ideia nascida

 

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Imagino uma ideia…

…como um pensamento
jovem
e inseguro,
que a outros pede boleia.

Juntos
desenham um plano
meio leviano,
indo à aventura
viver a odisseia.

Nessa vivência…

Ou ficam presos na teia da mente
e nada acontece…
ou deslizam na torrente do pensamento
e desaparecem no oceano da intenção…
ou, cientes e determinados
terminam a aventura,
unidos,
conscientes
e quase resolução.

Mais segura e adulta,
em breve,
a ideia será acção!

 

(Dulce Delgado, Janeiro 2019)

 

 

 

aquele lugar…

 

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Ao ultrapassar a realidade, a imaginação tem algo de mágico e de maravilhoso.
Sem esforço, nessa viagem tudo alcançamos, contornamos e criamos. Os olhos da mente elaboram planos, resolvem situações, alteram comportamentos e criam lugares… por vezes maravilhosos. Certamente que haverá por aí muita imaginação menos prosaica e mais destrutiva que a minha, mas tal não interessa para o tema.

Nos meus sessenta anos de olhares, muitos sobre o céu e as nuvens, foram imensos os momentos que me cativaram e alimentaram a imaginação. Mas nunca encontrara aquele lugar já imaginado, aquele lugar de linhas desenhadas e fluídas… misto de montanha e cidade…uma espécie de mundo paralelo habitado de horizontes e de infinito….

Encontrei esse lugar, recentemente, ao amanhecer.
Estava ali, à espera do meu olhar. Fiquei parada, vidrada e maravilhada. Registei o momento com emoção e depressa percebi a sua efemeridade, porque num dos extremos, o ritmo de dispersão das nuvens era evidente. Minutos depois tudo se alterou e desapareceu. Ele não estava ali só para mim, mas eu estava sensibilizada para o encontrar.

Há momentos na vida em que um detalhe faz toda a diferença.
Por vezes, circunstâncias diversas provocam uma quebra de energia e uma maior dificuldade em manter o habitual positivismo, sendo fácil surgir o sentimento de estarmos a “atraiçoar” a nossa verdadeira natureza. Um sentir um pouco absurdo, porque somos humanos e nada é linear nem igual nesta vida. Mas nesses momentos de maior fragilidade, essa mesma Vida é perita em nos “oferecer” momentos especiais, por vezes absurdos para os outros, mas muito simbólicos para nós. Como foi este, ou outros já ocorridos na minha vida.

Ele significou que…

… não há impossíveis
… não podemos desistir de acreditar/esperar/encontrar
… é importante manter o foco, um “horizonte”, mesmo que o caminho seja por vezes mais complexo
… na altura certa aparecerá algo que nos alerta/ estimula/ questiona e ajuda
… e que é fundamental manter-mo-nos atentos, seja com o olhar, seja com a alma!

Apenas dessa forma as energias que somos e as energias que nos cercam se poderão “alinhar” para nos mostrar de infinitas e estranhas formas aquilo que precisamos de entender/aceitar em determinado momento da nossa Vida.

 

Por vezes os relógios acordam-nos à hora certa…

 

 

 

as voltas da mente…

 

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Penso…
nisto
naquilo
no além…

Para quê pensar
aqui,
neste lugar?

Ajuda o meu respirar?
Melhora o meu olhar?
Impede o dia de terminar
neste tão belo lugar?

Não!

Então,
hoje não quero pensar,
mas apenas estar
aqui,
a apreciar!

Quero…mas não consigo…

…porque a mente abre o postigo
salta do escuro abrigo
e começa a saltitar,
aqui,
em mim
no fundo do meu olhar
a desfocar o sentir
e a paz deste lugar!

Talvez…
…pôr a mente de castigo?

 

 

(Dulce Delgado,  Setembro 2018)

 

 

 

e por vezes…

 

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… por muito positivos que sejamos, em certas circunstâncias é fácil que o cansaço se alie à imaginação e nos leve a construir “filmes” com um guião complexo, pesado e sem perspectiva.

Mas sendo a vida uma constante surpresa e perita em dar “voltas”, inesperadamente as circunstâncias podem mudar, as situações difíceis serem resolvidas sem dramas, e tudo ficar mais leve, nítido e clarificado.

Respira-se então com outro fôlego, renasce um novo olhar e, no silêncio da nossa mente, diremos novamente a nós próprios que…
… complicar realmente não ajuda nem resolve…
… da próxima vez a atitude será diferente…
… e que não vale a pena sofrer por antecipação…basta fazê-lo no “agora”!

Um dia…um dia aprenderemos isso!

Talvez.

 

 

conservar/recuperar

 

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– Conservar/recuperar determinadas capacidades do ser humano (motoras, sensoriais ou mentais)

– Conservar/ recuperar aspectos e valores originais de certos objectos ou de obras de arte

 

São vários os campos da vida em que esta parceria “conservar/ recuperar” pode ser aplicada, como são muitas as situações em que o descuramos. Porque cuidar, manter e/ou melhorar exige esforço e… muitas vezes o esforço cansa! Além disso, o facilitismo, a pressa e até um certo egoísmo que nos rege, não se coadunam com o trabalho e a paciência exigidos na recuperação de determinados valores ou capacidades entretanto perdidas. Mas obviamente existem excepções e são muitos os que o fazem no seu dia-a-dia, seja pessoal ou profissionalmente.

Por um lado, temos todos os agentes de saúde, em particular os terapeutas, que se dedicam com profissionalismo, empenhamento e muita paciência aos deficientes físicos, aos deficientes mentais ou aos idosos, numa atitude que visa a manutenção das suas capacidades, mas igualmente à reaquisição total ou parcial de outras que lhes poderão proporcionar autonomia, bem estar e uma melhor integração na sociedade.

Por outro, e num campo totalmente oposto na medida em que não lidam directamente com o corpo, os sentidos ou a mente mas sim com princípios e materiais, encontramos os conservadores-restauradores de arte, que mais não são do que terapeutas que recuperam valores patrimoniais. Também eles zelam preventivamente para que a deterioração não se instale e actuam no sentido de recuperar os aspectos materiais e/ou estéticos danificados por descuido ou acidente, tendo sempre em mente o respeito total pelos valores originais da obra de arte.

Curiosamente, a minha formação profissional abrangeu estes dois campos de acção: primeiro como terapeuta ocupacional, área em que me formei na juventude e trabalhei por um curto período de tempo; e posteriormente, como conservadora-restauradora de pintura, actividade a que me dedico há muitos anos. As semelhanças que apresentam são tão grandes, como são enormes as diferenças que as separam, basta o facto de estar em causa lidar com pessoas ou o lidar com objectos.

Porém, na base de ambas as profissões está a mesma essência, o mesmo tipo de olhar, a mesma filosofia, o mesmo cuidado e, de certa forma, o mesmo tipo de sensibilidade e atenção. Talvez por isso, ambas foram importantes na minha formação como pessoa e têm sido tão complementares ao longo da vida.

Contudo, alargando o campo de abrangência dos termos que dão título a este post, verifica-se que o conceito que lhes está subjacente é, seguramente, a base de toda a dinâmica da vida.

Na realidade, a parceria “conservar/restaurar” representa por um lado, a “luta” que todos necessitamos de empreender para nos conservarmos saudáveis e genuínos; e por outro, o “trabalho de recuperação” e o esforço que nos é exigido quando surgem desequilíbrios provocados por interferências, imprevistos, desvios ou abanões.

Por fim, é interessante perceber que este processo que se passa com cada um de nós é comparável ao que se passa na própria natureza e neste planeta que nos recebe. Também eles têm mecanismos que lhes permite “conservar uma certa estabilidade” e, noutros momentos, reagir com forças mais activas e dinâmicas capazes de contrabalançar e recuperar o equilíbrio…quantas vezes posto em causa por nós, os humanos, a mais inteligente raça que deles depende!

 

 

sonhar é…

 

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… um profundo respirar da mente,
que uns assumem sem receio
e outros escondem eficazmente!

… a humana e ilusória capacidade
de tudo conseguir alcançar!

…adoçar a realidade,
inventando um lugar,
mágico e lindo,
que se esfuma com facilidade!

… insistir nas expectativas,
e chegar à conclusão
que são sinónimo de desilusão!

…  criar e destruir, avançar e recuar,
sem efeitos, sem mácula
e sem sair do mesmo lugar!

… uma forma da fragilidade contornar.
Sem esforço somos heróis,
donos de sete sóis
e de muitos castelos no ar!

 

E sonhar é ainda…

…viajar sem sair do lugar
…imaginar um mundo sem dor
…escrever no ar palavras que vamos calar
…dar tudo, sem medo sentir…

…e é acreditar sempre, mas sempre no Amor!

 

(Dulce Delgado, Janeiro 2017)

 

 

pensamentos…

 

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Vagueia
um pensamento
entre a sombra e a luz,
por margens e muitas imagens
na busca de um lugar
onde ser
e amadurecer.

Busca difícil,
efémera
e que cedo se desfaz,
ao surgir outro pensamento
matreiro,
nítido
e bem mais eficaz…
…ou outro ainda aparecer
e também este ficar para trás!

Num instante,
sou o palco vivido
da mais absurda ironia
como ser humano e pensante:
perdi um pensamento,
e outro
e outros mais,
sendo apenas um peão,
sem voz, estratégia ou decisão,
em mais uma jogada
fria e inteligente,
da minha distraída mente…

… mas não do meu coração!

 

(Dulce Delgado, Dezembro 2016)

 

ideia perdida

 

Preciso de uma ideia
mas não a encontro…

…talvez esteja perdida
no labirinto dos dias,
nos pensamentos inconsequentes
ou na paz,
inquieta,
que sempre sinto.

Peço-te,
desejada ideia perdida,
vem,
vem até mim
e agarra este porto de abrigo.

Toca a minha mente
ilumina-a,
e anula este ardor
criador,
que  profundamente
sinto,
mas não entendo.

 

(Dulce Delgado, Outubro 2016)

 

 

ioga III

 

“Lá fora, espera-nos o mundo. …”

Foi desta forma que terminei a última abordagem sobre este tema (ioga II – 15/06/2016), em que descrevi os diferentes momentos de uma aula de ioga. Dando continuidade a estas palavras…

…mas o nosso olhar sobre o mundo após uma aula de ioga é diferente daquele que ficou no exterior antes do seu início. Essa diferença estará na forma como nos sentimos porque, de uma forma geral, o exterior não mudou muito nessa hora. Nós é que mudamos, o que é sentido física e mentalmente através de uma sensação de leveza e de limpeza. Mas como?

A realidade do mundo actual e a dureza do dia-a-dia tem impacto na nossa estrutura. Problemas de vária ordem associados a más posturas, acumulam muitas tensões no nosso corpo, especialmente na zona cervical e parte superior do tronco,  aquela que sustenta os “pesos” da cabeça. É uma área normalmente tensa e dolorosa e, por isso mesmo, a que melhor reflecte os efeitos dos exercícios realizados. Mas também as restantes zonas do corpo estão diferentes, mais flexíveis e saudáveis. Mexemos-mos melhor e, regra geral, todas as áreas anteriormente mais tensas perderam o protagonismo que tinham. Sentimo-nos equilibrados e muito bem na nossa pele e no nosso corpo. Essa sensação deriva igualmente de uma maior oxigenação a que foram sujeitas todas as estruturas/orgãos que nos constituem.

Mas não é apenas o corpo que está mais feliz e leve. Sair da porta e ter a sensação que estamos em paz com o mundo, é real. Acontece muitas vezes. Tudo está mais bonito, como se um véu de tranquilidade tivesse descido sobre o mundo. Mesmo se o exterior estiver com chuva, vento ou muito frio! Naqueles primeiros momentos, o mundo é um lugar melhor, um lugar de paz. E nós fazemos parte desse lugar, somos esse lugar, somos essa paz. As energias que em nós circulam expeliram o que de mais negativo nos ocupava. Tudo parece estar no sítio certo. Fazendo uma analogia informática, houve um “reset energético”, um reiniciar, que nos deixou renovados e mais harmoniosos.

O processo que se segue, ou seja, a readaptação à realidade, dependerá muito da vida de cada um. Mas a forma como isso vai acontecendo ao longo do tempo está, sem sombra de dúvida, relacionada com a prática continuada da actividade. Mas sobre isto falarei numa próxima oportunidade.

 

ioga II

 

Uma aula de ioga é, em primeiro lugar, uma viagem orientada e atenta pelo corpo.

Nessa viagem somos levados a focar-nos em cada uma das suas partes, sentindo-as com uma atenção que não damos no dia-a-dia. A dinâmica da vida não permite que cada movimento seja realizado conscientemente e percebendo o estado das estruturas envolvidas, a não ser quando surge alguma dor. Aí, a tendência geral é a queixa e a irritação com essa parte do corpo que, seguramente, apenas nos está a chamar a atenção e a dizer para termos alguma paciência.

De um extremo ao outro, essa viagem é lenta e visualizada pelo “olhar interior” que todos possuímos. Mesmo que pouco se saiba de anatomia e da forma exacta como determinada articulação funciona, esse olhar “sente e ouve” essas importantes estruturas e tenta perceber como estão, se existem ruídos, atritos ou se o movimento é doloroso. Este “ouvir o corpo” é fundamental para lhe darmos a resposta adequada e percebermos quais são os seus limites.

Na maioria dos exercícios praticados, a nossa respiração é a música, acompanhando a inspiração as contracções e a expiração o movimento oposto e que leva ao relaxamento muscular. As respirações deverão ser profundas, ligeiramente sonoras e realizadas pelo nariz, o verdadeiro órgão externo adequado a essa função. Esse afluxo de ar e de oxigénio aos pulmões é um importante meio de limpeza e contribui para o bom funcionamento dos canais energéticos que possuímos. Como a professora de ioga nos diz, “o corpo é um templo” e a respiração a “alma do ioga”.

Para além da mobilidade articular e de um fortalecimento geral de todos os grupos musculares a partir de posturas variadas e executadas segundo as capacidades e limites de cada um, a aula contempla ainda uma série de exercícios para determinados fins: favorecer o equilíbrio, aumentar o ritmo cardíaco, auxiliar o afluxo de sangue ao cérebro e energizar pelo movimento e respiração certas zonas do nosso corpo, órgãos ou sentidos, fundamentais ao nosso bem-estar. Inclui igualmente respirações mais ou menos dinâmicas para fins específicos.

Neste processo trabalham todas as estruturas do corpo, mas também a mente e a concentração, quer na percepção dos exercícios quer na capacidade de auto-corrigir as posturas, o que acontece frequentemente. Obviamente que as distracções são reais e acontecem a todos. Mas o facto de percebermos que estamos distraídos é bom, pois significa que não estamos assim tão fora dali. E aí, é só dar o salto e voltar!

Terminada a viagem pelo corpo e “limpos” os canais energéticos, é tempo de o deixar descansar, o que acontece através do tão desejado relaxamento. Nesse período a mente também descansa, apesar de estar atenta a outro tipo de estímulos como é o caso da música ambiente, no geral calma e sempre bem seleccionada. Por vezes, esses sons são acompanhados por pequenos textos ou frases calmamente lidas pela professora, a fim de nos fazer pensar sobre nós próprios, sobre a nossa relação com os outros ou, ainda, sobre a magnitude da vida e do universo.

A aula finaliza com uma saudação conjunta pela unidade e pela paz universal, sendo ainda com essa energia bem presente que saímos da sala, ou que a professora partilha connosco formas alternativas de lidar com o corpo, alimentação, etc.

Lá fora, espera-nos o mundo. Mas sobre isso falarei num outro post.