de uma frase….cujo tema reaparece todos os anos a fim de escrever mais um parágrafo.

Entretanto, a vida seguirá pelos nossos dias. É esse o maior desejo. E na natureza também. Sempre.

Nesta praia da despedida e em todas as praias, a areia será movida pelo mar e pelos ventos.. e as ondas voluntariosas e artistas continuarão a desenhar na beira-mar as suas emoções. Todos os dias, sem falhar.

Em linhas simples e belíssimos caminhos de nada!

a onda…

 

IMG_1913e

 

No deslizar do mar….

 

…vem uma onda
que ultrapasso a saltar,

…outra
que me eleva a flutuar,

 …e outra
em que mergulho sem pensar,

…mas numa maior e inesperada
sou enrolada,
esbracejo
e num salgado respirar
sou arrastada para a beira-mar!

Em terra firme
um pensamento fugaz…

…nas ondas da Vida
como nas ondas do mar,
há sempre uma surpresa
que nos confronta
dá luta
incomoda
e ensina sem palavras,
que a atenção não pode faltar!

 

(Dulce Delgado, Julho 2020)

 

 

 

 

 

texturas e detalhes

 

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Nos primeiros dias de Setembro voltamos à Costa Vicentina para usufruir de umas curtas férias. Esta região de Portugal é um lugar de tranquilidade e de imensos olhares, seja o mais amplo que facilmente se envolve nas neblinas locais ou aquele mais minucioso que encontra magníficos detalhes/texturas resultantes da acção do tempo e dos elementos naturais sobre este solo que pisamos.

Restringimos os dias disponíveis a quatro praias, sendo as imagens aqui publicadas captadas unicamente nas Praias de Odeceixe, Vale dos Homens, Carreagem e Amoreira, um troço de pouco mais de 10 Km da costa oeste do Algarve e uma pequena parte dos 130/140 Km do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

A maré vazia em praias que perderam alguma areia nos últimos anos facilitou o acesso a zonas rochosas de grande personalidade. Geologicamente é uma área muito rica, mas a minha ignorância e a complexidade dessa matéria não me permitem complementar este post com dados mais científicos como gostaria. Será por isso uma apreciação puramente visual, emocional e centrada nas texturas encontradas.

 

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Em toda esta área os veios de quartzo “decoram” as rochas de forma diferenciada e quase incompreensível para a nossa mente limitada no tempo. São milhões de anos de história desenhada que está ali perante o nosso olhar em resultado das movimentações dos solos e dos seus sedimentos, de infiltrações, de compactações e, especialmente, de muita, muita erosão.

 

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A interacção da água do mar com a areia, algo que sempre me fascina, cria verdadeiras obras de arte ao ar livre.

 

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A par desta natureza-artista instalou-se a natureza-vida sob muitas e diferentes formas. Mexilhões, lapas/cracas, ouriços e caracóis do mar, caranguejos, camarões, anémonas, algas, musgos, peixes, etc. assumem um papel importante no equilíbrio do ecossistema e deliciam qualquer olhar, mesmo o mais distraído.

 

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Mas a natureza é mestra nas mensagens que silenciosamente nos revela, mensagens que quer eu quer a minha imaginação apreciamos deveras descobrir.

Seguindo esse pensar, diria que a fotografia que se segue (e última deste post) encerra uma dessas mensagens. De uma forma muito simples a natureza diz-nos que o equilíbrio é possível através da diversidade e que em paz se pode viver lado a lado com a diferença, seja ela a que nível for.

Algo que muitos de nós no geral e alguns em particular, sobretudo alguns “leaders” deste mundo,  ainda não entenderam verdadeiramente.

 

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Termino, assegurando que este é realmente um belo recanto de Portugal, especialmente para os apreciadores de tranquilidade, de texturas e de detalhes!